terça-feira, 20 de julho de 2010

Os bombeiros e o Sport Clube da Régua

Esta imagem é dos anos 50 e retrata uma cerimónia solene em que os bombeiros voluntários se faziam representar na sede social do Sport Clube da Régua, que existiu no prédio pertencente ao comerciante Arnaldo Marques, na Rua dos Camilos.

Naquela sala reunia-se gente simples e humilde que criara o clube de futebol, alguns carolas e também figuras notáveis da elite reguense. Discursava de pé um homem generoso, influente e muito respeitado: João Vasques Osório, antigo presidente da câmara e, nesse momento, a exercer o cargo de presidente da direcção do Sport Clube da Régua. Ao seu lado, sentados à mesa, estavam o reverendo José Miranda Guedes, arcipreste do Peso da Régua e Humberto Vasques, funcionário público, junto à porta, o advogado Dr. Júlio Vilela, presidente da direcção da Associação Humanitária, o jovem Homero Marques Vasconcelos, a representar a Mocidade Portuguesa com a bandeira nacional, hoje engenheiro químico, o engenheiro Heitor Vasques e António Ribeiro, comerciante do ramo da relojoaria, e no canto esquerdo, Manuel Braga, conhecido jogador de futebol da equipa. Enchem as primeiras cadeiras um grupo de associados que, por se encontrarem de costas, não os conseguimos identificar. Dando um ar solene e de pompa à cerimónia, os bombeiros garbosamente fardados de capacete e casaco de couro, fazem a guarda de honra, enquanto um deles, o José Clemente, ostentava o estandarte.

Não se sabe ao certo, mas a cerimónia a decorrer seria a comemoração do aniversário do clube. Aquele ambiente invulgar ajuda a entender o que aí aconteceu. Escutado com atenção, João Vasques Osório profere um discurso, escrito numa folha de papel, por certo, a evocar grandes feitos do passado e a enaltecer a dedicação dos atletas, dirigentes e associados. Pode não falar da conquista de taças e troféus que não se encontram exibidos naquela sala, mas tem motivos suficientes para realçar algumas vitórias inesquecíveis contra equipas com a de Valongo ou a rival de Vila Real. Ao lado da bandeira do clube, porém, vislumbram-se as antigas fotografias, a recordarem as primeiras equipas cheias de nomes sonantes e craques como Abeilard Vilela, Jerónimo, Carriço, Canudo, um galhardete do Leixões Sport Club e outro a assinalar um torneio de futebol de 1949.
Na parede da sala sobressai ainda um retrato de João Vasques Osório. Aparenta ter menos idade e, é possível que seja, um retrato ainda do seu tempo de edil. Olhando de repente, entre as duas imagens parece que nunca existiu passado, como se a passagem do tempo se completasse em memórias tecidas por uma única realidade. Aquele homem fez história na Régua, nos anos 30, como um politico que mais trabalhou para o seu desenvolvimento e progresso.

Pertencendo a uma família benemérita da Régua, João Vasques Osório mais tarde, já retirado das suas funções públicas, aproveitando a sua experiência, assumia o desafio de dirigir o Sport Clube da Régua. O clube desportivo fundado em 30 de Novembro de 1944 (nascido da junção do “Ferroviário” e do “Régua e Porto”) caía assim em boas mãos. Ajudado pelo inegável bairrismo dos sócios, este dirigente aproveitava para fazer melhorias no campo de jogos de terra batida, construído, como então se dizia, na “volta da estrada” e não deixava morrer o sonho de tantos e tantos desportistas, ao fortalecer a mística do clube, numa fase de completo amadorismo, mas apostado em dar grandes glórias ao povo.

Com oportunidade, aproveitamos para citar algumas palavras que Abeilard Vilela escreveu numa carta dirigida aos dirigentes dos SCR, a evocar as suas memórias de jogador: “O Sport Clube da Régua nasceu, realmente, de um modo popular e os seus alicerces foram solidificados por trabalhadores humildes e persistentes, que tiveram que recorrer muitas vezes aos seus dinheiros que retiravam dos seus parcos salários. É tempo de os reguenses lhes prestarem as devidas homenagens…”.

Nessa carta, divulgava outras faces da personalidade do Dr. Júlio Vilela, um dos fundadores do clube, que também bem serviu a obra dos bombeiros: ”Quero ainda aproveitar para dar uns pormenores sobre os então directores do clube. Não me levem a mal que lembre especialmente o meu irmão Dr. Júlio Vilela. Eu ajudei a empurrá-lo para se responsabilizar pela legalização da agremiação e para a criação dos estatutos. Advogado de profissão, tinha uma vida sedentária. Pois, na altura das obras lá na volta da estrada, era frequente vê-lo cheio de genica a suar por todos os poros, a ajudar a arrastar um rolo de pedra sobre o terreno em construção, compactando e alinhando o terreno de jogo… Naquele tempo, lembro-vos, não havia caterpilares, que ainda nem sequer tinham chegado às vinhas, quanto mais aos futebóis…”.
A Associação Humanitária e o SCR estiveram sempre ligados por relações que ultrapassam a simples cortesia. Ao longo dos anos, existiu uma colaboração de inter-ajuda permanente. Os bombeiros prestam a assistência pré-hospital no Estádio Artur Vasques Osório, aos atletas lesionados. É assim ainda hoje. Uma ambulância para transportes de doentes e um piquete de bombeiros asseguram um serviço de primeiros socorros, sem qualquer despesa para o clube.
As duas instituições, apesar das dificuldades e dos problemas, resistiram a todas as crises e, com a boa vontade e os gestos beneméritos e altruístas de muitos desconhecidos cidadãos, continuam a dar vida aos seus ideais. Com o contributo de todos procuram realizar os seus fins sociais. O ideal seria que os cidadãos participassem mais na vida associativa, mas acontece que os que gozam de mais responsabilidades sociais abdicaram de ser dirigentes. Se nos bombeiros alguns aparecem para servirem nos órgãos sociais, no SCR poucos revelam essa disponibilidade.

O tempo das figuras locais, tais como comerciantes, médicos, advogados e até o pároco, se envolverem na vida era normal na sociedade dos anos 50. O exemplo mais flagrante era o caso dos presidentes de câmara, pelos estatutos das associações eram sempre eleitos por inerência para a presidente da assembleia-geral, coisa que nos nossos tempos não acontece por politiquices, ou vai-se lá saber porquê…!
(Clique nas imagens acima para ampliar)

Na verdade, fazem falta pessoas simples e generosas às duas instituições. A experiência dos bombeiros ensinou-os a não perderem os elos de ligação à população e, sem desmerecer ninguém, às elites, os melhores cidadãos que estão disponíveis para trabalhar na realização do Bem… de uma sociedade mais solidária!
- José Alfredo Almeida*, Peso da Régua, Julho de 2010.
  •  *José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também crónicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária, fatos do passado da bela cidade de Peso da Régua de onde é natural e de figuras marcantes do Douro.

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