À memória do Professor José Armindo, grande músico reguense
Festa sem música não presta, disse o
escritor João de Araújo Correia na sua deliciosa crónica Música de Poiares escrita, em 1965, no Vida por Vida, antiga folha de informação dos Bombeiros da Régua, mais
tarde recolhida no livro Pátria Pequena.
Aí se fica
a saber que, com tristeza para o escritor, a Régua não tinha uma Banda Música.
Como actualmente não tem, se virmos a Orquestra Ligeira Vale do Douro como uma extensão
dos alunos da Academia de Música da Régua. A única Banda de Música que, naquele
tempo, poderia ressurgir era a de Poiares, a mais antiga do concelho.
Mas, a Régua
a antiga já teve uma Banda de Música. Quem o afirma é escritor se bem que de
uma forma vaga e quase nebulosa. Afirma que foi o sonho fugaz de um homem, o
sonho de José Correia de Magalhães, mas que morreu inglório. Não deu para
vingar e servir para exemplo, o escritor anota que “subiu como um foguete e
estoirou sem brilho.”
A Régua
de hoje sofre do mesmo mal da Régua antiga quanto ao panorama da música. Vai
havendo os ranchos folclóricos que, em nome das tradições, exibem os trajares
de trabalho e festivos, tocam alguns sons e divulgam os cantares à jorna do
cavador duriense. Conta-se também a Fanfarra dos Bombeiros da Régua, já com
alguns anos de existência e também o já respeitável Grupo Coral de Nossa
Senhora do Socorro. O primeiro é parte recreativa dos bombeiros que animas as
festas da casa, nos aniversários e nos acontecimentos marcantes e, pelo verão
adentro, dá colorido a muitas profanas e religiosas. Quanto ao Coro é o bom
exemplo de música erudita, com solenes cânticos religiosos, cantada por vozes
magníficas, que foi dirigida, até há bem pouco tempo, pelo saudoso maestro José
Armindo.
A banda de música
da Régua tem uma história, pequena pelo seu tempo de vida, sem sucessos para
contar, nem o brilho de outras, mas que deixou o seu breve rasto ligado ao
historial dos Bombeiros da Régua. Não há dúvidas que sua fundação a dever-se ao
empenhamento de um homem, para nós desconhecido, o próspero e benemérito comerciante
José Correia de Magalhães que, nos inícios do Séc. XX, no fim da monarquia. Foi
este desconhecido cidadão e a sua dedicação de associado dos bombeiros da
Régua, que o levou a baptizar de Real Banda Bombeiros Voluntários da Régua.
Da minha
parte, bem gostava de poder contar-vos um pouco mais do seu historial, mas o
que sei é muito pouco, não permite fazer mais revelações porque, a haver muito
para desvendar, seria necessário encontrar novos documentos. Surgem da poeira
do tempo apenas indícios fugidios que permitem pouco que uma confirmação da sua
nascença. É o que diz o escritor reguense mais uma pequena nota, inserta no boletim
Vida por Vida, baseado num esclarecimento
que o leitor José Correia de Magalhães Júnior lhe fizera chegar, que aqui se transcrever
na íntegra:
“A propósito do artigo Musica de Poiares,
inserto no nosso último número escreveu-nos José Coreia de Magalhães, desta vila,
que, em palavras amigas, apoia o ponto de vista do articulista, quanto á
reorganização da única Banda de Música existente no concelho.
Passando a evocar
a existência da Banda de Música da Régua, o correspondente informa que a mesma
foi propriedade de seu pai, que, fazendo parte da direcção dos bombeiros,
dedicou à sua Associação, dando-lhe o nome de a Banda da Real Associação dos
Bombeiros Voluntários da Régua. Depois de ter conhecido dias grandes, onde os
regentes eram competentes, tomou a banda como seu Mestre o falecido Sargento
Pelotas, que muito bem tocava cornetim, o que lhe valeu possuir um cornetim de
prata, que lhe foi oferecido pela Rainha D. Amélia; ora, pelo prazer de tocar
cornetim, relegava para plano secundário todos os componentes da banda, e estes
amesquinhados, começaram a desertar e daí o desaparecimento da Banda dos
Bombeiros.
É, porém, com
natural agrado que aqui deixamos este apontamento para recordar tempos idos da
nossa terra.”
Apontamento que, em nossa opinião, vale
oiro. Como oiro vale, o que escreveu António Guedes, antigo Chefe dos Bombeiros
da Régua, que numas das suas crónicas no Arrais
lhe fez uma breve referência. Conta nessas suas memórias outros pormenores
quem não deixam de ter sua importância. Evoca a figura de um mestre da banda que, sem grande jeito e
artístico, ajudou a contribuir para o fim inglório da Banda Música, desta
forma: “Houve uma razoável banda de
música, que se designava Banda dos Bombeiros Voluntários da Régua. Teve como
regente, além de outros, um maestro Neutel, que diziam ser um verdadeiro
técnico nessa matéria, mas tinha o grande defeito de baralhar as fusas e
semi-fusas com as verdadeiras infusas e escangalhou a futrica, pois a Banda
ficou à banda e ruiu estrondosamente.” E, com um sentido de humor, descreve
um episódio passado em Martinho de Mouros, onde a Banda Música, em certo ano,
terá abrilhantando as festas religiosas. Quanto ao mais, apenas confirma a informação
aqui contada.
O que há de novo para contar sobre esta
Banda de Música está referido na notícia que publicou o jornal O Douro, em 1906. Destacava que, nesse
ano, a banda se tinha formado nesse ano, por uma louvável iniciativa do
benquisto comerciante José Correia de Magalhães que também pagou os
instrumentos. Era composta por rapazes que estavam a receber ensaios com regularidade
do mestre Neutel. Os músicos usaram um
fardamento igual ao da corporação e a sua primeira actuação pública aconteceu
na festa do 26º aniversário da Associação.
Sobre a Real Banda dos Bombeiros da Régua é
isto mais que sabemos e completam os testemunhos de João de Araújo Correia e o
de António Guedes. Fica-se a saber um pouco mais do passado reguense, a sua sociedade
civil, a prosperidade dos seus comerciantes e a importância que, então,
granjeava a Associação Humanitária. O que não são as verdadeiras razões porque
essa Banda de Música acabou.
Quem, um dia, se voltar a interessar pela Banda de
Música dos Bombeiros da Régua, poderá saber mais. E, nos consiga dizer, qual
foi a sua importância para a história da associação humanitária que, há mais de
um século, participa nas principais
actividades recreativas na sociedade reguense.
- Texto de José Alfredo Almeida e desenhos de Mónica Baldaque
Clique nas imagens para ampliar. Texto de José Alfredo Almeida e desenhos de Mónica Baldaque. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Julho de 2012. Publicado também na edição de 12 de Julho de 2012 do semanário regional "Arrais". Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos.