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sexta-feira, 8 de maio de 2015

LITERATURA PORTUGUESA E DO DOURO - Torga no xadrez do seminário: xeque do peão ao Rei?

LITERATURA PORTUGUESA E DO DOURO
 Torga no xadrez do seminário: xeque do peão ao Rei?  
Trabalho sobre Miguel Torga, a convite, para um volume publicado pelo Grémio Literário de Vila Real, no XX Aniversário da morte do grande Escritor duriense. - Autor Dr. ALTINO MOREIRA CARDOSO
Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha (Vila Real, São Martinho de Anta, 12 de Agosto de 1907 — Coimbra, 17 de Janeiro de 1995), foi um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX. Destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios

terça-feira, 8 de abril de 2014

UM LIVRO ESPECIAL

Ao Dr. Bernardino Zagalo

Das homenagens e louvores aos bombeiros da Régua dedicadas pelo seu espírito de abnegação, brio e heroísmo há uma, muito especial que, pela sua raridade, autoria e forma invulgar como foi divulgada, não pode ficar esquecida nas páginas da história da associação nem na memória colectiva.

Não é um diploma nem sequer uma medalha de ouro concedida por alguma entidade pública a reconhecer o mérito, a dedicação pública, a generosidade, o comportamento exemplar, a coragem e abnegação e os serviços distintos pelo que, nas suas arriscadas missões de socorro, fizeram os bombeiros.

Ao longo da sua existência, os bombeiros da Régua foram enaltecidos com importantes distinções e títulos honoríficos. Sem querer valorizar nenhum há um especial muito um que brilha mais alto e destaca-se nas glórias dos bombeiros da velha guarda, a Ordem Militar de Cristo, colocada no estandarte da Associação pelas mãos do Presidente da República, General Óscar Carmona.

Mas, os bombeiros da Régua têm uma homenagem que, se não valeu mais que a distinção das ditas comendas, ajudou a levar à imortalidade dos bombeiros que combateram o grande incêndio, em 26 de Junho de 1911, na cidade de Lamego.

Poucos sabem que o autor do notável louvor, foi o Dr. Bernardino Zagalo, advogado e escritor de novelas de índole regionalista e de uma peça de teatro intitulado O Heitorzinho, popularizado em apresentações no palco de teatro de amadores ao consagrar o exemplo de um homem justo e bom, natural da freguesia de Loureiro, que o povo tem  devoção e reconhece, ainda hoje, como um santo milagreiro.

O Dr. Bernardino Zagalo, lamecense pelo nascimento, foi um verdadeiro reguense pelo coração. Apaixonado pela terra adoptiva, onde teve a sua residência, dedicou-se às actividades do foro judicial. Cidadão inteligente e activo, trabalhou para o bem comum como dinamizador das Festas do Socorro e como criador e impulsionar da Parada Agrícola, uma espécie de primeira e moderna feira agrícola para promoção dos vinhos do Douro e outros dos produtos agrícolas da região duriense.

Nesse tempo, a Associação dos Bombeiros da Régua já era uma instituição muito prestigiada, que não se ocupava só em combates dos fogos, mas tinha nobres objectivos, pois auxiliava e promovia iniciativas sociais e culturais da sociedade civil. A normalidade era a vida associativa próxima dos associados e das pessoas que apoiavam os bombeiros. O Dr. Bernardino Zagalo, como vizinho do primeiro quartel dos bombeiros, situado então no Largo dos Aviadores, conhecia-lhes os exemplos de altruísmo, abnegação e heroísmo. Não é de estranhar que mantivesse com aqueles homens de paz e fraternidade, velhos combatentes de fogos, uma respeitável relação de amizade e apoiada uma elevada admiração.
(Clique na imagem para ampliar)
Já que se recordou um dos grandes incêndios de Lamego, temos presente uma pequena nota histórica da “assombrosa catástrofe” que, no dia 26 de Junho de 1911, pelas 21.00 horas, reduziu a um esqueleto de ruínas e cinzas uma grande parte das casas da movimentada Rua de Almacave. Rezam as notícias que nem a Igreja da Misericórdia foi poupada à violência das chamas, que a destruiu completamente, o que tornou impossível a sua reconstrução.

Para ajudar a apagar este incêndio foram chamados os bombeiros da Régua, comandados por José Afonso de Oliveira Soares. Combateram-no ao lado dos bombeiros de Lamego, mas a sua acção foi determinante pela sua coragem e heroísmo, o que evitou que o fogo alastrasse às ruas envolventes e causasse mais pânico e prejuízos.

Natural de Lamego, o Dr. Bernardino Zagalo terá registado algumas das brutais imagens que correram desse incêndio e tenha ouvido falar da destemida e corajosa acção dos bombeiros da Régua nesse fogo. Apesar de ser lamecense, não se sentiu diminuído em testemunhar aquela sua missão e o “tamanho do seu heroísmo se glorificou para todo o sempre”. 
Os Desherdados,  que fez questão em dedicar a um amigo, o Conde de Saborosa e também aos Bombeiros Voluntários da Régua e cujas vendas destinou que revertessem para os cofres da associação, confirmou a gratidão a esses bombeiros com este elogio: 

Este livro não se expõe á venda. É uma homenagem, embora obscurissima, a um amigo extremoso e aos Bombeiros Voluntários da Regoa.

Os Desherdados destinam-se a sêrem distribuidos ás pessoas de coração que desejem contribuir com o seu obulo caridoso para o cofre da benemérita Associação dos Bombeiros Voluntarios da Regoa, ficando as despesas de publicação a meu cargo.

Como lamecense amantíssimo da minha terra, venho assim testemunhar a minha gratidão á briosa e esforçada colectividade que teem prestado primorosamente serviços humanitários de alto relevo e superiores a encarecimentos banaes, e que com tamanho heroísmo se glorificou para todo o sempre no pavoroso incêndio que abrazou e reduziu a cinzas, em 26 de Junho de 1911, vinte e um prédios urbanos, salvando das labaredas temerosas o bairro mais importante da cidade de Lamego e o histórico povoado do Castello (….)”.

Dizia o Dr. Zagalo que era uma homenagem obscuríssima. Ora, de obscura é que não tem mesmo nada. Ao imprimi-la nas primeiras páginas de uma sua obra literária, imortalizou os bombeiros da Régua como admiráveis  valores do altruísmo. A literatura raramente os glorifica como personagens principais, mas sabe todos sabemos que na vida real, eles são verdadeiros heróis.

Esta homenagem de um escritor, ainda que desconhecido para a maioria das pessoas, à missão dos bombeiros foi uma excepção que envaidece a quem foi dedicada, neste caso, os bombeiros da Régua. 
Quando um escritor dedica um livro ao exemplo de coragem dos bombeiros, esta atitude vale muito mais que medalhas e títulos honoríficos. O livro, depois de chegar aos leitores, será sempre uma obra imortal. É isto que está a acontecer com Os Desherdados, uma obra que foi escrita há mais de 100 anos, mas de que existem antigas edições à espera uma consulta, mais atenta e demorada, em estantes particulares e públicas.

A mensagem do livro tem um significado importante que, em certa medida, permite entender os riscos de missão dos bombeiros. Se ela revela os genuínos ideais de um ilustre cidadão que adoptou a Régua, não deixa de espelhar o reconhecimento de uma sociedade que sabia respeitar a atitude cívica dos cidadãos mais solidários e generosos. Aqueles homens que deixaram provas de heroísmo ao serviço de uma missão de socorro em Lamego.

A história dos Bombeiros da Régua escreve-se com a abnegação, solidariedade e coragem daqueles homens que juraram cumprir o lema “Vida por Vida”. O dever de cada bombeiro é ajudar os seus semelhantes quando as vidas e bens estão em perigo. Eles não socorrem para serem reconhecidos como heróis. Aquilo que o Dr. Bernardino Zagalo escreveu no seu livro sobre os Bombeiros da Régua é mais uma homenagem ao seu esforçado e valente trabalho perante a destruição devoradora dos fogos. É um louvor, também de alguém que lhes está grato!

Certos livros voltam quando pensávamos que estavam esquecidos, como este do Dr. Bernardino Zagalo. E ainda bem, assim as novas gerações podem saber que os bombeiros da Régua alcançaram um digno reconhecimento pelos seus talentos de humanidade e de heroísmo e, por ser mais nobre que a atribuição de qualquer medalha de ouro, atingiram o estatuto da Imortalidade.

A partir de agora, os bombeiros da Régua sabem que, na sua longa história, há um livro especial, intitulado Os Deserdados que, publicado há cem anos, os evoca pela sua brilhante competência e também pela coragem e abnegação no combate a um dos maiores incêndio ocorridos em Lamego, prestigiando assim o bom nome da benemérita associação reguense.
- José Alfredo Almeida*, Régua, Julho de 2011. Actualizado em 8 de Abril de 2014. Clique nas imagens acima para ampliar.
  • *O Dr. José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também crónicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária, fatos do passado da bela cidade de Peso da Régua.
  • Um outro post - O Nosso Dr Zagalo
Um Livro Especial
Jornal "O Arrais", Quinta feira, 21 de Julho de 2011
(Click com o "rato/mouse" para ampliar e ler)

Edição de Jaime Luis Gabão para Escritos do Douro 2011 em 19 de Julho de 2011. Actualização em 8 de Abril de 2014.

domingo, 24 de novembro de 2013

GERIR O NOSSO TEMPO…

As iniciativas designadas de “projetos que fazemos para a nossa vida” são abundantes, mas nem sempre realizáveis. No quadro lógico, o relacionamento assume maior relevo comparativamente aos elementos isolados e, se bem aplicado, reforça a amizade, e o trabalho produzido a bem de uma causa torna-se mais profícuo, reforçando a legitimidade daquilo para que somos eleitos.

Os projetos são intervenções que devem ser capazes de atestar coerência. Tal é conseguido se não se afastarem daquele que é, ou se assume que deva ser, o fundamento da sua existência, a concretização de um sonho que alimentamos desde criança.Tal situação estimula a seletividade dos nossos pensamentos e torna a avaliação das nossas iniciativas como um fator importante para o desenvolvimento das nossas capacidades.

Numa perspetiva prática para desenvolver um trabalho, não importa ter muitas ideias. Importa ter ideias e capacidade de concretização. Não chega saber-se aquilo que se quer. É fundamental transmitir isso aos outros.

Tive a felicidade de servir em várias causas. Eleito para a Direção do Sport Clube da Régua, desempenhei vários cargos durante anos. Fiz parte de algumas Comissões de Festas de N. S.ª do Socorro. Durante quatro anos exerci o cargo de vereador do Município da nossa terra, tendo, nessa altura, proposto que fosse dado o nome a uma rua do malogrado Bombeiro que morreu tragicamente no incêndio da Casa Viúva Lopes, João Figueiredo, mais conhecido por João dos Óculos, proposta que foi aprovada por unanimidade, estando essa rua localizada no Bairro de N. S.ª do Socorro. Atualmente faço parte da Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia. Por fim, quero falar daquilo que não foi a última causa que servi, mas aquela que me marcou mais – fazer parte da Direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua durante cerca de quinze anos, sempre como primeiro secretário. E digo isto porque, no momento em que o Senhor Doutor Aires Querubim teve que deixar o cargo de Presidente da Direção por ter assumido o de Governador Civil, foi-me proposto pelos meus colegas que o substituísse, o que não aceitei por entender que as minhas aptidões estavam mais viradas para aquilo que desempenhava.

Participei e trabalhei na concretização de vários projetos, sendo que os de maior relevância foram o alargamento do Quartel e a construção do Bairro. Empenhei-me, não só eu, mas também todos os meus colegas de Direção, para que um sonho antigo que já vinha de alguns anos atrás – o bairro – se tornasse numa realidade. Não posso esquecer o momento em que, tendo o Senhor Doutor Aires Querubim sido nomeado para o cargo que exerceu brilhantemente como Governador Civil, lhe pedi para interceder junto do Fundo do Fomento da Habitação para o desbloqueamento do projeto, o que fez com todo o entusiasmo e competência e, assim, tornou realizável aquilo que já se vinha arrastando há longo tempo, anterior mesmo às Direções de que fiz parte. Foi com muita emoção que assinei o contrato para a sua construção.

Também um momento alto na minha passagem pela Direção dos nossos Bombeiros foi aquele em que, com muito entusiasmo e crença, consegui, juntamente com o saudoso Comandante Senhor Cardoso, como eu o tratava, trazer para a nossa terra a realização de um Congresso no ano do centenário da nossa Associação.

Foi um momento alto que vivi aquando da votação para a realização de tão importante e apetecido evento, já que havia outras Corporações interessadas, entre as quais a do Porto, mas foi escolhida a do Peso da Régua. Houve, na altura, quem duvidasse da nossa capacidade, pois era entendimento de alguns que a nossa terra não possuía estruturas capazes de albergar mais de um milhar de participantes, entre Bombeiros com farda e sem farda. É certo que na altura não possuíamos hotéis ou residenciais, tanto aqui como nas redondezas, capazes de albergar tamanho número de participantes.

Mas, como “querer é poder”, conseguimos, com a ajuda de muitos reguenses, que receberam em suas casas alguns elementos diretivos das corporações de quase todo o país, dos Seminários de Godim e de Poiares e de um salão da Real Companhia Velha, onde foram colocados colchões insufláveis que nos foram cedidos pelo Regimento Militar de Lamego, alojar centenas de Bombeiros que vieram no dia anterior ao do encerramento. Tivemos, ainda, a cedência do pavilhão, que na altura ainda estava em final de construção, da Escola João de Araújo Correia, onde foi servido um jantar a todos quantos nos honraram com a sua vinda e foram mais de um milhar.

A abertura do Congresso, que teve lugar no Cine-Teatro Avenida, foi presidida pelo então Ministro da Administração Interna, Eng.º  Eurico de Melo, e ao seu encerramento assistiu o Senhor Presidente da República, General Ramalho Eanes, com um almoço no salão Nobre da Casa do Douro.

Foram momentos que jamais esquecerei, aqueles que vivi naquele dia ao ver desfilar na minha terra centenas de Bombeiros e dezenas de viaturas!

Foi com muito orgulho que, em ambos os momentos, assumi as honras da Casa, por ausência inesperada do então Presidente da Direção, Senhor António Bernardo Pereira. Jamais esquecerei o que, em dada altura, me perguntou o então Presidenta da Liga dos Bombeiros Portugueses, Padre Vítor Melícias, se eu ainda sabia onde ficava o Norte e o Sul do País.

Estive presente em vários Congressos, deslocando-me sempre em representação da Direção e na companhia do nosso tão querido e saudoso Comandante, Carlos Cardoso dos Santos, tais como em Aveiro, Estoril, Guarda, Viana do Castelo e Viseu, mas, como é natural, aquele de que guardo as melhores recordações, é do nosso, feito com muito trabalho e sacrifício de toda a Direção, mas também de vários reguenses e de elementos de outras corporações do distrito que connosco tiveram a amabilidade de colaborar, excetuando-se a de Mesão Frio, que não concordou com a nossa eleição.

Não poderei esquecer, ainda, a colaboração que tivemos do nosso Município, presidido pelo saudoso Professor Renato Aguiar, do qual obtivemos grandes ajudas, inclusive a de fazer coincidir com o Congresso a realização da Feira do Douro, que tanto o abrilhantou.

Sempre me empenhei, com a colaboração de todos os meus colegas de Direção, entre os quais destaco o incansável trabalho desempenhado pelo nosso Tesoureiro, Senhor Heitor Gama, por fazer o melhor que sabia e podia para o engrandecimento e bem-estar dos nossos Bombeiros e da nossa Associação, citando a criação da Fanfarra e a realização das Festas de Natal. Para fazer face às despesas com tais realizações e ainda quando era necessário adquirir uma viatura, lá íamos percorrer todas as freguesias do nosso concelho, levando a cabo peditórios para a recolha de fundos. Sempre fomos recebidos com o maior carinho e boa-vontade, acompanhados pelo Corpo Ativo, que, juntamente com a Direção e o Comando, sempre quis colaborar.

Fui responsável pela saída dos últimos números do jornal Vida por Vida, interrompida pelos seus custos, que se tornaram difíceis de suportar pela Associação.

Por fim, recordo duas situações que vivi, nas quais desempenhei o trabalho de um bombeiro com farda. A primeira foi quando fomos chamados para a extinção de um fogo na Quinta do Castelo, em Medrões. Na falta do Comandante e de Bombeiros que se encontravam em serviço em Moura Morta, tive que conduzir uma viatura transportando para o local, com autorização do Comandante, material e alguns homens que foram desempenhando funções, aos quais se juntaram depois os seus colegas vindos do local onde se encontravam.

O outro foi quando trabalhava na secretaria desempenhando funções que me estavam adstritas. Atendi um telefonema em que era pedida uma ambulância para transportar um acidentado em estado grave em Vilarinho dos Freires. Havia viatura, mas faltava quem a conduzisse. Imediatamente interrompi o que estava a fazer para ir socorrer quem dos Bombeiros necessitava.

E foi assim que passei dos melhores momentos da minha vida, servindo com amor, carinho e abnegação as causas que abracei desinteressadamente.
- Manuel Montezinho. Actualizado em Novembro de 2013

Clique na imagem para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Agosto de 2013. Actualizado em Novembro de 2013. Texto e imagem cedidos pelo Dr. José Alfredo Almeida. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Excerto da peça de teatro “A Ferreirinha - uma mulher fora do seu tempo”

Dona ANTÓNIA – A Sócia  Contribuinte nº 1 dos Bombeiros da Régua
Excerto da peça de teatro “A Ferreirinha - uma mulher fora do seu tempo”

Francisco Correia – A senhora dona Antónia dá licença?

Dona Antónia – Senhor Correia, ainda bem que chegou! Quero ir às Caldas do Moledo ver como vai o movimento dos banhos!

Francisco Correia – Mas está fresco!

Dona Antónia – Ora, ora… Nada disso… É verdade, ontem esqueci-me de lhe falar das obras da Capela do Cruzeiro!... Tenho muito gosto em contribuir com uma quantia significativa… desde que não alterem nada do que mostraram no desenho! É muito dinheiro! Aquela capela merece ser bem recuperada! Ali estão os símbolos do Peso e da Régua!

Francisco Correia – Como a Senhora desejar…Quando achar conveniente, indica-me a quantia.

Dona Antónia – Também hei-de ajudar a igreja de Godim na recuperação do altar do Senhor da Misericórdia (pensativa)…e misericórdia tenha de nós!

Francisco Correia – Na verdade, a vida não está fácil!

Dona Antónia – Não se esqueça dos Bombeiros! Eles dão a vida pela vida dos outros... merecem!

Francisco Correia – Merecem sim! O senhor Manuel Maria Magalhães ficou de passar por cá, para cumprimentar a senhora dona Antónia e convidá-la para sócia contribuinte.

Dona Antónia – Esse senhor Magalhães é um homem muito dinâmico, não é? Ele também não pertence à mesa do Hospital?

Francisco Correia – É um homem de direito, muito empenhado na evolução da Régua! O Hospital já está a funcionar…graças aos donativos da Senhora.

Dona Antónia – Meus, da minha família e principalmente do meu falecido marido, Francisco Torres! Aliás, se todos pensassem como eu… Cada um, na sua terra, deveria fazer tudo o que fosse para bem da humanidade! (mudando de tom) Está bem!...Mudemos de assunto…
(chega uma criada)
Maria – A senhora dá licença? Acabou de chegar um senhor que diz ser dos Bombeiros.

Dona Antónia – Não me diga que é ele? Só pode ser boa pessoa! Manda-o entrar, Maria.

Francisco Correia – O senhor Manuel Maria Magalhães!... vai ser o  comandante! 
(a empregada fá-lo entrar)

Sr. Magalhães – Dão licença?

Dona Antónia – Entre! Entre, sr. Magalhães.
(O sr. Magalhães cumprimenta com uma curta vénia dona Antónia e F. Correia)

Dona Antónia – Então como vão as diligências para o arranque dessa associação de Bombeiros?!

Sr. Magalhães – Senhora dona Antónia, venho informá-la que os estatutos estão prontos, foram redigidos pelo Dr. Claudino, o nosso Presidente da Câmara. E seremos, se tudo correr como todos desejamos, dos primeiros a ter uma instituição de intervenção social, tão necessária.

Dona Antónia – Fico contente…já que me visita só para me comunicar que vamos ter uma Associação de Bombeiros! Estamos todos mais descansados! 

Francisco Correia – Senhora dona Antónia, repare no livro que o sr. Manuel Maria de Magalhães traz!...
(Riem um pouco…)
Sr. Magalhães – Senhora dona Antónia, tenho a honra de a convidar a assinar o Livro dos Estatutos da Associação e Inscrição dos Sócios Contribuintes! A senhora será a sócia contribuinte nº1. (passa-lhe o livro)

Dona Antónia – Ora muito bem, muito bem!… Sócia Contribuinte?!... não é verdade? E então vou contribuir?...

Sr. Magalhães – A jóia será de 500,000 mil réis e a quota mensal 200,000 mil réis. Acha bem?

Dona Antónia – (tosse um pouco) Ora bem! E já falaram a outras famílias cá da Régua? Os Barretos, os Vasques?

Sr. Magalhães – Já foram contactados e ninguém recusou!

Dona Antónia – Todos temos a obrigação de contribuir! É urgente existir na Régua uma associação desta natureza devidamente equipada! Já viu, se acontece algum incêndio na altura em que há pipas e pipas de aguardente nos nossos e em outros armazéns!...

Francisco Correia – Lá isso é verdade, seria uma tragédia!

Sr. Magalhães – A sra dona Antónia disse bem, “devidamente equipada” ! Mas esse é o maior problema! A estação de material, no Largo da Chafarica, é um sítio já muito acanhado. A Câmara não tem grandes meios e nós precisamos de bombas mais modernas, mangueiras, um carro de escadas, fardas…

Dona Antónia(olhando-o de alto a baixo) Ó sr. Magalhães, olhe que essa sua farda fica-lhe mesmo a matar!!! (tosse)

Francisco Correia(comenta) Comandante é comandante!

Sr. Magalhães (sorri) Nós também temos um grupo dramático, uma banda de música…preocupamo-nos em valorizar a cultura e o divertimento!

Dona Antónia – É bom que as pessoas… dêem valor à cultura!

Sr. Magalhães – A leitura de bons livros, julgo ser da máxima importância… só que a nossa biblioteca está reduzida a uma estante de livros…

Dona Antónia (tosse) Já entendi, sr. Magalhães, já entendi! Precisa de livros… ou melhor… uma quantia para aumentar essa estante! Não é verdade? (uma criada entra a correr)

Josefina – Minha senhora! Há fogo… há fogo! O sino do Cruzeiro não pára de tocar…

Sr. Magalhães(preocupado) Quantos toques? Quantos toques ouviu?

Josefina – São sete! Sete badaladas!  (à parte) ou foram oito?

Sr. Magalhães – Ora sete… Ameixieira… senhor dos Aflitos… peço desculpa, senhora dona Antónia, mas tenho de me apressar… não posso ser o último a chegar!

Francisco Correia – Eu acompanho-o… (saem os dois apressadamente)

Dona Antónia – Acho bem… Espero que não seja em nenhuma das minhas casas… Eu tenho lá várias… (esquece)

Aqui ficou o Livro… vou assinar sem testemunhas! O que eles querem é uma quantia sempre certinha… e mais alguma para mais umas extravagâncias… (assina e fecha o livro em seguida) Ele cá há-de vir buscá-lo! É simpático, bem apessoado! Sim senhor! (mudando de tom) Ora bem, amanhã é domingo? Pois é… amanhã é domingo…temos bodo aos pobres!
(toca a campainha e aparece uma criada)

Chica – A senhora chamou?

Dona Antónia – Sim, Chica! Na cozinha, lembra à Maria que tenha fartura de alimentos. Quero dar um bodo a essa gente que costuma vir assistir à missa.

Chica – Sim, minha Senhora! O tempo tem ido tão ruim! Há muita fome por aí!

Dona Antónia – Então eu não sei?... Vai… vai… despacha-te! Diz ao Damásio que quero ir ao Moledo e, na passagem, quero ir ver como vão os preparativos para a vindima na Quinta do Santinho… (ri-se) Fica em caminho, Chica!

Chica(como se já contasse) O Damásio tem a caleche pronta, como sempre e como a senhora gosta. Mas está fresco… não vai adoecer?

D. Antónia – Ora, ora… tens cada uma! Estes meus empregados! Sou alguma velha?
(saem e a criada tem de lhe levar o agasalho de que ela faz questão de se esquecer)
Josefina(entra um pouco esbaforida…) Minha Senhora, minha Senhora! (repara que já não há ninguém na sala) Ainda bem que já não está cá! Então não é que eles já estão de volta!? Estou a ver que foi só fumaça… ou será que me enganei nos toques… mas eu contei... sete! Será que não foram? Enganei-me! Ahahah… foram dar uma voltinha à Régua… ver se estava mais direita!
- Grupo de Teatro da Universidade Sénior do Peso da Régua

Autores: Grupo de Teatro da Universidade Sénior do Rotary Clube do Peso da Régua. Este excerto constitui o Quadro nº 8 da peça de teatro amador que recria com muito rigor histórico factos da vida deste singular mulher reguense, numa excelente representação dos alunos daquela Universidade.
Clique  nas imagens para ampliar. Sugestão de texto e imagens feita pelo Dr. José Alfredo Almeida (Jasa). Publicado também no jornal semanário regional "Arrais" em 19 de Julho de 2012. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Julho de 2012. Atualização em 19 de Novembro de 2013. Permitida a copia, reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue só com a citação da origem/autores/créditos. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Os meus bombeiros

                                                                                                                            José Alfredo Almeida
      
Lembro-me de ler uns versos de Camilo Guedes Castelo Branco em que evoca a missão heróica dos bombeiros. Li-os escritos sobre uma fotografia a preto e branco onde está retratada a figura de um bombeiro sem que se veja o rosto, fardado a rigor, a sair de uma casa em chamas, com uma criança ao seu colo. São estes os versos: “E eis que em meio trágico do braseiro/surge a figura altiva do bombeiro/ Trazendo ao colo o pequeno ser”.

Não sei precisar a data em que os escreveu e chegaram a ser publicados. Apenas posso dizer que foram declamados, no verão de 1950, numa brilhantíssima récita de artistas amadores e da Orquestra Reguense, dirigida pelo professor José Armindo, em benefício da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Régua.

Quando aconteceu essa récita, Camilo Guedes Castelo Branco já não era vivo, falecera em 25 de Agosto de 1949, com 81 anos, mas o seu filho Jaime Guedes era, nesse tempo, o presidente da direcção da associação.

O poeta Camilo Guedes Castelo Branco não fez parte do grupo dos fundadores da Companhia dos Bombeiros Voluntários da Régua, como então se dizia, mas foi pioneiro ao alistar-se aos 17 anos como bombeiro. Conheceu os principais fundadores da Companhia, aprendeu os ensinamentos do combate aos fogos com os três primeiros comandantes e teve formação com o inesquecível Comandante dos Bombeiros do Porto, Guilherme Gomes Fernandes.

Na Régua do seu tempo, o poeta ficou mais conhecido como comandante dos bombeiros e pelo seu exemplo de dever cívico, mas é injusto não o recordar pelas outras facetas da sua vida, onde se revelou um cidadão empenhado política, social e culturalmente. Deve ser lembrado como um defensor moderado do ideário político republicano no concelho da Régua, onde exerceu as funções de administrador. Este discreto ajudante de notário foi ainda jornalista na imprensa local e dirigiu jornais importantes que se publicaram na Régua, como o jornal O Cinco de Outubro. Publicou apenas um livro, o Fraternais Dolores (1923), e deixou muita poesia dispersa nos jornais. Por editar ficou o livro Arias Sertejanas, mas isso não impediu que Camilo Guedes Castelo Branco fosse reconhecido como poeta “lírico de altíssimo talento”, como disse João de Araújo Correia, que incluiu na sua Lira familiar uma das poesias do nosso comandante. Os seus dotes literários brilharam também como autor de peças de teatro, destacando-se a opereta As Andorinhas, que foi musicada pelo maestro Almeida Saldanha e popularizada dentro e fora da Régua nos palcos do teatro amador.

Mas vamos ao que interessa, que são aqueles versos dedicados a um bombeiro sem nome e sem rosto. Quem concebeu a ideia de associar os versos do poeta a uma fotografia de um bombeiro com uma criança ao colo, teve como intenção construir uma imagem apelativa ao sentimento, evidenciando o sentido muitas vezes dramático da missão de um bombeiro, que nunca procura A SUA HONRA NEM A SUA GLÓRIA na hora de salvar uma vida em perigo.

Pela qualidade literária, pela vibração afectiva e pelo sopro de humanidade que dela se desprende, gostava de lembrar e partilhar a poesia “O Bombeiro”, donde foram retirados aqueles versos:  

“No silêncio da noite, de repente,
Ergue-se a voz estrídula dos sinos
      num longo baladar
E à distância brilhou, sinistramente,
Um clarão, que tingiu a luz do luar
    de laivos purpurinos.
“Fogo! Fogo!”-alguém diz com aflição.
E logo a pobre gente do lugar,
toda cheia de espanto e de canseira,
Pôs-se a correr, gritando, em direcção
    da medonha fogueira.

O incêndio crepitava 
e, batido do vento, devorava
Uma pequena casa arruinada.
E, perto, uma mulher d`olhar aflito
erguia as mãos ao céu calmo e infinito
a chorar e a gemer desesperada.
Ali, em meio da fogueira, tinha
essa mulher um filho, a criancinha 
mais bonita da velha povoação,
e o fogo, em seu horrível avançar, 
iria dentro em breve transformar 
o seu pequeno corpo num carvão.

Metia dó a pobre mãe! Mas como
Salvar-lhe o louro e cândido filhinho,
    se a labareda e o fumo,
num espantoso e horrível torvelinho,
ameaçam devorar rapidamente
quem se abeirar dessa fornalha ingente?

Podes chorar, mulher! ninguém te acode.
Chora, que és mãe; mas vê que ninguém pode
esse anjinho das chamas libertar.
Olha: em meio da tétrica fogueira
anda a morte, feroz e traiçoeira,
    a acenar, a acenar…

Mas nisto, junto ao prédio incendiado
surge um homem soberbo de valor.
A multidão ansiosa solta um brado
    de espanto e terror.

Ele caminha sempre com a firmeza
e a intrepidez estóica dos heróis;
escala a casa em chamas com presteza,
escala a casa em chamas…e depois…
    depois desaparece.
E a pobre mãe aflita cai de bruços
A murmurar baixinho, ente soluços,
    Uma prece…

Na multidão, silêncio. Só se ouvia
um secreto rumor, que parecia
o palpitar de muitos corações…

Senhor! És pai e cheio de bondade!
estende lá do azul da imensidade
O teu olhar repleto de perdões!

E eis que em meio trágico do braseiro
surge a figura altiva do bombeiro
Trazendo ao colo o pequeno ser.
Passou…desceu…e dentro em pouco, ansioso,
depositava o fardo precioso
no regaço da pálida mulher.”

O poeta sabe do que fala; como velho bombeiro que foi, retirado do corpo activo, parece recordar uma história real de um fogo, um que ele próprio combateu com o seu espírito abnegado e corajoso ou um dos muitos em que comandou. São esses heróis sem tempo, sem rosto e sem nome que, para protegerem as nossas vidas e bens, sacrificam, se for preciso, a sua própria vida. O comandante Camilo Guedes Castelo Branco ensinou o seu lema aos seus bombeiros: “Para se salvar uma criatura de uma morte certa, todos temos a obrigação de sacrificar seja o que for, mesmo que sejamos nós próprios”. 

Os bombeiros são heróis anónimos. Como está visível na poesia, a medalha mais importante é o bem que fazem; são a sua coragem e o seu altruísmo que nos devolvem nos maus momentos a esperança, a alegria e o sorriso de eternamente gratos pela sua existência.
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As minhas recordações da infância estão povoadas com os primeiros bombeiros que vi a combater um fogo que ameaçou destruir uma velha casa nas Caldas do Moledo, lugar onde nasci e dei os meus primeiros passos. Se não fossem esses corajosos bombeiros, as chamas teriam reduzido a cinzas a vida de uma família pobre e os seus míseros haveres. Nunca soube o nome dos bombeiros que apagaram esse fogo, mas eles ficaram-me retidos nas malhas da memória como heróis.
Mal sabia eu que, muitos anos depois deste fogo, as voltas do destino me pregavam uma partida e faziam-me ser um bombeiro, sem farda nem capacete, pois que fui convidado para assumir a Direcção da Associação, isto é, tomar conta das contas, dos papéis, das mil e uma burocracias que não os podem ocupar para estarem sempre prontos a responder ao toque da sirene. 
Tive fortes razões para recusar o convite, mas o apelo das minhas memórias de um fogo fizeram com que aceitasse, com honra, um cargo directivo para o qual não sabia se estava preparado, nem se teria competência para estar ao lado de homens que eu admirava e eram os meus heróis. O certo é que tive de aprender com os bombeiros no activo, e, no meio de muitas tormentas, deixei-me ficar na companhia deles. Quando olho para o calendário do tempo, vejo que já passaram cerca de quinze anos a dirigir os nossos bombeiros. Não são muitos os anos a que me dedico com zelo à instituição se os comparar com a sua longevidade já mais que centenária. Confesso que me limitei a dar um pequeno e humilde contributo para a tornar melhor, como fizeram todos os meus antepassados. Aprendi com os bombeiros lições de sacrifício e solidariedade e actos de muita humanidade.

Por isso, muitas vezes me recordo daqueles versos de Camilo Guedes Castelo Branco impressos numa fotografia eterna que me não deixa esquecer os meus bombeiros, heróis sem nome nem rosto que continuam a apagar o fogo da minha memória, lá nas ruínas do velho Moledo, cumprindo o espírito da sua missão: VIDA POR VIDA.
- Versão modificada e actualizada em Outubro de 2013.
Nota do autor*: Este título fico a dever por inteiro ao Dr. Camilo de Araújo Correia que, em primeira mão, deu origem a uma sua deliciosa crónica, para nos contar histórias dos tempos em que foi Presidente da Direcção da Associação dos Bombeiros da Régua.
    • *O Dr. José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também cronicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária e fatos do passado e presente da bela cidade de Peso da Régua.
    OS MEUS BOMBEIROS
    Jornal "O Arrais", quinta-Feira, 15 de Dezembro de 2011
    (Click com o "rato/mouse" para ampliar e ler)




    Clique  nas imagens para ampliar. Colaboração de texto e imagens do Dr. José Alfredo Almeida e edição de Jaime Luis Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Dezembro de 2011. Versão modificada e actualizada em Outubro de 2013. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos. 

    quinta-feira, 3 de outubro de 2013

    Notas soltas e pessoais sobre a Associação dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua

    Exerço a profissão de advogado de corpo inteiro, ou, melhor dito, de fio a pavio. Por isso nunca me dediquei à escrita, salvo nos articulados, tal como meu Pai. Já meu avô João de Araújo Correia teve vocação para a escrita, tardia, mas séria.

    Exponho esta minha limitação, por mera cautela, e também pelo respeito devido ao leitor.

    Pediu-me o Dr. Alfredo Almeida umas breves notas escritas sobre a Associação dos Bombeiros da Régua. Ora, os “Bombeiros da Régua” trazem-me sempre à memória  três episódios.

    Em primeiro lugar, o gozo com que o meu Pai  tratava o irmão Camilo, por ter sido Presidente dos Bombeiros. Médico ilustre, o meu tio Camilo nunca por nunca foi pessoa de apagar fogos. Nem devia saber bem o que era uma mata. De modo que aquele cargo foi sempre fonte de piadas entre meu Pai e meu Tio, que terminavam em profunda gargalhada, ora de um, ora de outro.

    Em segundo lugar, recordo a guarda de honra, que presenciei, à porta do edifício dos Bombeiros, prestada ao então Ministro da Cultura, Lucas Pires. Eu contava apenas catorze anos, a democracia tardava em consolidar, de modo que uma visita pessoal do Senhor Ministro a casa de meu avô foi um momento alto da vida da Régua, à qual os Bombeiros se associaram de forma majestosa.

    Em terceiro lugar, o episódio mais divertido, embora com uma pitada de humor negro.

    No ano de 1952 o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra viajou até ao Brasil. Foi, no entanto, uma verdadeira embaixada, pois seguiram alunos, professores, suas esposas e ainda o Reitor. Só para se ter uma ideia, a viagem durou quatro meses, algo que hoje seria impensável.

    O meu Pai  também embarcou, na altura com vinte e três anos. O avô João, inicialmente, não o deixou ir. O Prof. Paulo Quintela teve de interceder pessoalmente junto dele, garantindo-lhe que o Joãozinho, durante a viagem, nunca andaria de avião. O avião era encarado pelo meu avô como um bicho malévolo e perigoso. Mas, com esta garantia, meu Pai fez a mala e lá foi, felicíssimo.

    O TEUC permaneceu no Brasil três meses, sempre em viagem de um lado para o outro, e realizou grandes espetáculos de teatro. Algumas dessas viagens foram de avião,  daqueles com hélices rudimentares. Tinha de ser assim, pois a vastidão do Brasil a isso obrigava. O meu avô nunca sonhou tal coisa, como é evidente.

    Sucede que uma dessas viagens correu muito mal. O avião caía repetidamente em poços de ar, com solavancos terríveis, ao ponto dos ouvidos sangrarem, e de alguns  serem acometidos por desmaios. No meio de semelhante aflição, o Tóssan, actor e humorista, para desanuviar o ambiente,  saiu-se com esta:

    “É pá, não faz mal, se morrermos todos será a nossa grande oportunidade de termos funerais nacionais. Notícias em todos os jornais. Um País a chorar os seus estudantes e professores. As urnas todas arrumadas na Sala dos Capêlos. Fantástico! Não se pode perder isto por nada deste mundo! E depois, claro, vêm os bombeiros de cada terra buscar os seus filhos. Já estou mesmo a ver os Bombeiros da Régua, com as fardas reluzentes e alinhadas,  a virem buscar o Joãozinho.”

    A Associação dos Bombeiros da Régua foi lembrada, lá nas alturas,  há tantos anos e por este motivo!

    Deve, por isso, e por tudo, ser preservada para sempre, pois as memórias do passado tornam-se mais bonitas  no trilho de futuro radioso.
    - Gabriel Araújo Correia.

    Clique  na imagem para ampliar. Imagem e texto cedidos pelo Dr. José Alfredo Almeida (JASA) e editados para este blogue. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Outubro de 2013. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos.

    quinta-feira, 11 de julho de 2013

    Uma instituição, um escritor e um dirigente

    Nem todas as profissões/actividades geram consensos. Sempre de faca afiada para cortar em casacas alheias, de língua mais vocacionada para dizer mal do que bem, o nosso povo é implacável, parecendo mais feliz a valorizar os defeitos do que a exaltar as virtudes dos cidadãos incumbidos, cada qual no seu posto, de servir a comunidade.

    Salvam-se os bombeiros! Em desespero de causa, os que necessitam do seu auxílio, por vezes acusam-nos de demorarem muito tempo a chegar, desabafo justificável em quem se rege por um relógio cujos ponteiros avançam ao ritmo da sua ansiedade. Há que compreender o desespero de quem vê os seus bens, por vezes tão suados e tão parcos, à mercê de labaredas assassinas ou de quem, em perigo de vida, aguarda a chegada de uma ambulância salvadora.

    Falar da acção filantrópica e abnegada dos bombeiros é repetir palavras gastas. Eles sempre foram, e ainda são, os ídolos da pequenada, os heróis e o orgulho das populações. Com farda de gala parecem generais. De equipamento de trabalho, limpo à saída do quartel e em estado imprevisível no regresso, impõem-se sem pretensões, agem como super-homens. Não têm tempo de olhar para o lado. Todas as energias se concentram na resposta aos apelos que lhes chegam.

    Não posso falar especificamente dos Bombeiros Voluntários da Régua. Conheço um pouco da sua história através da palavra escrita e imagino a sua dinâmica ao ver o “brilhozinho nos olhos” do Dr. José Alfredo Almeida quando deles fala. Também cheguei até eles conduzida pela mão segura e pelo espírito apaixonado do Dr. João de Araújo Correia cujas crónicas são manuais de cidadania, de defesa do património humano, cultural e identitário da região duriense.

    Em Pátria Pequena, na crónica “Biblioteca Maximiano de Lemos”, o autor escreve, dividido entre o pessimismo e o optimismo: “Na Régua, é tradição que falhem todas as iniciativas. Falharam as touradas, as exposições fotográficas, o teatro de amadores, o orfeão, a parada agrícola, os desportos náuticos e até o carnaval inventado pelo Chico Pulga. Tudo falhou, menos a Associação dos Bombeiros Voluntários, fundada em 1880, e de ano para ano, mais florescente”.

    É do mesmo escritor a avaliação da sua terra feita na citada colectânea de crónicas: “A Régua, donde quer que se aviste, é uma jóia. Mas, o que lhe dá realce é o estojo, isto é, a concha em que assenta, a bacia da Régua, com as suas montanhas, as suas colinas e o seu rio. Tocada de perto, sem escrínio à vista, desfaz-se-lhe o encanto. É uma jóia de chumbo ou, quando muito, de plaqué.”

    Esta apreciação, feita em 1959, não perdeu actualidade. A exemplo do que vem acontecendo um pouco por este país, as cidades têm crescido anarquicamente, obedecendo a estereótipos urbanísticos para os quais o conceito de identidade é um anacronismo caturra. Vão resistindo à demolição, libertando-se da lei da morte, além de monumentos de interesse histórico, alguns edifícios de autor, com marcas de determinada época, contraponto risonho à construção de imóveis incaracterísticos, preço alto pago à explosão demográfica.

    O edifício do quartel dos bombeiros da Régua é uma pedra preciosa incrustada em colar de pechisbeque. A sua frontaria merece uma paragem no passeio oposto para que possa ser devidamente gozada esteticamente. A harmonia cromática, aliada à elegância e ao bom gosto dos motivos escultóricos, singularizam este exemplar ímpar de arquitectura urbana não residencial.

    Se o meu coração está preso, por razões familiares, logo afectivas, aos Bombeiros da Cruz Branca de Vila Real, a minha simpatia abrange, em abraço fraterno, todos quantos, no país e no mundo, assumem como prioridade das suas vidas a defesa de vidas outras.

    Termino este sucinto testemunho com uma palavra de apreço pela acção desenvolvida em prol dos Voluntários da Régua pelo Dr. José Alfredo Almeida, enquanto entusiasta presidente da sua direcção e também como investigador incansável da história da Corporação, bem patente no seu livro Memórias dos Bombeiros Voluntários da Régua, exaustiva análise de factos e de figuras que lhes deram corpo.
    - M. Hercília Agarez*.

    * - M. Hercília Agarez (Vila Real, 1944). Professora e escritora. É autora do livro de crónicas A brincar que o digas (2001), do ensaio Miguel Torga, a força das raízes (2007), na área da ficção de  Histórias que o Povo Tece - Contos do Marão (2011) e do ensaio Dois Homens um só rosto - Temas Torguianos (2013). Desenvolve também uma notável acção cultural, dedicando-se em especial ao estudo de Camilo Castelo Branco, Miguel Torga, João de Araújo Correia e Luísa Dacosta.

    Clique na imagem para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Julho de 2013. Texo e imagens cedido s pelo Dr. José Alfredo Almeida. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos.

    quarta-feira, 22 de maio de 2013

    O SEMEADOR

    Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, (São Martinho de Anta, 12 de Agosto de 1907 — Coimbra, 17 de Janeiro de 1995) foi um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX. Destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios. (Fonte Wikipédia)

    Clique  na imagem para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Maio de 2013. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos.

    terça-feira, 14 de maio de 2013

    Recortes da net - A curta-metragem “Mau Vinho”

    Rádio Renascença - 13-05-2013 9:59 por Olímpia Mairos - Marcantonio Del Carlo filma curta-metragem no Douro.

    “Mau Vinho” conta a história de um grupo de alunos que vai fazer uma visita de estudos a uma casa vinícola duriense, pedida por um professor, representado por Marcantonio Del Carlo. A história nasce das lendas associadas, não só à vindima, mas também à fertilidade, ao sol, à lua e ao rio. Estreia em Setembro.

    O Douro Film Harvest (DFH) e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) vão produzir o primeiro filme realizado pelo actor e encenador Marcantonio Del Carlo, que começa a ser rodado a 31 de Maio, em Murça. 

    A curta-metragem “Mau Vinho” conta com a participação dos alunos finalistas do curso de Teatro e Artes Performativas da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. 

    Marcantonio Del Carlo revela que a ideia nasceu há cerca de cinco anos, quando começou a dar aulas na academia transmontana. 

    O professor e realizador escreveu o guião do “Mau Vinho” e lançou o desafio aos alunos para participaram na produção. Seis estudantes da UTAD compõem o elenco principal da produção e cerca de 20, onde se incluem estudantes da Escola Profissional de Murça, integram o elenco secundário. 

    “É a primeira vez que se faz um filme com alunos que estão integrados na sua região, com a universidade a que pertencem e, ao mesmo tempo, associados a um grande evento de cinema, como é o DFH”, refere Marcantonio Del Carlo, realçando que “é um grande desafio para todos”. 

    O filme conta a história de um grupo de alunos da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) que vai fazer uma visita de estudos a uma casa vinícola da região do Douro, visita pedida por um professor que é representado por Marcantonio Del Carlo. 

    “Sou eu, o demónio da embriaguez, e vamos visitar essa casa que produz ‘Mau Vinho’ e aí os alunos vão ser raptados por uma seita, representada no filme pelos caretos”, salienta. “Mau Vinho” é uma expressão da cultura popular para dizer que uma pessoa “é má”. 

    “A história nasce muito das lendas que fui estudando desta região, que são imensas e associadas não só ao vinho, à vindima, mas também à fertilidade, ao sol, à lua e ao rio, claro”, acrescenta o realizador. 

    A curta-metragem vai ter 18 minutos, vai ser rodada entre 31 de maio e 03 de junho, em Murça e em outros pontos emblemáticos da paisagem duriense, como o miradouro de São Leonardo da Galafura. 

    A produção estreia em setembro, durante a 5ª edição do Douro Film Harvest, um evento lançado há cinco anos e que se assumiu como o primeiro de cinema descentralizado do mundo. 

    O DFH arranca este ano com uma primeira edição no Rio de Janeiro, que decorre entre 23 e 26 de maio, com o objetivo de promover no Brasil o turismo e os vinhos duriense. O certame combina a colheita dos vinhos produzidos na Região Demarcada do Douro com a sétima arte, associando ainda a música e a gastronomia.

    Clique na imagem para ampliar. Transcrição, edição de imagem e texto de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Maio de 2013. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos.

    sexta-feira, 12 de abril de 2013

    Recortes da net - Histórico Teatrinho da Régua reabre as portas no verão


    Lusa - In RTPNotícias - 11 Abr, 2013, 17:22

    O presidente do município, Nuno Gonçalves, referiu que a obra deverá estar concluída até ao final de maio e que o espaço poderá estar em pleno funcionamento no verão deste ano, depois da instalação do equipamento e de definida a forma de gestão.

    Construído em 1912, o Teatrinho chegou a receber grandes espetáculos de ópera, mas ao longo dos anos foi-se degradando.

    A ideia agora é devolver à população da Régua o edifício classificado como de interesse público.

    Nesta reconstrução procedeu-se a uma ampliação do espaço, mantendo os elementos históricos como os dois balcões e o gradeamento.

    Pretende-se que o edifício seja polifacetado e tenha condições para receber concertos, peças de teatro, exposições ou até mesmo congressos ou apresentações de livros.

    Este espaço é propriedade do IVDP mas o direito de usufruto foi entregue ao MD.

    Para o presidente do instituto público, Manuel Cabral, esta intervenção é um bom exemplo do diálogo e do braço dado entre as instituições.

    "Um dos problemas do Douro é haver alguma debilidade institucional e, pior do que isso, é a falta de diálogo entre as instituições que estão pouco habituadas a trabalhar em conjunto", salientou.

    Agora, falta definir a forma de funcionamento. "É algo que estamos a trabalhar em conjunto, para encontrar um modelo que seja sustentado e sustentável e que permita rentabilizar este espaço em termos culturais", acrescentou.

    Elisa Babo, presidente do conselho de administração da Fundação do Museu do Douro, referiu que o espaço "é um desafio para enriquecer a oferta cultural e o papel cultural da fundação na região".

    Esta obra insere-se "Frente Douro", um projeto do município que quer melhorar a relação da cidade com o rio e atrair investimento.

    O custo do "Frente Douro" já ultrapassa os 13 milhões de euros, conta com o apoio do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) e junta vários parceiros públicos e privados.

    No âmbito deste projeto está ainda em curso a a reabilitação do cais de madeira da estação, bem como a criação da ecopista do Douro, que se estenderá ao longo de mil metros, junto ao rio, e a reabilitação dos espaços verdes ribeirinhos.

    No âmbito do programa de regeneração urbana já está concluído o espaço multiusos (parque de estacionamento e local da feira semanal), bem como a reabilitação da ponte metálica e do cais fluvial.
    Clique nas imagens para ampliar. Edição de imagens e texto de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Abril de 2013. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos