quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Recortes: Régua, antes... Régua, depois...

Clique nas imagens para ampliar. Imagens de José Almeida e Miguel Guedes. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Outubro de 2012. Também publicado no semanário regional "O ARRAIS" edições de 10 e 18 de Outubro de 2012 respectivamente. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. É proibido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue sem a citação da origem/autores/créditos. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O incêndio na Casa Viúva Lopes “Foi um dos maiores incêndios…”


A firma Silvano & Cunhados marcou na vila da Régua o primeiro lugar. Em 9 de Agosto de 1953, fomos vítimas de um incêndio. Nesse dia, estávamos eu e meus filhos no terraço da minha casa, eram ceram de 9 e meia da noite, ainda quase dia. Uma das minhas filhas, disse-me: - “Ó Paisinho, cheira-me aqui a chamusco”. Fiquei inquieto. Mandei à moagem, onde andavam carpinteiros a trabalhar que há pouco tempo tinham saído do serviço, e uma criada veio dizer:- “ É nas águas furtadas e vi roupas das criadas a arder.”

Os populares invadiram a casa, chamaram-se os Bombeiros que demoraram quase uma hora, e desprovidos de uma escada grande, com fracas mangueiras e também a falta de água, que nessa altura se fazia sentir, o fogo tomou grandes proporções, de forma que em pouco tempo o prédio estava todo em chamas.

Ainda a marcar mais esta grande desgraça, houve a infelicidade de no incêndio ter morrido um bombeiro da Régua, o infeliz João dos Óculos, bom rapaz e destemido bombeiro que perdeu a vida na sua dedicada profissão. A nossa casa mandou entregar aos filhos do bombeiro morto 3 contos, mas às diferentes corporações de Bombeiros que vieram de outros concelhos também se entregaram alguns contos, pois que embora a casa ardesse por completo houvera boa vontade de todos os bombeiros, e até mesmo do público, que ajudou a fazer os salvados, embora com esses salvados a nossa casa nada lucrasse, pois reverteram em favor das Companhias de Seguros, que abateram 200 contos nos géneros salvados e outros 200 contos nas paredes do prédio que ficaram direitas.

Foi um dos maiores incêndios que se deram há muitos anos nesta região, onde arderam em poucas horas muitos milhares de contos. As companhias de Seguros cumpriram bem os valores seguros, mas a nossa casa perdeu à sua conta mil e tal contos, pois os valores não estarem actualizados, ainda com a agravante de só em arroz estarem 600 sacos, muito açúcar, centenas de fardos de bacalhau, enfim, todos os andares da casa estavam repletos de mercadoria para a próxima vindima, daí a pouco mais de um mês.

Quando se deu o incêndio, as mercadorias salvas foram colocadas no cais da estação do caminho-de-ferro, que o digníssimo Inspector Sr. Adelino Monteiro nos franqueou e ainda outros inspectores, Chefe da Estação, guardadas, carregadores, enfim todos foram de uma amabilidade grande, ajudando uns, dando ordens outros, para que os salvados fossem guardados. A todos e para todos os nossos agradecimentos.

Os pequenos valores particulares que se salvaram foram guardados na Companhia União Fabril e na fábrica de moagem da firma Carneiro & C.ª, Limitada, que o seu gerente, Sr. Silva, igualmente pôs à nossa disposição. Para todos os nossos amigos e vizinhos vão os nossos agradecimentos mais sinceros, pois nas horas críticas é que se conhecem os amigos.

Logo em seguida aos dias do incêndio, pedimos para que a nossa casa pudesse ser reconstruída. Tais requerimentos foram indeferidos. A nossa casa não podia ser reconstruída visto que os serviços de urbanização da vila da Régua previam o alargamento de mais cinco metros naquela artéria, onde a estrada é das mais largas da Régua. Incomodámos dezenas de amigos, nada se conseguiu, e o casarão da Casa Silvano & Cunhados continua por reconstruir, exposto às agruras dos ventos e chuvas e está neste belo gosto há 16 meses, sem haver quem resolva este grande mal. Mais parece que vivemos no Marrocos francês do que na vila da Régua.

(…)

Aos meus fornecedores e aos fregueses e amigos desejo que Deus lhe dê saúde e as maiores felicidades; igual sorte desejo aos meus colaboradores e empregados da extinta firma Silvano & Cunhados, a todos oferecendo o meu fraco préstimo na Quinta da Vacaria, Régua, ou na minha nova casa comercial na rua João de Lemos, 41 a 49, em frente à Capela do Cruzeiro.

- Fevereiro de 1955, in MEMÓRIAS DE UM PROFISSIONAL DO COMÉRCIO, de Silvano Vitorino Machado, editado pela Imprensa do Douro, Régua-1955.

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Notas: “O Autor deste pequeno livro, que resolveu oferecer gratuito aos seus amigos, chama-se Silvano Vitorino Machado, natural da freguesia de Louza, concelho de Moncorvo, distrito de Bragança. Nasceu em 26 de Dezembro de 1884; tem pois, ao fazer este livrinho, 70 anos.” (citado do mesmo). Ele foi, certamente, um dos maiores comerciantes da sua geração. Foi ele e que geriu o maior e estabelecimento comercial da Régua, a Casa Viúva Lopes, destruído pelo violento incêndio de 1955, que ele não deixou de recordar no livro das suas memórias, intitulado “Memórias de um Profissional de Comércio”.

O comentário que fez sobre a acção que tiveram os Bombeiros da Régua no fatídico incêndio, nomeadamente a demora que ocorreu no combate ao sinistro, mereceu reparos de desagrado da então Direcção da Associação, que o entendeu como uma crítica injusta. Mais tarde, numa carta de 8 de Março de Março de 1955, o comerciante veio explicar o sentido das suas palavras, onde é patente o seu carácter e o seu respeito pelos bombeiros da sua terra: “Estando eu certo, como está toda a gente moradora nesta vila, que esta respeitável e humanitária corporação tem prestado grandes e desinteressados serviços à vila do Peso da Régua e à sua população.” O tempo encarrega-se sempre de fazer justiça aos grandes Homens, incompreendidos no seu tempo e, sobretudo, ao trabalho abnegado e corajoso dos bombeiros, que viram morrer queimado João Figueiredo, com 33 anos, neste incêndio, um dos maiores de sempre na Régua.
Texto e imagens cedidos pelo Dr. José Alfredo Almeida e editados para este blogue. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Setembro de 2012. Atualizado em Outubro de 2012. Também publicado no semanário regional "O ARRAIS" edição de 25 de Outubro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos. 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A minha RÉGUA ! - 46

Fotos que refletem um estado de alma sobre a nossa cidade


Se participa da rede social 'FaceBook', poderá apreciar a coletânea de imagens 'A Minha Régua' (até ao momento com 844 fotos) no álbum 'Peso da Régua'.

Clique  nas imagens para ampliar. Imagens cedidas por José Alfredo Almeida e editadas para este blogue. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Outubro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos. 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O Primeiro Presidente da Direcção

Na primeira vez que entrei na casa da família Magalhães, na Quinta D. Leonor, na encosta de Remostias, encontrarei uma fotografia antiga, pendurada numa parede de uma confortável sala que despertou a minha atenção. De repente, quando olhei o rosto daquele homem sério, de barbas, de olhar algo melancólico e distante no tempo, que pressagiei ser José Braz Fernandes, o primeiro Presidente da Direcção dos Bombeiros da Régua.

Há muito que esperava ver o rosto do homem que considerada uma figura destacada na história da Associação dos Bombeiros da Régua. Até aquela data, verão de 2011, não tinha encontrado nenhum seu retrato, por mais que o procurasse aquele retrato de José Braz Fernandes surgia-me inesperadamente. Eu tinha ido àquela casa para conversar um pouco sobre António Rafael de Magalhães e a sua opereta “O Milagre do Cruzeiro”, que fora representada, pela primeira vez, nos anos 50, com enorme sucesso, no Quartel dos Bombeiros da Régua, que serviu como se fosse um Teatro.

Se a era uma boa razão para estar muito satisfeito, confesso que, sem contar, ter perto de mim o retrato do meu primeiro antecessor me fez sentir um tanto deslumbrado e bastante honrado com a sua companhia, que um pedaço de fio da história nos aproximava e nos unia.

À minha frente, sabia que estava o retrato bisavô do meu amigo, uma preciosidade de antepassado da família, da vida do qual pouco sabiam. No meu indisfarçado encanto, estava diante do meu olhar o retrato do Primeiro Presidente da Direcção.

Nessa tarde de Julho, entre José Braz Fernandes e mim, separava-nos mais de um século, precisamente cento e trinta e um anos, e naquele momento, nada sabia da sua via. Ignorava tudo da sua biografia, apesar de ter procurado alguns rastos de seu percurso pessoal, familiar e profissional. No cemitério municipal, onde sabíamos que jazem as cinzas do seu corpo, procuramos no jazigo da família uma lápide com o seu nome e a data do seu falecimento, mas dali só veio um silêncio profundo. Quando menos esperamos, o Arquivo Distrital de Vila Real dava-nos conhecimento que tinha o assento do seu óbito. Quisemos ter uma fotocópia desse documento que foi preenchido pela mão do Abade Miguel António da Fonseca e Sousa que, assistindo espiritualmente à sua morte, nele registou estes dados: “Aos 30 dias do mês de Septembro do ano de mil oitocentos e noventa e quatro, à uma hora da manhã, nas casas da morada no lugar de Remostias, desta freguesia de São Faustino do Peso da Regoa, concelho do Peso da Regoa, diocese de Lamego, falleceu, tendo recebido o Sacramento da Extrema Unção, um individuo do sexo masculino, por nome de Jose Braz Fernandes, de idade de cinquenta e oito anos, viúvo de Dona Maria da Natividade Candida (…)”.

Para a sua família, José Braz Fernandes era um antepassado longínquo, com quem não tinham havido nenhumas relações de intimidades. Lembravam-no apenas pelo que ouviram contar aos seus descendentes mais próximos. Tinham conhecimento que fora proprietário, dono de uma área extensa vinhas, algumas das quais fazem parte da Quinta D. Leonor. E que sempre viveu aí viveu e educou oito filhos que teve do seu casamento, a Leonor, a Felicidade, a Elisa, a Cândida – também ela uma ilustre benemérita dos Bombeiros da Régua -, o Augusto, o Joaquim, o Romão e o José.

Na única história da Régua, da autoria Afonso Soares, o seu nome está recordado como um cidadão empenhado activamente nas causas sociais, aparecendo ligado à primeira administração do Hospital da Régua e aos órgãos sociais da prestigiada Associação Comercial.

Mas, como o primeiro Presidente da Direcção dos Bombeiros da Régua, ninguém o tinha evocado, para o distinguir num cargo de relevo social. Uma falha que, até hoje me parecia, ser injusta para um cidadão que tinha dedicado, uma pequena parte da sua vida, a servir uma causa cívica e humanitária que, apesar de muitas vicissitudes, ser afirmara no seu tempo.

Ao lado do primeiro Comandante Manuel Maria de Magalhães, seu amigo pessoal, José Braz Fernandes, teve como espinhosa missão, a organização um corpo de bombeiros voluntários, com formação e material adequado. Sem quer fazer uma conjectura do seu trabalho nos quatro anos em que esteve à frente da Direcção, sabemos que concretizou muitos projectos, aqueles que na época eram o objectivo essencial e recebeu das mãos do Rei D. Luís I, uma honrosa distinção para Associação.
Nas entrelinhas das actas da sua Direcção, que chegaram intactas até nós, não ficaram assinalados os resultados do seu trabalho. Quem tiver atenção, ficou bem explícito o traço do seu carácter, a verticalidade e a sua determinação. O exemplo cívico de um homem que viveu uma espantosa experiência humana, a genuína causa do voluntariado.

Desde a fundação, os Bombeiros da Régua mudaram muito. Apoiados numa Associação modelar, que evoluiu e se transformou num sector em mudança permanente, é actualmente uma organização social e de socorro moderna. Para aqui chegar, ser uma instituição sólida e grande, precisou que ele erguesse os primeiros pilares. Quando tudo começou, no dia em tomou posse, o património da Associação era pouco mais que as duas bombas de incêndios pela autarquia. Os sócios contribuintes e os beneméritos, como a famosa viticultora Ferreirinha, contribuíram para comprar as fardas e pagar as rendas da casa que, no Lago da Chafarica, serviu de instalar a sede, a biblioteca e, como se chamava ao quartel, a Estação das Bombas.

Como actual Presidente da Direcção dos Bombeiros da Régua, com cinco mandatos feitos, tenho o dever, mesmo a obrigação, de preservar a memória colectiva da Associação e de todos os cidadãos, bombeiros, directores, associados e beneméritos – que a ela e à sociedade reguense deram muito das suas vidas.

Conhecer o que foi o passado de José Braz Fernandes estimula-me a persistir no engrandecimento da Associação e do Corpo de Bombeiros. Orgulho-me do que foi legado, um empreendimento social, benemérito, generoso e abnegado que continua a existir para proteger as pessoas e bens, assente no associativismo, cidadania e voluntariado.

Em 28 de Novembro de 1880, os Bombeiros da Régua foram pioneiros no distrito de Vila Real. A sua Associação foi a primeira a ser fundada. E, a única, a quem foi atribuído o título honorífico de Real Associação.

Por isso, fiquei contente quando o olhar mesmo distante de José Braz Fernandes, naquele retrato, se cruzou com o meu, quase de um presidente para outro presidente, voltou a pairar – eu penso que com admiração e orgulho - pelo presente da nossa Associação e do Corpo de Bombeiros que, há mais de um século, persistem em ser uma referência ética, cívica e cultural da sociedade reguense.
- José Alfredo Almeida*, 
Peso da Régua, Outubro de 2012



PS - A partir de agora, por gentileza da família Magalhães, uma cópia daquele retrato de José Braz Fernandes está exposto numa galeria do Quartel Delfim Ferreira.
*O Dr. José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também cronicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária e fatos do passado e presente da bela cidade de Peso da Régua.

Clique nas imagens para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Outubro de 2012. Também publicado no semanário regional "O ARRAIS" edição de 18 de Outubro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos.

Em tempo do III Fórum João de Araújo Correia que se realiza a 20 de Outubro no Museu do Douro:

Do texto de João de Araújo Correia (JAC), "Uma Eternidade", que é uma separata do livro de Elísio de Moura - "Vida e Obra - Testemunhos":

"Pouco posso dizer do professor Elísio de Moura, porque não fui seu discípulo. À parte a instrução primária e dois anos passados, aqui na Régua, a estudar francês e inglês, com o mestre particular Francisco Pinto Pereira, o "Chico das Agostinhas", a minha vida estudantil é portuense." - João de Araújo Correia
Clique nas imagens para ampliar. Imagens e texto sugeridos por Dr. José Alfredo Almeida (JASA). Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Outubro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. É proibido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue sem a citação da origem/autores/créditos.