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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Biblioteca de Maximiano Lemos


Não há ninguém que não saiba que a AHBV do Peso da Régua possui uma magnífica biblioteca, e que apesar de não se encontrar aberta ao público, está ao dispor de qualquer de um, no 2º andar do edifício do quartel. Aliás, em tempos ainda recentes, ela foi a única biblioteca que sucessivas gerações de jovens da Régua puderam frequentar para aí lerem ou levarem para casa os seus primeiros livros.

Mas, poucos devem saber que essa biblioteca tem um grande passado. Embora não pareça pode dizer-se que é muito antiga. Ela começou por existir no primeiro edifico do quartel que ficava no Largo dos Aviadores e funcionou depois no quartel instalado até 1954, numa velha casa da Rua dos Camilos, onde alguém dizia que “havia uma estante de livros sonolentos, perturbados, muito de longe em longe por esporádico leitor.”

A existência da biblioteca foi uma intenção dos fundadores e dos primeiros sócios. Embora o primeiro objectivo fosse a criação de uma companhia de bombeiros, aqueles homens entenderam que se justificava um fim complementar que proporcionasse nos tempos de lazer e de ócio algumas actividades recreativas e culturais aos bombeiros e aos associados. Como havia a intenção de concretizar rapidamente essa ideia, consagraram a sua criação na redacção dos estatutos primitivos, com indicação expressa de que a “associação pode também ser recreativa, havendo casa de leitura (…) quando circunstâncias especiais do cofre o permitirem.”

O historiador José Afonso Oliveira Soares, autor da História da Vila e Concelho do Peso da Régua, fala da biblioteca dos bombeiros, a qual chegou a conhecer pelas suas funções de comandante do corpo de bombeiro. No seu livro, ele afirma que a biblioteca foi inaugurada em Janeiro de 1885, dando-nos conhecimento que ela surgiu “devido a um desejo de um contribuinte e à muita iniciativa e valiosíssimos esforços do Dr. Joaquim Correia Cardoso Monteiro, a quem no dia em que foi aberta aos seus associados, se referiram com grande aplauso em brilhantes discursos Paulo de Barros, Afonso Mesquita Chaves e José Joaquim Pereira Soares Santos.”

A biblioteca dos bombeiros, ideia original dos primeiros associados, foi uma prenda oferecida por um benemérito que, por modéstia, não permitiu que seu nome fosse conhecido ou revelado. A ele se deve a concretização da ideia e, apesar do anonimato, merece o nosso maior elogio de consideração e gratidão. Pelo menos, este reconhecimento histórico ninguém o acha injusto. Não sendo possível evidenciar o seu nome, a sua ajuda ficou perpetuada no tempo, com a sua continuidade da biblioteca até aos nossos dias. O grande escritor reguense, uma crónica intitulada “Primórdios”, publicada em Dezembro de 1963, no antigo jornal da associação “Vida por Vida”, comenta esta situação com as considerações seguintes:

“ Pena é que o saudoso historiador da nossa vila e concelho mão tenha nomeado o sócio contribuinte, que tanto desejo ver o nosso quartel espiritualizado com uma livraria. Dizemos tanto desejou, porque o seu desejo moveu a vontade do Dr. Joaquim Correia Cardoso Monteiro.

Devemos a um anónimo a fundação, em 1885, da nossa Biblioteca. Se soubéssemos o nome dele, seria obrigação perpetuar-lhe a memória com algum voto condigno. Como não se sabe, imagine-se que foi o humilde benemérito. Algum obscuro artista, amigo da Instrução…

Obscuro não deve ter sido o Dr. Joaquim Correia Cardoso Monteiro, propulsor da luminosa ideia do sócio contribuinte. Inscreva-se-lhe o nome numa lápide se não pudermos eternizar-lhe o retrato entre os nossos livros. Devemos gratidão a esse antepassado.

As coisas são como os rios. Têm origem que, embora tímida, nunca é desprezível. A nossa Biblioteca nasceu em 1985.Ninguém esqueça essa data.

Nascida em 1885, só em 1960, em pleno século actual, veio a ser baptizada. Na província, a marcha de qualquer intuição é sempre lenta.”

As palavras do grande escritor duriense mantêm-se plenas de actualidade. Desde logo, elas mostram o carinho que dedicou a esta biblioteca que, ao que sabemos, ajudou a melhorar e a crescer. Pelo que se conta, o nome do seu patrono - o insigne Dr. Maximiano Lemos - deve ter sido uma sua proposta, que foi aproveitada pela direcção do Dr. Júlio Vilela. Pena é que ninguém dos sucessivos directores, tenha dado ouvidos ao seu prudente conselho. Ainda está lembrar, para que o tempo e o esquecimento dos homens não apaguem, o gesto do anónimo benemérito responsável pela criação da biblioteca.

A história da biblioteca dos bombeiros não se resume a este importante episódio. Na década de 60, com o novo quartel em funcionamento, a direcção dos bombeiros decide instalá-la numa sala condigna e baptiza-la com o nome do ilustre médico reguense – e importante professor da história da medicina portuguesa - o Dr. Maximiano Lemos.

Durante as cerimónias do centenário do nascimento deste reguense, em 3 de Dezembro de 1960, o Governador Civil de Vila Real, o Coronel Pinto de Sequeira, que se fez acompanhar do Dr. Fernando Bandeira, Presidente da Câmara Municipal da Régua, do Dr. Júlio Vilela, presidente da direcção da associação e pelo saudoso Chefe Claudino Clemente, preside à inauguração da biblioteca Maximiano Lemos.

Essa nova fase da biblioteca dos bombeiros foi evocada pelo escritor João de Araújo Correia, na crónica “Biblioteca de Maximiano Lemos”, que em Novembro de 1963 escreve para o jornal “Vida por Vida”, da qual transcrevemos uma elucidativa e interessante parte:

“A Biblioteca de Maximiano Lemos, inaugurada em 1960, ao comemorar-se o primeiro centenário do seu ilustre patrono, vai ser enriquecida, no próximo Novembro com uma valiosa colecção de livros oferecidos pela Fundação Calouste Gulbenkian. Diremos, para ser precisos, que vai funcionar, dentro da Biblioteca de Maximiano Lemos, uma das bibliotecas fixas da Fundação Gulbenkian.

Queremos crer que as suas bibliotecas não brigam uma com a outra, antes se auxiliam e completam. A de Maximiano Lemos é uma livraria pobre e livraria velha herdeira da primitiva estante dos Bombeiros e acrescida de alguma oferta particular. Mas, sempre conterá, como velha, embora pobre, alguma espécie rara, útil a estudiosos ou bibliófilos. A da Fundação, constituída por livros em barda e todos em folha, será útil ao comum dos leitores. Será própria para os desbravar e lhe estimular os gostos da leitura.

Uns e outros deverão acautelar-se de inúteis desvios. Não falta quem se aproprie de livro alheio só para o ter ou deixar perder, nanja para o ler e se instruir com ele. É como cultivasse a arte de tirar por tirar.

Ninguém deve esquecer, aqui na Régua, o que aconteceu à antiga biblioteca municipal, fundada pelo Dr. Claudino de Morais, no século passado. Quando, em 1937, houve incêndio nos Paços do Concelho, já os livros tinham desaparecido. Oxalá não suceda o mesmo aos livros da biblioteca de Maximiano Lemos, agora enriquecida com a inestimável oferta da Fundação Gulbenkian.”

Com salienta o escritor reguense na última crónica, a Biblioteca de Maximiano Lemos recebeu, em Novembro de 1963, no seu espaço a Biblioteca Fixa nº 54 da Fundação Gulbenkian que aí funcionou até aos inícios da década dos anos 80. Durante muitos anos, na Régua não havia qualquer biblioteca pública. Não admira que a biblioteca dos bombeiros tenha feito as delícias de muitos adolescentes. Nas férias do verão, aquela biblioteca era o lugar preferido para se lerem os livros de aventuras de Emílio Salgueri e de Jack London, acompanhados pelo sabor de uma cremosa “Bola de Berlim”da Confeitaria Pinheiro e, já mais tarde, escolher os das poesias de Fernando Pessoa. Nem a D. Lurdes, a simpática secretária, com os seus permanentes avisos para não fazerem barulho, os conseguia manter quietos e calados enquanto o desejado livro não viesse parar nas mãos. Bons tempos aqueles… em que se vislumbrava da imponente varanda da sala, nos longos dias de sol, uma paisagem fantástica sobre o rio Douro.

A Fundação Gulbenkian fechou a sua biblioteca fixa há alguns anos. Foi uma pena…para a Régua. Mas, não levou nenhum dos livros desse tempo. Deixou-os nas estantes de madeira da Biblioteca de Maximiano Lemos. Como assim a quisesse ainda deixar viva, apesar de ser velhinha, mantendo os livros antigos e de edições raras. Só não tem os seus leitores como devia e merecia para melhor honrar a memória do seu patrono. Acertadamente, o escritor reguense avisa-nos: “Os livros privativos da Biblioteca de Maximiano Lemos são, quase, todos, livros veneráveis. Contam, de idade, 78 anos. Necessitam de restauro, que só poderá ser feito por especialistas. Embora…É para nós ponto de fé que nos ajudem nesse empreendimento. Merece-o a ideia do sócio contribuinte de 1885.”

Merecem ainda todos aqueles para quem a biblioteca dos bombeiros é um lugar sagrado que guarda os maravilhosos livros que nos fizeram pensar e crescer. Um lugar mágico, onde aprendemos a gostar mais dos bombeiros da Régua.
- Peso da Régua, Novembro de 2009, J. A. Almeida.
(Clique nas imagens acima para ampliar)

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A Biblioteca dos Bombeiros

“Sempre imaginei o paraíso como uma grande biblioteca.”
Jorge Luís Borges

Estou no alto do Quartel Delfim Ferreira, na varanda da Biblioteca dos Bombeiros, no terceiro piso de um dos edifícios mais bonitos da Régua, onde sobressai uma imponente fachada esculpida em granito pela hábil mão de um grande mestre pedreiro, a observar a paisagem do além Douro, as vinhas de cores outonais que serpenteiam o Vale Abraão e, ao fundo do Salgueiral, uma curva do rio a espreguiçar-se, numa manhã intensa de luz.

Quando, há mais de cem anos, se formaram os bombeiros da Régua, equipados de um carro bomba e algum material rudimentar para apagar fogos, estavam bem longe de imaginar que a casa de leitura, que começou numa velha estante de mogno cheia de livros oferecidos, se tornaria, desde então, um lugar cultural de referência na Régua.

Quem ainda conheceu essa velha estante de livros e se deslumbrou com ela foi João de Araújo Correia quando, muito novo, acompanhava o seu pai, ao tempo bombeiro voluntário, ao quartel. Mais tarde, o homem e o escritor, sem sair do seu sagrado eremitério e com a ajuda dos seus amigos de Lisboa, conseguiu convencer a Fundação Gulbenkian, nos inícios dos anos 60, a fazer da velha estante da sua infância uma biblioteca ordenada, catalogada, com mais obras literárias e edições recentes. Se assim o soube idealizar, depressa lhe fizeram a vontade e nasceu a Biblioteca Dr. Maximiano de Lemos, com livros oferecidos pela benemérita instituição, o que, naquele tempo, foi motivo de regozijo para muitos jovens leitores, ávidos de descobrir novos autores.

Também eu frequentei esta moderna Biblioteca dos Bombeiros da Régua no meu tempo de adolescente. A partir dos meus treze anos tornou-se um lugar de passagem obrigatória, três ou quatro vezes por mês. A bem dizer, eu estava a iniciar-me nos livros, em novas leituras e autores desconhecidos que iam despertar a minha imaginação para lá das portas do pequeno mundo que, até àquele momento, estava ao meu alcance e me era visível da varanda da biblioteca. Confesso que, não sendo um admirador de ficção científica, procurei naquela biblioteca, por recomendação de um amigo, um livro com o estranho título de Fahrenheit 451, da autoria do escritor americano Ray Bradbury, de 1953. Mal eu sabia que nele ia encontrar, como personagem principal, um bombeiro encarregado não de apagar os incêndios, mas de queimar livros. Sim, aquele bombeiro de nome Montag tinha a missão de queimar LIVROS…! Para mim, estava muito claro que a função dos bombeiros nunca seria essa. Queimar livros, um acto que resume apagar, incinerar o conhecimento, a ilusão, a magia e a memória do Universo. A princípio pensei que o autor se tivesse enganado, mas percebi que, admirador de livros e de bibliotecas, onde até escreveu aquela sua obra, pretendia fazer uma crítica aos regimes totalitários de então, que viam o livro como um perigo e um inimigo, ao mesmo tempo que satirizava o poder da televisão e a alienação que ela exerce sobre a maioria das pessoas.

Se hoje recordo o livro que fala de uma missão que nunca será a dos Soldados da Paz é porque quero voltar, ainda que fechada a público, à Biblioteca dos Bombeiros, com tempo para revisitar livros raros que ali se guardam, sempre à espera de novos leitores. 
Quero também lembrar o nobre exemplo de cidadania dos primeiros bombeiros e o seu contributo para organizar uma biblioteca como a nossa. Eram homens generosos, sensíveis e que apreciavam a cultura como uma forma de valorizar e enriquecer as suas vidas. Eles foram pioneiros numa atitude que, naquele tempo, foi aplaudida e acarinhada também pela sociedade civil. De uma pequena estante de livros fizeram uma biblioteca preservada e mantida pelas gerações vindouras, que estimulou os hábitos de leitura e que cresceu com a oferta de milhares de exemplares de colecções de livros raros. Sem terem lido o romance Fahrenheit 451, que haveria de ser publicado na nossa época como uma obra que pretendia prever o futuro, os primeiros bombeiros da Régua conheciam o valor dos livros e a importância de ter uma biblioteca. Entre outros, tiveram à sua disposição na velha estante autores portugueses e estrangeiros, os clássicos e os contemporâneos, e até aqueles que, sendo naturais da Régua, tinham sido publicados a nível nacional, como Afonso Soares, Bernardino Zagalo e Mário Bernardes Pereira. Para além de obras esquecidas destes nossos conterrâneos, encontrei um livro do poeta ultra-romântico João de Lemos (1819-1890), celebrizado pela poesia “A Lua de Londres”, que começa com estes memoráveis versos:

É noite. O astro saudoso 
rompe a custo um plúmbeo céu, 
tolda-lhe o rosto formoso 
alvacento, húmido véu, 
traz perdida a cor de prata, 
nas águas não se retrata, 
não beija no campo a flor, 
não traz cortejo de estrelas, 
não fala de amor às belas, 
não fala aos homens de amor.

O livro do poeta reguense intitula-se Canções da Tarde e a sua primeira edição saiu na Typografia Portuguesa, de Lisboa, em 1875. Sobre esta obra em concreto não se sabe como a crítica fez a sua recensão, mas é interessante salientar que a poesia deste autor mereceu apreciações literárias positivas, como esta de J. A. Barreiros: “cantou o amor, Deus, a Pátria, sentimentos íntimos, em versos de acento melancólico e de grande emoção lírica. (…) O ritmo musical, em algumas composições, é de excelente efeito e apropriado à declamação”. O poeta ultra-romântico teve fiéis leitores e, apesar de as suas obras não serem actualmente reeditadas, o seu nome está referenciado nos compêndios da história da literatura portuguesa como um dos poetas mais marcantes da segunda geração romântica.

Costuma dizer-se que “por trás de cada livro há uma pessoa” e por trás daquele exemplar, encadernado numa capa dura, de Canções da Tarde está alguém muito especial, a pessoa a quem pertenceu o livro, uma benfeitora que, depois de o usar, entendeu oferecê-lo à Biblioteca da Real Associação Humanitária dos “Bombeiros Voluntários” do Pezo da Regoa. Essa mulher não quis deixar a sua dádiva no anonimato e, na capa do exemplar, fez questão de a assinalar, escrevendo um “offerece”, a que acrescentou, numa delicada caligrafia em tinta permanente, a sua identificação. Ainda bem que anotou o seu nome, ficamos a conhecer a sua admiração literária pelos versos escritos por um poeta reguense e, porventura, o gosto das senhoras do seu tempo pela poesia. Mas também ficamos a saber que as obras de poesia romântica rechearam a primitiva estante. A senhora que ofereceu um exemplar de Canções da Tarde foi a D. Leonor Cristina Ermida de Magalhães, esposa do Comandante Manuel Maria de Magalhães, ele que publicou versos românticos nos jornais reguenses.
A pequena vila da Régua que, há mais de cem anos, aspirava a ser o centro comercial e vinhateiro do Douro, viu surgir, no velho Quartel do Largo da Chafarica (hoje conhecido por Largo dos Aviadores), de uma velha estante de livros a sua primeira biblioteca pública graças ao espírito empreendedor dos bombeiros, de alguns dedicados directores e à ajuda de muitos beneméritos anónimos.

A criação da Biblioteca Municipal do Peso da Régua não apaga o pioneirismo daquela que hoje persiste hoje como a famosa Biblioteca dos Bombeiros, motivo de orgulho de todos os associados.
- Peso da Régua, 3 de Janeiro de 2013, José Alfredo Almeida*, Presidente da Direcção da AHBV do Peso da Régua. Atualizado em 13 de Novembro de 2013.
- Sobre a "Biblioteca dos Bombeiros" neste blogue.

*O Dr. José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também cronicas que registam neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária e fatos do passado e presente da bela cidade de Peso da Régua.

Clique nas imagens para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Janeiro de 2013. Atualizado em Fevereiro e Novembro de 2013. Também publicado no semanário regional "O Arrais", edição de 6 de Fevereiro de 2013. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Uma Sineta de Palavras - 3

 A presença dos bombeiros na vida e obra  de João de Araújo Correia

“A associação é digna do meu zelo e até do meu sacrifício”
João de Araújo Correia

Continuação.
O mundo dos bombeiros tem uma magia muito especial para todos os seres humanos, muito em especial quando crianças, que é imutável mesmo que mudem as cores das fardas, os pronto-socorros sejam mais potentes e equipados com material sofisticado e os sinais de incêndios tenham outras formas de alertar os bombeiras. De uma época para outra, a modernidade traz algumas alterações na forma como os bombeiros actuam e desempenham a sua missão. Umas são mais notórias e caem em desuso, mas provam que se verifica também uma evolução na sua missão de socorro.


A partir de certa altura, os sinais de incêndios que só os velhos bombeiros aprenderam caíram também em desuso. Antigamente eram usados para saberem em que ruas da Régua andava o fogo, mas hoje os bombeiros não assim chamados, mas pelo toque de uma sirene que, começa já começou a dar lugar a um novo aviso, as mensagens difundidas pelos modernos telemóveis.

Em “Sinais de Incêndios”, crónica publicada no jornal “O Arrais”, em 1980, João de Araújo Correia evoca o tempo em os fogos metiam mais medo e os bombeiros eram chamados pelos diferentes toques do sino da Capela do Cruzeiro.

“Estou a ver, no quarto de meu pai, dentro de um caixilho, uma espécie de registo intitulado Sinais de Incêndio. Mas em ortografia antiga… Os Sinais rezam como Signaes.
Pela ortografia se poderá avaliar a idade do registo. Idade antiga, embora posterior a Gregos e Romanos…
Pendia o registo com a sua moldura, sobre a mesinha de cabeceira de meu pai. Era uma espécie de semideus lareiro. De noite ou de dia, se o sino do Cruzeiro tocasse a fogo, aqui na Régua, o benemérito registo indicava a meu pai o sítio em que lavraria ponta de incêndio capaz de destruir a Régua.
No tempo de meu pai, havia mais medo a fogos do que hoje. Se havia confiança nos bombeiros, haveria menos confiança no material que então usavam. Hoje, tanto se confia na bomba como no bombeiro. O munícipe sossega.
Também havia, no tempo de meu pai, maior curiosidade ou possibilidade de saber onde era o fogo. Hoje, não o diz a ninguém a lúgubre sereia. O morador desiste de ser curioso ou sai à rua a perguntar: onde é o incêndio?
Graças à pagela, pendurada no quarto de meu pai, sabia ele a qualquer hora, diurna ou nocturna, se havia fogo e em que bairro andaria ele ateado.
Como de facto. A tabela rezava assim:
  • 4 badaladas – Souto, Boa Morte, Calvário, Quebra Costas, Rua das Árvores, Estrada Nova, Eiró, S. Pedro, S. João, Eirinha.
  • 5 badaladas – Fontainhas, Cruz das Almas, Rua do Passo, Carreira, Fundo de Vila, Azenha, Ferrans (?), Rua de S. José, Vila Franca.
  • 6 badaladas – Rua Serpa Pinto, Bordalo, Americano.
  • 7 badaladas – Ameixieira, Senhor dos Aflitos, Rua Custódio José Vieira, Cais de Baixo, Passeio Alegre, Rua João de Lemos, Rua Nova.
  • 8 badaladas – Rua dos Camilos à Ponte, Rua da Alegria, Rua 1.º de Dezembro, Guindais, Midão.
  • 9  badaladas – Fora de Vila
  • Para parar - 5 badaladas.
Copiei a lista de exemplar velhinho e esbotenado. Copiei-a, acertando-lhe a ortografia pelo cânone actual. Mas, tão velho é o espécime, que duvido do topónimo Ferrans – tanto ou quanto safado. Se alguém me quiser tirar dúvidas…
É curiosa a lista de badaladas. Fala-nos de ruas velhas, ruas que mudaram de nome ou o perderam – como a do Passo. Fala-nos da Régua de nossos pais que se pode considerar antiga.
Muito estimaria que alguém me oferecesse um exemplar perfeito dos SIGNAES DE INCÊNDIO. O que possuo não pertenceu a meu pai. Deu-mo um amigo. Mas, tão gasto, que mal o posso ler. É pena… Como folha velha, teria mais poesia se fosse mais legível.

Nota do Autor: Diz-me pessoa amiga que a Rua do Passo, no Peso, é a que vai da Cruz das Almas, em linha recta, às Rua da Carreira. Abre para essa rua a propriedade a que chamam de Gama. Esta informação, que muito agradeço, completa o artigo que intitulei de Sinais de Incêndio”.

Os temas sobre as crónicas dos bombeiros são fragmentos essenciais para completar a história colectiva do seu remoto passado. São pedaços de memórias que permitem refazer com rigor e verdade quem foram os homens e os seus momentos decisivos que revelaram uma determinação e fé inabalável em manter em funcionamento esta maravilhosa obra de ajuda a quem precisa.

Em 1938, no seu primeiro livro publicado, intitulado “Sem Método”, o escritor na Nota XXIX, reconhece a importância social dos soldados da paz da sua terra, ao expressar o seguinte:

“Despedi-me do doutor Feliciano com um abraço amargurado. É que me lembrei desta desventurada terra chamada Régua, tão desenfeliz que nem água tem para beber. Que não tem uma escola. Que não tem um hospital. Que, tirante os bombeiros, não tem coisa nenhuma útil ao comum.”

Mais tarde, o elogio aos bombeiros e à Associação repete-se em “Biblioteca Maximiano de Lemos” (in Pátria Pequena-1963) para fazer um louvor à instituição que revelava dinamismo e uma frescura “física”, em cada aniversário que comemorava.

“Na Régua, é tradição que falhem todas as iniciativas. Falharam as touradas, as exposições fotográficas, o teatro de amadores, o orfeão, a parada agrícola, os desportos náuticos e até o carnaval inventado pelo Chico Pulga. Tudo falhou, menos a Associação dos Bombeiros Voluntários, fundada em 1880, e de ano para ano, mais florescente”.

Na crónica “Uma velha Estante”, publicada no jornal “O Arrais”, em 1980, o escritor volta à sua infância -  quando teria onze ou doze anos de idade – para reviver o fascínio  das  salas recreativas do primeiro quartel,  onde  reparou  numa velha estante os   livros que nunca mais esqueceu.

“Quando o quartel dos bombeiros funcionou modestamente numa casa situada no actual Largo dos Aviadores, frequentei-lhe as salas recreativas com o meu pai - era eu rapazinho.
Na sala dos jogos, inofensivos jogos de cartas, dominó e quino, lembro-me de ver, encostada a uma parede, uma alta e larga estante de madeira rica, toda envidraçada e repleta de livros.
Creio que ninguém lhes tocava. Quem se entretinha com a sueca, o dominó e o quino talvez nem reparasse na volumosa estante, abarrotada de livros.
Reparava eu... E o meu regalo seria abrir aquela estante e colher de lá um livro para o folhear e ler antes de me deitar. Assim eu o percebesse. Era ainda tão novo… Teria onze, doze anos.
Os meus encantos, naquele clube, eram aquela estante. Mas, sempre fechada e muda. Até que uma noite, e em noites seguidas, a vi abrir. Um senhor, que usava óculos, ia retirando e colocando de novo, no seu lugar, rimas de volumes. Arrecadava-os depois de lhes escriturar os títulos num grande livro de papel almaço.
Livros que nunca mais esqueci. Quando, depois de instalados os bombeiros no quartel novo, alguém me disse que todos esses volumes estavam à matroca, empilhados num monte, sem o mínimo vislumbre de arrumação, caiu-me a alma aos pés. E assim, esteve, de rastos uma porção de anos.
Até que ontem, dia que marquei com uma pedra, vim a saber que os livros já estão arrumadinhos na estante – bela estante de mogno.”

Os bombeiros da Régua fazem mais do que apagar os incêndios. Desde o seu início constituíram uma organização social e humanitária. O seu quartel não guarda só os equipamentos e fardamentos, mas serve como um centro convívio social da comunidade reguense. De acordo com o estabelecido nos estatutos da Associação, os sócios fundadores propuseram-se criar uma biblioteca, desde que os fundos o permitissem. Se assim o pensaram e desejaram, depressa o conseguiram realizar, com a ajuda de Afonso Soares e de muitos beneméritos.

No tema “Primórdios” (in Pátria Pequena - 1963) volta a falar da criação da biblioteca dos bombeiros, criada em 1885, pelo  sócio contribuinte Afonso Soares que, por modéstia, não quis que o seu nome fosse revelado.

“Pena é que o saudoso historiador da nossa vila e concelho mão tenha nomeado o sócio contribuinte, que tanto desejou ver o nosso quartel espiritualizado com uma livraria. Dizemos tanto desejou, porque o seu desejo moveu a vontade do Dr. Joaquim Correia Cardoso Monteiro.
Devemos a um anónimo a fundação, em 1885, da nossa Biblioteca. Se soubéssemos o nome dele, seria obrigação perpetuar-lhe a memória com algum voto condigno. Como não se sabe, imagine-se que foi o humilde benemérito. Algum obscuro artista, amigo da Instrução…
Obscuro não deve ter sido o Dr. Joaquim Correia Cardoso Monteiro, propulsor da luminosa ideia do sócio contribuinte. Inscreva-se-lhe o nome numa lápide se não pudermos eternizar-lhe o retrato entre os nossos livros. Devemos gratidão a esse antepassado.
As coisas são como os rios. Têm origem que, embora tímida, nunca é desprezível. A nossa Biblioteca nasceu em 1885. Ninguém esqueça essa data.
Nascida em 1885, só em 1960, em pleno século actual, veio a ser baptizada. Na província, a marcha de qualquer intuição é sempre lenta.”
(Clique na imagem para ampliar)

Aquela biblioteca foi ainda tema para mais duas crónicas, todas incluídas no livro Pátria Pequena: “Dr. Maximiano de Lemos (in Pátria Pequena-1960), “Alvíssaras” (in Pátria Pequena-1960) “Biblioteca Maximiano de Lemos” (in Pátria Pequena-1963).

Em 1960, a velha biblioteca era enriquecida com a instalação de uma biblioteca fixa da Fundação Calouste Gulbenkian. Os bombeiros passaram a garantir serviço público. Esta biblioteca, a única que existiu na Régua durante muitos anos, passava a ser procurada e frequentada pelos jovens.

Na primeira crónica que foi dedicada a Maximiano de Lemos, erudito historiador da Medicina Portuguesa, nascido na Régua, em 8 de Agosto de 1860, quando os bombeiros se preparavam para lhe fazer uma homenagem, escreveu:

“Querem os nossos Bombeiros inaugurar quanto antes a sua nova biblioteca, renascida do velho armário repleto de livros sem catalogação, e querem dar-lhe o nome de Maximiano de Lemos, fazendo coincidir o acto inaugural com o centenário natalício do nosso conterrâneo. Dois quereres, qual deles o mais gentil… Que vão por diante é o nosso voto.”

Na crónica seguinte que intitulou de “Alvíssaras” elogiava a iniciativa dos bombeiros, que contribuiriam de forma decisiva para a organização das comemorações do centenário natalício de Maximiano de Lemos e que ela tenha encontrado apoio em mais “boas vontades”.

“Parece que vão por diante, aqui na Régua, as comemorações do primeiro centenário natalício do professor Maximiano de Lemos. À boa vontade dos nossos bombeiros vieram sucessivamente, para esse feito, a boa vontade do senhor Provedor da Santa Casa da Misericórdia e a boa vontade do senhor Presidente da Câmara Municipal. Três boas vontades que, somadas, darão de si inabalável querer no cumprimento de uma obrigação.
No dia 8 de Agosto próximo, ao cumprir dos cem anos sobre o nascimento de quem se distinguiu ao ponto de ser querido dos sábios do seu tempo, inaugurarão os nossos bombeiros a sua nova biblioteca, dando-lhe o nome do reguense ilustre. O grande estudioso, que passou a vida entre livros, sorrirá do outro mundo à carinhosa ideia dos seus conterrâneos. Será capaz de vir ajudá-los na escolha, catalogação, arrumação e defesa de boas espécies bibliográficas.”

Em “Biblioteca Maximiano de Lemos” (in Pátria Pequena, 1963), recorda, com sentido de humor, as duas bibliotecas que coexistiram, durante algum tempo, no último piso do Quartel dos Bombeiros:

“A Biblioteca Maximiano de Lemos, inaugurada em 1960, ao comemorar-se o primeiro centenário do seu ilustre patrono, vai ser enriquecida, no próximo mês de Novembro, com uma valiosa colecção de livros da Fundação Calouste Gulbenkian. Diremos, para ser precisos que vai funcionar, dentro da Biblioteca Maximiano de Lemos umas das bibliotecas fixas da Fundação Gulbenkian.
Queremos que as duas bibliotecas não briguem uma com a outra, antes se auxiliem e completem. A de Maximiano de Lemos pobre e velha livraria, herdeira da primitiva estante dos Bombeiros e acrescida de alguma oferta particular. A da Fundação, constituída por livros em barda e todos em folha, será útil ao comum dos leitores. Será própria para os desbravar e lhe estimular o gosto da leitura.”

“Uma grande lição”, crónica publicada no jornal “O Arrais”, em 1980, foi mais um pretexto para distinguir a acção cultural, em especial dos bombeiros, nas comemorações do primeiro centenário de uma figura pública reguense, de valor nacional, que ele muito considerava, o Dr. Maximiano de Lemos, insigne médico, professor e historiador da medicina portuguesa.

“Nem sempre a Régua adormeceu em pontos de civismo. A 3 de Dezembro de 1960, deu uma grande lição, comemorando, com solenidade, o primeiro centenário do Dr. Maximiano de Lemos - insigne reguense.
Bombeiros Voluntários, Hospital de D. Luís I e Câmara Municipal colaboraram no sentido de não envergonharem a terra com comemorações.
(…)
Diga-se também que os nossos bombeiros inauguraram o ressurgimento da sua livraria, dando-lhe o nome de Maximiano de Lemos.
(…)
O Dr. Alberto Saavedra, homem de Ciências e Letras produziu um belo discurso na inauguração da Biblioteca. Publicado em fascículo, esse discurso é hoje venerável relíquia”.

Em 1978, na crónica “Uma Galera”, publicada no jornal “O Arrais”, lamentava que os bombeiros não possuíssem uma sala museu para guardarem os antigos materiais usados nos incêndios, as velhas fardas e os documentos de valor. Considera que essa atitude é uma falta grave. Mas incentiva ao aparecimento de um espaço no quartel destinado a um museu dos bombeiros. Aquele texto acaba por ter um efeito pedagógico.

Em 1980, um século depois da fundação, os bombeiros da Régua criavam o seu Museu, numa das salas do quartel que decidiram baptizar o Museu com o nome de Dr. João de Araújo Correia. A ideia por ele desejada, acaba assim por ser concretizada, mas sem que a galera voltasse ao seu destino de origem.

“De uma das vezes que atravessei uma vila risonha, apeei-me da burra, como quem diz do carro, para espreitar uma casinha baixa, de portas abertas para um grande largo. Era um quartel de bombeiros…Mas, tão antigo, em seu material, que era um museu de bombas e capacetes, machados e agulhetas, tudo disposto para acudir a incêndio ateado aí cem anos antes.
Estive, vai não vai, para nele pegar nele e trazê-lo para a Régua, oferece-lo aos bombeiros da minha terra, que tinham quartel novo, no trinque, e não tinham guardado, do quartel velho, grandes recordações. Podiam, em edifício à parte, manter aquele museu como saudade do século passado. Podiam oferece-lo à memória de quem fundou, há cerca de um século, a primeira associação de bombeiros da Régua.
Que resta desse tempo? Uma galera, que andou de jó para já até um dia. Consta-me que foi parar, emprestada que não dada, a um quartel do Porto.
Hoje, que os nossos bombeiros ampliaram o quartel, devem chamá-la a si como relíquia dos seus velhos tempos… Já não lhe falta espaço onde a meter e exibir.
Os bombeiros da Régua, que tanto cabedal fazem da sineta de Canelas, que só a Canelas pertence, devem recolher, quanto antes, a galera que só a eles deve pertencer. Venha para a Régua, quanto antes, a galera que levou a muito incêndio, em tempos idos, os bombeiros da Régua. Tanto mais, que é uma linda galera, muito bem conservada… Parece que acabou de sair de mãos de artista.” 
Continua...

- Colaboração de J. A. Almeida - Régua para "Escritos do Douro".
João de Araújo Correia na "Infopédia"
João de Araújo Correia na "Wikipédia"

quarta-feira, 16 de maio de 2012

EMOÇÕES TECIDAS NESTE LUGAR

O meu amigo José Alfredo Almeida pediu-me que escrevesse sobre os Bombeiros Voluntários da Régua, de imediato aceitei o seu convite. Reconheço agora que a minha atitude foi impulsiva e motivada por razões afetivas, pela minha paixão pela terra que me viu crescer e por esta imperiosa necessidade de invocar as raízes numa altura da vida em que já espalhamos ramos e perdemos folhas em tantos locais diferentes. Se tivesse sido mais ponderada teria, diplomaticamente, agradecido a distinção e declinado o convite. Perdi a oportunidade, nada mais me resta do que invocar as minhas memórias esparsas e cheias de fadas e duendes míticos para testemunhar o que os bombeiros foram para mim.

Em casa dos meus avós ouvíamos a sirene dos bombeiros, era um grito desesperado de socorro, atormentava o meu coração de criança e conduzia a minha imaginação para cenários terríveis de fogo e calor. Lá em casa todos se agitavam, “onde é o fogo? onde é o fogo?” A Maria descia a correr as escadas que nos ligavam à Régua, ia embrulhando o avental numa rodilha com que secava o suor que lhe escorria do rosto e regressava, alguns minutos depois, com a notícia, “o fogo é em Loureiro”. Nessa altura já a minha avó tinha telefonado para a irmã que vivia em Loureiro, assegurava-se de que estava tudo bem, que a família e os bens estavam a salvo do fatídico fogo. No entremeio das considerações da vida, lá vinha a invocação a São Marçal, que o seu cajado ajudasse os bombeiros a combater o fogo, mas também de Sta. Barbara que tinha influência sobre trovoadas e raios. Naquele tempo havia santos e auxílio divino para tudo, pelo menos em casa dos meus avós.

O quartel dos bombeiros era perto da minha escola, um pouco mais acima, logo a seguir à Alameda. Nas tardes de verão, quando paravam as chuvas e os dias começavam a crescer, ir à biblioteca dos bombeiros era uma boa desculpa para sair de casa. Recordo bem a entrada pela porta da enorme garagem onde se alinhavam os maravilhosos carros vermelhos e logo à direita uma porta menor para uma escada de madeira escura que conduzia à biblioteca. A escada era o corredor mágico para um mundo muito mais interessante do que aquele em que eu vivia, o mundo fantástico dos livros. Uma das melhores recordações da minha infância é o cheiro da biblioteca, daquele soalho de madeira corrida, das paredes cobertas de estantes fechadas por portas de janela que protegiam os livros, da mesa escura onde repousava uma caixa metálica cheia de pequenas fichas manuscritas com letra miúda. Daqueles objetos desprendia-se um odor de cera, de limpeza, de madeira e de tempo. Tenho procurado esse mesmo odor em outros locais onde descansam os livros, nunca mais voltei a encontra-lo. Devo ter lido todos os livros juvenis da biblioteca, depois passei para os clássicos da literatura portuguesa. Comecei por Júlio Diniz, mas muito rapidamente cheguei a Eça. Não foi na biblioteca dos bombeiros que formei o meu gosto literário, a coleção era conservadora e não contemplava autores que são hoje a minha principal referência cultural, mas foi lá que encontrei a inspiração para muitos sonhos, foi ali que começaram muitas viagens que só muito mais tarde eu viria a fazer.
Os bombeiros eram uma referência da vida pública, o comandante dos bombeiros uma figura prestigiada e respeitada. Com o dealbar da democracia o debate político local passava pelos bombeiros, pelos jogos de poder em torno das escolhas para a direção e dos equilíbrios que era necessário gerar entre o poder político, essencialmente autárquico e a sociedade, basicamente resumida à associação dos bombeiros e à misericórdia. Eu estava a entrar na adolescência e a minha consciência social estava em formação, queria um mundo melhor e mais justo, com mais oportunidades para todos, com mais oportunidades para mim, nascida mulher numa família de classe média, numa pequena cidade do interior e com uma curiosidade imensa e mal compreendida.

Foi por esses anos que mais uma catástrofe se abateu sobre a nossa cidade, as cheias foram devastadoras e muitas famílias ficaram desalojadas. Numa noite fria e chuvosa eu estava na rua a ajudar quem precisava, guardo comigo os olhos desesperados de uma mulher com uma criança ao colo que via ir com o rio todos os seus bens. Os bombeiros estavam lá, garantiam o sucesso das operações de salvamento, eram jovens de rostos fechados, galochas de borracha e uma força sobre-humana que se impunha à água e ao desespero dos homens.

Quando perdi um amigo e pela primeira vez o luto cobriu o meu coração foi atrás do carro dos bombeiros que, a caminhar, homenageei a sua curta vida e acalmei a minha dor.

Com o calor também a festa chegou à cidade. Estalou o fogo-de-artifício sobre o rio, fez-se a feira franca e as ruas apinharam-se de gente para ver a Senhora passar. Engalanaram-se as janelas e as varandas e, a abrir a procissão, vinha a fanfarra dos bombeiros. O meu olhar ficava preso nas botas brancas das raparigas e o meu coração batia ao ritmo do som das caixas dos rapazes. A fanfarra dos bombeiros fazia despertar em mim o mistério do divino que, andor a andor, a procissão ia revelando até ao momento crucial em que perante Nossa Senhora do Socorro me ajoelhava e orava.
Há 30 anos que não vivo na Régua, tenho sobre a cidade e as suas gentes o olhar de quem “está fora”, raramente partilho os seus dramas e alegrias, mas o que levo comigo onde quer que eu vá são as emoções tecidas neste lugar, onde guardo as minhas raízes.
- Cristina Paula Baptista

Clique nas imagens acima para ampliar. Sugestão de J. A. Almeida e edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Maio de 2012. Texto também publicado na edição do semanário regional "O Arrais" de 10 de Maio de 2012 e no blogue "Nada Temer". Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Todos os direitos reservados. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Lembro-me que no Quartel havia muitos livros…

1. O norte-americano Ray Bradbury escreveu Fahrenheit 451, um romance de ficção científica que foi publicado pela primeira vez em 1953. O francês François Truffaut realizou um filme a partir desse livro, de 1966, que por cá se chamou Grau de Destruição.

É a história de um futuro em que todos os livros são proibidos. O seu personagem principal é um “bombeiro”, o que nesta história significa “queimador de livros”. Isso basta para explicar qual era o seu trabalho. O número 451 refere-se à temperatura (em graus Fahrenheit) à qual o papel se incendeia (cerca de 233 grau centígrados).

Ray Bradbury declarou que a sua intenção original ao escrever Fahrenheit 451 era mostrar o seu grande amor por livros e bibliotecas.

Uso esta introdução porque estas coisas – bombeiros, livros, filmes, bibliotecas – também se misturam na minha memória dos tempos passados.

2. (Re) Começo a pedir perdão, mas a verdade é que, quando penso em Bombeiros, não são os do Peso da Régua que me veem logo à memória.

De Bombeiros, lembro-me sempre dos de Sanfins do Douro, das suas ambulâncias e das suas sirenes, eternamente saindo na noite quente do arraial para apagar o incêndio que os foguetes ateavam, atravessando penosamente a multidão. Para minha grande consternação, que nunca entendi porque não colocavam logo os veículos todos na estrada da encosta que ardia todos os anos na Romaria de Nª Senhora da Piedade. Deve haver uma razão técnica que me escapa. Ou, então, era uma coreografia que fazia parte do programa da Festa, sei lá! (Lembro-me também, por motivos que não são para aqui chamados, da sua Fanfarra e das suas majoretes, uma em especial).


Dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua recordo, isso sim, o Quartel, não só porque lhe passo em frente todas as semanas (e neste domingo até parei para tirar umas fotos!) mas porque era naquele edifício, num dos pisos superiores, que ficava a Biblioteca Gulbenkian que eu frequentei a partir de meados da década de 1970.

Compondo um quarteirão cultural de boa memória e que muitas cidades hoje invejariam, ficava, mesmo ao lado, o Cine-Teatro Avenida, onde vi alguns filmes que não podem aqui ser mencionados e outros de que não me lembro.

Hoje é um decrépito edifício, cujo estado de conservação nos envergonha a todos, contrastando de forma chocante com o remodelado e animado Quartel dos Bombeiros. (Quando for reabilitado e voltar a exibir filmes passa a chamar-se Cineteatro Avenida, como manda o Acordo Ortográfico!)

3. Bom, mas deixemos o cinema e voltemos aos livros e à Biblioteca. A Biblioteca Fixa da Fundação Calouste Gulbenkian era para mim o que a Fundação propriamente dita era para o país: o verdadeiro centro da vida cultural.

Em minha casa sempre existiram livros, muitos livros, estantes cheias deles. Mas na Biblioteca havia muitos mais e havia também aquele silêncio especial, que fazia com que a escolha dos livros a ler fosse mais refletida, assim como uma coisa de maior responsabilidade, não havendo lugar para ligeirezas nem arrependimentos: escolheu, vai ter de ler!

Dessas minhas escolhas há muitos livros e escritores que recordo, outros que nem por isso. Lembro-me, por exemplo, de duas “empreitadas”. (Isto é, leitura continuada e intensiva da obra de um escritor, hábito que ainda mantenho).

A primeira com Jack London (O Apelo da Selva, O Lobo do Mar, O Filho do Lobo, …), um escritor que hoje olho com muito respeito se bem que, confesso, sem ânimo para reler.

A segunda com Cecil Scott Forester e a sua série do Capitão Horatio Hornblower, essa saga marítima de que Winston Churchill disse “Hornblower é formidável!”. Esta frase vinha na contracapa dos livros e fixei-a, até hoje...

Lembro de ter adorado Três Homens num Bote, de Jerome K. Jerome e de ter odiado As Minas de Salomão, de Henry Rider Haggard, na tradução mal feita por Eça de Queirós (que aliás usurpou a obra e lhe chamou - ou alguém em seu nome – sua).

E lembro-me de ter muita pena porque na Biblioteca (praticamente) não existia banda desenhada, já então a minha perdição.

A Biblioteca Gulbenkian da Régua instalou-se no Quartel dos Bombeiros em 1960 e um dia, sem que eu desse conta, encerrou! Em seu lugar há hoje, na nossa cidade, uma Biblioteca Municipal, num edifício muito bonito. É toda moderna, cheia de livros, discos, filmes, tecnologia e pessoal profissional. E muita banda desenhada!

(Aliás, há uma Rede de Bibliotecas (http://rbpr.cm-pesoregua.pt/), que agrupa os centros de documentação de diversas instituições, incluindo a Biblioteca Municipal, o que me parece uma excelente ideia).

4. Podia forçar um bocadinho a nota sentimental e dizer que quando, todos os domingos, passo na Avenida do Doutor Antão de Carvalho, em frente ao Quartel dos Bombeiros, me recordo das longas e boas horas passadas na companhia dos livros que ali me emprestaram.

Mas, em nome da verdade, tenho que confessar publicamente que não é de nostalgia, mas de remorsos puros e duros o sentimento que me assalta. Porquê?

Porque nunca devolvi alguns livros à Biblioteca.

Tenho provas.

Não poderão ser mais de três livros, mas é como se fossem mil. Eles lá andam, nas estantes, no meio de muitos outros, ostentando, para minha vergonha íntima, a fita adesiva colorida na lombada que os identifica sem qualquer dúvida.

Acalmo a minha consciência com piedosas histórias que repito para mim mesmo sempre que me lembro destes livros. Que fui, um dia, devolvê-los, e a Biblioteca tinha fechado, sem deixar a nova morada.

Que, despeitado por fecharem a Biblioteca, decidi vingar-me causando um prejuízo irreparável ao pobre Sr. Calouste Gulbenkian, surripiando-lhe três livros.

Os livros estão seguros. Comigo, os livros estão sempre seguros, desde que mereçam respeito. Mas se alguém, legitimamente, os reclamar, devolvo-os.

Com juros e com alívio.
- Matosinhos, 4 de junho de 2012, Artur Costa

Clique nas imagens para ampliar. Sugestão de JASA (José Alfredo Almeida) para este blogue. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Junho de 2012. Texto também publicado no blogue do autor - Artur Costa - O Linguado e na edição do semanário regional "O Arrais" de 14 de Junho de 2012. Todos os direitos reservados. Só permitida a cópia, reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos.