quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A terceira vez…

Já cá tinha estado duas vezes, mas não passara de um olhar de relance, que apenas aguçara a minha curiosidade, alimentada pelas múltiplas referências aos Bombeiros da Régua que lera em crónicas de João de Araújo Correia e na monografia de Oliveira Soares.

A primeira vez foi há uns bons quinze anos, atraído pela vontade de conhecer a obra humanitária, movida pelo espírito colectivo de acção cívica, de voluntariado e de solidariedade, para lá da elegância da fachada dos anos trinta, desenhada pelo esquecido arquitecto Oliveira Ferreira, autor de obras notáveis, como os edifícios dos Fenianos e da Brasileira, no Porto, a Câmara de Gaia, o Sanatório de Valadares, o Hotel Astória, em Coimbra, o Monumento à Guerra Peninsular, em Lisboa, e outras. Mas dessa primeira vez, não passei da entrada. Um telefonema urgente desviou-me, contrafeito, para outras prioridades.

A segunda vez, recordo-me bem, foi há quase uma década, nas comemorações do 25 de Abril de 2003, em que tive o prazer de proferir uma conferência intitulada Douro: Património, Democracia e Desenvolvimento, a convite do Dr. José Alfredo Almeida, então vereador da Câmara Municipal de Peso da Régua. Dessa vez, senti vontade de percorrer o edifício e de saber mais sobre os bombeiros da Régua. Mas a circunstância era de festa cívica, com programa oficial a cumprir. A visita teria de ficar para momento mais oportuno.

Passaram quase dez anos. E eu terei passado centenas de vezes por aquele edifício, sempre a correr, com os problemas que me absorviam, nessa altura, todo o tempo de que dispunha. Além disso, a visita que desejava fazer à sede dos Bombeiros da Régua exigia vagar e recolhimento, pouco compatíveis com a vertigem do trabalho no Museu do Douro e as viagens quase diárias ao Porto, para cumprir as minhas obrigações docentes na Universidade do Porto.

Diz o povo que «à terceira é de vez». Foi esse adágio popular que me ocorreu, quando, no Verão passado, consegui, finalmente, fazer a visita desejada às instalações dos Bombeiros Voluntários da Régua, guiado pela amizade do Dr. José Alfredo Almeida, presidente dessa associação benemérita. Tínhamo-nos cruzado, casualmente, à saída do café, com a promessa de voltarmos a encontrar-nos no dia seguinte, com tempo para pormos em dia conversas sempre inacabadas, sobre os problemas do Douro, a Régua, as iniciativas culturais e, claro, a «sua» Associação de Bombeiros, a que tem dedicado uma devoção sem limites. Lá estávamos no dia a seguir. Estendeu-me um livro — É para si. Eram as Memórias dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua, que publicara em 2011. Várias vezes me falara desse projecto, que concentrara o seu entusiasmo durante anos a fio, e eu podia antecipar o valor daquelas memórias, repletas de personalidades, acontecimentos, tenacidades e heroísmos. Afinal, o sentido fraterno de humanidade, corporizado numa instituição associativa de voluntariado, em que o lema «vida por vida» congrega a abnegação individual e a força dos laços de comunidade.

Ao folhear as Memórias dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua, que entremeiam crónicas, muitas delas publicadas no jornal Arrais, e imagens da longa história da associação com mais de 130 anos, percebe-se que se trata de uma história vivida, essencial para a compreensão não apenas da instituição em que se centra mas também de momentos marcantes na vida da Régua e da região. Lá estão referências às cheias grandes, como a de 1909 ou a de 1962. Ou ao desastre de Caldas de Moledo, de 1904, ao incêndio de Lamego, em Junho de 1911, que destruiu vinte casas da Rua de Almacave, ao incêndio do Asilo Vasques Osório, em 1919, ao incêndio da Câmara da Régua em 1937, à tragédia de Rio Bom, em 1959, e tantos outros acontecimentos em que o lema «vida por vida» mobilizou os bombeiros da Régua. Já conhece a nossa sede? — perguntou-me. Não, ainda não conheço, mas gostava de conhecer — respondi ao Dr. José Alfredo. Se tiver tempo, podemos lá ir agora. E pegou-me pelo braço, já a sair para a Rua dos Camilos: fizemos obras, mas procurámos respeitar o património, temos um pequeno museu e uma biblioteca.

Pelo caminho, apreciámos o modesto edifício que serviu de primeiro quartel dos bombeiros da Régua, no Largo dos Aviadores.

Em pouco tempo, já estávamos a subir a escadaria da torre do edifício da actual sede, ao cimo da Avenida Antão de Carvalho. E passámos lá o resto da manhã, entrando em todas as salas, parando aqui e acolá, porque havia sempre um pormenor — um quadro, um livro, uma condecoração, uma velha mangueira, uma farda antiga, um recorte de jornal… — a evocar histórias, que o Dr. José Alfredo me ia contando. Não podia ter tido melhor cicerone na visita há muito prometida e sempre adiada.

Nessa manhã de Agosto, poucas pessoas se encontravam no edifício. Talvez por isso, à medida que o Dr. José Alfredo ia acompanhando a nossa observação de quadros, objectos e documentos com a evocação de nomes de bombeiros da Régua que fizeram a história secular da instituição, ressuscitassem na minha memória outros rostos e imagens, encarnando os mesmos ideais de heroísmo, abnegação e solidariedade. E rememorava fogos na Mantelinha, há umas boas três décadas, as labaredas altas subindo a encosta, desde a Fraga Ruiva ao cimo do serro, lambendo pinhais e matos, num Agosto quente, a aflição da gente de Covas, imprecações, súplicas a S. Domingos, uma correria desordenada no meio da noite, a aldeia sufocada de fumo. E o povo a subir em magotes pelos caminhos da serra, gritos roucos abafados pelos lenços molhados que confundiam os rostos, a seguir os bombeiros, só eles pareciam serenos naquele combate incerto contra as chamas. Provavelmente, seriam bombeiros do Pinhão ou de Sabrosa, mas isso pouco ou nada importava, se a memória os trazia de regresso àquelas salas da corporação da Régua, onde se acumulavam medalhas de outros heróis e heroísmos…

Afinal, a visita tão adiada ao quartel dos Bombeiros da Régua ultrapassou tudo o que podia imaginar. Bem me dissera o Dr. José Alfredo do seu empenho na preservação do património histórico da associação a que preside. Pude testemunhar o carinho devotado a cada elemento desse património já secular, tanto como a vontade de realizar novos projectos, como a organização da biblioteca, onde se guardam relíquias vindas da Biblioteca de Maximiano Lemos. Por tudo, bem-haja Dr. José Alfredo!

Porto, 28 de Novembro de 2012,
- Gaspar Martins Pereira, professor e historiador do Douro.








Clique  nas imagens para ampliar. Edição de imagens e texto de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Novembro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Texto e imagens originais cedidos pelo Dr. José Alfredo Almeida (JASA). Também publicado no jornal regional semanário 'O ARRAIS', edição de 5 de Dezembro de 2012. Atualização em 6 de Dezembro de 2012. Só é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

132º. aniversário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua


Celebra-se no dia 28 de Novembro  mais um aniversário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua, fundada há 132 anos por um conjunto de 27 cidadãos reguenses  liderados pelo dinâmico Comandante Manuel Maria de Magalhães, que será festejado no domingo, dia 2 de Dezembro, com a presença do Senhor Secretário da Administração Interna Filipe Lobo d` Ávila em representação do Ministro da Administração Interna.

Do programa  das comemorações consta a importante  cerimónia de atribuição de uma Medalha de Mérito de Protecção e Socorro Civil à Associação e ao seu Corpo de Bombeiros, sendo reconhecidos, com justiça, pelo poder político a sua notável folha de serviços ao longo da sua história e o papel activo na missão de  protecção e socorro de bens e vidas  e o  serviço   transportes de doentes, emergentes e programados, prestados à população  do concelho.

Durante a sessão solene serão também agraciados com o Crácha de Ouro, da Liga dos Bombeiros Portugueses dois ex-presidentes da direcção da instituição, o senhor Dr. Aires Querubim de Meneses Soares, antigo Governador Civil de Vila Real e António Bernardes Pereira, um conhecido comerciante e ex-vereador da Câmara Municipal do Peso da Régua, ambos em reconhecimento pelo seu contributo para o engrandecimento e prestigio da instituição que serviram durante vários mandatos  nos anos 80, salientando-se a construção do Bairro Social dos Bombeiros, a ampliação do Quartel Delfim Ferreira e a brilhante realização do 24º Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses.

A título póstumo, a instituição vai também agraciar com a Medalha de Serviços Distintos-Grau Ouro, da LBP, dois  cidadãos recentemente falecidos que, cada à sua maneira, prestigiaram os bombeiros da Régua e  a sua fanfarra.

Um deles é o senhor Joaquim Sequeira Teles, conhecido empresário e destacado dirigente da arbitragem nacional, que também foi bombeiro voluntário mais de trinta anos e que  sempre ajudou a associação nos momentos mais difíceis. Quando pertenceu  ao  quadro de honra dos bombeiros  nunca deixou de estar presente em nenhum dos aniversários, manifestando sempre uma paixão e uma grande dedicação à causa do voluntáriado que ele serviu com muito orgulho. Ele é assim um verdadeiro reguense, digno da nossa admiração e, sobretudo, exemplo de cidadania a ser salientado juntos das novas gerações de bombeiros.   
O outro cidadão  a ser agraciado a título póstumo é o senhor Manuel Carneiro que serviu a fanfarra dos Bombeiros da Régua desde que foi criada até quase à sua morte, demonstrando uma atitude de fiel devoção e uma atitude que a todos deixou sensibilizados quando pediu que o seu corpo fosse sepultado vestido com a sua velha farda da fanfarra.
PROGAMA DAS COMEMORAÇÕES
132º ANIVERSÁRIO DA ASSOCIAÇÃO HUMANITÁRIA DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DO PESO DA RÉGUA

Medalha de Mérito de Protecção e Socorro no grau ouro e distintivo azul - Despacho
Clique  nas imagens para ampliar. Edição de imagens e texto de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Novembro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Texto e imagens originais cedidos pelo Dr. José Alfredo Almeida (JASA). Só é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A minha RÉGUA ! - 51

OUTONO
Fotos que refletem um estado de alma sobre a nossa cidade

Se participa da rede social 'FaceBook', poderá apreciar a coletânea de imagens 'A Minha Régua' (até ao momento com 948 fotos) no álbum 'Peso da Régua'.

Clique  nas imagens para ampliar. Imagens de autoria do Dr. José Alfredo Almeida (JASA) e editadas para este blogue. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Novembro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

MAIS DE 130 ANOS NO VOLUNTARIADO SOLIDÁRIO!

Não há como o amor para revelarmos um sentimento profundo. Neste caso o amor pelo mundo e pelas pessoas, que vivifico através da figura coletiva dos bombeiros. Se é verdade, como versejou Pessoa, que “vivemos de maneira/que a vida que a gente tem/é a que tem que pensar”, pela minha parte sempre olhei para os bombeiros como a verdadeira personificação do amor e altruísmo pela Humanidade. Tanto assim que já de tenra idade quis ser, como fui nos melhores anos de uma infância feliz, “mascote” dos bombeiros da minha terra natal!

Daí iniciar este testemunho para o simpático jornal O ARRAIS recordando com saudade os “mestres” destas “embarcações” de bombeiros e dirigentes voluntários, heróis grandiosos na profundeza do Bem-fazer em cada comunidade, que no passado e no presente, por Portugal adentro, tanto fizeram por estas Casas de solidariedade humanitária. Em especial os meus familiares diletos - pai e irmãos - que estiveram nos primórdios e no desenvolvimento da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Póvoa de Lanhoso. Uma instituição magnífica, orientada e animada pelos seus ilustres associados (de que orgulhosamente sou o seu presidente da Assembleia Geral), agregando uma corporação de bombeiros bem como uma corporação de músicos.

Na realidade, os bombeiros, esses filhos do povo que doam as suas vidas ao próximo, defendem princípios assentes no associativismo generoso tendo, na sua génese de voluntariado, por missão principal a proteção de pessoas e bens, o socorro a feridos, doentes ou náufragos e a extinção de incêndios. Claro que, para além e sem prejuízo do que lhe é específico, uma associação dos bombeiros poderá assumir outro escopo em estrita observância do seu fim não lucrativo (mas de economia social), mormente a prestação de cuidados de saúde, atividades desportivas, culturais e recreativas, assim como a colaboração em casos de carência que justifiquem uma atitude pró-humanitária.

Por isso mesmo as causas que os bombeiros prosseguem são, no essencial, as causas de todos nós: uma sociedade solidária e segura, alicerçada e centrada no Bem do próximo, na fraternidade, no voluntariado! Valores desditosamente considerados sem relevância ou sem consonância na sociedade atual, que globaliza a solidariedade como ação material em lugar de localizar e humanizar o amor em ação. Os bombeiros portugueses justamente valorizam e revitalizam a cidadania de participação em favor do todo, “corporizando-se” no dia a dia para ajudar a população no combate às chamas e defesa de sinistrados ou de quem está em perigo ou, até, promovendo operações fora do seu mais puro core social. Assumindo variadas responsabilidades sociais, cada vez mais disponíveis para ir ao encontro do outro e a todo o momento resolverem as situações ou problemas que se lhe deparam.

Parece-me inquestionável que os bombeiros são merecedores da distinção e respeito que os homens e mulheres do povo, sociedade civil por excelência, lhe possam prestar. Porquanto a nossa identidade e cultura resultam sobretudo do conjunto de valores, princípios e procedimentos que as instituições de solidariedade praticam no sentido de se constituírem e realizarem como agentes do desenvolvimento humano e social.

É neste contexto que agora desejo destacar os Bombeiros Voluntários do Peso da Régua, dignos do maior apreço pelo excelente trabalho que vêm desenvolvendo em prol da Comunidade Reguense, onde tenho o privilégio de desfrutar de bons e leais amigos. Superiormente dirigida pelo Dr. José Alfredo Almeida, meu condiscípulo em Coimbra (e, hoje, meu estimado colega na também cativante missão da advocacia), por via do difícil papel de, com os demais e valorosos dirigentes, permanentemente tudo fazer para que nada falte aos “seus” soldados da paz, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua tem alcançado admiráveis feitos ao longo da rica História de 132 anos a fazer o Bem!

Com efeito, ao longo deste tempo memorável, quem esteve à frente desta Associação Humanitária alcandorou-a a uma das mais prestigiadas e importantes instituições da região em que se insere! Dinamizando a qualificação dos serviços e aprofundando as ações, amparando-a nas forças vivas reguenses com o reconhecimento do Estado local e central. Uns e outros num caminho comum, envolvidos e consolidados como parceiros da boa vontade na Comunidade para responder às vicissitudes inerentes a quem passa por perigo ou dificuldades, renovando nas potencialidades do carácter associativo a dedicação altruística em espírito de voluntariado às gentes durienses.

Na atualidade é justo saudar os que serviram e servem os Bombeiros do Peso da Régua, com carinho, dedicação e encontrando sempre as condições favoráveis de se dirigir no destino pela paixão dos soldados da paz. Um dos elementos fundamentais da longevidade tanto desta Associação como da obra que a glorifica deve-se à qualidade dos seus Dirigentes e Bombeiros. Sem olvidar os fundadores, beneméritos e associados em geral que se sentiram impelidos pelo dever de acrescentar valor social (efetivo e afetivo!) ao desempenho abnegado desta Instituição.

Trabalhando bem no presente para fazer da Casa da Bomba da Régua «um lugar de beleza», numa expressão proferida pelo Papa Bento XVI aquando da sua passagem pelo nosso país. Trabalhando para acautelar um bom futuro à Causa prosseguida pelos Bombeiros em nome e ao serviço dos Reguenses.

Bem hajam, pois, aqueles que fazem sua a divisa da bondosa Ferreirinha, citada no notável livro “Memórias dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua”, com o princípio pragmático e axiológico de que «cada um na sua terra deve fazer tudo para o bem da Humanidade». Numa palavra, para bem dos Bombeiros e da Associação Humanitária cujas raízes germinaram com impacto solidário na Comunidade Reguense!

E porque os Bombeiros passam outrossim por tempos difíceis em razão de uma crise social, cultural e económica que a todos assola, mas tendo à sua frente quem saiba perceber os sinais propícios à capacidade singular das Instituições Humanitárias para se superarem, com esperança e sem jamais abdicarem dos valores traduzidos no lema cristão de “vida por vida sem olhar a quem”, deixo-lhes em homenagem inspiradora uma centelha poética de Carlos Drummond de Andrade:

«Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.»

- Por Rui Rebelo, Presidente da Assembleia Geral da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Póvoa de Lanhoso.
Clique  nas imagens para ampliar. Texto e imagens cedidos pelo Dr. José Alfredo Almeida (JASA). Edição de imagens e texto de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Novembro de 2012. Também publicado no semanário regional "O ARRAIS", edição de 14 de Novembro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Só é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos. 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Uma carta do além… *

Canelas do Douro, 28 de Novembro de 2012

Exmo. Presidente dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua
Dr. José Alfredo Almeida
Ilustre Causídico,

Quando há quase três décadas fixei o meu eremitério em Canelas do Douro, perdi um pouco o ritmo de carteador compulsivo que fui ao longo de quase toda a minha vida. Porém, de quando em vez, ainda faço o gosto ao dedo.

Aproveito, desta feita, o 132º aniversário dos nossos Bombeiros para me dirigir a V. Excia. e na sua pessoa a todos os bombeiros da corporação, aos que ainda servem e defendem as populações e aos que mudaram de sítio, para eremitérios como este meu. Quando aqui chegaram meus filhos João e Camilo, muitas novidades me trouxeram da nova Régua com suas evoluções e dislates, e com especial atenção me contaram a fidelidade e modernização da nossa Associação como força viva e dinâmica, comandada por homens de pendor humanista, o que estou certo continuará a distingui-la da apatia comum.

De V. Excia. me contaram ser um jovem causídico muito dedicado à causa dos Bombeiros e à cultura. Senti-me de novo com o mesmo júbilo com que brincava com os ademanes da farda de meu pai que, como sabe, também foi bombeiro, no tempo do quartel no Largo da Chafarica. Dizem-me ainda que é V. Excia natural de Caldas do Moledo, terra natal de meu pai.

Não há muito tempo, encontrei no recreio das almas, um bombeiro do quadro de honra – o amigo Teles – que me cumprimentou com saudade e de imediato me falou dos nossos bombeiros. Foi ele que me explicou que V. Excia é filho do Sr. Almeida, carteiro de profissão, que muitas cartas me levou, Medreiros acima.

Percebi que V. Excia seria o inesquecível recém-nascido que um dia me entrou consultório adentro, em vias de perecer por rejeição do leite materno. Tudo se resolveu, felizmente, e sem o saber, até nessa hora providencial continuei a servir com o que tinha de mim, a causa e o futuro dos Bombeiros da Régua.

Bem-haja o senhor doutor pelo trabalho que tem feito, permita-me, pelo Bombeiro que tem sido! Sei que teve mesmo o rasgo e o bom senso de escrever memórias da história da corporação e dos seus servidores, bombeiros voluntários e soldados da paz, como então se dizia. Mergulho a alma na saudade ao lembrar-me dos bombeiros do meu tempo e de algumas personagens inesquecíveis – as barbas brancas do Afonso Soares, o José Ruço, o Riço, o João dos óculos, o anedótico Justino, que sempre que metia no seu discurso flores, falava de gipsófila, muito embora lhe chamasse “pisgatófilha”. Enfim…

Do muito que me lembro dos bombeiros, que sempre mereceram o meu zelo e até o meu sacrifício, não consigo esquecer o prazer com que preenchi páginas e páginas do nosso querido boletim “Vida por Vida”. Um exemplo de utilidade pública que cultivava o amor dos cidadãos pelos seus bombeiros, e ainda apontava aos homens primores e desprimores da nossa terra. Não quererá V. Excia. aceitar o desafio de fazer renascer o “Vida por Vida”? Certamente haverá hoje na Régua gente capaz de lhe preencher novas páginas. Seria notícia que muito me agradaria receber na minha tebaida de Canelas.

Oxalá continuem os Bombeiros, mais ou menos voluntários, mais ou menos modernizados, a ter no seu quartel local de palavra e reflexão, de convívio e dinâmica cultural. Afinal, se os bombeiros acodem a fogos e doentes, porque não haverão de acudir às maleitas da sua terra? Falo-lhe em maleitas porque também me chegam notícias tristes sobre as nossas Caldas do Moledo e a sua Estância Termal a agonizar, vítima da estrupícia dos homens… e ainda o desprezo pelos jardins e pelas árvores, que continuam a sofrer ataques arboricidas, ao que me dizem! Já que mataram o secular Jardim Alexandre Herculano, ao menos que salvem a Alameda.

Dizem-me ainda que tem agora a Régua uma Biblioteca Municipal, moderna e eficaz, com uma sala onde se veneram e guardam os livros com o meu obscuro nome! Pois aplaudam-se com todas as mãos os autores da ideia e da obra. Entristece-me ver fechada a velhinha biblioteca Maximiano de Lemos, que nasceu da pequena estante que existia ainda no quartel da Chafarica, e que foi a minha primeira biblioteca, na altura enorme e poderosa aos olhos de uma criança aprendiz de leituras.

Contam-me os meus filhos que o rio está prenhe de barcos, uns são hotéis flutuantes cheios de mundo, outros que são Rabelos a motor! Os primeiros são-me bem-vindos, pelo ar fresco que trazem a terra possuída pelo tranglomanglo; os segundos é que me parecem cozinhado de estrugido queimado… Bem que ficavam nas baías da Régua e do Pinhão os velhos monarcas Rabelos, mas sem motores, de vela ao vento e arrais ao leme, passeando devagarosamente turistas, como se fossem as “gôndolas” do Douro.

Chegam-me notícias de que a Casa do Douro está atacada por doença cancerígena prolongada, agonizando à espera da morte definitiva. Pobre Antão de Carvalho, pobres paladinos do Douro, que devem estar em sofrimento, mesmo depois da suposta paz que se seguiu à sua vida terrena.

Por seu lado, depois de conseguido o Museu do Douro por que tanto clamei, está agora em maus lençóis, sem destino à vista! Sinto-me recolhido em Canelas do Douro, sem inveja nenhuma de quem por aí anda, e protegido de desgostos que me seriam fatais ao espírito.

Meu caro amigo Dr. José Alfredo Almeida, sou obrigado a concluir que tanto na Régua como na Pátria, talvez só mesmo os Bombeiros continuem, pela sua atitude, exemplo e coragem, a merecer a minha contínua doação e sacrifício, mesmo que daqui deste meu eremitério espiritual.

Em dia de aniversário dos nossos Bombeiros, deixo-lhe, com redobrado sentimento, o que a alma me ditou há mais de meio século, e que acredito ainda seja o espelho dos Bombeiros da Régua e de todo o Portugal: «Um homem de luvas brancas, com machado de prata às ordens e a cabeça adornada por um elmo de ouro, não é um homem. É um semideus.»

Já vai longa esta minha conversa com V. Excia, por isso recorro à tábua dos “Signaes de Incêndio”, que era de meu pai, para dar as cinco badaladas finais com que a sineta manda parar.

Abraço todos os Bombeiros do Peso da Régua e de Portugal.

Creia-me, com admiração e estima,

João de Araújo Correia
Texto de autoria de *JOSÉ BRAGA AMARAL - escritor e jornalista. Clique  nas imagens para ampliar. Texto e imagens cedidos pelo Dr. José Alfredo Almeida (JASA). Edição de imagens e texto de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Novembro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Só é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos.