sexta-feira, 22 de junho de 2012

Na inauguração do monumento a Afonso Soares

Discurso de  Alberto de Almendra Valente
“Afonso Soares era a encarnação viva de cidadania”

"Ex. mas  Autoridades Eclesiásticas, Militares e Civis, Minhas Senhoras e Meus Senhores:
Delegou em mim a Ex.ma Comissão do Monumento a Afonso Soares, a alta missão, de nesta ocasião transcendentemente espiritual para a gente da Régua, proferir algumas palavras sobre o digno homenageado.
Agradeço, desvanecido, a honra que me quiseram dar, sobretudo manifestamente conhecido como é, que, em meios a tantos títulos ilustre, não hesitaram em rejeitar o brilho da palavra de muitos, para dar preferência a elemento que, somente, poderia igualá-los, pondo o coração a falar. Aceitei porque estou sempre pronto a todo o serviço que me ordenem em prol desta sagrada terra, mas antes, rogo a Deus que lhes perdoe o mau gosto de preferência, que poderá resultar brutalmente para a sua generosidade, visto que os olhos do meu espírito se negam, por vezes, a colaborar nestas lidas, mergulhando-me, quando menos espero numa treva horrível.
Fujo quando posso a trabalhos que exijam cogitações, estudos ou confrontos, receando ser obreiro da Torre de Babel, vencido quando menos se previa!
De resto, a luz da minha exigência foi sempre de camarada e brilho e de intensidade, e paz, portanto de uma surpresa clara.
Ex.ma Comissão:
Parafraseando Vergílio: Falta-me força para apreciar jóia de tão pouco puro quilate!
Eis o que valho. Todavia, como sou, aqui estou às ordens de V. Excias!
Senhoras e Senhores...
No remanso do seu lar, pequeno e humilde, se fez e cresceu  a grande figura que a colaboração de muitos, aproveitada por dois, manterá eternamente neste formoso recanto, como Reguense de Lei.
Alma Angelical!
Amigo Extraordinário!
Nunca sua boca se abria que não fosse para aconselhar ou ensinar, ou para numa linguagem pessoalíssima, nos deliciar com as mais interessantes narrações.
Tinha no olhar a expressão dulcíssima do sol que aquece e ilumina a alma dos desgraçados!
Afonso Soares era a encarnação viva de cidadania; e dispunha sensibilidade tão fina que parecia animar todas as imagens que o cercavam.
Nos últimos anos da sua vida e à medida que a decrepitude lhe diminuía a estatura, ia-se agigantando, progressivamente, e de modo tal que chegava a convencer já detentor de expressão, palavra e olhar de ser pairando alto, na vizinhança do Senhor!
Escreveu a História da Régua: Trabalho honesto e perfeito, fruto de estudo e observação, ao longo dos anos, e realizando em meio ingrato, como o nosso, onde correntes acentuadamente comerciais e agrícolas, consomem todas energias aos seus habitantes.
Desempenhou, com mestria, vários cargos e, alguns, de manifesta responsabilidade.
Comandou os bombeiros, dirigiu jornais, havendo-se sempre como homem de equilíbrio e irrepreensível.
Como pintor, marcou admiravelmente.
E, como já em tempos afirmei, não creou escola. Tão modesto nunca realizou “salões”. Seu nome não transpôs fronteiras, nem, tampouco, sua terra deixou.
Valasquez, Murrillo e tantos outros, ganharam asas e procuraram grandes centros de arte, onde se agigantaram.
Todavia, Afonso Soares, seguiu a trajetória de grandes mentalidades Universais, que dispensam escola para se manifestarem génios!
Essa expressão magnífica de mármore e bronze, que passa a ser um padrão de glória da nossa terra, esse grito de arte, concebido por um homem que legará à Pátria Portuguesa uma obra imortal, mostrará aos que passarem, o interesse, o carinho que merecem aos reguenses os triunfos dos seus filhos!
Fez vibrar, de lés- a-lés, quem se interessa pelas nobres manifestações do espírito, numa hora de conturbação demoníaca, que tudo parece subverter!
Ó Régua, Régua! Coração das montanhas doiradas, trono esplendoroso do Vinho do Porto, altar de Nossa Senhora do Socorro, doce lar dos meus filhos, ninho dos meus amigos! Acabas de escrever mais uma das famosas páginas da História que Afonso Soares principiou!
Que a lição sirva de exemplo a quantos se propuseram à direcção da tua vida, dos teus anseios, para que os vindouros possam dizer-se filhos da terra mais rica e bela do Universo.  
- Peso da Régua, 17 de Abril de 1950

Notas: A cópia deste discurso foi cedida pelo Senhor José Stuart Torrie, Cônsul Honorário em Rouen, na França, um dos netos de Afonso Soares. Também nos cedeu várias fotografias, alguns registos biográficos da família e dos descendentes de Afonso Soares, um precioso recorte da notícia do jornal “Primeiro de Janeiro” (com a informação alusiva à inauguração do monumento da autoria do escultor Henrique Moreira), cópia de outros discursos manuscritos e alguns comentários dactilografados sobre o cidadão, jornalista, artista, escritor, autor da História da Vila e do Concelho do Peso da Régua e inesquecível Comandante dos Bombeiros da Régua.
Sobre a inauguração do monumento à memória de Afonso Soares destaca-se da notícia publicada pelo extinto diário portuense ainda o seguinte: “A comissão que tomou a feliz iniciativa da erecção do monumento, era constituída pelos antigos alunos da sua escola de pintura, Srs. António Teixeira e Armindo Mesquita. Nas cerimónias realizadas, colaborou a Associação de Bombeiros, de cujo corpo activo Afonso Soares foi também digno comandante. Essas cerimónias foram as seguintes: Romagem ao cemitério; Missa na Igreja Matriz, bênção e baptismo das 2 novas viaturas da Associação de Bombeiros. O pronto-socorro de que foi “madrinha” a Sr.ª Zélia Fernandes de Carvalho, senhora ilustre e bondosa, viúva do importante proprietário Sr. António Fernandes e irmã do prestigioso duriense que foi o Dr. Antão Fernandes de Carvalho, recebeu o nome de “Santo António”. A ambulância, de que foi «madrinha» a Sr.ª D. Maria da Conceição Soares Torrie, em representação da Sr.ª D. Maria Estefânia Monteiro Guedes, recebeu o nome de “Santa Maria”, em homenagem à mãe do benemérito Sr. Feliciano Monteiro Guedes.
Organizou-se depois um grande cortejo, em que se incorporaram bombeiros, escuteiros da Régua e de Godim, autoridades, representantes dos organismos locais, etc., cortejo que acompanhado de uma banda de música se dirigiu ao pequeno jardim do Cruzeiro, onde se fez a inauguração do monumento que se encontrava coberto pelos estandartes de várias agremiações, cujos emblemas obedeceram ao desenham do artista notável que o homenageado foi. Estavam presentes as suas filhas, Sras. D. Fausta Soares Osório de Almeida e D. Maria da Conceição Soares Torrie e netos Sr. José Afonso Soares Osório de Almeida e meninos José e Isabel Maria Soares Torrie. Por parte da comissão promotora, usou da palavra o Sr. António Teixeira, tendo-se seguido o Sr. Alberto Almendra Valente. Após a inauguração, a corporação de Bombeiros desfilou em continência, tendo as filhas e os netos de Afonso Soares recebido os cumprimentos”.

Clique nas imagens para ampliar. Sugestão de texto e imagens de JASA (José Alfredo Almeida) para este blogue. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Junho de 2012. Texto também publicado na edição do semanário regional "O Arrais" de 21 de Junho de 2012. Só permitida a cópia, reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A minha RÉGUA ! - 31

Fotos que refletem um estado de alma sobre a nossa cidade



Se participa da rede social 'FaceBook', poderá apreciar a coletânea de imagens 'A Minha Régua' (até ao momento com 514 fotos) no álbum 'Peso da Régua'.
Clique  nas imagens para ampliar. Novas e inéditas imagens serão publicadas em breve. Imagens cedidas por José Alfredo Almeida e editadas para este blogue. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Junho de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroTodos os direitos reservados. É proibido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue sem a citação da origem/autores/créditos. 

Guerra Junqueiro - Excerto do poema “Aos Simples”

- Sei que este poema também o lembra de sua saudosa Mãe... afinal, o nosso melhor Mundo! (JASA)

Minha mãe, minha mãe! ai que saudade imensa,
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
E a Lua branca, além , por entre as oliveiras,
Como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu!...
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a Lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
Que mandasse um alívio a cada sofrimento,
Que mandasse uma estrela a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia.
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paixões e por todas as mágoas…
Pelos míseros que entre os uivos das procelas
Vão em noite sem Lua e num barco sem velas
Errantes através do turbilhão das águas.
O meu coração puro, imaculado e santo
Ia ao trono de Deus pedir, como inda vai,
Para toda a nudez um pano do seu manto,
Para toda a miséria o orvalho do seu pranto
E para todo o crime o seu perdão de Pai!...
………………………………………………
A minha mãe faltou-me era eu pequenino,
Mas da sua piedade o fulgor diamantino
Ficou sempre abençoando a minha vida inteira
Como junto dum leão um sorriso divino,
Como sobre uma forca um ramo de oliveira.
Abílio de Guerra Junqueiro (1850-1923) nasceu em Freixo de Espada à Cinta, formando-se em Direito na Universidade de Coimbra. Foi funcionário público e deputado, aderindo em 1891, com o Ultimatum inglês, aos ideais republicanos. Influenciado por Baudelaire, Proudhon, Victor Hugo e Michelet, iniciou uma intensa escrita poética com o fim último de, pela crítica, renovar a sociedade portuguesa. Retirou-se para uma quinta no Douro, regressando à política com a implantação da República, tendo sido nomeado Ministro de Portugal em Berna. Obras: A Morte de D. João (1874), A Musa em Férias (1879), A Velhice do Padre Eterno (1885), Finis Patriae (1890), Os Simples (1892), Pátria (1896), Oração ao Pão (1903), Oração à Luz (1904), Poesias Dispersas (1920). Em colaboração com Guilherme de Azevedo, escreveu Viagem à Roda da Parvónia. - In Projecto Vercial
Clique nas imagens para ampliar. Sugestão de texto e imagem do José Alfredo Almeida. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Junho de 2012. Só permitida a cópia, reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos. 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Jaime Ferraz Rodrigues Gabão partiu há 20 anos

O Jaime

Com a chegada do Outono, das primeiras chuvas e de uma friagem a despertar as alergias, inicio o meu luto do Verão. Atenuo a saudade nos arquivos da minha memória e atraco ou aterro nos lugares do sol. Deixem-me aterrar, por hoje, no Moçambique inesquecível.

Era um fim de tarde de um Março de sessenta e oito. O velho DAKOTA da DETA, com óleo a espirrar nos parafusos das asas, vindo de Nampula, fazia a aproximação a Porto Amélia, cidadezinha plantada numa escarpa sobranceira ao Índico. Desenhou um arco para apreciar a baía e, desacelerando sobre o Paquitequete, apontou ao Aeroporto, designação pomposa para um casarão ao lado (e mais ou menos a meio) de uma fita vermelha de terra batida, qual picada de capim aparado. Descemos por um escadote que me lembrou aqueles que, antigamente, se encostavam aos carros de bois para levar os almudes até às pipas. A noite caía com um pôr do sol arrebatador sobre as águas de Wimbe. Em África os dias acordam cedo e esplendorosos como um grito de felicidade e adormecem envoltos numa plangência que angustia as almas mais empedernidas. Cem anos que eu durasse nunca - mas mesmo nunca - esqueceria aqueles anoiteceres com os chiricos e os barucos silenciados pelo concerto das cigarras e uma ferida de sangue inocente a despedir-se do mundo.

Eu viera à frente, feito explorador de logística, na companhia do Pires, furriel alentejano, esfuziante e solidário, sem futurar (mos) a sua morte numa curva da Serra do Mapé, nas terras de Macomia, deixando-me, estupidificado, com o seu fio de ouro no bolso que, numa trágica premonição, me confiara. O resto da tralha e do pessoal chegaria no Pátria(*), aproveitando a sua passagem por Nacala, em rota, desde Lisboa, carregado com mais um contingente.

Foi em Porto Amélia - esqueçamos más recordações - que conheci um dos grandes Amigos da minha vida: o JAIME. Para os leitores deste semanário, a quem devotou o melhor da sua colaboração, e dos reguenses em geral, a quem prestou variados préstimos: o JAIME FERRAZ GABÃO. Labutava nos escritórios de uma empresa algodoeira - a Sagal - e como correspondente, para toda a província de Cabo Delgado, do DIÁRIO (de Lourenço Marques). Com ele reencontrei as minhas (as nossas) raízes e mutuamente nos amparamos nas saudades delas. Saído da Capital Vinhateira em busca de uma vida mais desafogada... Pertencia aos cabouqueiros de África que se misturavam com as raças e as etnias numa confraternização de que só duvidavam os que nunca tiveram a oportunidade de serem felizes naquelas paragens. Não me admirava, assim, que, mesmo com a lembrança dos socalcos, ele desejasse morrer na terra onde readquiria a dignidade, acariciado pelas manhãs claras e as noites cacimbadas.

Passamos horas, nas cadeiras da pensão Miramar, ouvindo "estórias" das savanas, bebemos cerveja no Marítimo e café no Pólo Sul derramando o olhar para o pequeno cais à espera de um dia de "S. Vapor", vimos "E o Vento Tudo Levou" no cinema-barracão, subimos e descemos as escadinhas que ligavam a parte alta à Jerônimo Romero do comércio, abriu-me a porta e sentou-me à mesa de sua casa sem horas nem lugares marcados, relacionou-me na sociedade civil e facilitou-me as páginas do seu jornal sem uma censura ou "sugestão".

Mal sabia ele que haveria de acabar os seus dias na terra que o viu nascer, obrigado ao regresso por uma descolonização exemplar, com os olhos húmidos pelas lembranças dos corais da praia dos coqueiros e dos campos de algodão.

Quando vou ao Peso(**) visitá-lo, trago comigo o seu sorriso moçambicano.

- Por M. Nogueira Borges - In Arrais de Novembro de 2003

(*) = Pátria - Navio de passageiros português da antiga Companhia Colonial de Navegação e que fazia o transporte de cargas e passageiros entre o continente europeu (Lisboa) e a costa Africana (antigas colônias de Portugal).

(**) = Peso - Parte alta da cidade de Peso da Régua. Ali se localiza o cemitério onde Jaime Ferraz Rodrigues Gabão está sepultado.

De Jaime Ferraz Rodrigues Gabão:
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Retalhos da net - Tertúlia João de Araújo Correia


SEGUNDA-FEIRA, 18 DE JUNHO DE 2012

Apresentação do n.º 2 da revista “GEIA”
Dia 20 de Junho, quarta-feira, pelas 21h00
na Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro, em Vila Real
A revista “GEIA” é o órgão oficial da Tertúlia João de Araújo Correia, sediada na Régua e criada há mais de dez anos com o intuito de preservar a memória do escritor e de divulgar a sua vasta bibliografia.
Da importância do autor de “Sem Método” fala o editorial do presente número: «A obra do autor reguense reflecte, com mestria, realismo, emoção, sobriedade e pitoresco de linguagem, a realidade geográfica e humana da sua região natal e faz eco das suas preocupações sociais, ecologistas, urbanísticas, etnográficas e paisagísticas. Além de outros pontos de interesse, tem ela o condão de nos fazer recuar aos tempos do rio de “mau navegar” e aos usos e costumes de uma ruralidade fértil, de geios, de cestos vindimos, de rogas e lagaradas, da festa da vinha.»

A apresentação, a cargo de Helena Gil e de Hercília Agarez, terá lugar no dia 20 do corrente, quarta-feira, pelas 21h00, na livraria Traga-Mundos em Vila Real.
Venha reavivar a memória deste ilustre escritor e intelectual duriense. Contamos com a sua presença...
Tertúlia João de Araújo Correia
Morada:R. Dr. José Sousa
5050-275 Peso da Régua