sexta-feira, 1 de abril de 2011

Adolfo Pauman

Com este título Uma excursão a Vigo, António Guedes escreveu no extinto Vida por Vida, em finais de 1970, uma deliciosa crónica dos seus tempos de bombeiro.

Na crónica evoca uma história fantástica de uma viagem dos bombeiros da velha guarda da Régua que fizeram com os bombeiros voluntários do Porto à cidade galega de Vigo. Apenas não referiu a data exacta em que aconteceu aquela viagem, mas terá sido entre 1910-20.

Este antigo chefe dos bombeiros da Régua recorda os bombeiros da velha guarda, com os quais teve a ventura de se acamaradar, como Afonso Soares, Camilo Guedes, Joaquim de Sousa Pinto, Lourenço Medeiros, Luís Maria da Cunha Iharco, José Vicente Ferreira da Cunha, João Pinto Cardoso - conhecido por João “Latas”- , Justino Lopes Nogueira, Aires Saldanha, José Maria de Almeida e José da Silva Bonifácio (pai),  o  médico, o farmacêutico privativos e o capelão, o Padre Manuel Lacerda de Oliveira Borges.

Quem também seguiu naquela excursão a Vigo foi Adolfo Pauman, actor dramático de nacionalidade espanhola que, sob o comando de Afonso Soares, se alistara também como bombeiro voluntário, depois de fixar a sua residência na Régua.

E do ilustre actor já aqui se tinham deixado umas breves notas, mas não sabíamos nada mais da vida. Não sabíamos e desconhecíamos o que na crónica, o António Guedes tinha revelado algo mais que iluminava a sua vaga sombra. Conta-nos que o actor Adolfo Pauman abandonou as artes cénicas para se dedicar ao comércio na Régua. Para ganhar o seu sustento, possuiu uma moderna relojoaria e instalou-a numa casa que ainda existe na esquina da Rua João de Lemos com a Rua Marquês de Pombal.

O actor Adolfo Pauman não ficou conhecido. A Régua comercial não recorda a sua existência, nem sabe que teve um antigo actor famoso à frente de um ramo de negócio, do seu passado mais distante, como um dos seus pioneiros.

Se os reguenses não querem saber quem foram os seus antepassados no comércio local, hoje também não sabem que Adolfo Pauman foi actor e bombeiro voluntário. Aqueles que, na sua época, gostavam de ir ao teatro para o ver e lhe aplaudir as suas interpretações, não deixaram memórias. Com o decorrer tempo, o grande actor foi esquecido como se tratasse de um comum mortal. A associação dos bombeiros, por sua vez, não guardou nada que o permita evocar como um dedicado voluntário. O seu nome, como outros exemplares cidadãos, quase ia ficando esquecido na pedra de algum túmulo do cemitério.

Se o seu nome chegou à posteridade, foi porque alguém destacou o seu nome como essencial para se estudarem os primórdios do teatro na Régua. No seu livro da história vila e concelho do Peso da Régua, Afonso Soares, que o admirava, elogiou-o e divulgou-lhe uma fotografia do seu rosto e pose de meio corpo.
Quem observar voltar aquela fotografia pode reparar que o António Guedes não se enganou ao descrevê-lo como um ancião que com “os seus cabelos cumpridos e receitáveis barbas brancas, mais parecia um velho patriarca das Índias…”. Basta juntar a imagem às suas palavras, completam-se como se fossem uma única visão deste homem que, por adopção, se tornou como nós, um reguense.

Nessa excursão a Vigo, entre as divertidas peripécias, Adolfo Pauman não deixou que aquele grupo de velhos garbosos bombeiros da Régua fosse alvo de uma tentativa de burla de um galego nada escrupuloso. Pensando que ele, que o falar espanhol seria um trunfo intercedeu pelos reguenses, mas os anos que já levava a viver na Régua tinham-no feito perder o sotaque da sua língua. Para o seu compatriota galego, Adolfo Pauman era mais um português…! Apanhou, pelo seu gesto, um valente susto…

Se querem saber o resto do episódio passado com o Adolfo Pauman e aqueles “imortais” bombeiros devem continuar ler a crónica bem escrita e repleta de humor do Chefe António Guedes.


Apenas, para concluir, gostava de repetir a sua nostálgica conclusão: “Passou-se isto há muitos anos! Já todos desapareceram do número dos vivos”. Desta vida efémera sim, mas não desaparecem da nossa memória colectiva o Adolfo Pauman – o actor famoso, o bombeiro solidário e o comerciante de relojoaria – nem os bombeiros da velha guarda … Enquanto alguém olhar de frente o seu passado.


- Colaboração de J. A. Almeida* - Régua, para "Escritos do Douro" em Abril de 2011.
- Leia também "O actor que foi bombeiro". Clique nas imagens acima para ampliar.
  • *José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também crónicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária, fatos do passado da bela cidade de Peso da Régua.

ADOLFO PAUMAN
Jornal "O Arrais", Quinta feira, 17 de Março de 2011
(Dê duplo click com o "rato/mouse" para ampliar e ler)
ADOLFO PAUMAN

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