quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O TANTA-RUA

Por João de Araújo Correia*

Bem haja o António Guedes, que me fez regressar à infância, lembrando-me, neste Jornal, o Tanta-Rua.

Alguma coisa posso acrescentar à biografia do pitoresco maluco. Não era, como supõe o bom António Guedes, natural da Régua. Dentro da Régua, nunca nasceu nenhum doido. Todo reguense é modelo de cidadão ajuizado. Ainda que beba, em horas solenes, uma pinga a mais...

Tanta-Rua nasceu em Mafómedes e veio de lá rapazinho com a família, talvez mãe e irmã ou irmãs.

Como as ruas de Mafómedes são poucas, e as da Régua em número infinito, comparadas com as de Mafómedes, dizia o rapazelho nos primeiros passeios que deu fora de casa: Bi! Tanta Rua!

Daí se lhe pegou, até morrer, a inocente alcunha com que viveu na Régua. Deve ter morrido, nesta vila, entre 1913 e 1915. Mais ano, menos ano...

Chamava-se António, mas, toda a gente lhe chamava Antoninho. É um doce costume dar inho a todos os loucos. É compensá-los da debilidade mental com uma partícula de carinho. Não acham?

Como todos os débeis espirituais, tinha o Antoninho, em compensação, os seus talentos. Não imagina o leitor a habilidade que tinha para imitar a fala e os gestos de qualquer pessoa.

Quando descia a rua de Medreiros, anunciando os enterros e as partidas de Fulano ou Sicrano para o Brasil, costumava sentar-se num banco à porta do Zé Ruço, que vendia achas. E aí se punha a observar os fregueses.

Entrava a Joana Grêta para comprar uma achinha. E aí se travava uma pequena conversa entre a freguesa e o comerciante de lenha. Conversa que o Tanta-Rua ouvia, fixava e reproduzia como actor.

- Senhor Zezinho, dê-me uma achinha, dizia a Joana Grêta com voz trémula e quebrada por ser muito velhinha.

- Aqui tem.

- Quanto custa?

- Quinze réis.

- Quinze réis? Tão pequenina! O dinheiro é sangue...

Quem lhe soubesse da prenda chamava-o, anda cá, Antoninho, para apreciar o entremez.

- Faz lá como a Joana Gréta.

- Senhor Zezinho, uma atcbinha...

E ganhava, como artista, dez réis ou um vintém.

- Morreu Fulano. O enterro é às tantas horas. Eu lá vou com a minha opa.

Era no tempo das opas. Quem fosse aos enterros, que hoje se chamam funerais, por amor aos eufemismos ridículos, envergava opa. Era no tempo das opas.

- Vai amanhã pro Brasil o meu amigo Rocha, o meu amigo Rocha, o meu amigo Rocha... já com estas são três vezes...

- Era, como disse o António Guedes, um pregoeiro de notas pessoais, repórter de viva voz.

- Inda se não sabe a que horas é o enterro. Quem quiser vá sabê-lo...

Todos os dias passava à minha porta. Alto, robusto, curvado, descalço, com os pés levantados nos calcanhares, assoando-se a um nó de corda que lhe servia de cinto, ele ai ia, rua abaixo ou rua acima, anunciando os acontecimentos.
O Antoninho! Como todos os débeis mentais, tinha como compensação grandes talentos. Bem fez o António Guedes em o recordar.

Notas:
  • *Uma excelente e crónica do escritor reguense, publicada no jornal O Arrais, com pseudónimo de Joaquim Pires.
  • As fotografias são da autoria de Miguel Guedes
- Colaboração de J. A. Almeida para "Escritos do Douro" em Novembro de 2010. Clique nas imagens acima para ampliar.

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