sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Não Matem A Esperança - M. Nogueira Borges - Capítulos XI, XII, XIII e XIV


Não Matem A Esperança - Capítulo XI
Tarde de ambiente saturante, com berros deste e daquele, sonolência de espíritos, hábitos das coisas repetidas até à saturação.
 
Ao longe, as ondas da baía dobram-se e desdobram-se na languidez do cansaço. A selva parece crescer vertiginosamente, beijada pelas águas. Na praia, há corpos tostados que arrastam a monotonia do tempo e a sensaboria de nada fazer; nas rochas, lá adiante, corpos negros apanham as conchas do seu sustento.
 
A noite aproxima-se. O seu silêncio em breve nos trará a calma ou a revolta dos corações submetidos (corações e almas e corpos e tudo). As estrelas e a lua darão a ânsia e os desejos de libertação; as esperanças da fraternidade; a fúria que as pessoas conhecem; a imaginação esfomeada, traduzida nos exauridos sentimentos e dos sonhos amarfanhados por não se poderem dizer, pois o mundo está a abarrotar de cobardes e medrosos ou sejam, portanto, os tipos bem colocados na vida (sim, nem todos, claro). O cansaço não é apenas físico é, também o amolecimento resultante da desmoralização momentânea que não permanente. E é nestas alturas que se lembra:
 
Era uma noite de lua esclerótica e estrelas de mármore. As pessoas vinham para as varandas ou para as soleiras das casas. Crianças rebolavam-se nos atalhos enquanto as mães ralhavam. Era Verão. A terra estava quente e havia pessoas que dormiam sobre ela. Os pastores deixavam a serra e vinham, de cajado na mão e fome nos olhos, descendo para a aldeola.
 
Um aglomerado rural que conhecia a indiferença dos homens que mandavam e as negaças do progresso que não lho davam a saber, que trabalhava de sol a sol nas cumeadas agrestes. Mas, pouco a pouco, a sua vontade transformou o negativismo na produtividade sem retrocessos.
 
Ele, só, no cimo do monte, contemplava essa aldeia, berço do seu nascer, em que forjara o seu ente, conhecera o amor e o ódio dos homens (dos homens com poder de odiar). Dera-se com alma e coração, sem pedir nunca prémios, a essa gente simples (mesmo na inteligência) onde, porém, ainda se degladiavam a maldade, as invejas, etc., etc. Apetecia-lhe dizer muito alto uma poesia criada e amadurecida no seu pensar constante e que iniciava assim: «Ó povo!, onde estás tu?». E parecia-lhe ouvir ressoar pelas ladeirasdos montes aquele seu grito que se ia encolhendo na indiferença e as pessoas fugiam para não responderem à sua pergunta.

«És um POETA!» - disseram-lhe um dia, cheios de cinismo. Riu, riu muito, com nojo e com raiva, vomitou tudo que tinha lá dentro, escarrou na direcção dos que assim falaram, mas depois arrependeu-se e chorou, chorou com pena e com amor porque os poetas quando choram é com e por amor universal. E então descia às ruas cheias de buracos e ouvia cantar a poesia nas bocas das moçoilas alegres e nos gemidos das crianças que pediam pão às mães que saíam da padaria. Recordava-se daquelas noites em que as nuvens atiravam lágrimas de chuva e as via escorrer, prateadas, pelas vidraças da sua casa, construída pelo esforço dos seus antepassados que repousavam numa campa fria e negra, consumindo-se aos poucos para que outros ocupassem o seu lugar. Passavam-lhe na memória aqueles entardeceres tristes com as avémarias ressoando no campanário antiquado da Igreja a ruir e que nunca mais era composta (o padre até já fizera um peditório); com os trabalhadores de enxadas aos ombros arrastando-se, cabisbaixos, sob os quintais do cansaço e a lua nascendo também cansada de tanto repetir o seu nascer. E depois vinham as estrelas dizer que já eram horas de deitar; e depois os bêbados, berrando e espancando-se, diziam às gentes da aldeia que também havia estúpidos, gastando o dinheiro na embriaguez, enquanto, em suas casas, os filhos não dormiam com fome; e depois, então, o silêncio esmagador, com corujas e mochos lastimando remorsos que arrepiavam e faziam doer. Ah! Noites da sua juventude em que os namorados escondiam os beijos na dobra duma esquina; em que os malfeitores, embuçados na capa das esperas, faziam vinganças à moda púnica. Noites de revolta, de rosto marcado pelo estilete da angústia; noites de fados de estudante, furando o sonambulismo da natureza, nos acordes da guitarra que gritavam poemas e a voz cantava: «O meu menino é de oiro (...)». E continuava, sempre, noite fora, até o sol nascer.

Mas que fizeram ao menino de oiro? Mataram-no? Não. Não o mataram. Os homens já não matam meninos. O menino de oiro continua vivo. É que ele só morrerá quando a esperança dos poetas morrer.

Não Matem A Esperança - Capítulo XII
O futebol, com as suas habituais consequências, terminara. A música do portátil do Zulmiro Taberneiro era dominada pelo vozear, quase perpétuo, de bocas tresandando a ebriedade.

- Tu é que jogaste mal Trunfasses!
- Homessa!... Onde tinha eu os trunfos?!
- Puxavas paus! Neles havia segurança cá no gajo!
- Eu é que ia adivinhar?
- Dei-te o sinal! Bati ou não bati o pau? Tu é que és um burro a jogar!
- Ai eu é que sou Burro?!
- Não, sou eu... Baralha lá isso... Vamos a outro risco... Agora temosde dar bandeira...

Naquele ambiente pesado, tão pesado como dizem ser a mão dum ditador, confundiam-se os vapores do álcool, ingerido em abundância para gáudio do Zulmiro, e as nuvens de fumo provenientes dos mata-ratos e dos três-vintes. No chão térreo, pregavam-se as botas enlameadas; os escarros avermelhados pelo tinto e as poças de resíduos daquele, pendidos dos copos que mais se agitavam como que a impôr as suas razões, assemelhavam-se a borrões dispersos em painel de ensaio. A um canto, sentado na saca de arroz, o Pelotas observava, com um sorriso de desdém, aquelas faces congestionadas pelo vinho e pela exaltação, alguns de olhos já vidrados e tontos. Virando-se para o Zé da Aninhas que, de ponta apagada colada nos lábios, encostado ao bidão de petróleo, parecia alheado de tudo, perguntou:

- Em que pensas Zé?
- O quê? Em que hei-de pensar? No raio da vida! Não consigo pagar os calotes! O meu Zé todos os meses me pede dinheiro, diz que tem passado muitos sacrifícios quando vai p'ra selva e ainda por cima tenho a patroa doente, como tu sabes.
- Que é que o médico disse?
- Que tem de ser operada. E onde tenho eu o dinheiro para pagar? A algum lado o hei-de buscar...
- Olha que sempre há cada uma! Tu és pobre! Quem não pode pagar não paga! Ou a saúde duma pessoa já tem preço?! Homessa!... Atão, agora, só os ricos é que tinham direito a estar doentes, não?! Raios de mundo este! Até dá vontade um home esfrangalhar tudo, carago!
- Se dá...
- Mas se precisas de algum diz lá... Tenho pouco, mas inda...
- Obrigado Pelotas...
- Aqui não há obrigados nem meio obrigados! Nós andamos no mundo não é para passarmos o tempo com agradecimentos! Pagas quando quiseres. Depois da vindima ou quando calhar. Cá comigo é pão-pão-queijo-queijo! Amanhã vai a minha casa.
- E se a «tua» sabe que me emprestaste dinheiro?
- Homessa!... Tem alguma coisa com isso? Quem é que o ganha? Quem manda na minha casa? Quem é? Diz-me caramba! Quem é que sua que nem um macho e anda ali com a enxada nas unhas? Sou eu ou é ela? Diz lá, anda! Homessa!...
- Tá bem, não te zangues...
- E deixa lá, Zé! A vida cá se arranja, mas isto inda há-de dar muita volta! Ai há-de! Inda havemos de ser ricos!
- Deus te ouvisse...
- Há-de ouvir, que Deus é justo e sabe ver onde está a verdade e a mentira! O sol quando nasce é p'ra todos, ouviste?
- Já o senhor comendador diz a mesma coisa, mas...
- Deixa lá os outros. Os outros são os outros!

Vozes gritadas continuavam a misturar-se com a música, com as lamentações, com o vinho que se ia entornando, com os escarros que a poucoe pouco assoalhavam o chão térreo, com o fumo dos cigarros, com as arrelias da sueca.

O Zulmiro Taberneiro, de sorriso aberto até às orelhas, continuava a encher copos com mãos de gatunice já velha.

Não Matem A Esperança - Capítulo XIII
Foi dos primeiros a subir. Constantemente perguntava-se: «Voltarei?». A dúvida, uma dúvida angustiante atormentava-o. Os últimos momentos, antes vividos, confundiam-lhe as ideias. Os militares continuavam a desfilar aos sons marciais da fanfarra, misturando-se-lhes gritos desequilibrados, lenços agitados por mãos já cansadas de tanto se despedirem, corações fracos pela emoção, olhos que já nem lágrimas tinham.

O barco apitou, cumprindo um hábito. Sem saber porquê chorou. À medida que aquele se afastava mais perturbado se sentia, um vazio enorme que lhe furtava as palavras à relva da língua.

Inesperadamente, irromperam os acordes do Hino. Perfilou-se num «sentido» hesitante, pouco militar. Mãos no ar, adeus sem fim, acenos de imponderabilidade; uma criança chorando como se lhe tivessem batido, pois que via sua mãe chorar e ela não sabia por que chorava sua mãe. (Oxalá amanhã não chegasse a vez dela chorar também). Dominou-o uma fortíssima comoção. A seu lado, os soldados deixavam cair lágrimas, como gotas de chuva a escorrer pelas vidraças em noites de Inverno.

O cais ia sendo cada vez mais pequeno. Aquela multidão ondulando os lenços, parecia que movia um lençol gigante. Os rostos perderam-se na distância. À sua frente, um soldado dirigia gestos ineptos, sublinhando-os com gargalhadas iguais àquelas que costumam ser dadas nos filmes de terror. Estava perdidamente bêbado. Mantinha, na mão, a garrafa de aguardente que metia à boca de vez em quando. «Haja alegria! Adeus! Adeus!». E ria, ria, estremecendo todo. Deixou pender a mão numa posição impossível.

O barco ia-se afastando, afastando.

Os alto-falantes anunciaram o começo do almoço. Na sala de jantar, os comentários eram duros e diversos no encarar das pessoas.

Começou a sentir-se tonto. Os soldados andavam de pratos nas mãos sem saberem para onde ir.

Num recanto do «deck», dois tentavam animar o companheiro ébrio que, encolhido no chão, chorava como uma criança acabada de nascer.

Lisboa é um conjunto de pequeninas silhuetas, tapadas por uma névoa de seda. A lancha dos pilotos junta-se ao navio. O piloto desce. Aquele apita bem, há votos de boa viagem. A fragata, que estava ao largo, acompanhava-os durante algum tempo em manobra de circunstância, Gaivotas voam funânbulas, elevando-se, para depois se lançarem lá do alto em êxtases picados que terminam rasantes.

O ambiente asperiza-se. Topa aqui e ali, soldados debruçados nas amarras, olhando para o além tapado. Bocas abertas e deformadas lançamfora o que almoçaram. Outros, porém, resistem bem e até tocam gaita de beiços. No seu andar perdido para passar tempo e esquecer coisas encontra camaradas chorando ou, então, completamente absortos, de olhos arregalados, sem verem nada; o capelão que, há pouco tempo lhe chamara piegas por as lágrimas lhe pingarem, chora por baixo de uns escuros óculos de sol e geme: «Minha mãe!». Olha o mar, as ondas agredindo-se em conflitos constantes. É triste partir para longe, um longe onde a guerra existe e as guerras são todas más porque matam gente, gente que dispara para se salvar, que morre e mata sem tempo para uma interjeição – mas quem fez as guerras? Custa imenso deixar a terra em que nos fizeram nascer; abandonar os frutos incompletos, ainda verdes de todas as esperanças; os amigos com quem se convivera, arriscando profecias, sonhando sonhos de verdade; a família que abafa os gritos medonhos da revolta reprimida.

Navegava-se moderadamente. O barco, rasgando as águas, lança para os lados babas de espuma, Chegam os primeiros radiogramas. Os que os recebem não têm grande vontade de os abrir. Já sabem o que dizem: «Todos estão contigo. Felicidades e um regresso rápido.». Palavras invisas que atiçam labaredas íntimas; palavras obrigatórias nas escalas de preços, compradas ao metro das ideias; palavras textuais, sacramentais como num negócio jurídico e que não podem ser mudadas na sua fórmula sob pena de nulidade. Procura-se alguém para conversar. Cedo acabam os diálogos; é que para se dialogar tem que haver ambiência de liberdade e alegria. Pensa-se muito mais do que se fala e, quando assim é, algo vai mal. Os relógios são atrasados uma hora.

Foi para o camarote e adormeceu com o embalar do barco.

Não Matem A Esperança - Capítulo XIV
Uma e meia da manhã. Iniciou a sua ronda de serviço. Foi à ponte. A lumieira, avivada de quando em vez, do cigarro do vigia, dizia-lhe que alguém velava pelo bom rumo do navio. Da chaminé, preta e bojuda, espessas fumaradas rápidamente desfeitas e levadas para a popa pelo vento gelado; o som equitativo do matraquear dos motores saído da casa das máquinas, pelas clara-bóias levantadas, falava do máximo de velocidade que o paquete levava. Algumas bocas roxas e abertas, roçagadas pela brisa forte da madrugada, dos soldados dormindo nos «decks», davam-lhe pena e sono. Dos porões, vinham, até cá cima, vozes deturpadas pela surdina e pela profundidade daqueles e barulhos de arrastar caixotes. Nas cobertas mais abrigadas, os soldados persistentes ressonavam no meio de tábuas, malas, botas, fardas e um cheiro acentuado de suor. Nos canis, os cães mexiam-se inquietos e um mais corajoso furava a noite com uivos tristes (saudades da terra...). Lá ao longe, uma luz nascia na curva do horizonte. O navio marchava convicto das milhas que percorria, noite dentro, como um gigante dominador. A ondulação era sossegada. Os camaradas das noitadas do presunto («Eh! Pá, são os restos!»), chouriço («Olha que não foi deito de carne de burro!»), cerveja, do jogo e das saudades, riam um riso frio como o vento que ele sentia no seu corpo. Foi atéà proa. Sentir-se só como os gemidos do vento, com o marulhar das águas, com o abaixo-acima daquela e com a imensidão que o rodeava. Contemplar o mar, a noite, o horizonte que nunca se alcança; o mar-mundo, a noite-saudade, o horizonte-ânsia, Inclinou-se para baixo. A quilha rasgando as águas, com um permanente acento circunflexo de espuma doirada pelo luar, lembrava-lhe os arados da sua aldeia, abrindo a terra, negra e húmida no Inverno, ressequida e amarelecida pelo Estio. E recordou a sua aldeia, a sua aldeia de ruas cheias de lama, caminhos que nunca mais se arranjavam, vivendo de promessas, promessas que vinham lá dos grandes, mas que, afinal, nada tinham de grandeza. Seu mundo onde nascera, vivera sua vida realidade ou irrealidade, criara e desmembrara os seus sonhos, formara e destruíra os seus amores de carne ou de espírito, tragara ou mastigara a sinceridade ou a cobardia dos seus pensamentos, onde, em noites sem fim, malucara, alagado em suores de insónia e de ideais, as raízes das suas origens. Olhou o céu: limpo, sem pecado. A luz metálica lançando poesia e saudade sobre as ondas, sobre o barco, sobre ele, umas avulsas estrelas de vidro, de ambiente de cabaret, numa noite que não era sua. Lá bem longe, descansou os olhos, das vertigens do infinito, nos pequenos novelos de espuma que eram luz na escuridão da noite.

O navio navegava sempre, sem hesitações, comendo milhas para cumprir horários, levando sonhos de adormecidos ou de acordados e sobressaltando as águas do seu sono.
- Continua.

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