sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Naquele meu tempo

O CORETO do extinto 'Jardim Alexandre Herculano'

Naquele meu tempo – digamos melhor, entre os anos de 1933 e 1943 – indo a minha idade dos 11 aos 21 anos, eu tinha um grupo de “amigos do coração”, junto dos quais eu,  nas redondezas, costumava satisfazer os meus prazeres, o da conversa de todos os dias, o dos passeios a pé até ao Salgueiral, o dos “copos” (com que nos desdenhávamos e onde havia do melhor…), o das idas até Além Douro, o dos pontapés na bola em qualquer sítio, enfim, os gostos de rapaz. Neste grupo, que me lembre, estavam o Carlos Cardoso dos Santos (que ainda não pensava servir como Comandante dos Bombeiros), o Engenheiro Joaquim Rodrigues Guerra (um amigo “malandreco”, que mais parecia ser ainda um menino…), o Rogério  (uma jóia de rapaz e, talvez, o melhor jogador  de futebol, filho da nossa terra, que a “parca” ceifou deste mundo com escassos 30 anos, vítima da tuberculose que, então, nos espreitava a todos…), o Cassiano (que ganhava a vida na loja do “Mumu” e de quem eu nunca mais nada soube) e mais um ou outro que, eventualmente, se aproximava deste nosso grupo, que era bastante fechado.

Em curtos períodos daquela década, acontecia nos afastarmos uns dos outros, por causa dos estudos fora da Régua ou por outros afazeres, muitas vezes eventuais.

Lembro-me com especial saudade dos passeios que dávamos até ao Salgueiral, muitas vezes quase até ao Moledo, melhor dizendo, até ao nosso campo das Figueiras, onde se iniciou, à falta de melhor, o Sport Clube da Régua. Fazíamos quilómetros e quilómetros sem darmos por ela, conversando saudavelmente sobre tudo e sobre nada, um dichote daqui, um dichote dali, aproveitando temas ocasionais, que iam do cruzamento com pessoas por quem passávamos até às ocorrências locais e nacionais de cada dia, e que desbravávamos até ao tutano… Outras vezes, aos fins de tarde, íamos lanchar (quantas vezes, quase jantar…) ao “Gato Preto”, na avenida João Franco, onde apreciávamos a boa “pinga”, que, frequentemente, acompanhávamos com umas coxas de leitão,  com umas iscas de bacalhau ou com umas sardinhas de escabeche, etc. e tal…!

Noutras ocasiões, virávamos as nossas passeatas para o sentido contrário, até à Ponte de Ferro, na qual parávamos e donde admirávamos a nossa terra, lá ao longe, e mirávamos o nosso lindo rio, claro... Raramente íamos para lá da Ponte, nela ficávamos, entretidos com o movimento, com os carros de bois, com pessoas que a atravessavam, assim nela ficávamos…

De noite, a cidade mantinha-nos dentro dela, com atractivos diferentes, mais íntimos, guardando-nos no café Imperial, se bem me lembro do seu nome, o único por ali existente. Nele, ficávamos até cerca da meia-noite, se tanto… Aqui, conversávamos urbanamente (boa noite, como passou e coisas deste jeito), ou espreitando uma rapariga que calhasse passar nas redondezas, quando, então, nos chegávamos a levantar da mesa para a apreciar melhor… No café, muito naturalmente, falávamos também dos futebóis, do Benfica e do Sporting, que o Porto ainda não tinha a corpulência de hoje, o que o Pintinho da Costa inverteu... Conhecíamos as futebolices pelas transmissões pela rádio, que a TV ainda não existia cá, pelas nossas bandas… Embora na urbe, não tínhamos tendências para bailes, que não os havia, salvo em raros ambientes familiares.

No verão era frequente irmos passar o tempo para a margem esquerda do rio, bem em frente da cidade. Tomando umas banhocas e secando ao sol benigno… Para lá chegarmos, utilizávamos a barca do “Carvalho”, que uma possante remadora movimentava.

Então, de que outras figuras da Régua me lembro? Verdadeiramente típicos, recordo-me do Porrório, um coitado, um modesto homem, quase sempre com uma “pinguinha” na asa – não muita, salve-o Deus, Nosso Senhor - um pobre estimado por toda a gente, uma verdadeira curiosidade. Refiro muitas vezes os seus encontros com o meu irmão Júlio, quando este regressava do seu escritório, perto do monumento dos aviadores. O Porrório costumava esperá-lo perto da loja do Borrajo, por onde pairava frequentemente. Quando o meu irmão chegava, era certo saudarem-se os dois com um “Vivó Benfica”, que logo tornava o Porrório mais “social”. Depois, aconteciam chorrilhos de disparates muitas vezes provocados por outras pessoas, que assistiam deliciadas e embevecidas à conversa que se  travava, como era costume. A gente que estava nas imediações do Borrajo, do Zé Pinto, da Padaria não deixava de se aproximar, fazendo monte. Depois, um pequeno cortejo iria desfilar, muito lentamente, até casa do meu irmão, na rua da Ferreirinha. Era assim quase todos os dias, ninguém se cansando com o palavreado que travavam, com o meu irmão sempre atencioso com o Porrório, de quem verdadeiramente era amigo e que muito estimava. Constituíam um espectáculo muito singular e atraente. Que paciência o meu irmão tinha, ele, uma pessoa tão diferentes na cultura e na mente!... A conversa acabava sempre com um cigarrito e com o fósforo que o acendia, que o meu irmão lhe dava, satisfazendo-se ambos. Mas, não esqueçamos o embaraço que assaltava o Porrório, quando o meu irmão lhe pedia que dissesse bem a palavra “inconstitucionalmente”, que o Porrório nunca foi capaz de pronunciar capazmente, antes gaguejando e gaguejando cada vez mais, como se atropelando a si próprio, proferindo uma palavra sempre diferente, que ninguém entendia… Depois, sozinho, continuava a proferir uns sons, rua fora.

Levados a sério estes encontros, eles proporcionariam interessantíssimos espectáculos “circenses”, com um palhaço rico e um palhaço pobre no máximo das suas capacidades histriónicas, a que todos adeririam com prazer e com respeito.

De outras figuras – que considero não propriamente típicas, mas sim algo “senhoriais“ e singulares, a  quem eu respeitava, não só por serem muito mais idosas do que eu era, mas mais por gozarem de excepcional prestígio entre os concidadãos – sou capaz de fazer algumas referências.

Antes de qualquer outro, refiro a figura de meu avô Gaspar Monteiro, homem prestimoso, um homem alto e forte, decidido, conceituado, que eu estimava com todo o meu coração e que para mim serviu sempre de exemplo que eu gostava de seguir. Seria sempre o meu preferido.

Talvez a seguir, lembro o doutor Antão de Carvalho, paladino da nossa região, que desfilava nas nossas ruas sob o olhar respeitoso de toda a gente, impressionando com os seus cabelos  muito alvos, apoiando-se na sua bengala, com passos cautelosos mas firmes. Como grande senhor que era, os nossos conterrâneos cumprimentavam-no, descobrindo-se à sua passagem. Criança que eu era lembro-me bem de sempre descer do passeio para lhe facilitar a passagem, enquanto ele me retribuía a atitude com um acenar de mão ou um sorriso, o que me sabia muito bem. Eu conhecia-o das relações que ele tinha com os meus pais e das conversas que tinham sobre as causas da nossa região, que, não as entendendo, me impressionavam, por serem longas e vivas. Deste grande senhor, paladino da nossa região, guardo uma imagem ainda muito viva, apesar de passados alguns 80 anos!...

Outra figura que retenho, menos seguramente, é a do Artur Martinho, homem com aparato de fidalgo, com algum tamanho, que desfilava teso como um perdigão, e que toda a gente respeitava.  Costumava parar pelas lojas do Zé Pinto e do Borrajo, no Cimo da Régua, onde ficava por horas e horas. Tinha um automóvel descapotável, que muito me impressionava. Era sua esposa, a senhora D. Branca, estimável protectora dos pobres da Régua, que gozava de enorme prestígio, como pessoa de bem.

Lembro-me de muitas outras pessoas da nossa terra. Do Lourencinho, por exemplo, figura ilustre dos nossos Bombeiros, que me dava nas vistas pela sua apresentação, como me lembro de outras, também ligadas aos Bombeiros, como o Claudino, o seu irmão Teófilo e o Coutinho, todos muito estimados pela população.

Fugazmente, lembro-me de muitas outras pessoas, afastadas de mim, principalmente pelas distâncias na idade, que nos separavam. Recordo-me, no entanto, do popular Dário, como bom caçador de perdizes que era, que morreu no rio Douro, numa cheia, ao ser apanhado pelo redemoinho que a ponte de pedra ocasionava, que lhe afogou o barquinho em que ia, exactamente quando se preparava para caçar uns patos bravos. Esta tragédia sensibilizou muitos reguenses.

Curiosamente, recordei – exactamente neste momento - o médico Dr. Ernesto Santos, que vivia uns metros acima do edifício da Câmara, passando na rua dos Camilos, montado num cavalo branco, a caminho de Poiares ou coisa semelhante, para lá do Corgo. Também para ele, o automóvel ainda não lhe estava à mão.

Aproveito para lembrar outro reguense que ficou extremamente popular, quando ousou inscrever-se numa “Volta a Portugal”, em bicicleta. Refiro-me ao Sotero, que ganhava o seu pão vendendo lotaria. Fez, na Volta, fraca figura: atacado por qualquer indisposição intestinal, ficou enfraquecido, mas conseguiu finalizar a prova, o que, para a gente da Régua, foi uma grande facécia. Coitado, sem médicos que especialmente o acompanhassem, que podia ele mais conseguir?

Houve outras figuras, que, na altura, me ofereceram especial atenção, talvez, principalmente, pelos laços familiares que me ligavam a elas. Não querendo excessivamente alargar-me em referência que me tocam de alguma maneira, ouso ainda citar, mais uma vez, o meu irmão, o Dr. Júlio Vilela, que, além de muito bom advogado, era um excelente companheiro nas paródias, um bom fadista, que tocava viola e que cantava bem o samba. Era homem que sabia estar bem em qualquer palco, companheiro solidário de toda a gente, homem que gostava da mesa, onde apreciava um bom vinho e a boa comida. Foi importante para os nossos Bombeiros e para o Sport Clube da Régua. Todos o disputavam para sua companhia. Parece-me ficarem bem aqui, estas referências aligeiradas.

Outra citação que, aqui, também não ficará mal de todo, embora por motivos menos elogiosos, é aquela que vou fazer a meu cunhado Manuel Carlos Pereira, o Lalá dos seus amigos e da família. Ele, meio amalucado, foi possuidor de um espampanante Ford V8, que, na época, era um automóvel quase revolucionário. Este meu cunhado fartou-se de leviandades. Foi um autêntico “terrorista”, quando, pelas ruas da Régua, passava a toda a velocidade, amedrontando os reguenses e pondo a GNR a olhar para o lado, para não ver o V8 a roncar por ali fora.

Enfim, talvez muitas outras pessoas merecessem  ser referidas. Os casos que citei, foram os que me vieram à mente de imediato. Outros me saltariam, se mais tardasse em encerrar esta memória. Por exemplo, de súbito, vieram-me ao cima as facécias do Rebelo, popularíssimo funcionário da Casa do Douro, ao pé e quem ninguém conseguia manter-se sério. Tornou-se célebre pelos seus despachos “tribunalíceos”, cheios de humor e de curiosidade, ditos de viva voz, com toda a ênfase e  seriedade. Foi uma pena não haver na altura, os gravadores com a mesma facilidade de hoje, assim se perdendo intervenções que “escangalhariam” qualquer reunião de parodiantes.

De quem me terei esquecido?... Lamento, mas tenho já as minhas naturais limitações, que a minha memória já não é o que sempre foi. Mas, para fazermos um pequeno retrato dos meus tempos na Régua, como éramos e o que fazíamos,  creio que já chega. Ficaram as lembranças de um tempo, com preocupações diferentes das de hoje, com modos de viver mais restritos e menos abertos. A vida de hoje pouco tem a ver com a da década que claramente delimitei. Os avanços tecnológicos foram imensos, a televisão, a penicilina, os aviões a jacto eliminaram os de hélice. Até o tradicional comboio, suporte de muita e muita  gente, foi praticamente eliminado pelo automóvel, embora com algum proteccionismo de políticos e a força dos industriais do sector, assim o individual se sobrepondo ao colectivo, ignorando, disparatadamente, o maior custo individual  dos transportes e a sua menor rentabilidade. Porém, hoje somos mais livres e os horizontes mais extensos. Coisas para meditar… Ou não será assim?...
- Abeilard Vilela, Fevereiro de 2013.

Clique nas imagens para ampliar. Sugestão de texto do Dr. José Alfredo Almeida (JASA). Edição de imagens e texto de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Fevereiro de 2013.. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos.    

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