sábado, 12 de fevereiro de 2011

PASSOU POR AQUI

Por: João de Araújo Correia

Passou por aqui, por esta vila comercial, (1) o escritor Tomás de Figueiredo. Melhor dizendo, passava por aqui e aqui se demorava duas ou três horas, à espera de carro ligeiro ou camião de carreira que o levasse a casa do amigo Fausto, onde se hospedava, às temporadas, para escrever, ir à caça ou não fazer nada. Encontrou encantos na velha Aldeia de Cima - pátria do amigo Fausto. Parece que encontrou ali restos de povo em estado puro e deles se enamorou. Vocábulos antigos e costumes antigos, ainda válidos, encontrou-os ali e ali os saboreou. Deles extraiu bom sumo, boa essência, para a sua escrita. 

O Tomás gostava de me ver. Quando descia à Régua, logo me telefonava para combinarmos o nosso encontro, conversarmos um rato - sentados lado a lado no banco de uma livraria. Creio que nos aproximavam as nossas diferenças de pensar e até o modo de sentir a coisa literária. Ele, com o nariz arrebitado, era uma espécie de lutador glorioso. Eu, com o nariz humilde que Nosso Senhor me deu, era e sou uma espécie de antena desconfiada ou meio desiludida de quanto vai pelo mundo. Certo é que o seu feitio e a minha falta de feitio se atraíam e estimavam. Eu também gostava de o ver e de conversar com ele, sentado a seu lado, no banco da livraria, que ele denominava, com latente orgulho de escritor aguerrido, banco dos régulos.

Eu, se fui reisete, fui um reisete vencido. O Tomás, sempre de lança em punho, fazia do nosso banco um trono partilhado. Mas, como era belo, a meus olhos, aquele bom Tomás... Sempre muito lavado, muito escanhoado, muito alvadio, ia debitando, à minha beira, ecos de coisas minhas desconhecidas. Assim me enriquecia e deleitava. 

Má língua, o Tomás! Por ele percebi como é ruim, lá em baixo, a luta literária. Tinha ressentimentos, remoía queixas de bons escritores e pendurava na lua escritores somenos. Mas, não era ele... Era a vítima, era o produto de meio inquinado a voz que assim esconjurava ou bendizia.

Para temperar o Tomás, propunha-lhe um café... Em menos de amém, punha-o diante de nós, numa banqueta, o primeiro balcão da livraria, a chefe Maria Ângela, que morria por ele, pelo Tomás, tanto como as caixeirinhas suas subordinadas. O ladrão tinha artes de as cativar com fidalguias pouco usadas, numa vila comercial. Morriam por ele, mas, sem sombra de pecado. Cativavam-se do seu bom modo.

Sobre o café, vá de fotografia... Tomás, bem disposto, queria que os dois régulos se retratassem juntos. Armava a maquineta, que trazia na mão, como turista inglês, e pedia à Maria Ângela, ou à Eduarda, que desse ao gatilho.

Não sei como terão ficado, no papel eterno, os dois régulos sentados no banco da livraria. O Tomás levou-os para o outro mundo.

Tinha alma de escritor o demo do Tomás. Deus me livrasse de lhe chamar doutor - como se visse a meu lado, no banco da 1ivraria, o antigo notário de Tarouca, de pena aguçada para lavrar uma escritura.

- Então eu, que tanto suei, para ter nome nas letras, sou doutor? Porque é que você me não chama Tomás de Figueiredo?

E eu, que sou humilde, fazia-lhe a vontade. Tinha até pena de não poder pronunciar com Z o nome próprio do homem, que assinava Tomaz, à moda antiga. Pelava-se por tudo o que fosse passado. Por vontade dele, suponho que ainda haveria capitães-mores e outros anacronismos. Era esse o filão da sua poesia...

Mas, no amor a Camilo, à linguagem castiça e ao povo castiço, ainda viçoso em Aldeia de Cima, éramos parceiros no mesmo jogo ou compadres na mesma freguesia.

Eu preferia o Tomás em verso. Na prosa, para meu gosto, era demasiado rico e emaranhado. Eu, que tenho poucas forças, tinha de as fazer com as minhas fraquezas para lhe romper a espessura. No verso, o Tomás dispersivo entrava em forma. O verso, que desapareceu do mercado, faz falta. Era uma boa poda. Só deixava, na vara, os olhos úteis.

Tive pena, muita pena, do Tomás de Figueiredo... Morreu grávido ou em puerpério... Morreu grávido do último livro ou depois de o ter dado ao mundo. Ao despedir-se de mim, da última vez que passou por aqui, percebi que o escritor andava ocupado, que trazia um filho no ventre. Morreu dele, quanto a mim, porque a gestação artística, de todas as gestações, é a mais esgotante. Pode matar de gestose. Assim aconteceu com o Tomás de Figueiredo, que já não era novo, embora o remoçasse todos os dias, vestindo-o de claro, a sua fé literária.

O Tomás deixou por aqui muitas saudades. Prendia esta gente comercial com o seu trato, que era fino sem ser mesureiro. Saía-lhe da arca sem artifício. Era um claro fio de água na sede de quem trabalha. A Régua é trabalhadora.

Também ele amava a Régua, estes montes, que se tingem de todas as cores quando o Outono os enfeita para uma espécie de morte olímpica. Entrou na livraria, uma vez, com um braçado de folhas coloridas.

- Que é isso, Tomás?

- É um presente, que vou mandar para Lisboa. Veja estas folhas...

Era poeta, sensível à poesia das folhas moribundas, o Tomás de Figueiredo. 

(1) - Régua ou Peso da Régua 
11-7-70

- Nota: Está crónica faz parte do livro “Pó Levantado”, edição da Imprensa do Douro, Régua, 1974. Matéria enviada por J. A. Almeida para "Escritos do Douro 2011".  Referências - Direção Regional de Cultura do Norte e Wikipedia. A imagem ilustrativa acima recolhida da internet livre, é composta/editada em PhotoScape e poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

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