quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A minha RÉGUA ! - 41

 
Fotos que refletem um estado de alma sobre a nossa cidade


Se participa da rede social 'FaceBook', poderá apreciar a coletânea de imagens 'A Minha Régua' (até ao momento com 726 fotos) no álbum 'Peso da Régua'.
Clique  nas imagens para ampliar. Imagens cedidas por José Alfredo Almeida e editadas para este blogue. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Setembro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos. 

AS CHEIAS NO PESO DA RÉGUA: PREPARAR O FUTURO CONHECENDO A HISTÓRIA

Major-General  Arnaldo Cruz*
Presidente da ANPC

Quando me solicitaram que escrevesse sobre os Bombeiros Voluntários de Peso da Régua e a sua ação aquando das cheias, rapidamente me ocorreu as inúmeras vezes em que, em conferências ou palestras, ao ser abordado o tema das cheias, surgia como diapositivo da apresentação, uma imagem dessa localidade, com as marcas assinaladas em prédios referentes às cheias de 1909 e 1962. A minha memória retém, também, imagens de visita á região por alturas das cheias de 2001.

Naquelas apresentações seguiam-se os conceitos - a distinção de cheia e de inundação, caudal, bacia hidrográfica, período de retorno, tempo de concentração, pico de cheia -, ou a influência da forma dos vales e da dimensão das bacias nas cheias. E também, as práticas e técnicas culturais agrícolas e florestais adequadas ao aumento do tempo de concentração e as infraestruturas mais utilizadas na regularização do caudal do rio.

Numa pausa, transporto-me, pela memória, no tempo e no espaço, para a região do Douro, que tenho tido a oportunidade de conhecer. Sinto a força e intensidade do rio, das fragas e das gentes que tenazmente, com as suas mãos, moldaram uma paisagem de beleza ímpar e justamente classificada pela UNESCO como Património Mundial.

Trabalho duro, com progressos e retrocessos, em que se evidencia sabedoria. Periodicamente assolada pelas cheias, além da força para se construir e reconstruir, sobressai a humildade de se terem reconhecido os naturais erros, de os corrigir, tendo-se criado, progressivamente, uma estrutura mais resiliente e preparada para a adversidade.

Mas assim como a natureza nos dá essa notável capacidade de evoluir, errando (se o mecanismo da dor não existisse não seríamos hoje o que somos), também faz com que o tempo traga o esquecimento. Hoje, muitos jovens, nunca vivenciaram o tipo de cheias de que os seus pais, avós e a memória do povo aludem, não tendo, por isso, interiorizado pela experiência, as atitudes e comportamentos para fazer face à adversidade.

Regresso à conferência onde se vão abordar programas informáticos de monitorização do caudal, sistemas de aviso e alerta, a cooperação entre as entidades portuguesas e também espanholas, através de acordos bilaterais, para a gestão dos rios internacionais. Se tudo funcionasse bem, aparentemente, não se repetiriam os efeitos de uma qualquer grande cheia. De fato, há uns anos que não se verificam situações semelhantes àquelas que propiciaram as imagens a que inicialmente me referi.

Com a tranquilidade possível que as soluções tecnológicas nos transmitem, sei que, com períodos de retorno possivelmente maiores, é muito provável que ocorram novas grandes cheias no Douro.

Para essas circunstâncias, é necessário que os cidadãos de Peso da Régua e da região duriense ribeirinha estejam preparados, com comportamentos e atitudes adequadas, quer face à ocorrência, quer à sua prevenção.

Se bem que essa preparação possa ser efetuada por muitas instituições, desde a escola à universidade, passando pela comunicação social e outras, é indiscutível, a relevância que os bombeiros poderão ter na mesma, para além da sua inestimável capacidade e prontidão nessas emergências.

Por um lado, é uma competência legal. Na profunda reforma legislativa que tem vindo a decorrer no setor desde 2007, encontra-se previsto, entre as missões dos corpos de bombeiros, o exercício de atividade de formação e de sensibilização junto das populações e é hoje possível, nos municípios em que tal se justifica, dispor de uma equipa de intervenção permanente (caso da AHBV de Peso da Régua), que tem entre as missões possíveis efetuar o reconhecimento dos locais de risco e zonas críticas. Por outro, a crescente qualificação académica no setor dos bombeiros que favorece, para além de uma mais adequada intervenção operacional (resultante da elaboração de estudos, informações, diretivas, planos, ordens e propostas tendo em vista a preparação, a tomada de decisão e a supervisão da sua execução), o incremento de todo o trabalho de prevenção.

A experiencia das recorrentes cheias que havia e das histórias contadas “boca a boca” vai-se perdendo. Mas pode-se falar com cidadãos que passaram por essas adversas circunstâncias e registar as suas opiniões, ver os locais das ocorrências com quem as vivenciou e associar essas informações àquelas que a comunicação social publicou, aos registos no corpo de bombeiros e noutros locais de arquivo. Com camaradas mais velhos, que vivenciaram as situações operacionalmente, é importante falar sobre os poucos meios, técnicas e táticas utilizadas, mas sobretudo a propósito das zonas mais perigosas do rio Douro quando corre cheio.

Quando oportuno, no terreno, com as informações recolhidas, procurar os subtis sinais indeléveis que a natureza vai perpetuando, compreender as adaptações das obras construídas pelo homem ou o porquê de historicamente não se ter construído em determinados locais. Com programas disponíveis na internet, eventualmente gratuitos, é possível assinalar esses locais, marcar áreas, associar fotografias ou vídeos, sistematizar um manancial de informação quer para a sensibilização e informação dos cidadãos, quer para o planeamento, também fundamental.

As ações de sensibilização, ou de formação, para crianças, jovens ou adultos, em sala, ou visitando os locais que testemunham a história comum do rio e dos homens, são essenciais para a Proteção Civil, para a salvaguarda de vidas, de bens e do nosso ambiente.

A AHBV de Peso da Régua tem uma longa história, sobre a qual já muito se escreveu. Para não repetir relatos sobre atos heroicos, penso que a melhor forma de honrar a memória e essa história será avaliar o que hoje fazemos, recorrer às lições do passado, para continuar a preparar para o futuro. Acredito que essa grande mulher que foi D. Antónia Adelaide Ferreira, associada n.º 1 dessa Instituição, partilharia esta convicção. Presto-lhe um sincero reconhecimento, saudando quantos por aqui serviram esta causa e os atuais dirigentes, bombeiros, associados dessa Instituição, e sobretudo às gentes de Peso da Régua.

  • *ARNALDO CRUZArnaldo José Ribeiro da Cruz, natural de Sobreira-Formosa, concelho de Proença-a-Nova, nascido a 16 de Novembro de 1942. Major-General na situação de reforma desde Novembro de 2006, com 41 anos de serviço efectivo no Exército.
Clique na imagem acima para ampliar. Imagem e texto cedidos pelo Dr. José Alfredo Almeida. Também publicado no semanário regional "O ARRAIS" edição de 6 de Setembro de 2012. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Agosto de 2012. Permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue sómente com a citação da origem/autores/créditos.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

CALDAS DO MOLEDO - O nosso único parque

Simples homenagem ao estimado Amigo Dr. José Alfredo Almeida e ao recanto onde nasceu e que tanto o inspira em suas "prosas" neste blogue, as CALDAS DO MOLEDO.

O vício de ler também obriga a sofrer. Quem lê jornais e revistas fica apavorado com a perspectiva de morrermos todos se continuarmos a poluir o ar, a água e a terra. Automóveis, fogões de gás, fumos de fábrica, poluem o ar. Insecticidas e outros venenos poluem a terra e, por sua vez, todas as águas. Não haverá, dentro de poucos anos, se continuarmos a envenenar o mundo, lugar em que se viva. A Terra, como a Lua, girará pasmada, na sua órbita, como cão morto que quisesse morder o rabo. Imagine-se a tristeza dos anjos e dos bem-aventurados quando a virem passar tão morta como louca. À poluição do ar poderíamos opor, como contra-veneno, o oxigénio proveniente da vegetação. Mas, em vez de semelhante medida, recorremos a outra, que é uma rica vasilha com o fundo virado para cima. Com herbicidas, machado e serrote, destruímos a vegetação. Destruímos as fontes de oxigénio. Não nos passa pela cabeça oca a impossibilidade de vivermos sem ele. Pensamos até que não existe, porque ninguém o palpa. É, porventura, uma quimera de sábios.

Se assim é o homem do povo, se assim é o lavrador, e até o homem medíocre, dotado de instrução elementar, não deve ser assim o homem que governa. Esse, por amor ao oxigénio, bênção de que não duvida, respeitará a árvore onde quer que exista. Se lhe faltar a sensibilidade precisa para se comover diante de uma árvore, suplique-a a Nosso Senhor nas suas orações.

Desapareça o tempo em que os governantes, nas cidades e vilas portuguesas, fizeram de cada árvore uma ré condenada ao patíbulo sem defesa. A olhos de poeta, não há canto de Portugal que não chore, como viúvo, a árvore que o embelezou.

Pelo que toca à nossa terra, são horas de nos iniciarmos no respeito devido a cada árvore - fonte de vida e de beleza. São horas, mais do que horas, de plantarmos o nosso parque, fazermos da nossa zona verde, pura ficção, uma realidade.

Enquanto não houver parque municipal, gozemos e amemos o do Moledo, que também é nosso como principal adorno das nossas ricas termas. Não se diga, por vergonha nossa, que não temos árvore capaz de abençoar e amparar o viajante cansado.
O parque do Moledo é o nosso único parque. Ame-se e defenda-se, enquanto não tivermos outro e depois de termos outro. Quanto mais arvoredo, mais beleza e mais saúde...

- João de Araújo Correia - Agosto de 1970
In “Pátria Pequena”, editado pela Imprensa do Douro (1977)
Do Blogue "Malomil" - Grande Hotel das Caldas do Moledo
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Clique  nas imagens para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Setembro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos. 

Douro Film Harvest 2012

O Douro Film Harvest é um ponto de encontro da cinematografia de pessoas e de lugares que tem como palco o Douro Vinhateiro, classificado pela UNESCO como Património da Humanidade. Organizado pelo Turismo do Douro, com o apoio institucional do Turismo de Portugal, tem como principal objectivo aliar as paisagens únicas do Douro, onde nascem alguns dos melhores vinhos do Mundo, a uma «colheita» de filmes premiados. Em plena época das vindimas este evento leva ao Douro alguns dos nomes mais conceituados da indústria cinematográfica, atraindo assim a atenção internacional para uma região única no mundo.
Mais do que uma mostra de cinema, o Douro Film Harvest é uma plataforma cultural e enoturística que constribui para a divulgação e desenvolvimento de uma região com características únicas e um enorme potencial. Ao receber actores como Andie MacDowell e Sophia Loren, realizadores como Carlos Saura e Milos Forman ou compositores e músicos, como Gustavo Santaolalla e Kyle Eastwood, o evento leva o cinema ao Douro, mas leva também o Douro ao mundo do cinema. 

O Douro Film Harvest cria assim um nicho único no panorama internacional de cinema, permitindo simultaneamente uma aliança entre a gastronomia e os vinhos da região, num cenário idílico que é maravilha da natureza. Graças ao seu conceito original foi distinguido pelo Turismo de Portugal com uma menção honrosa como Evento do Ano 2010 e esteve entre os finalistas para o Melhor Evento Cultural Ibérico.
- Fonte "Douro Film Harvest"

  • Bo Derek é a convidada de honra do Douro Film Harvest 2012 - Aqui !

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Quando eu for grande...

TOMADA DE POSSE
Exmºs. Senhores:

Na pessoa do senhor Presidente, quero começar por saudar todos os soldados da paz, que servem os interesses da nossa terra nesta prestimosa corporação, não esquecendo todos quantos, embora não sejam bombeiros, de uma forma ou de outra, contribuem para a sua grandeza, funcionalidade e prestígio.

Quando fui contactado para dar também a minha colaboração como médico dos bombeiros, perpassou-me pela mente todo um rosário de afazeres e compromissos ligados ao exercício da minha profissão, à minha vida familiar e à minha participação social. A conclusão foi de que pouco espaço ficaria vago para qualquer outra coisa que fosse. E, então, desenhou-se-me nos lábios um redondo, rotundo e definitivo NÃO!

O grande problema é que nós somos animais de memória. E o que parecia uma resposta fácil e imediata transformou-se num combate interior: de um lado, uma vida sem espaços vazios, do outro uma apelativa lembrança do meu tempo de menino e moço.

É que, como se estivesse a assistir à passagem de um filme, vi-me de calções e feridas no joelho, por detrás da vidraça da janela de casa dos meus pais, no Largo do Cruzeiro, perfeitamente rendido aos tambores que rufavam, às luvas brancas que traçavam arabescos no ar, aos capacetes que luziam, aos machados reluzentes, aos botões da farda com reflexos de ouro.

Como tantos meninos, do meu tempo ou do tempo do meu filho, sonhava entre prometendo e jurando: "QUANDO FOR GRANDE QUERO SER BOMBEIRO! ".

Então, e agora que tinha a oportunidade de realizar o sonho deixava que os lábios fossem mais fortes que o coração?... Então, e agora iria perder a oportunidade de ser Bombeiro, médico dos bombeiros, mas assim mesmo completa e inteiramente BOMBEIRO?…
Como que por magia, o redondo e rotundo NÃO dos Iábios transformou-se, num ápice, no mais redondo e mais rotundo SIM que o meu coração foi capaz de criar.

E aqui estou! De sorriso confiante e de peito escancarado para o que der e vier. E aqui estou não para fazer um favor a ninguém, antes para dar a oportunidade a mim mesmo de me realizar de uma forma mais completa, deixando-me envolver do espírito de serviço, de dedicação e amor, tal como qualquer outro bombeiro desta corporação.

Se eu quiser ir um pouco mais longe, rebuscando razões para além daquela memória apelativa de criança, para estar aqui, neste momento, descubro, sem dificuldade, muitas outras:
ALEGRIA! É tão bom respirar este ar de entusiasmo, sentir o coração a pulsar; é tão bom descobrirmo-nos regozijados porque temos no nosso horizonte os outros e não apenas o nosso umbigo, por mais bonito que ele seja. E eu sei que vou encontrar, no contacto próximo convosco, essa alegria, esse entusiasmo.

HONRA! Quem será capaz de duvidar de que todas as pessoas que, neste salão, estão presentes se sentem honradas por saberem pertencer a uma instituição tão grandiosa na sua história de tantos anos e tantos feitos?

O mesmo sentimento pulsa dentro de mim: tenho a certeza de ir pertencer, de corpo inteiro, a uma corporação prestigiada e prestigiante, engrandecida por tanta e tanta gente que, hoje, nela vive e luta, ou que nela deixou o rasto do seu amor e da sua entrega. Possa eu ser merecedor dessa honra e desse prestígio...

Sou médico. É nessa qualidade que me foi endereçado o convite para fazer parte da família numerosa e unida dos bombeiros. Vou ser (e permitam-me que o diga devagarinho, gozando o som melodioso das palavras) O PRIMEIRO MÉDICO DOS BOMBEIROS DO PESO DA RÉGUA! Se conseguirem imaginar, por pouco que seja, o orgulho que sinto pela vossa escolha, têm aí a razão deste meu sorriso.

Não esqueço, no entanto, a responsabilidade acrescida que sobre mim impende. A única garantia que posso deixar, sem hesitações, é a promessa do meu empenhamento, é a certeza do meu esforço, é a força do meu sentir. À nossa causa darei o que de melhor descobrir dentro de mim; comigo podem contar para os momentos bons, sabendo que, nos momentos menos bons, também gritarei presente.

Não quero maçar-vos com mais palavras. Vossas Ex.ªs. farão o favor de suprir alguma lacuna que tenha ficado de um discurso que eu pretendi, desde o início, simples e sincero.

Ao olhar, daqui, para essas luvas imaculadamente brancas, para esses capacetes que reluzem, para esses machados, que prometem guerras de paz e para esses botões de ouro em farda de gala, não posso deixar de continuar a sonhar: mesmo que agora vista fato e gravata e não calções a mostrar os joelhos esfolados, como que prometendo jurando, digo de maneira sentida: 

QUANDO FOR GRANDE QUERO SER BOMBEIRO! OBRIGADO!

José Alberto Soares Marques
Nota: Discurso  proferido em 3 de Dezembro de 1995, no Salão Nobre do Quartel Delfim Ferreira,  quando tomou posse como Adjunto de Comando Equiparado/Médico, sendo ao tempo, Presidente da Direção, Eduardo Sebastião Mendes e o Comandante Professor Fernando de Almeida. Actualmente é o Presidente da Assembleia Geral da AHBV do Peso da Régua.

Clique nas imagens para ampliar. Imagens e texto cedidos pelo Dr. José Alfredo Almeida. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Setembro de 2012. Também publicado no semanário regional "O ARRAIS" edição de 3 de Outubro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue somente com a citação da origem/autores/créditos.