sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Retrato de um velho bombeiro: Zé Pinto

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Já lá vai o tempo em que os garbosos bombeiros da Régua desfilavam ao som de clarins e tambores, pela rua Serpa Pinto acima, em direcção ao edifício dos Paços do Concelho, para apresentação de cumprimentos de agradecimento à edilidade, fieis à tradição, num acontecimento que repetia no dia 28 de Novembro de 1959, a festa do 79º aniversário da fundação da Associação.

Este retrato pertence a um bombeiro desse tempo, é do José Pinto Rodrigues, mais conhecido entre nós, por Zé Pinto, um bombeiro do quadro de honra. Estava encaixilhado numa bonita moldura de metal dourado, em cima de uma estante, em sua casa, onde tem um santuário do seu passado e das memórias mais cintilantes da sua vida.

O Zé Pinto é um bombeiro do tempo em que o quartel estava instalado na rua dos Camilos sob o comando do senhor Lourencinho. Entrou para o corpo activo, em 1957, a pedido do senhor Teófilo Clemente e do irmão, o Chefe Claudino. Não lhes disse que não e, depois de alistado, passou a ser, para sempre, mais conhecido pelo bombeiro número 47.

A sua memória guarda muitas recordações em esteve ao quadro activo. Nunca esqueceu os velhos camaradas como Manuel “Ciganinho”, Abílio “Barão”, Peixe, “Bola de Anta” e o “Zé Grande”, ainda vivo, que, no seu entendimento, considera ser um bombeiro de alto gabarito. Gostou de conhecer o Dr. Vilela, um grande homem e um santo, o Chefe Claudino, muito competente, o zeloso quarteleiro Zé Pinto e os comandantes que mais gostou de trabalhar, o Camilo Guedes e o Lourenço de Almeida.

Emociona-se com nostalgia ao recordar uma noite em que ficou no velho quartel, a dormir na maca da ambulância branca, a Rollyn-Pillan. Sua mãe, que não fora avisada por ele nem pelo quarteleiro, ficou preocupada e deu-lhe no dia seguinte uma boa repreensão.

Conta, com um brilho nos seus olhos, como foi o incêndio deflagrado numa mata de Sedielos, em que a escuridão da noite o fez cair ao fundo de um buraco, onde lhe valeu a ajuda de um seu colega, o bombeiro número 48.

Fala com vaidade da qualidade da instrução e dos exercícios ensinados pelo Chefe Pinto, instrutor do Batalhão de Sapadores do Porto, que o pôs a escalar a parede frontal do quartel, cima do telhado, através da escada portuense, finalizando a prova com sucesso, apesar de sentir as pernas a tremer como varas verdes. Tinha coragem, gabava-o o grande instrutor que vinha do Porto ministrar formação à Régua.

Lembra os incêndios ocorridos na cidade que causaram mais pânico e avultados prejuízos, o do bazar de quinquilharias do Alemão, na rua José Vasques Osório e outro numa casa da rua das Vareiras, que enfrentou com uma agulheta de 60 milímetros nas mãos.

Revive o dia em que desfilou nas ruas de Viana do Castelo, ao fim da tarde quente, no fim deu um congresso nacional de bombeiros, que aí teve lugar.

Cada uma das suas lembranças traz o brilho das suas emoções e um ideal valioso - fazer sempre o bem sem saber a quem – pelo qual se orientou, se fez homem maduro e conquistou as maiores alegrias, admitindo que, na ajuda ao seu semelhante, atingiu a maior felicidade.

Ainda hoje, tem pendurado à entrada da sua casa, na travessa da rua Alegria, um azulejo com um pensamento que lhe conforta a sua alma: “Quem faz o bem, Deus faz bem”.

Sente-se um indescritível conforto a ouvi-lo contar as suas histórias. São quase de 25 anos de voluntariado. Não está no activo mas é como estivesse. Diz-nos com um lágrima no canto do olho que um bombeiro nunca deixa de ser bombeiro…. Já não tem uma farda que lhe sirva, mas se a velha sineta voltasse a tocar, como no seu tempo, ele sairia a correr pela rua acima, para ser dos primeiros bombeiros a chegar ao fogo. Afinal, recordar, como se costuma dizer, é mesmo viver…!

O velho bombeiro Zé Pinto, à beira dos 85 anos (nasceu em 1 de Janeiro de 1925), é, hoje, um dos heróis dos gloriosos bombeiros da Régua. A sua figura não pode morrer no coração das pessoas, como ele, cheias de humanidade. Ele não imagina, mas nós temos a certeza de que é um símbolo de muitos outros homens esquecidos, sempre ocultados pela fama dos nomes ditos sonantes, que se alistaram nos bombeiros da sua terra. Pelo seu exemplo de altruísmo, coragem e abnegação estes bombeiros sem nome também se vão eternizar na recordação das gerações futuras.

O retrato não fixa só um desfile com os sons do tambor que, na tropa, o Zé Pinto aprendera a tocar. Assinala muito mais do que isso. É a memória de um passado que nunca passa. Aqueles homens permanecem iguais e acreditam na universalidade e no valor da causa do voluntariado ao serviço dos que precisam de protecção e socorro. Evoca a perenidade dos homens generosos, alguns definitivamente fora deste nosso mundo, mas que cá deixaram a sua marca de altruísmo, exemplo a seguir pelas gerações vindouras.

Quem acredita que na vida não há senão um tempo efémero, uma breve passagem, está grato ao velho bombeiro Zé Pinto. Eu estou! O seu lugar fica marcado nas memórias de um passado que, por muito que teime em passar, resiste sempre em pequenos redutos do futuro.

A fama dos velhos bombeiros da Régua, regista-a com eloquência e muita erudição, o Dr. José António de Sousa Pereira, famoso médico, na sua crónica “Para parar três badaladas”, inserta na revista do centenário da associação, que se transcreve o seguinte:

“Para seu desenvolvimento a Régua, mercê de um punhado de boas vontades, firmes e válidas, não foi a última a ser dotada da que se passou a denominar AHBV do Peso da Régua.

Nascida no menos que modesto prédio, ainda existente no Largo dos Aviadores e provida de escasso material, que a edilidade reguense lhe cedeu, contou desde o início, no seu corpo activo, com homens que, sob a responsabilidade do nome, passaram a gozar de um prestígio, que lhe advinha de actos beneméritos, em ordem a conferir à sua associação a fama que, ao actual corpo activo, cabe manter se não dilatar. Esta fama foi encontrá-la em Lamego, na recuada época da nossa adolescência, em que, naquela cidade, estanciámos durante sete anos. A rua de Almacave, no pendor de base do morro encimado pelo castelo medieval, em torno do qual se aninha o primitivo burgo, coetâneo de Fernando Magno, exibia prédios esventrados, portas e janelas como órbitas vazias, em paredes calcinadas, por apocalíptico incêndio.

Diga-se então, aí que, a não intervirem os bombeiros da Régua, a Olaria iria, de enfiada. Quanto pode uma minguada corporação em efectivos, bem comandados em que a disciplina, livremente aceite, gera autênticos cidadãos! Escola de civismo foi, pois, e confiamos que o será, sempre, sem o qual as pátrias não são mais que expressões destituídas de sentido. E os reguenses ao admirarem, íamos dizendo, tais como chouans a Marie Jeanne, que cobriram de flores, uma bomba braçal novinha em folha, que o quartel de cavalaria expunha, sentiram que estavam com os seus soldados da paz, como estes se identificavam, com eles.

(…)

Hoje os nossos bombeiros dispõem de instalações, que honraram a terra, onde se implantam. Catedral do bem, num ópido onde os valores culturais não abundam, emergentes que são, do passado obscuro que, somente, nos últimos dois séculos se projecta em porvir auspicioso, luta e vai transpondo, com a persistência dos obstinados, os escolhos, que se interpõem, a quem demanda uma meta inatingível tal é da verdade absoluta – peculiar às grandes realizações humanas.

(…)

Existiram outrora, nos lares reguenses, no recesso dos oratórios dos antepassados, encaixilhados a preceito, sinais de incêndio, mediante os quais os soldados da paz e a população – que colaborava – ficavam cientes da zona em que se verificava o sinistro, sinais tangidos, pelos campanários locais. Estes sinais sobrepunham-se a uma notificação convencional – para parar três badaladas. Se a convenção era prática, não se compadecia, todavia com a realidade, pelo que o devoto abrenúncio nos vem à boca, nos termos em que Cervantes remata o preâmbulo da sua obra imortal, mediante o consabido”.

Para além da história dos bombeiros da Régua, o retrato do Zé Pinto permite a fazer um reencontro na memória com alguns dos lugares da cidade, as paisagens urbanas perdidas para sempre - como os frondosos plátanos e o coreto que havia no antigo jardim Alexandre Herculano - que suscitam em nós um sorriso de espanto, confrontados com as transformações de um território que julgávamos conhecer….!
- Peso da Régua, Fevereiro de 2010, J. A. Almeida. Atualizado em Julho de 2010.

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