terça-feira, 9 de março de 2010

AGUARELA ALDEÃ

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A gata, indolentemente, baloiça-se nas pernas retezadas, roça-se pelo chão e estira-se, preguiçosa, na sombra de um degrau. Três gatinhos, gemendo miaus aflitos, acolhem-se, submissos, ao aconchego materno. Ela estende-se, ainda mais, e as bocas, esfomeadas, ocupam-lhe o ventre.

As folhas dos limoeiros e das macieiras, para lá do poço, revolvem-se, em suave concordância, à aragem da tarde. O jardim, debruado de buxo, não escapa à suavidade. No alto, flocos de nuvens de um azul claro, evolucionam lentas, quase paradas. O sol, rutilante, trespassa-as, desenhando reverberações líquidas. Ouvem-se risos desencontrados com choros de crianças.

- Mãe, quero broa...
- Já vai!... Olha!... Credo!... Nem me deixais pousar o caneco!... Minha Nossa Senhora!...

Nas lajes do quelho, polidas pelos passos dos séculos, ressoam tamancos. Estacam junto ao portão; desfiam-se conversas de faina.

- A novidade até nem vai mal... Umas pingas de auga não era pior... Inda há bocado, ali no S. Pedro, vi uma malvasia aganadinha de todo... Não vamos a um copinho para amaciar?!...
- Venho de lá, mas mais um não faz diferença....

Os socos e a conversa abafam-se no serrim do chão da taberna do Zulmiro.

Negros abelhões voam e pousam na busca do néctar das flores. Um pássaro, entontecido pelo lumaréu, ziguezagueia, espadanando as asas, até se quedar num galho da ramada, olhando à volta a confirmar a segurança do lugar.

Vem-me o monodiar dos melros e dos pintassilgos presos nas gaiolas, esvoaçando irritados, debicando painço, chapinhando na água, metendo os bicos por entre os arames, gritando pela liberdade, fartos da prisão preventiva sem culpa formada. Na casota, o Leão ladra, forçando o cadeado, e os melros e os pintassilgos agitam-se mais. Tanta clausura nesta tarde de paz...

Um pobre, sem ser sexta-feira, pede uma esmola «pela alminha de quem lá tem». A Fernanda enche os recipientes das gaiolas com água e dá um jeito aos ovos de choco. O Silvério vem regar as laranjeiras; aproveito para saber do Zé.

- Lá está... Diz ele que a França é outra loiça... Ganha bem, mas dorme num barraco. Anda na apanha dos morangos. Aquilo são extensões que só visto, diz que aquela em que anda tem p´raí, à segurança, uns cinco quilómetros de comprimanto!
- Qualquer dia lá vai você...
- Tá queto ó preto! Nã... Já num tenho idade para francesices...

O Silvério, camisa e barba de sete dias, calças remendadas e olhar de saudade, puxa a corda do poço, enche a cova em volta dos troncos das laranjeiras, puxa de um Definitivo, acende-o no isqueiro de morrão, dá as boas tardes, bate o portão, volta a abri-lo; diz-me adeus.

- Um dia destes há-de-me ajudar a escrever uma carta ao meu Zé, ´stá bem? – pergunta, virando-se para mim no cimo da rampa.
- Mas, ó Senhor Silvério, uma carta é uma coisa muito pessoal, bem vê...
- Eu não tenho segredos... É que eu num atino bem com as letras e assim...
- Pronto, está bem, quando quiser diga...

O Silvério lá vai, portão fora, dissipar as lembranças no balcão do Zulmiro.

No fundo do quintal, empoleiro-me no muro e relanço o olhar pelo vale que desce, por entre montes rendilhados de cepas, até o rio que, desde Espanha, retém vestígios de melusinas e estende cansaços de tensões. O céu é tão limpo e o ar tão puro que atordoam. Desejo que a eternidade seja assim, envolta num silêncio igual, uma imponderabilidade de limbo, um sossego que se tacteia, um aroma a roseiras, broa, giestas e laranjeiras como uma Páscoa permanente...

Quando o sol se despede, contrito pelo estigma do ciclo, no cerro de Avões, não é o fatalismo que cai, é a esperança que permanece como as flores que criam os frutos de amanhã.
- Porto, M. Nogueira Borges - do livro "Lagar da Memória".
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