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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Hospital D. LUIZ I - Um hospital moribundo ?


Hospital D. LUIZ I - Um hospital moribundo ?
HOMENS de palavra - Precisam-se !!!


ÚLTIMA HORA | 11-10-2011
Hospital da Régua encerra mesmo
O ministério da Saúde informou os deputados do PS, eleitos por Vila Real, que o Hospital da Régua irá mesmo encerrar. O seu fecho está previsto no plano de reestruturação do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD), na sequência da abertura do hospital de Lamego.

Em resposta a um pedido de esclarecimentos dos deputados Rui Santos e Pedro Silva Pereira, o ministério da Saúde adianta que a “avaliação desta situação está a ser objecto de estudo no âmbito do processo de reorganização da rede hospitalar” que se prevê ficar concluído até ao final deste ano.

O mesmo ministério informou que o encerramento do Hospital D. Luís I, no Peso da Régua foi elaborado em articulação com a Administração Regional do Norte (ARS Norte).

Fonte - http://www.noticiasdevilareal.com/noticias/index.php?action=getDetalhe&id=11529
11 de Outubro de 2011
Hospital D. Luiz I não encerra
Ministério da Saúde reassume
Em resposta aos Deputados do PS - Círculo de Vila Real, o Ministério da Saúde informou que o Plano de Reestruturação do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro, elaborado em articulação com a Administração Regional de Saúde do Norte, previa o encerramento do Hospital D. Luiz I. Este Plano de Reestruturação não vincula o actual Governo, o qual tem em curso um  "processo de reorganização da rede hospitalar", mantendo, por isso, a situação do Hospital D. Luiz I em análise.
Esta indefinição conduziu a nova tomada de posição por parte do Executivo Municipal reguense que, com carácter de urgência, reuniu segunda-feira, 3 de Outubro, com o Secretário de Estado da Saúde. O Ministério da Saúde reassumiu a garantia de que o Hospital não irá encerrar.
Recorde-se que essa garantia havia sido assumida a 14 de Setembro, pelo Secretário de Estado da Saúde, Manuel Ferreira Teixeira e posteriormente reiterada pelo Ministro da Saúde, Paulo Macedo, em sequência da defesa interposta pelo Município do Peso da Régua da manutenção em funcionamento do Hospital D. Luiz I, sob risco do encerramento representar um grave prejuízo para os cerca de 50 mil utentes desta unidade hospitalar.
O processo de reorganização da rede hospitalar deverá estar concluído até Dezembro de 2011, com garantia de empenhamento por parte do Ministério da Saúde em encontrar uma solução capaz de responder às necessidades da população reguense.
Este comunicado cumpre o dever de informar os utentes do Hospital D. Luiz I, relativamente ao compromisso assumido pelo Governo português e, simultaneamente, assegurar-lhes que  o  Executivo Municipal reguense continuará a trabalhar no sentido de ter asseguradas no Concelho  as melhores condições possíveis em matéria de cuidados de saúde.
Posto isto, o Município do Peso da Régua aguardará com serenidade, sem qualquer outro comentário adicional, a definição do papel final do Hospital D. Luiz I no contexto do Centro Hospitalar Trás-os-Montes e Alto Douro.

Fonte - Câmara Municipal de Peso da Régua

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

No sapatinho do Menino Jesus: Câmara da Régua diz que hospital não fecha até definir modelo de reabilitação

Transcrição de "PORTO CANAL": 23-12-2013 15:28 | Norte Fonte: Agência Lusa -- Peso da Régua, 23 dez (Lusa) -- A Câmara de Peso da Régua anunciou hoje que o Hospital D. Luís I vai manter as portas abertas até ser definido um modelo de reabilitação, articulado entre o município, misericórdia e ARS Norte.

O encerramento desta unidade hospitalar, inserido no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD) voltou, segundo referiu hoje a autarquia, "a ser aventado para dezembro de 2013".

Também o dirigente do PCP António Serafim denunciou na semana passada o fecho deste hospital, referindo que os funcionários que ainda ali trabalham "já foram informados de que serão transferidos para Vila Real".

Hoje, o município duriense disse, em comunicado, que o Ministério da Saúde assumiu, em reunião com o presidente da autarquia e o provedor da Santa Casa da Misericórdia do Peso da Régua, que a unidade hospitalar "não encerra".

"Da articulação desejada entre o município do Peso da Régua e o Ministério da Saúde resulta o compromisso de o Hospital D. Luis I manter as portas abertas até estar definido um modelo de reabilitação, que permitirá dotar a unidade hospitalar de novas valências, assegurando a melhoria da prestação de cuidados de saúde à população", refere o comunicado.

O modelo de reabilitação será estabelecido pela câmara, Misericórdia local e União das Misericórdias, em articulação direta com a Administração Regional de Saúde do Norte (ARS Norte).

Este modelo, segundo a autarquia, "será definido com base no conhecimento efetivo do território onde a unidade hospitalar está inserida e das necessidades da população servida pelo mesmo".

A gestão do Hospital D. Luis I passará a ser competência da Santa Casa da Misericórdia do Peso da Régua.

A câmara, liderada pelo social-democrata Nuno Gonçalves, garante que é a sua "reivindicação" junto da tutela que "sido determinante para que o hospital se mantenha em funcionamento".

O D. Luís I está a funcionar apenas com o serviço de atendimento com 12 camas, isto depois de ter perdido a principal valência, o Centro Oftalmológico, que foi transferido para o novo Hospital de Proximidade de Lamego.

Refira-se que o Ministério da Saúde pretende avançar com a transferência dos primeiros hospitais públicos para as Misericórdias. Em causa podem estar, numa primeira fase, os hospitais de Fafe, Ovar, Cantanhede, Anadia, Serpa e Régua.
- PLI // MSP - Lusa
Pode ler também neste blogue:
Clique nas imagens para ampliar. Imagens digitalizadas com origem em livreto comemorativo da inauguração e benção do Hospital D. Luis I - Peso da Régua em 5 de Maio de 1957, pertencente aos arquivos do jornalista duriense Jaime Ferraz Rodrigues Gabão. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Dezembro de 2013. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Permite-se copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

No sapatinho do Menino Jesus: Encerramento até 31DEZ13 do Hospital D. Luís I no Peso da Régua

Transcrição de "PORTO CANAL": Peso da Régua, 16 dez (Lusa) -- O PCP denunciou hoje o encerramento até ao final de dezembro do Hospital D. Luís I, no Peso da Régua, que integra a lista unidades hospitalares públicas que podem ser devolvidas às Misericórdias.

Inserido no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD), o "D. Luís I" está a funcionar apenas com o serviço de atendimento com 12 camas, isto depois de ter perdido a principal valência, o Centro Oftalmológico, que foi transferido para o novo Hospital de Proximidade de Lamego.

Hoje, em conferência de imprensa, António Serafim, dirigente local do PCP, referiu que a unidade hospitalar vai "fechar até ao final do ano" e adiantou que os funcionários que ainda ali trabalham "já foram informados de que serão transferidos para Vila Real".
"A maior parte das pessoas que ali trabalhava já foi transferida para Lamego e Vila Real quando o hospital perdeu o Centro Oftalmológico e, os restantes, passarão para Vila Real até ao final de dezembro", salientou o responsável.

Contactado pela agência Lusa, o CHTMAD remeteu o assunto para a Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte, que ainda não respondeu ao pedido de esclarecimentos.

Entretanto, Manuel Mesquita, provedor da Santa Casa da Misericórdia da Régua, a proprietária do edifício onde está instalado o hospital, referiu que está à espera de encetar negociações com Ministério da Saúde para se definir a forma como esta unidade poderá ser transferida.

No entanto, o responsável salientou que "ainda não é líquido" que o hospital feche a 31 de dezembro.

O Ministério da Saúde pretende avançar com a transferência dos primeiros hospitais públicos para as Misericórdias. Em causa podem estar, numa primeira fase, os hospitais de Fafe, Ovar, Cantanhede, Anadia, Serpa e Régua.

Também presente na conferência de imprensa, Jorge Machado, deputado do PCP na Assembleia da República, alertou para o "vasto conjunto de serviços que o Governo quer desmantelar" em todo o país.

No distrito de Vila Real, segundo dados avançados pelo deputado foram desativadas "45 extensões de saúde" e 535 escolas, 480 delas do 1º ciclo do ensino básico.

Jorge Machado salientou ainda a perda de "nove estações dos CTT", que foram parcialmente substituídas por postos de correio.

Alguns destes postos de correio foram entregues a privados, juntas de freguesia ou câmaras, com "prejuízo para o serviço prestados" pelos Correios aos utentes.

O Governo prepara-se ainda, de acordo com o deputado, para fechar ou diminuir valências nos tribunais de Sabrosa, Murça, Boticas, Mondim de Basto, Mesão Frio, Chaves e Régua, e para encerrar 10 das 14 repartições de Finanças do distrito.

Medidas que, na sua opinião, vão obrigar as populações a "pagar mais caro serviços de pior qualidade" e que "visam promover negócios de privados".

"Este não é o caminho da Constituição de Abril", frisou Jorge Machado.

Esta visita do deputado a Trás-os-Montes insere-se numa iniciativa parlamentar que o PCP vai realizar quinta-feira, dia em que pretende interpelar o Governo sobre as funções do Estado e o encerramento de serviços no país.
- PLI // JGJ - Lusa/Fim
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Clique nas imagens para ampliar. Imagens digitalizadas com origem em livreto comemorativo da inauguração e benção do Hospital D. Luis I - Peso da Régua em 5 de Maio de 1957, pertencente aos arquivos do jornalista duriense Jaime Ferraz Rodrigues Gabão. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Dezembro de 2013. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Permite-se copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos. 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Câmara e Misericórdia da Régua unem esforços para revitalizar hospital

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 | Norte - Fonte: Agência Lusa (transcrição via PORTO Canal) - Peso da Régua, 30OUT (Lusa) -- A Câmara e a Santa Casa do Peso da Régua anunciaram hoje que vão unir esforços para revitalizar o Hospital D. Luís I, que integra a lista das unidades hospitalares públicas que podem ser devolvidas às Misericórdias.

O Ministério da Saúde pretende avançar com a transferência dos primeiros hospitais públicos para as Misericórdias já em novembro. Em causa podem estar, para já, os hospitais de Fafe, Ovar, Cantanhede, Anadia, Serpa e Régua.

Integrado no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD), o "D. Luís I" perdeu a sua principal valência, o Centro Oftalmológico, que foi transferido para o novo Hospital de Proximidade de Lamego.

A unidade hospitalar da Régua ficou a funcionar apenas com o serviço de internamento, com 12 camas.

O provedor da Misericórdia local, Manuel Mesquita, já disse à agência Lusa que ainda não foi contactado pelo ministério com vista a esta transferência. A Santa Casa recebe atualmente 3.350 euros de renda por mês.

Entretanto, o município e a misericórdia afirmaram que querem estar preparados, se se confirmar o cenário de transferência, e, para o efeito, anunciaram uma união de esforços com vista à revitalização do hospital.

Nesse sentido, foi constituída uma equipa técnica, que será responsável pela elaboração de um "modelo de funcionamento e gestão para a revitalização".

Este modelo, segundo explicou a autarquia em comunicado, deve permitir a "sua articulação com o Serviço Nacional de Saúde (SNS), o qual servirá de base de negociação junto da Administração Central, caso venha a confirmar-se a entrega da gestão do hospital".

A equipa é constituída por Armando Mansilha, Jorge Almeida, José Alberto Marques, José Maria Mesquita Montes e Rui Couto.

A parceria entre o município e a Santa Casa da Misericórdia pretende "viabilizar a requalificação desta unidade hospitalar, readaptando o espaço físico, adequando recursos técnicos e humanos, que permitirão criar em Peso da Régua uma unidade de saúde de referência na região".

O Bloco de Esquerda exigiu recentemente uma clarificação urgente do Ministério da Saúde precisamente sobre a entrega às misericórdias de hospitais do SNS.

Os bloquistas questionaram o Ministério da Saúde, através de um requerimento entregue na Assembleia da República, sobre os valores das rendas pagas atualmente e das que passarão a ser pagas às misericórdias.

O BE quer ainda saber se os postos de trabalho estão garantidos e se existe alguma planificação para a entrega da gestão das unidades hospitalares e os custos associados.

O Bloco disse ainda que o "Governo tem tentado sucessivamente criar um equívoco em torno da ideia de que está a devolver estes hospitais às misericórdias".

"Ora, não é isso que está em causa: o Estado paga renda às misericórdias pela utilização destes edifícios e continuará a fazê-lo. O que está a ser feito é entregar às misericórdias a gestão de hospitais públicos do SNS", referiu.
- PLI // JGJ | Lusa/Fim 

quarta-feira, 2 de março de 2011

O meu brinde

Por Camilo de Araújo Correia

Estivesse onde estivesse, a fazer fosse o que fosse, eu viria a esta homenagem ao senhor Carlos Cardoso dos Santos, pelos seus 31 anos de brilhante e abnegado comando dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua.

E viria, vencendo distâncias e afazeres, porque não sou apenas um reguense devoto dos seus bombeiros e grato a quem, ao longo de tantos anos os disciplinou e dirigiu nos difíceis caminhos da protecção e salvação do próximo. E nós sabemos que essa dificuldade pode ir do sacrifício familiar ao sacrifício da própria vida. Viria porque sou também um velho amigo e um inabalável admirador do forte temperamento altruísta do senhor Carlos Cardoso dos Santos.

Se admitirmos que uma pessoa volta a nascer, quando começa a trabalhar, exercendo a profissão que escolheu, pode-se dizer que sou natural do Hospital de D. Luiz I e, amigo do senhor Carlos Cardoso, dos Santos desde que nasci...

Quando, há, cerca de 35 anos, fui trabalhar para o nosso Hospital já o encontrei funcionário da secretaria. Julgava eu. Mas cedo pude constatar que era funcionário do hospital todo. Parecia que tudo passava pelas suas mãos, desde a feitura dos ofícios à mudança das lâmpadas fundidas. E foram essas mãos, cansadas de todos os pequenos lemes do hospital, mas cheias de energia para todos os préstimos, que me 'entregaram o primeiro ordenado da minha carreira - trezentos escudos. 
Não é fácil esquecer esse ordenado. Ele foi também uma espécie de chave do inferno… Um inferno cheio de humanidade e simpatia, mas onde o trabalho era um diabo que parecia apostado em quebrar todos os relógios e rasgar todos os calendários. E foi nesse simpático e querido inferno, que é o Hospital de D. Luiz I, que eu e o senhor Carlos Cardoso dos Santos fomos envelhecendo sem nos queixarmos de nada e, muito menos, um do outro.

Os hospitais eram, por essa altura, e foram-no ainda por muito tempo, verdadeiras escolas de altruísmo, amadorismo e convívio fraterno.

E foi com todo esse altruísmo, amadorismo e capacidade de relação, largamente, exercidos no Hospital de D. Luiz I, que o senhor Carlos Cardoso dos Santos apareceu nos Bombeiros Voluntários da Régua. Não admira, pois, que os 31 anos do seu comando tenham sido de inegável eficiência e brilhantismo. E é por isso que aqui estamos com o ruído dos nossos aplausos e o silêncio da nossa gratidão.

O calor do meu brinde não ficaria completamente explicado se não lhes dissesse que passei pela Direcção dos Bombeiros da Régua, ao que julgo, por influência ou, pelo menos, franca concordância do senhor Carlos Cardoso dos Santos. Mal chegado de uma penosa mobilização em Moçambique, pode dizer-se que foi uma partidinha dos meus amigos. Uma simpática e honrosa partidinha, devo confessar. 
Peço licença para que o meu brinde seja extensivo à esposa do senhor Carlos Cardoso dos Santos e às esposas de todos os bombeiros. No peito de todas a sirene só deixa de tocar, quando o marido regressa a casa molhado, cansado... mas feliz.

Notas:
  1. Esta crónica foi publicada no jornal O Arrais, na edição de 13 de Março de 1990. 
  2. As fotografias de Baía Reis documentam momentos da posse, em 3 de Outubro de 1959, do Comandante Carlos Cardoso dos Santos.
  3. Uma cópia do convite que foi enviado aos amigos do Comandante Carlos Cardoso dos Santos para a homenagem pelo brilhante e abnegado desempenho de 31 anos de serviço nos Bombeiros da Régua, que se realizou, no dia 3 de Março de 1990, no Quartel Delfim Ferreira, onde o Dr. Camilo de Araújo Correia, como “devoto”  dos bombeiros da Régua,  esteve presente e leu este seu brilhante  “brinde”… de  generosidade ao seu grande amigo.
- Colaboração de J. A. Almeida para "Escritos do Douro" em Março de 2011. Clique nas imagens acima para ampliar.
O meu brinde por Camilo de Araújo Correia
Jornal "O Arrais", Quinta feira, 3 de Março de 2011
(Dê duplo click com o "rato/mouse" para ampliar e ler)
O meu brinde - Camilo de Araújo Correia

terça-feira, 4 de maio de 2010

O Retrato de D. Luís I

Aquele retrato emoldurado do Rei D. Luís, que sobressai na penumbra de uma parede da sala museu dos bombeiros da Régua, só pode causar algum mistério e uma certa admiração aos que desconhecem os méritos e a grandeza da associação.

O retrato do rei, de meia-idade, de olhar expressivo, misto de serenidade e bondade, faz parte da galeria de retratos de ilustres benfeitores e beneméritos da associação.

A razão para o rei figurar entre importantes personalidades da sociedade reguense é simples. Os primeiros bombeiros e fundadores da Associação deram a El- Rei D. Luís o título de sócio e Presidente Honorário, como manifestação da sua gratidão pelo reconhecimento de Sua Majestade à associação com a atribuição de uma das maiores distinções honoríficas: o titulo de Real.

Por carta régia, assinada em 13 de Junho de 1882, o Rei D. Luís, atribuiu à AHBV do Peso da Régua o título de Real, nestes termos:

“Dom Luís por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves faço saber aos que lerem esta minha carta que atendendo ao que me representou a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Regoa e querendo dar-lhe público testemunho do apreço de que tenho a mesma Associação pelos seus úteis e filantrópicos fins a que se destina. Hei por bem conceder-lhe o título de REAL, podendo assim de ora em diante intitular-se Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Regoa”.

Uma associação que ostenta o retrato de um rei entre os seus maiores benfeitores revela serem radiosos os seus primórdios e estar repleto de glórias o seu passado. Fundados em 1880, os bombeiros da Régua nasceram da ideia de um grupo de 26 homens generosos, liderados pelo escrivão de direito Manuel Maria de Magalhães, que do nada, sem grandes apoios, souberam criar um corpo de bombeiros voluntários, inspirado na tradição humanista. Esse ideal vingou, cresceu e tornou-se cada vez maior nos nossos dias, reinventando-se nos seus nobres objectivos para conquistar o futuro. Por isso, o retrato de D. Luís tem um valor simbólico, ao fazer evocar o génio e a determinação dos fundadores da associação.

Em 28 de Novembro de 1882, a Associação comemorava o 2º aniversário da “instalação”. A organização estava no princípio. Eram dados os primeiros passos para afirmação de uma organização sólida na segurança e protecção de bens e vidas e que servisse para engrandecimento, bem-estar social, económico e cultural dos cidadãos reguenses. Os seus fundadores, homens de grande valia e formação moral, projectaram-na para servir os seus ideais humanistas. Só assim se explica que, quase desde a nascença, tenha alcançado o reconhecimento pelo poder público de um serviço de utilidade pública.

Não admira que a primeira grande distinção nacional tenha deixado regozijados o seu director, o Comandante Manuel Maria de Magalhães e os associados mais dinâmicos. O título de Real Associação era um sinal de prestígio para todos os bombeiros. Até àquela data, era das poucas associações humanitárias que podiam orgulhar-se de contar no seu historial, uma distinção honorífica tão valiosa.

Este homens, entendendo o seu significado e a sua importância para a afirmação dos bombeiros, querendo engrandecer as comemorações desse aniversário, decidiram organizar uma festa de agradecimento a Sua Majestade D. Luís I. Pretendiam demonstrar-lhe não só a gratidão pelo louvor concedido, mas também fazer em sua honra uma cerimónia de inauguração de um “retrato de sua Majestade, o Senhor El-Rei D. Luís I, Presidente Honorário da Associação.”

O Rei D. Luís esteve oficialmente, por duas vezes, na Régua. A primeira foi em 1872, ainda a corporação dos bombeiros não tinha sido fundada. O monarca deslocou-se para se inteirar do início dos trabalhos de construção da ponte rodoviária que ia ligar a Régua a Lamego. Sensível às causas sociais, ao tomar conhecimento que não havia hospital na localidade que visitava, apelou a que se criasse um, para o que fez, de imediato, uma contribuição monetária no valor de 500 mil réis. Os reguenses fizeram-lhe a vontade. Em pouco tempo, fundaram numa velha casa da Rua de Medreiros, um hospital, ao qual deram o nome do rei: Hospital D. Luís I. Mais tarde, em 1889, esse hospital foi transferido para a Casa Grande, um velho solar brasonado, onde funcionou até 1957, ano em que passou a ocupar um edifício construído de raiz, na Praça Delfim Ferreira. Apesar de ter cada vez menos valências e serviços, o velho hospital público, mantém-se em funcionamento, se bem que integrado no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto-Douro.

Em 1881, o Rei D. Luís voltou a visitar à Régua, deslocando-se num comboio especial, numa viagem pela linha do Douro, acabada de construir, que fez a partir da estação do Porto. Chegado com a sua comitiva à estação da Régua, o recém-criado corpo de bombeiros da Régua esperava Sua Majestade com uma guarda de honra, ao qual apresentou continência, acompanhando-o em cortejo pelas ruas principais da vila, até aos Paços do Concelho.

Nessa segunda visita, Sua Majestade travou conhecimento com o Comandante Manuel Maria de Magalhães com quem ficou a manter uma relação de amizade. Isto é o que nos revela na crónica “Bons e Maus Exemplos”, o escritor João de Araújo Correia: “Contavam os antigos reguenses que o Rei D. Luís, dando o título de Real à associação dos nossos bombeiros, em 1882, se relacionou, amistosamente, com o fundador e primeiro comandante da corporação - Manuel Maria de Magalhães.

Contavam também que D. Luís se carteava com ele. Apesar de ser rei, não se desdenhava corresponder-se com um escrivão. Creio que foi escrivão o comandante Manuel Maria de Magalhães.”
(Clique nas imagens acima para ampliar)

Ao tomarmos conhecimento destes pormenores singulares, o retrato de D. Luís I, se já tinha elevado valor histórico, associado ao primeiro reconhecimento da associação pelos poderes públicos da nação, adquire maior significado como motivo orgulho para os seus activos quadros dirigentes, comando e corpo de bombeiros, que nunca podem esquecer um cidadão exemplar como foi o seu fundador e Comandante Manuel Maria de Magalhães.
- Peso da Régua, Maio de 2010, J. A. Almeida.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Memórias do Serviço de Transporte de Doentes nos Bombeiros da Régua: As pandemias da gripe espanhola à gripe A


(Clique na imagem para ampliar)

Em 3 de Março 1968, os Bombeiros Voluntários do Peso da Régua (BVPR) recebiam uma nova ambulância Mercedes Benz, modelo 220 D, para melhoraria do seu modesto serviço de transporte de doentes, à qual foi dado o nome de "Nossa Senhora da Conceição", em homenagem a D. Sílvia Ferreira, grande benemérita da instituição.

Nessa data, o corpo de bombeiros dispunha em actividade regular de uma velha ambulância. Esse veículo já não satisfazia as exigências de um serviço quase permanente e do aumento extraordinário da população, motivado pela fixação, na cidade, de muitos trabalhadores (e suas famílias), contratados para a construção da Barragem de Bagaúste.

A cerimónia da bênção e baptismo da nova ambulância decorreu no Largo da Igreja Matriz. Procedeu ao acto litúrgico o reverendo Avelino Branco, pároco local. Além de muito público, esteve presente o Corpo Activo, o comandante Carlos Cardoso dos Santos e a Direcção. A madrinha da viatura foi D. Margarida da Glória Mesquita e Costa Vieira de Castro, esposa do presidente da Direcção, pelo Dr. José Lopes Vieira de Castro (1968-1969), que os sócios haviam escolhido em acto eleitoral muito participado – e conturbado – no qual foi derrotada uma lista alternativa liderada pelo Dr. Fernando Bandeira.

No final, a nova viatura e as demais existentes nos bombeiros da Régua desfilaram pelas ruas da cidade até às Caldas do Moledo. Assim, pretenderam os bombeiros agradecer a generosa contribuição da população para a compra da moderna unidade móvel, avaliada em 200 contos, valor incomportável para a associação, na sua totalidade, devido à limitação de recursos financeiros.

A ambulância em causa deixou de prestar serviço há muitos anos e não teve a sorte de alguém a ter reservado para peça de museu. Outro destino teve a velha ambulância Mercedes Benz, modelo 180 D, adquirida em 1958 pela direcção sob a presidência do Dr. Júlio Vilela. Depois de deixar o activo e, apesar de degradada, continuou a fazer parte do património da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua. Considerada peça rara, de momento aguarda recuperação total para os seus cromados ainda voltem brilhar.Essa bonita viatura tinha uma célula sanitária muito elementar constituída por duas macas, uma delas desmontável. O seu principal objectivo era o transporte, ao contrário do que acontece com as ambulâncias dos nossos dias, dotadas de equipamentos para os mais variados fins de assistência. Por exemplo, se solicitado o seu serviço para uma transferência de hospital, era assegurada a colocação de soro e oxigénio, situação para a qual estava preparada. Dado que o estrado da maca é amovível e abre o encosto do banco traseiro permitia, caso fosse necessário, transformar-se rapidamente em transporte de pessoal, com capacidade para sete bombeiros.

Quanto à primeira ambulância que existiu no Corpo de Bombeiros da Régua, sabemos pelas memórias escritas de António Guedes (nascido em 1894), antigo chefe, que era uma viatura marca Rolly-Pillan, cujo chassis foi oferecido pelo benemérito José Vasques Osório. Quem chegou a vê-la circular, descreve-a como sendo "uma caranguejola esquinuda, de um branco duvidoso e conforto ainda mais duvidoso".

Actualmente os bombeiros da Régua dispõem de dez ambulâncias para o serviço de transporte de doentes preparadas ao nível de Suporte Básico de Vida, número considerado suficiente para responder às actuais necessidades da população do concelho, mesmo em situações mais complexas, caso da primeira pandemia de gripe do século XXI que, desde Maio último, aumenta o número de pessoas afectada pelo vírus H1N1.

Lembramos que no início do século passado, mais precisamente na primavera de 1918, aquando da pandemia de gripe espanhola, também conhecida por pneumónica, os bombeiros da Régua desempenharam um papel importante no apoio sanitário aos infectados.

Quando esta se "manifestou na vila e nas imediações, a corporação dos bombeiros instalou postos de socorro e um hospital apropriado para o qual ela conduzia, nas suas macas, as pessoas atingidas pela epidemia", relata, numa carta de 30 de Agosto de 1928, o sócio fundador Gaspar Henriques da Silva Monteiro, ao tempo presidente da Comissão Administrativa do concelho do Peso da Régua.

Um outro testemunho é de o António Guedes, antigo Chefe no Corpo de bombeiros da Régua, publicado no jornal “O Arrais”, de 20 de Junho de 1978, num artigo intitulado "Bombeiros Voluntários: Recordações", que descreve como ele e outros bombeiros viveram, sem alarmismos, os momentos mais críticos deste nefasto acontecimento:

"Mais tarde, quando da pneumónica, montamos um improvisado hospital na casa onde hoje está o Asilo Vasques Osório, o qual ficou sob a direcção do médico da nossa Corporação, Sr. Dr. Luís António de Sousa.

Ainda não existiam ambulâncias na Corporação, e éramos nós bombeiros, que com macas portáteis, íamos buscar os doentes a suas casas e os transportávamos para o hospital.
Há que frisar o facto de nenhum de nós se ter contagiado com aquela terrível doença, certamente devido à desinfecção a que éramos sujeitos, sempre que chegávamos com qualquer doente.

Recordo-me muito bem que, dessa desinfecção, constava um 'medicamento', um 'antibiótico' muito agradável, que era o Vinho do Porto. O primeiro gole seria para bochechar e deitar fora e o restante conteúdo do cálice (bem grande, por sinal) era para ingerir.

E de todos esses homens da velha guarda resto eu apenas, ralado de saudades pelo falta daqueles bons companheiros, os quais com o meu pequeno contributo, conseguiram conquistar a auréola, a fama de eficiência e valentia que ainda hoje enaltecem os Voluntários da Régua."

Desconhecemos quantas pessoas esta gripe, mais conhecida por pneumónica, vitimou no concelho do Peso da Régua, mas sabe-se que, de norte a sul do país, terá provocado perto de 150 mil casos mortais.

Eram tempos de alguma improvisação em que os bombeiros não tinham, como hoje, preparados os seus planos de contingência.
A ser verdade – e não temos razões para duvidar – os efeitos do Vinho do Porto, como poderoso desinfectante, talvez pelo seu teor alcoólico, terá resultado em 1918 como uma boa medida de prevenção ao vírus da gripe! - Peso da Régua, Agosto de 2009, José Alfredo Almeida.

  • Post's anteriores deste blogue sobre os Históricos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua - Aqui!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

As palavras de Camilo de Araújo Correia



Quando encontrei esta fotografia do Dr. Camilo de Araújo Correia (1925-2007) - médico, escritor e antigo presidente da direcção dos bombeiros da Régua - perdida das folhas do seu álbum, fora do seu sítio devido e do seu tempo, amontoada com outras que descoravam num velho armário cheio de poeira, tive necessidade de refazer o seu passado e escrever-lhe a sua história.

Sem nada mais saber, comecei por arrumá-la no seu tempo e enquadra-la no seu espaço. De imediato procedi, como se faz nas investigações, à identificação das pessoas que escutavam as palavras de Camilo de Araújo Correia. Encontravam-se na sua mesa presentes pessoas conhecidas no meio da sociedade reguense e dos bombeiros, a começar pelo Eng. Álvaro Mota, presidente da câmara da Régua, Dr. Aires Querubim Governador Civil de Vila Real, Rodrigo Félix, presidente da direcção Federação dos Bombeiros de Vila Real, Guedes de Moura, Inspector Regional dos Bombeiros do Norte e o Comandante Carlos Cardoso dos Santos (1922-2007).

Para começar a sua história, faltava apenas saber o que faziam aquelas pessoas em volta de uma mesa, num dos salões do quartel dos bombeiros da Régua. Pouco me ajudaram as buscas nos meus arquivos. Acreditei na sorte de encontrar publicadas as palavras que Camilo de Araújo Correia lia nesse momento, socorrendo-se da ajuda de um papelinho, a sua prótese da memória, como lhe gostava chamar.

Não satisfeito pelos resultados demorei-me em mais pesquisas na esperança de reencontrar as memórias que pudessem reconstituir esse momento. Os velhos jornais “O Arrais” da época não divulgaram qualquer notícia do acontecimento fotogrado. Ainda pensei que me pudessem valer as lembranças de pessoas amigas, mas não deram mais informações. Contudo, ao reler o opúsculo dedicado ao Comandante Carlos Cardoso dos Santos, da autoria do Manuel Igreja, fui surpreendido pelo relato alusivo ao momento histórico que fotografia documentava e pela transcrição das palavras lidas nessa cerimónia por Camilo de Araújo Correia.



Como estes novos elementos, podia dizer que tinha desvendado o passado esquecido que a fotografia, só por si, não podia revelar. A agradável leitura do discurso de homenagem de Camilo de Araújo Correia, se é assim que lhe posso chamar, deu-me os pormenores que interessavam m para concluir as memórias perdidas e esquecidas nas cores da fotografia. Essa deliciosa crónica – posso a entender como tal - tinha sido escrita para a homenagem ao amigo Carlos Cardoso dos Santos, pelos 31 anos de brilhante e abnegado desempenho ao comando dos bombeiros da Régua. Uma homenagem que, como ele sublinhou, nunca poderia faltar.

Marcada para o dia 3 de Março de 1990, a homenagem ao Comandante Carlos Cardoso dos Santos teve o significado de reconhecimento ao cidadão reguense que, por vontade própria, deixava o seu lugar no comandado dos bombeiros da Régua. O modesto programa abriu com uma sessão solene no salão nobre dos Paços dos Concelho, onde não faltaram os bombeiros, os grandes amigos e as entidades oficiais. Mas, o momento mais emocionante para todos, foi quando o velho comandante passou a última revista aos bombeiros, formados na entrada principal do quartel. Nesse adeus ao comandante, conta-se que viram lágrimas de tristeza nos rostos dos bombeiros.

Depois de servido o almoço de confraternização, coube ao Dr. Camilo de Araújo Correia fazer, e muito bem, o papel de orador principal, para distinguir a brilhante acção humanitária do homenageado. Como seu velho amigo conhecia-lhe o seu carácter e a sua personalidade. Mantinham laços de amizade desde o tempo, em que fora médico no hospital e mais tarde presidente da direcção dos bombeiros. Pelo que só podia sair-lhe do coração, o maior e melhor elogio de gratidão que era merecedor o Comandante Carlos Cardoso dos Santos, que aqui transcrevemos:



“Estivesse onde estivesse, a fazer fosse o que fosse, eu viria a esta homenagem ao senhor Carlos Cardoso dos Santos, pelos seus 31 anos de brilhante e abnegado comando dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua.

E viria, vencendo distâncias e afazeres, porque não sou apenas um reguense devoto dos seus bombeiros e grato a quem, ao longo de tantos anos, os disciplinou e dirigiu nos tempos difíceis caminhos da protecção e salvação do próximo. E nós sabemos que essa dificuldade pode ir do sacrifício familiar ao sacrifício da própria vida. Viria porque também sou um velho amigo e um inabalável admirador do forte temperamento altruísta do senhor Carlos Cardoso dos Santos.

Se admitirmos que uma pessoa volta a nascer, quando começa a trabalhar, exercendo a sua profissão que escolheu, pode dizer que sou natural do Hospital D. Luiz I e amigo do senhor Carlos Cardoso dos Santos, desde que nasci…  (…)



E foi com todo esse altruísmo, amadorismo e capacidade de relação, largamente exercidos no Hospital D. Luiz I, que o senhor Carlos Cardoso dos Santos apareceu nos Bombeiros Voluntários da Régua. Não admira, pois, que os 31 anos do seu comando tenham sido de negável eficácia e brilhantismo. E é por isso que aqui estamos com o ruído dos nossos aplausos e o silêncio da nossa gratidão.

O calor do meu brinde não ficara completamente explicado se não lhe dissesse que passei pela Direcção dos Bombeiros da Régua, ao que julgo, por influência ou, pelo menos, franca concordância do senhor Carlos Cardoso dos Santos. Mal chegado de uma penosa mobilização em Moçambique, pode dizer-se que foi uma partidinha dos meus amigos. Uma simpática e honrosa partidinha, devo confessar.

Peço licença para que o meu brinde seja extensivo à esposa do senhor Carlos Cardoso dos Santos e às esposas de todos os bombeiros. No peito de todas a sirene só deixa de tocar, quando o marido regressa a casa molhado, cansado…mas feliz”.

As palavras de Camilo de Araújo Correia, sejam elas no estilo de um discurso de homenagem ou de uma sua elegante crónica, como mais preferirem, deixa qualquer um de nós ainda comovido pela ternura dos sentimentos e do brinde feito ao velho comandante que, acredito tenha sido celebrado com vinho fino! Como são merecedores os grandes homens que viveram para fazer a paz e o bem. Elas são como que o retrato do comandante de corpo inteiro e fardado a rigor, para sempre. E, ao mesmo tempo, guardam um sentimento de admiração que ficou do primeiro dia em que se conheceram…no velho hospital da Régua, ainda instalado no Solar dos Lemos e ao cuidado da Santa Casa da Misericórdia.

Para muitos, se calhar, esta foi a primeira oportunidade de recordarem este grande comandante e mais um discurso inesquecível de Camilo de Araújo Correia e entenderem o testemunho dos seus ideais com nitidez e mais paixão. Mas, para quem sempre os admirou, este momento permitiu um reencontro destes dois grandes homens na história dos bombeiros da Régua.


(Clique nas imagens acima para ampliar)
Com eles já na Eternidade, cada um de nós deve agora olha-lhos como símbolos de fraternidade e reconhecer-lhe gratidão.
- Peso da Régua, Outubro de 2009, J. A. Almeida.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Tragédia na Ponte da Régua

Eram perto das 18.45 da 1º de Maio de 1964. Mais uma tarde primaveril acabava num horizonte cercado de montes de vinhas verdejantes e as aguas serenas de um rio pasmado na beleza das suas margens. De repente, um estrondoso ruído iria marcar de dor e sofrimento a sossegada vila da Régua.

Cumprindo com exactidão o horário, uma camioneta de passageiros da EAVT fazia o percurso habitual e rotinado, entre a cidade de Lamego e a Vila do Peso da Régua. Atravessava a ponte nova, já nos últimos tabuleiros – ponte destinada a uma linha ferroviária que nunca veio a ser construída. Avistava-se, já muito pertinho, o velho casario do Corgo, o imponente cais de mercadorias da estação do caminho-de-ferro, os táxis e camionetas de carreira a aguardarem passageiros, no Largo da Estação, onde também esta iria fazer a última paragem de giro.
Ao chegar prestes do fim da ponte, a camioneta cruza com um carro, um pequeno Austin Mini. Colidem lateralmente. A camioneta descontrola-se e guina para a esquerda. Sobe o passeio, derruba o gradeamento de ferro e precipita-se numa queda de 30 metros. A camioneta cai sobre lajes e pedregulhos que ladeiam a margem do rio, próximo do local onde as crianças costumavam brincar e tomar banho, conhecido como “Cais da Junqueira”. Desfaz-se em ferros retorcidos e vidros partidos. Gera-se o pânico nos passageiros. Surpreendentemente, um passageiro, o Sr. Matos Ferreira, sai ileso e a primeira coisa que faz é voltar a trás, à procura de um botão caído do seu casaco no meio daqueles destroços.
Pouco tempo depois, chegavam os primeiros bombeiros, o José Manuel Clemente e o pai, que ficam horrorizados com o cenário encontrado. São estes dois homens que prestam os primeiros socorros às vitimas feridas, ajudando-as a sair do interior da camioneta. De imediato, pedem reforços para responder com dignidade à gravidade da situação. Chegam os médicos e enfermeiros que trabalham na Régua e em Lamego, entre os quais é de salientar a presença do Dr. João de Araújo Correia. Começaram a ser retirados os corpos sem vida, o condutor e o cobrador da camioneta. Entre as manchas de sangue, aparecia calçado feminino, pastas de estudantes, uma colecção de pontos de matemática, chapéus de homem, um tubo de pasta dentífrica e as folhas de um ponto de matemática, com o nome do dono, Camilo Bernardes Pereira. Os feridos continuavam a ser retiradas do meio dos ferros retorcidos. Mais uma jovem sem vida, Maria Henriqueta, filha do vice-presidente da câmara, Roque Cruz.

Entretanto, os feridos são transportados nas ambulâncias dos bombeiros para a urgência do Hospital D. Luís I. Pouco tempo depois, corre a notícia de que acabava de falecer mais uma criança. Durante a madrugada, outra menina não resiste aos ferimentos. No dia seguinte, uma outra desiste de viver.
Acabam de perder a vida, neste trágico acidente, cinco adolescentes, na primavera da vida, e dois homens adultos. A Régua vive momentos de grande pesar, deixando-se enlutar pela tragédia das três famílias atingidas.
Para memória futura, João de Araújo Correia, chamado ao local para prestar assistência aos feridos, na sua qualidade de médico, não deixou de evocar a dor e o sofrimento dos sinistrados, dos familiares, dos amigos, de toda a população nem deixou de criticar a falta de civismo dos condutores, em geral, pouco dispostos a cumprirem o código, e lamentou que a tragédia acontecesse numa ponte nova, mas sem condições mínimas de segurança para circulação de veículos nos dois sentidos. Quem o ouviu, nesse tempo? Ninguém..! Fizeram ouvidos de mercador, foi como se nada ali tivesse acontecido. Passados muitos anos, naquela ponte, tudo permanece igual, mas com riscos cada vez maiores. Tudo isso faz parte de uma séria reflexão que ele próprio expôs na crónica “Duas Pontes”, publicada no jornal “Comércio do Porto”, de que aqui se transcreve o essencial:
“Mais um desastre de viação e, desta vez, horroroso. Cinco meninas em flor, ainda estudantes, e dois homens válidos, dois trabalhadores, encontraram a morte dentro de um autocarro, despenhado do alto de uma ponte, na Régua, sobre a margem direita do rio Douro.

Mas, além dos mortos, os feridos... O hospital da Régua foi hospital de sangue no fim de uma batalha. Quem assistiu àquelas ansiedades, àqueles estertores, continua a sonhar amargo pesadelo. O dia 1º de Maio de 1964, dia de rosas, fica assinalado, na Régua, como dia de goivos e martírios.

De quem foi a culpa? A culpa, senhores, não foi de ninguém. A culpa deve atribuir-se ao fatalismo, crença absoluta do automobilista português no que tem de acontecer. Com semelhante credo, tanto lhe faz guiar mal como bem, tanto lhe faz obedecer como desobedecer ao exame de condução. O código só tem valor antes do exame. Feito o exame, é letra morta.

Fanático do fatalismo, o motorista português é suicida sem desgosto e assassino sem rancor. E, se assim se pode dizer, um inocente. Maneira de o desviar de si próprio, fazer-lhe crer no livre arbítrio ou no determinismo, seria castigá-lo, de modo que lhe doesse, quando prevarica. Mas, a lei portuguesa e o tribunal português são benignos com o motorista desastrado. No fim das audiências, ouve-se dizer: pobre de quem morre.

Sobre a má filosofia, o vinho, a pressa, a inveja, o delírio - fazem da estrada portuguesa um cemitério. Não o seria se a lei fosse mais dura, e o tribunal menos indulgente.

Pobre estrada portuguesa! Em vez de caminho florido, é um calvário, uma fábrica de lutos. Na Régua, há hoje exemplos da maior “dor humana". Dois casais felizes perderam, cada um, duas filhas. São, como diria Camilo, sepulcros vivos de duas filhas mortas.
Quem acode à nossa estrada? Quem acode à família portuguesa? O caso da Régua é um grito que implora eco na consciência nacional. Tanta morte em estrada tão pequenina! Os desastres, em Portugal, são o dobro e o tresdobro dos inevitáveis.

O caso da Régua, à parte o erro ou erros de condução, é atribuível a outra espécie de incúria. Se, na ponte malfadada, estreita e desprotegida, com duas guardas que são dois ornatos, fossem proibidos cruzamentos e ultrapassagens, o desastre não teria ocorrido. Mas, nem do lado de Lamego, nem do lado da Régua, há sinal proibitivo. Nem sequer se reforça, num letreiro, o mandamento que obriga a moderar a marcha numa ponte. Não há nada! O que ali se faz, de vez em quando, é espantoso. Vai, pela sua mão, um motorista pacato. De repente, sem tir-te nem guar-te, passa-lhe à esquerda uma sombra. É um automóvel que vai para o outro mundo e quer levar consigo outros automóveis. Mais adiante, o motorista pacato avista uma nuvem. É outro automóvel, que vem ao seu encontro para o matar e fazer do seu carrinho um bolo. Pobre motorista pacato!

Na Régua, há duas pontes. Há a ponte nova, onde se deu o desastre, e a ponte velha, inutilizada por avaria do tabuleiro, mas, com pilares tão rijos, que pede tabuleiro novo. Se lho dessem, teria a Régua duas pontes, bastantes para o seu tráfego. Seriam duas pontes sem desastres, porque o trânsito se faria em sentido único. Ia-se da Régua a Lamego pela ponte velha e regressava-se à Régua pela ponte nova”.
Diz-se que o tempo tudo apaga, mas não parece ser verdade, quando se recordam os acontecimentos da tragédia na ponte da Régua, que não está esquecida por ninguém. Lembram-se dela os familiares das vítimas, onde a dor permanece viva, os feridos que sobreviveram da queda, acreditando que foi um milagre que lhes aconteceu nesse dia.

Os bombeiros também não esquecem o dia da tragédia. Aqueles que ajudaram na operação de salvamento e no transporte dos feridos e os que acompanharam o funeral das duas irmãs da família Roque Cruz, transportadas no velho pronto socorro Buick pela ruas da Régua, entre o hospital e o largo da Igreja Matriz, no Peso, onde se celebraram as últimas cerimónias religiosas.
Esta era a única missão que os bombeiros gostavam de não ter cumprido. Como aconteceu nas últimas viagens, ficou uma dor e luto profundo no coração daqueles homens que pelo caminho interminável da vida, choraram a morte daquelas crianças do acidente trágico, em cima da ponte nova da Régua.

Os nossos bombeiros prefeririam não ter participado nesta missão de dor que enlutou a população da sua vila natal, pelo facto de um acontecimento abrupto ter cortado o fio da vida a algumas jovens da sua comunidade e terem de ser eles a conduzir os restos mortais à última morada. Mas dar acolhimento a tal preferência seria traírem a razão da sua existência na Régua. A dor custa a suportar a todo o ser humano. É nessas ocasiões que as pessoas em sofrimento mais precisam da presença, do apoio e do auxílio dos amigos. Os bombeiros, igualmente em sofrimento, marcaram a sua presença amiga, oferecendo o seu auxílio até ao fim, até ao fel amargo da dor dos familiares destroçados. No meio das lágrimas que choraram mantiveram alta a nobreza que sempre os tem caracterizado.
- Peso da Régua, Dezembro de 2010. Colaboração de J A Almeida* para Escritos do Douro 2010. Clique nas imagens acima para ampliar.
  • *José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também crónicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária, fatos do passado da bela cidade de Peso da Régua de onde é natural e de figuras marcantes do Douro.
Jornal "O Arrais", Sexta-Feira, 1 de Dezembro de 2010
Arquivo dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua
Tragédia na Ponte da Régua - 1º de Maio de 1964.
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Tragédia na Ponte da Régua - 1º de Maio de 1964