sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Recordação da passagem por Coimbra

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Recuamos 45 anos no tempo, para voltarmos a passar pelo Largo da Portagem, junto ao rio Mondego, em Coimbra, no magnifico Chevrolet, acompanhados pelos mesmos garbosos bombeiros – alguns felizmente vivos e boa saúde como o Laurindo Lemos, o Armindo Pinto e o Lafayete - para uma paragem de descanso, numa viagem que, em 2 de Junho de 1964, tinha como destino o regresso de Évora à Régua.

No caminho pelas ruas da baixa coimbrã voltamos a ter a sorte de cruzarmos com o velho fotógrafo António Teixeira. E ainda bem! Esse encontro permite-nos conversar sobre as boémias dos estudantes, as capas negras, as queimas das fitas e os fados e as serenatas ao luar. Uma conversa sem fim….para recordar o tempo passado. Emocionado com aquelas fardas azuis, que sempre o apaixonaram, o simpático fotógrafo percebeu que, naquele dia, estava viver um momento invulgar.

Os bombeiros da Régua eram personagens diferentes que mudavam o sentido e às suas vivências citadinas. Aqueles homens eram diferentes de todos que já tinha captado em imagens pela sua antiga máquina fotográfica. Ele, podia agora, juntar-se ao lado deles, próximo do carro de fogo, e fazer o retrato que tanto desejava, como se fosse também um desses briosos bombeiros. Era aquela passagem, sua oportunidade de entrar ainda a tempo no imaginário desse maravilhoso mundo, que o fazia sonhar desde os tempos de infância. E, de nesse momento, fugir ao efémero da vida e de conquistar a sua notoriedade, ao lado dos bombeiros, impecavelmente vestido no seu melhor fato. Se calhar, até a própria imortalidade nos arquivos e nas nossas memórias.

Essa passagem por Coimbra é um momento marcante na vida desse grupo de bombeiros. A viagem para Évora era uma espécie de prémio pelo seu empenhamento e dedicação ao voluntariado. Esses homens fizeram parte da história de um grande acontecimento para os destinos dos bombeiros. É o que dizem, nas costas do retrato, as palavras dactilografadas numa antiga Remington do fotógrafo: “Recordação da passagem por Coimbra dos Bombeiros Voluntários da Régua, no regresso de Évora, onde foram tomar parte no CONGRESSO DOS BOMBEIROS PORTUGUESES”.

Nesses tempos da década de 60, as distâncias que separavam a então vila do Peso da Régua e a cidade de Coimbra eram muito maiores e, então para Évora, já nem falava. Mesmo assim, os bombeiros da Régua marcaram uma forte presença no 16.º Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, realizado nessa cidade alentejana, entre 27 a 31 de Maio de 1964.

Desde então, as acessibilidades rodoviárias do país melhoram muito com a construção de melhores vias de comunicação. O mesmo aconteceu com nos equipamentos e carros dos corpos de bombeiros e com a gestão associativa. As velhas estradas nacionais a percorrer entre o norte e o sul pareciam nunca ter fim. Ir de carro do interior até ao litoral e ao sul era uma aventura para longas horas de jornada, quando não fosse um dia inteiro, que tinham paragens obrigatórias no caminho para almoçar bem, descansar e, em dias de azares, mudar os furos nos pneus, e outras peripécias divertidas que ajudavam a passar o tempo. A cidade dos estudantes era, nesse tempo, um lugar de passagem – e, muitas vezes, de paragem - para o trânsito rodoviário que circulava para o sul ou para o norte. Como foi o caso dos bombeiros da Régua que, em 1964, viajam de Évora, no carro de fogo, que é conhecido com o nome de “Nevoeiro”.

Confesso que gosto muito desta fotografia, a observo vezes sem conta, comovido com o exemplo desses bombeiros, que marcaram uma época de glórias…e nos deram o melhor de si, num tempo em que tudo era mais difícil de conseguir. Recorda-los hoje, é um acto de eterna gratidão. Eles são uma memória futura do que é o verdadeiro voluntariado. Eles dizem-nos, com a sua humildade espelhada nos seus rostos, que o voluntariado tem uma dimensão social, humana e fraterna.

Em homenagem a estes generosos homens, recordamos a crónica “Os meus Bombeiros” do Dr. Camilo de Araújo Correia – Presidente da Direcção da AHBVPR em 1964/65 – publicada no jornal “O Arrais”, em 6 de Dezembro de 1990, onde nos conta deliciosas memórias dos bombeiros do seu tempo….em que o Justino fazia as suas divertidas graças:

“Quem já fez uma dezena de anos, ao assistir a estas festas centradas nas magníficas instalações dos nossos bombeiros, não pode deixar de recordar o velho e minúsculo quartel do Cimo da Régua. Velho, modesto e pequeno, mas muito querido dos seus frequentadores e visitantes fortuitos, sem falar do rapazio, incapaz de passar adiante sem se deslumbrar como o pronto -socorro de cadeirinhas e com a ambulância, uma caranguejola esquinuda, de um branco duvidoso e conforto ainda mais duvidosos…Os carros entravam à justa na porta estreita, sempre com grande vozearia de indicações e avisos.

O quarto do Zé Pinto, o quarteleiro, era também minúsculo e abria para o parque automóvel. Deste se passava à sala de jogos, por dois degraus. O quartel acabava aqui, se não contarmos uma pequena cozinha lá no fundo. Cozinhava ali a senhora Antoninha, esposa do Zé Pinto, ainda hoje inconformada viúva, e ele próprio preparava os petiscos que os jogadores da noite lhe pediam.

Jogava-se um bilhar muito gozado, um dominó muito batido e umas cartas muito lambidas.

Havia, ainda uma estante de livros sonolentos, perturbados, muito de longe em longe, por esporádico leitor.

As formaturas só se desfaziam no quartel, à medida que iam entrando. De maneira que a porta estreita oferecia grandes dificuldades para manter o aprumo. As maiores dificuldades eram as do Justino, garboso porta-bandeira de muitos anos. Garboso, mas desastrado…De rígida marcialidade, esquecia muita vezes o globo da entrada: aquele globo de luz melancólica marcada por uma cruzinha vermelha. A rigidez do corpo e do gesto não lhe permita baixar suficientemente a bandeira. Zás!...mais um globo. De nada valiam os avisos mais próximos, feitos, disfarçadamente, pelo canto da boca: - Ó Justino…Ó Justino…olha o globo! Bumba!...mais um.

Até que um dia o Justino, muito infeliz, propôs que se arranjasse um globo de lata.

Coitado do Justino. Já lá está, nem sei há quantos anos.

Não pôde levar a sua querida bandeira dos Bombeiros da Régua. Ainda bem. Eu sei lá, se com o vagar da Eternidade, nos andaria a quebrar as estrelas, uma a uma”.

Tem toda a razão, Dr. Camilo… esse nosso Justino não era nada de confiar! Com um bombeiro da Régua assim distraído no quartel da eternidade, uma sua passagem mais descuidada pelo estrelado firmamento duriense, era motivo para nos tirar a luz cintilante das nossas maravilhosas noites de verão, à beira das margens e socalcos do rio Douro. Mas, no imenso infinito, o bombeiro Justino – e, como ele, tanto outros - continua ainda dar sentido e humanidade à nossa existência e a fazer acreditar-nos que, a vida cá na terra, pode ser mais que do que uma simples passagem… na vida.

Como aquela passagem por Coimbra que, pelo retrato do fotógrafo António Teixeira, será recordada com saudades, num regresso ao futuro, como uma viagem inesquecível para aquele grupo de bombeiros da Régua.

Ao contrário do que se diz, há lugares em que devemos voltar, sempre...nem que seja, outra vez, de passagem! - Peso da Régua, Setembro de 2009, José Alfrefo Almeida.

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Um comentário:

Anônimo disse...

É muito bom existir alguem que recorde assim tão bem os tempos passados.Parabens!