quinta-feira, 17 de junho de 2010

Dr. Fernando Bandeira: Um homem que fez obra

Quase ninguém fala do Dr. Fernando Augusto Bandeira, Presidente da Câmara Municipal do Peso da Régua entre 1957 e 1961, mas nos bombeiros o seu nome é lembrado como um dos dirigentes que mais soube prestigiar o nome e história da instituição.

Nos bombeiros, o Dr. Fernando Bandeira exerceu o cargo de Presidente do Conselho Fiscal e também da Presidente da Assembleia-geral. Só lhe faltou desempenhar o lugar de Presidente da Direcção, muito embora tenha sido candidato numas das mais importantes eleições da Associação.

Os reguenses guardam dele uma boa memória. Consideram que foi um bom e dinâmico presidente de câmara. Apenas fez um mandato à frente dos destinos do concelho, mas não foi o pouco tempo, que o impediu de deixar obra feita e de importância para o desenvolvimento local. O mercado municipal, o tribunal judicial e as escadas monumentais dos correios, a servirem de ligação pedonal da rua dos Camilos à Av. Dr. Manuel de Arriaga e a remodelação do jardim da Alameda são as suas principais obras que deixou em execução ou concluídas. Conseguiu, pela sua influência, que o poder político autorizasse o funcionamento de moderna Escola Técnica, para resolver uma lacuna do ensino público profissional. Não teve a sorte de inaugurar a sua obra mais significativa, à qual o seu nome ficou marcado, mas a sua gestão no município trouxe mais progresso para a terra.

No exercício das suas funções de presidente do município nunca deixou de apoiar o corpo de bombeiros. Como conhecia as contas e as dificuldades da casa, esteve sempre na primeira linha para os auxiliar no que mais estavam carenciados, como melhoramentos nas instalações e a aquisição de equipamentos para o combate aos fogos e transportes de doentes.

Revelando a sua sensibilidade e respeito pela acção dos bombeiros, na qualidade de Presidente do Conselho Fiscal, escreveu na revista comemorativa dos 75 anos da associação, este sentido elogio:

“Quando na vida duma corporação se festejam setenta e cinco anos de existência, o facto não pode deixar de revestir daquela solenidade própria dos grandes actos comemorativos. A AHBVPR festeja neste momento setenta e cinco anos de vida, vida já bastante longa, toda ela votada ao serviço do seu semelhante, na defesa por vezes heróica, das suas vidas e valores.

Ao entrar no último quartel do século, deixa a Associação atrás de si o rasto luminoso duma história esculpida a oiro pelos muitos actos de abnegação, heroicidade e altruísmo dos admiráveis componentes do seu corpo activo. É bem grandiosa a sua história!...E, se o reconhecimento público ainda não envolveu todos estes bravos soldados da paz, no peito de alguns e ao pescoço de outros brilham já medalhas e colares como reconhecimento do Estado para com aqueles que mais de perto seguem a doutrina pregada aos homens por Jesus, filho de Deus.

E na sua bandeira, rota e velhinha, bordada por mão caridosa de mulher, sentem-se perpassar imagens duma história vivida, clarões a iluminar os passos dos novos que entram, chamas que aquecem os corpo já cansados dos que partem com saudade! A bandeira da Associação a todos envolve, a todos acarinha, a todos obriga…

A Régua, melhor dirá, todo o concelho, tem nesse dia a grande e quase única oportunidade para tributar à sua Associação, o respeito, a admiração e a sua estima que sente pelos seus “rapazes”. À singeleza desta deverá juntar-se o muito obrigada de toda a gente, numa exaltação espontânea do muito que lhe quer e do muito que lhe deve.

Estamos certos de que esse punhado de bravos, que garbosamente vai desfilar ante os nossos olhos, há-de sentir um carinho diferente a envolve-los, uma onde de ternura a afaga-los, uma admiração e respeito maiores pelas venerandas cãs da nossa velhinha Associação!...É que, quem da voluntariamente a sua vida necessariamente tem direito à maior consagração que é possível fazer-se.

Por isso, quando na rua passarem, em desfile marcial, esses soldados da paz, que toda a gente se descubra, porque debaixo das fardas azuis batem corações que albergam um grande sentimento: o sentimento humanitário.”

No dia 3 Março de 1961, uma comissão de ilustres senhores e senhoras reguenses organizou-lhe uma homenagem, à qual a Direcção dos bombeiros apoiou e se associou. No oficio nº 61/61, o Vice-presidente da Direcção, José Pinto da Silva comunicou-lhe “ser a primeira como em tudo (…) a apresentar-lhe os mais entusiásticos cumprimentos (….) em que todo o concelho lhe rende sentidas homenagens pelo obra deveras notável com que tem caracterizado o mandato de V. Ex.ª como presidente da municipalidade.”

Com o título “A Régua agradecida - homenageia o seu Presidente da Câmara”, o jornal “Vida por Vida”, em suplemento, destacou mais pormenores dessa homenagem. Começa logo por destacar a sua acção como autarca na ajuda ao corpo de bombeiros: “Como reguenses, regozijamo-nos por verificar a onda de melhoramentos já existentes, mas como elementos directivos dos bombeiros da Régua, temos que nos sentir agradecidos, pois que a sua acção em prol desta Casa, excedeu tudo o que seria legítimo esperar de um homem.

Nunca qualquer pedido que se lhe dirigiu – aliás sempre justos - deixou de ter a melhor atenção e carinho para que tivesse a feliz resolução que seria traduzida em benefícios. Por isso mesmo, por esta maneira de proceder, a nossa acção tem sido imensamente facilitada e porque sabemos que a sua actuação continuara a ser no futuro como foi no passado e no presente, não nos cansaremos de nos mostrar reconhecidos, como sempre o soubemos fazer para todos quantos nos auxiliem, nos mais variados aspectos.”

No seu discurso, perante o Governo Civil de Vila Real e o Presidente da Comissão Concelhia da União Nacional, capitão Afonso Alves de Araújo, o homenageado agradeceu com estas palavras: “Pode o Presidente da Câmara errar, pode a sua inteligência não abarcar suficientemente a extensão deste ou daquele problema, mas a verdade é que – e nisso com vaidade vos digo, têm-me feito justiça – é sempre com olhos postos no bem da terra que se tem actuado na defesa das legítimas aspirações e anseios. Mas o fardo que recaiu sobre meus ombros tem sido bem pesado. Administrar uma casa em que as receitas mal cobrem as despesas e muitas vezes estas superam aquelas, é tarefa ingrata para quem tem à sua frente a inexorável espada das realidades.”

Mas, em 6 de Janeiro de 1968, o Dr. Fernando Bandeira concorreu aos órgãos sociais dos bombeiros da Régua. A outra lista era liderada pelo Dr. José Vieira de Castro. O acto eleitoral atraiu à sede da Associação muitas dezenas de associados. O jornal da Associação “Vida por Vida” dava a informação de “que nunca esta instituição viveu tão intensamente o significado do acto eleitoral.”
Quem participou na assembleia eleitoral garante - ainda hoje - que os resultados finais causaram dúvidas quanto à lista vencedora. A contagem dos boletins fez-se sem controlo. Pedida uma recontagem dos votos, a mesma não se fez porque os boletins foram imediatamente queimados. Esta irregularidade causou reclamações e fez adensar ainda mais as incertezas. Isso fez com que alguns associados contestassem o modo de apuramento. Rapidamente se originou uma confusão entre os associados que provocou incidentes e desacatos. Pela madrugada, por volta das 5 horas da manhã, uma força da Polícia de Segurança Pública foi chamada ao Quartel para apaziguar os ânimos e manter a ordem entre os associados mais revoltados. Os apoiantes da lista do Dr. Bandeira não se conformavam, mas já nada podiam fazer para repor a verdade que clamavam.

Como nada tivesse acontecido, o Dr. Rui Machado, como Presidente da Assembleia-geral, na tomada de posse dos novos Corpos Gerentes deu uma explicação para o sucedido nas eleições. Se não foi clara e convincente ele conseguiu, pelo menos, depreciar todas as divergências, recorrendo à evocação desta verdade irrefutável para todos: “nesta casa só pode haver uma finalidade: servir a humanidade.”

Algum tempo depois de empossado, numa cerimónia entre bombeiros, o Dr. José Vieira de Castro desvalorizou os factos. Lamentava-se, dizendo “que no período eleitoral tudo parecia uma tempestade medonha, um mar sem fundo, não que passou afinal de uma pequena borrasca cujo único inconveniente foi termos andado todos metidos nas bocas do mundo.”

O que terá motivado este caso que ensombrou um período da vida associativa nunca ficou bem esclarecido. Alguns acreditam que se passou o mais grave, algo que como o desprezo pelas regras da participação cívica e democrática num confronto eleitoral entre dois homens de grande valor. O Dr. Fernando Bandeira era uma figura conciliadora e influente no partido do poder, a União Nacional. O seu brilho de pessoa elegante, culta e com espírito altruísta e liberal faziam dele um cidadão estimado e respeitado. O eleito para a direcção, o Dr. José Vieira de Castro, subdelegado de saúde, gozava de consideração social e era visto como um médico de bom carácter humano.

Mas, há quem continue a dizer – agora decorrido muito tempo - que esteve aqui metida a política. Se assim foi, o Dr. Fernando Bandeira não chegou a ser Presidente da Direcção dos Bombeiros da Régua, em 1968…! Desta vez, a ser verdade, os interesses concelhios da União Nacional se não mudaram os rumos da história da Associação, alteraram a vida de um homem bom. Mas isso aí, será tema para se contar numa outra história…!
- Colaboração de J A Almeida para "Escritos do Douro". Peso da Régua, Junho de 2010.
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