quinta-feira, 16 de junho de 2011

História de uma medalha

Gostava muito de saber contar-vos a história da medalha que, em 1918, os bombeiros da Régua, fizeram para comemorar o 38º aniversário da Associação Humanitária dos Voluntários do Peso da Réguas, fundada por Manuel Maria de Magalhães, como se sabe  em 28 de Novembro de 1880.

Sabe-se muito pouco sobre esta medalha e não abundam informações que nos ajudem a relevar os seus segredos dos passados e os mistérios da sua existência.
Sabe-se que é a medalha mais antiga que a Associação teve para distinguir os seus principais homens, os bombeiros e os directores e aqueles que sempre a ajudaram em momentos de dificuldades financeiras.

Uma coisa é certa, como medalha antiga conta-nos algo da instituição que a mandou cunhar e da pessoa que a recebeu. E, neste caso concreto, dos herdeiros que a guardaram como se fosse um bem precioso.
O resto que dela conhecemos fica na penumbra do tempo como uma sombra muito vaga de exemplos de vidas antepassadas que, ousaram dar um pouco de si pelos outros, e da lição de vida dos bombeiros voluntários de uma época, por certo, generosos e abnegados a cumprirem as suas missões de paz e de socorro.

Nos bombeiros, quando as medalhas, não são comemorativas de datas históricas, certificam reconhecimentos pessoais aos bombeiros, directores, associados e beneméritos.
Uma medalha é um objecto de dimensões apropriadas para fazer um agraciamento público. E, por assim dizer, uma espécie de lembrança a quem se quer reconhecer, umas vezes, pelos seus gestos altruístas, fora do normal no comum dos mortais e, outras vezes, pelos actos de dedicação, comportamentos exemplares, serviços distintos, de mérito e de valor, de coragem e de abnegação.

A medalha não premeia apenas os bombeiros que são considerados, pela opinião geral, como heróis. Se, quase sempre, esses a merecerem pela coragem que revelaram perante a grandeza dos perigos que correram as suas vidas para salvar a dos seus semelhantes, muito outros, a receberam apenas pelo seu exemplo de cidadania, espelhados nos puros ideais de generosidade e de fazer o bem.
Quem recebeu uma medalha pelos seus méritos de humanidade guarda para sempre como uma prova de um justo reconhecimento as suas qualidades humanas.

E quem guardou uma medalha religiosamente no meio dos seus objectos pessoais, sabe que o seu real valor, seja ela de que título for, é sempre o afectivo, vale pelo prestígio que confere e acrescenta ao curriculum pessoal.

Sobre a bonita medalha de 1918, pouco ou muito pouco sabemos, o que sabemos foi-nos contado e aceitamos ser a verdade e a essência do que aconteceu ao homenageado, ao cidadão  que ela distinguiu.

Sabemos que medalha pertenceu a um homem de uma família muito conhecida na Régua, os Eliseus, que tiveram durante negócios prósperos espalhados pela Rua da Ferreirinha. Esse homem, nascido em 29 de Junho de 1890 e falecido em 1 de Junho de 1968, chamava-se António dos Santos Eliseu. Foi ainda do tempo dos briosos bombeiros da velha guarda. Recebeu-a, ao que nos contaram os familiares, pela sua bravura no combate a um incêndio num velho armazéns de vinhos que existiu junto ao rio, na zona da Meia Laranja. Depois de morrer, deixou-a entregue em boas mãos, nas de uma filha que a soube manter entre as memórias mais sagradas que lembram, para sempre, os que mais amamos e nunca morrem no coração dos vivos.

A filha, a senhora D. Amelinha, dona da preciosa relíquia, com o seu carinho e admiração pelos bombeiros e o exemplo do seu pai, que o não queria esquecido, fez-nos escrever a verdadeira história da medalha.

O melhor será dizer: fez-nos escrever a história, mesmo que muito sumária e breve, da vida maravilhosa de um bombeiro, de um anónimo herói, um bom exemplo para divulgar as gerações mais novas.

Para acabar, retiro uma conclusão para a história da medalha, a vida de um bombeiro nunca é efémera. 

-Colaboração de J. A. Almeida* - Régua, para "Escritos do Douro" em Junho de 2011. Edição de J. L. Gabão. Clique nas imagens acima para ampliar.

*José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também crónicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária, fatos do passado da bela cidade de Peso da Régua.
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História de uma medalha
Jornal "O Arrais", Quinta feira, 16 de Junho de 2011
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História de uma medalha

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