segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Retalhos da net: DORMIR NA RÉGUA...

"T'ás maluco? Vais dormir à Régua? 'Ninguém' dorme na Régua!". Foi esta a reação quase insomníca, de ontem à tarde, assumida por um vila-realense empedernido, quando lhe anunciei que, por uns dias, ia ficar num hotel da Régua, para acompanhar uma missão da UNESCO que vai avaliar da compatibilidade da construção de uma barragem na foz do Tua com o estatuto de "património mundial" do Alto Douro Vinhateiro.

Por natureza identitária, um vila-realense que se preze não gosta da Régua, melhor, "ignora" a Régua, da mesma forma que se "irrita" com essa "irrelevância" regional que é Chaves. Para um cidadão de Vila Real, a sua cidade é um fenómeno isolado, porque entende que Trás-os-Montes (e o Alto Douro) apenas pode, e deve, ser representado pela sua ímpar urbe. E isto não se discute, por mais modesto que um vila-realense possa e queira ser. Há Vila Real e, depois, só há, para lá do Marão, o Porto. E é tudo! É claro que, um pouco mais "lá para cima", há, mas já bem depois, uma "coisa" a que se chama Bragança (e, de caminho, Mirandela e Macedo, além de umas adjacências onde "não se vai", a não ser a caminho de Espanha). Mas tudo isso já é muito "diferente".

A Régua esteve situada a 29 km de Vila Real (hoje já é bem menos), pela "estrada velha", que passava por Santa Marta e cujas curvas nos causavam enjoos infantis. Em alternativa, fazia-se quase uma hora de viagem, pela velha linha férrea do Corgo, para ir aí apanhar, até aos anos 60 (quando a camionagem do Cabanelas nos passou a fazer enjoar pelo Marão), o comboio para o Porto. Mais tarde, a Régua ficou um pouco mais próxima, quando se ia pela encosta contrária, por Nogueira. Mas vamos ser justos: por que diabo um vila-realense ia à Régua? Para nada, a menos que fosse para passar para Viseu, ou para ir a à Senhora dos Remédios a Lamego, num assomo de romaria. Ou, como experiência etnológica, se decidisse passar por lá para comprar rebuçados, às mulheres aventaladas à porta da estação e fotografar a mais pequena barbearia do mundo (que deixo a imagem, ontem registada). Às vezes, em fins de semana invernosos, também se passava pela Régua para "ver" as cheias, quando o Douro, antes das barragens (já estou a fazer política "unescal", como notaram), alagava a marginal.

Nós, em Vila Real, o que é que conhecíamos da Régua? Praticamente, só as "pequenas". Por um excedente de produção de qualidade que nunca ninguém soube explicar, a Régua enviava para Vila Real, para estudar, algumas das mais bonitas garotas que o liceu Camilo Castelo Branco alguma vez teve (e que olhos, senhores!). Os irmãos ou os primos desse "pequename", assumindo uma espécie de "template" automobilístico, vinham sempre à "Bila" de NSU, que traziam aos ralis, às gincanas ou apenas, como dizíamos, para "armar aos cágados", à porta da Gomes, em dias de circuito, a aquecer ruidosamente os escapes. Por essas e por outras é que eu, durante anos, quase que me convenci que, na Régua, não era "gente" quem não andasse de NSU, como se por aí estivesse estabelecido o principal consumo mundial dessas viaturas. "For the record", convém dizer que essas simpáticas colegas vinham cuidadosamente "policiadas" por uma austera (mas muito competente) professora de matemática reguense, a Dona Raquel. Ah! e por falar em policiamento, é também muito importante recordar aqui os "polícias da Régua", tidos como dos mais rigorosos da região, sempre de farta bigodaça e pança proeminente, os quais, dizia-se, eram ferozes a derimir questiúnculas pesadas na zona do Peso (a Régua chamava-se, ou chama-se ainda, nunca percebi bem onde o debate toponímico ficou, Peso da Régua), onde, dizia-se, os ciganos imperavam. "É pior que um polícia da Régua!" era uma frase que, por décadas, se ouvia em Vila Real, para designar alguém com mau feitio. E da Régua chegava, pela voz melodiosa de Carlos Ruela, a "Rádio Alto Douro", para despeito vila-realense, onde imperava um deserto radiofónico.

Muito mais tarde, fomos "descobrindo" que a Régua também tinha, além do vinho do Porto (ninguém, nessa altura, bebia vinho do Porto, confessemos!, salvo no Natal, casamentos e batizados), o Douro e a sua beleza natural, a qual, lamento ter de dizê-lo, nunca contribuiu muito para melhorar a imagem da (agora) cidade, que é um eterno objeto arquitetónico sem grande interesse, com pontes e viadutos a mais. Da Régua vamos ouvindo ainda, SIClicamente, nas televisões, os protestos às 13 ou às 20 horas (horas oficiais dos protestos, no Portugal contemporâneo) dos produtores de vinho da região, sempre cuidadosamente filmados em frente ao "estadonovense" edifício da Casa do Douro, com lavradores querendo mais "benefício" (o conceito demoraria algum tempo a explicar aqui) e, claro, apoios do Estado.

Mas, atenção!, na Régua, ou perto dela, comeu-se quase sempre bastante bem (e este bloguista não é indiferente ao tema, como é sabido). Mais recentemente, ia-se ao "Douro In", agora vai-se ao "Castas e Pratos" (fui lá ontem e foi um jantar soberbo!), sito nos velhos armazéns da estação ferroviária. Mais longe, lá para a Folgosa, o Rui Paula continua a dar cartas no "DOC" (depois de as ter dado no "Cepa Torta", em Alijó, e mesmo mantendo o "DOP", junto à Bolsa do Porto). Para uma experiência um pouco mais "radical", porque terá de se defrontar inevitavelmente com o mau feitio do dono da casa, e sempre avisando com antecedência, vá-se pelo cabrito à "Repentina", já fora de portas. E, para melhor discutir a barragem que por aqui nos traz, poder-se-ia acabar a tarde no "Calça Curta", bem junto à velha estação do Tua.

Eu sou um vila-realense atípico: sempre achei alguma graça à Régua. E hoje vou cá dormir, pensando (sem nostalgias, garanto!) no que será feito das belas reguenses do meu tempo. Boa noite!
Clique nas imagens para ampliar. Imagem e texto do blogue "duas ou três coisas", com a devida vénia. Sugestão do Dr. José Alfredo Almeida e edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Setembro de 2012. Permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue sómente com a citação da origem/autores/créditos.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A minha RÉGUA ! - 41

 
Fotos que refletem um estado de alma sobre a nossa cidade


Se participa da rede social 'FaceBook', poderá apreciar a coletânea de imagens 'A Minha Régua' (até ao momento com 726 fotos) no álbum 'Peso da Régua'.
Clique  nas imagens para ampliar. Imagens cedidas por José Alfredo Almeida e editadas para este blogue. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Setembro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos. 

AS CHEIAS NO PESO DA RÉGUA: PREPARAR O FUTURO CONHECENDO A HISTÓRIA

Major-General  Arnaldo Cruz*
Presidente da ANPC

Quando me solicitaram que escrevesse sobre os Bombeiros Voluntários de Peso da Régua e a sua ação aquando das cheias, rapidamente me ocorreu as inúmeras vezes em que, em conferências ou palestras, ao ser abordado o tema das cheias, surgia como diapositivo da apresentação, uma imagem dessa localidade, com as marcas assinaladas em prédios referentes às cheias de 1909 e 1962. A minha memória retém, também, imagens de visita á região por alturas das cheias de 2001.

Naquelas apresentações seguiam-se os conceitos - a distinção de cheia e de inundação, caudal, bacia hidrográfica, período de retorno, tempo de concentração, pico de cheia -, ou a influência da forma dos vales e da dimensão das bacias nas cheias. E também, as práticas e técnicas culturais agrícolas e florestais adequadas ao aumento do tempo de concentração e as infraestruturas mais utilizadas na regularização do caudal do rio.

Numa pausa, transporto-me, pela memória, no tempo e no espaço, para a região do Douro, que tenho tido a oportunidade de conhecer. Sinto a força e intensidade do rio, das fragas e das gentes que tenazmente, com as suas mãos, moldaram uma paisagem de beleza ímpar e justamente classificada pela UNESCO como Património Mundial.

Trabalho duro, com progressos e retrocessos, em que se evidencia sabedoria. Periodicamente assolada pelas cheias, além da força para se construir e reconstruir, sobressai a humildade de se terem reconhecido os naturais erros, de os corrigir, tendo-se criado, progressivamente, uma estrutura mais resiliente e preparada para a adversidade.

Mas assim como a natureza nos dá essa notável capacidade de evoluir, errando (se o mecanismo da dor não existisse não seríamos hoje o que somos), também faz com que o tempo traga o esquecimento. Hoje, muitos jovens, nunca vivenciaram o tipo de cheias de que os seus pais, avós e a memória do povo aludem, não tendo, por isso, interiorizado pela experiência, as atitudes e comportamentos para fazer face à adversidade.

Regresso à conferência onde se vão abordar programas informáticos de monitorização do caudal, sistemas de aviso e alerta, a cooperação entre as entidades portuguesas e também espanholas, através de acordos bilaterais, para a gestão dos rios internacionais. Se tudo funcionasse bem, aparentemente, não se repetiriam os efeitos de uma qualquer grande cheia. De fato, há uns anos que não se verificam situações semelhantes àquelas que propiciaram as imagens a que inicialmente me referi.

Com a tranquilidade possível que as soluções tecnológicas nos transmitem, sei que, com períodos de retorno possivelmente maiores, é muito provável que ocorram novas grandes cheias no Douro.

Para essas circunstâncias, é necessário que os cidadãos de Peso da Régua e da região duriense ribeirinha estejam preparados, com comportamentos e atitudes adequadas, quer face à ocorrência, quer à sua prevenção.

Se bem que essa preparação possa ser efetuada por muitas instituições, desde a escola à universidade, passando pela comunicação social e outras, é indiscutível, a relevância que os bombeiros poderão ter na mesma, para além da sua inestimável capacidade e prontidão nessas emergências.

Por um lado, é uma competência legal. Na profunda reforma legislativa que tem vindo a decorrer no setor desde 2007, encontra-se previsto, entre as missões dos corpos de bombeiros, o exercício de atividade de formação e de sensibilização junto das populações e é hoje possível, nos municípios em que tal se justifica, dispor de uma equipa de intervenção permanente (caso da AHBV de Peso da Régua), que tem entre as missões possíveis efetuar o reconhecimento dos locais de risco e zonas críticas. Por outro, a crescente qualificação académica no setor dos bombeiros que favorece, para além de uma mais adequada intervenção operacional (resultante da elaboração de estudos, informações, diretivas, planos, ordens e propostas tendo em vista a preparação, a tomada de decisão e a supervisão da sua execução), o incremento de todo o trabalho de prevenção.

A experiencia das recorrentes cheias que havia e das histórias contadas “boca a boca” vai-se perdendo. Mas pode-se falar com cidadãos que passaram por essas adversas circunstâncias e registar as suas opiniões, ver os locais das ocorrências com quem as vivenciou e associar essas informações àquelas que a comunicação social publicou, aos registos no corpo de bombeiros e noutros locais de arquivo. Com camaradas mais velhos, que vivenciaram as situações operacionalmente, é importante falar sobre os poucos meios, técnicas e táticas utilizadas, mas sobretudo a propósito das zonas mais perigosas do rio Douro quando corre cheio.

Quando oportuno, no terreno, com as informações recolhidas, procurar os subtis sinais indeléveis que a natureza vai perpetuando, compreender as adaptações das obras construídas pelo homem ou o porquê de historicamente não se ter construído em determinados locais. Com programas disponíveis na internet, eventualmente gratuitos, é possível assinalar esses locais, marcar áreas, associar fotografias ou vídeos, sistematizar um manancial de informação quer para a sensibilização e informação dos cidadãos, quer para o planeamento, também fundamental.

As ações de sensibilização, ou de formação, para crianças, jovens ou adultos, em sala, ou visitando os locais que testemunham a história comum do rio e dos homens, são essenciais para a Proteção Civil, para a salvaguarda de vidas, de bens e do nosso ambiente.

A AHBV de Peso da Régua tem uma longa história, sobre a qual já muito se escreveu. Para não repetir relatos sobre atos heroicos, penso que a melhor forma de honrar a memória e essa história será avaliar o que hoje fazemos, recorrer às lições do passado, para continuar a preparar para o futuro. Acredito que essa grande mulher que foi D. Antónia Adelaide Ferreira, associada n.º 1 dessa Instituição, partilharia esta convicção. Presto-lhe um sincero reconhecimento, saudando quantos por aqui serviram esta causa e os atuais dirigentes, bombeiros, associados dessa Instituição, e sobretudo às gentes de Peso da Régua.

  • *ARNALDO CRUZArnaldo José Ribeiro da Cruz, natural de Sobreira-Formosa, concelho de Proença-a-Nova, nascido a 16 de Novembro de 1942. Major-General na situação de reforma desde Novembro de 2006, com 41 anos de serviço efectivo no Exército.
Clique na imagem acima para ampliar. Imagem e texto cedidos pelo Dr. José Alfredo Almeida. Também publicado no semanário regional "O ARRAIS" edição de 6 de Setembro de 2012. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Agosto de 2012. Permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue sómente com a citação da origem/autores/créditos.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

CALDAS DO MOLEDO - O nosso único parque

Simples homenagem ao estimado Amigo Dr. José Alfredo Almeida e ao recanto onde nasceu e que tanto o inspira em suas "prosas" neste blogue, as CALDAS DO MOLEDO.

O vício de ler também obriga a sofrer. Quem lê jornais e revistas fica apavorado com a perspectiva de morrermos todos se continuarmos a poluir o ar, a água e a terra. Automóveis, fogões de gás, fumos de fábrica, poluem o ar. Insecticidas e outros venenos poluem a terra e, por sua vez, todas as águas. Não haverá, dentro de poucos anos, se continuarmos a envenenar o mundo, lugar em que se viva. A Terra, como a Lua, girará pasmada, na sua órbita, como cão morto que quisesse morder o rabo. Imagine-se a tristeza dos anjos e dos bem-aventurados quando a virem passar tão morta como louca. À poluição do ar poderíamos opor, como contra-veneno, o oxigénio proveniente da vegetação. Mas, em vez de semelhante medida, recorremos a outra, que é uma rica vasilha com o fundo virado para cima. Com herbicidas, machado e serrote, destruímos a vegetação. Destruímos as fontes de oxigénio. Não nos passa pela cabeça oca a impossibilidade de vivermos sem ele. Pensamos até que não existe, porque ninguém o palpa. É, porventura, uma quimera de sábios.

Se assim é o homem do povo, se assim é o lavrador, e até o homem medíocre, dotado de instrução elementar, não deve ser assim o homem que governa. Esse, por amor ao oxigénio, bênção de que não duvida, respeitará a árvore onde quer que exista. Se lhe faltar a sensibilidade precisa para se comover diante de uma árvore, suplique-a a Nosso Senhor nas suas orações.

Desapareça o tempo em que os governantes, nas cidades e vilas portuguesas, fizeram de cada árvore uma ré condenada ao patíbulo sem defesa. A olhos de poeta, não há canto de Portugal que não chore, como viúvo, a árvore que o embelezou.

Pelo que toca à nossa terra, são horas de nos iniciarmos no respeito devido a cada árvore - fonte de vida e de beleza. São horas, mais do que horas, de plantarmos o nosso parque, fazermos da nossa zona verde, pura ficção, uma realidade.

Enquanto não houver parque municipal, gozemos e amemos o do Moledo, que também é nosso como principal adorno das nossas ricas termas. Não se diga, por vergonha nossa, que não temos árvore capaz de abençoar e amparar o viajante cansado.
O parque do Moledo é o nosso único parque. Ame-se e defenda-se, enquanto não tivermos outro e depois de termos outro. Quanto mais arvoredo, mais beleza e mais saúde...

- João de Araújo Correia - Agosto de 1970
In “Pátria Pequena”, editado pela Imprensa do Douro (1977)
Do Blogue "Malomil" - Grande Hotel das Caldas do Moledo
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Clique  nas imagens para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Setembro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos. 

Douro Film Harvest 2012

O Douro Film Harvest é um ponto de encontro da cinematografia de pessoas e de lugares que tem como palco o Douro Vinhateiro, classificado pela UNESCO como Património da Humanidade. Organizado pelo Turismo do Douro, com o apoio institucional do Turismo de Portugal, tem como principal objectivo aliar as paisagens únicas do Douro, onde nascem alguns dos melhores vinhos do Mundo, a uma «colheita» de filmes premiados. Em plena época das vindimas este evento leva ao Douro alguns dos nomes mais conceituados da indústria cinematográfica, atraindo assim a atenção internacional para uma região única no mundo.
Mais do que uma mostra de cinema, o Douro Film Harvest é uma plataforma cultural e enoturística que constribui para a divulgação e desenvolvimento de uma região com características únicas e um enorme potencial. Ao receber actores como Andie MacDowell e Sophia Loren, realizadores como Carlos Saura e Milos Forman ou compositores e músicos, como Gustavo Santaolalla e Kyle Eastwood, o evento leva o cinema ao Douro, mas leva também o Douro ao mundo do cinema. 

O Douro Film Harvest cria assim um nicho único no panorama internacional de cinema, permitindo simultaneamente uma aliança entre a gastronomia e os vinhos da região, num cenário idílico que é maravilha da natureza. Graças ao seu conceito original foi distinguido pelo Turismo de Portugal com uma menção honrosa como Evento do Ano 2010 e esteve entre os finalistas para o Melhor Evento Cultural Ibérico.
- Fonte "Douro Film Harvest"

  • Bo Derek é a convidada de honra do Douro Film Harvest 2012 - Aqui !