sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Um incêndio no concelho de Santa Marta de Penaguião

“É-me agradável saborear o espectáculo dum incêndio, sem a possibilidade duma queimadura e sem a mortificação duma ajuda para o sinistrado. Deixo o caminho desimpedido ao meu representante, o bombeiro voluntário” – Miguel Torga, in A Terceira Voz.

Foi em 19 de Dezembro de 1957… no concelho de Santa Marta de Penaguião, mais precisamente na freguesia da Cumieira que ocorreu um violento incêndio numa casa de habitação da Quinta da Portela, pertencente aos herdeiros de D. Zulmira Leite Pedroso. Estiveram presentes os bombeiros da Régua e das duas corporações de Vila Real. Aqui nesta fotografia vêem-se os bombeiros da Régua no serviço de rescaldo. Empunhava a agulheta o José Almeida Macedo, tendo como seu espia o Joaquim Sequeira Teles e, na escada depois de auxiliarem a subida da mangueira (60 mm), estava o José Melo Júnior e o Alberto Coutinho.

Com o passar dos anos, é natural que não existam no lugar nenhumas marcas visíveis do incêndio. A casa ardida foi reconstruída, a vida ali não deixou de continuar, ninguém cruzando os braços perante o desânimo e a desgraça. Daquelas ruínas e cinzas, tudo recomeçou com mais energia e determinação, novo esforço e uma esperança renovada em melhores colheitas da vinha e produção de bons vinhos. Parece que serão poucas as pessoas que conseguirão recordar esse dia de fatalidade. Não deve ser fácil encontrar alguém ainda vivo que o tenha presenciado.

Decorridos 56 anos, o tempo não apagou todas as memórias desse incêndio. Resistem algumas, como esta fotografia publicada no jornal “O Primeiro de Janeiro” que mostra uma parte da tragédia. Sobrevive, pelo menos, um dos bombeiros da Régua que foi chamado para combater o fogo. Pode dar o seu testemunho o senhor Joaquim Sequeira Teles, ou como o tratam os amigos, o Quim Teles. Como tocasse numa ferida, lembra com pormenores e nitidez as fases do socorro a esse incêndio, a dor das pessoas, o serviço de rescaldo e as ruínas que restaram da habitação.


Foi bombeiro no corpo activo até ao limite de idade. Não chegou a integrar o quadro honorário, por erro ou lapso de alguém, mas isso não o impediu de voltar a entrar no quartel sempre que entendesse, em especial nos aniversários da associação, revivendo o genuíno voluntariado. Contagia conversas com sua simplicidade e afabilidade. É um homem simples e generoso. Escutam-se-lhe atentamente histórias impressionantes da sua vida, na qual diz ter apreendido tudo o que sabe. Para muitos, é já um reguense ilustre.

Conta 79 anos de vida (nasceu a 18 de Abril de 1930). Como sócio, trabalhou na desaparecida firma “A Construtora do Douro”, onde os operários eram quase todos bombeiros e, quando tocava a sirene, algumas obras paravam para irem para o fogo. Hoje fala-se mais dele pela sua notoriedade como dirigente da arbitragem e do futebol. É por todos estimado, bem como toda a família, os Teles, reconhecidos pela sua dedicação ao próximo e pelo trabalho social e humanitário. A começar, pelo seu irmão Manuel que é padre no Vidago - autor de irreverentes crónicas “Pontas de Fogo”- depois a conhecida Irmã Rosinha – que já celebrou 50 anos de vida religiosa como freira – conhecida pela seu trabalho com as crianças no Patronato de Godim - e o falecido Carlos, que também foi bombeiro. São pessoas de referência e exemplos de bondade para a Régua. Não foi só nesta missão que o Joaquim Sequeira Teles serviu o bem colectivo. Dedicou quase toda a sua vida a fazer o bem dos outros e à sua terra. Com justiça se diga, isto faz com que seja credor da nossa admiração e reconhecimento.

A generosidade humana de um homem que se faz bombeiro está realçada num excelente texto intitulado “O bombeiro e a religião”, assinado pelo Padre Luís Marçal, arcipreste da Régua, na revista do centenário da associação, onde vincou estas importantes reflexões:

“São três as palavras que identificam o bombeiro com o cristão, que exprimem a afinidade de objectos, a comunhão de ideais: “Vida por Vida”.

Vida por vida – é a divisa do bombeiro, é o seu dever a cumprir.

Vida por vida – é o sinal do cristão, o seu divino mandamento.

(…)

Amor universal, total, gratuito – eis o amor de Cristo que deverá ser o amor do cristão. Não é assim o amor do Bombeiro?

Ao toque da sirene não procura saber quem o chama: se amigo ou inimigo pobre ou rico, conhecido ou desconhecido. Vai porque é universal no seu gesto.

O bombeiro não condiciona o seu serviço, não põe limite algum na sua acção. Esvazia-se dos seus problemas para viver os problemas dos outros. Sai de casa e não sabe se regressa: não sabe se será o último beijo ou olhar com que se despede dos seus. Vai pôr a vida ao serviço de outras vidas: é total na sua entrega.

O bombeiro não exige e nada espera pelo seu trabalho: é voluntário na sua resposta.
Quando o bombeiro descobre no silvo da sirene a voz de Deus que o chama e no irmão que socorre a pessoa de Cristo a sofrer, o seu gesto que é senão de AMOR.”

Lembrava nas suas memórias o chefe António Guedes que, durante muitos anos, os bombeiros da Régua tinham a responsabilidade de zelar pelo socorro e a sua assistência dos bens e vidas das pessoas também em Mesão - Frio, Santa Marta de Penaguião e Armamar. Devia-se ao facto de não terem sido constituídos os corpos de bombeiros nesses concelhos vizinhos, o que fazia com que a tarefa recaísse na corporação de bombeiros que estava mais próxima. Pelo que, durante muitos anos, os bombeiros da Régua tiveram de prestar serviços de socorro a fogos e acidentados fora do seu concelho. Em muitos sinistros, os bombeiros da Régua mostraram a sua coragem, abnegação e valentia, praticando mesmo actos de grande heroísmo, que evitaram tragédias e perdas de vidas.

Assim aconteceu no incêndio que atingiu a casa da Quinta da Portela. O fogo chegou a provocar pânico. Segundo se consta terá tido causas de origem criminosa. Parece que teve uma rápida propagação e, quando chegaram os bombeiros da Régua, já as chamas tinham destruído grande parte da habitação. Tinha decorrido muito tempo desde o sinal de alerta. Depois, a distância do quartel até ao lugar era longa, o que não permitiu que tenham chegado a tempo de a salvar, mas não deixaram que o fogo causasse maiores danos. A casa ficava reduzida às suas paredes, pelo que os proprietários contavam que os danos eram avultados, contabilizando um valor de cerca de 1.300 contos. Os bombeiros ainda conseguiram precaver todo o vasilhame com vinho das últimas colheitas, guardado no armazém. O objectivo foi alcançado graças ao trabalho desenvolvido pelo piquete sob o comando do bombeiro de 1ª classe Joaquim Pereira Laranjo (um dos melhores bombeiros da sua geração, mais tarde promovido a chefe), que trabalhou com uma importante força de água captada a mais de 300 metros de distância.

Não são raras as vezes que tudo se perde num incêndio. As chamas, num instante, levam tudo em sua volta. São as pessoas que morrem São os bens ganhos com o custo do suor e sacrifício do trabalho que desaparecem. Não se recuperam mais as coisas preciosas, os objectos simbólicos e de recordações familiares. O incêndio, qualquer que seja, aos olhos de alguns pode ser um deslumbramento, mas na realidade deixa para contar histórias de angústia e sofrimento de pessoas.

Não é de admirar que um incêndio fascinasse o poeta Miguel Torga apenas pela sua beleza e espectáculo da natureza. Para o apagar era um daqueles que não avançava. Sentia-se melhor quando a missão passava a ser desempenhada pelos únicos homens que o enfrentam de frente, o bombeiro voluntário, o seu representante, a quem lhe deixava o caminho desimpedido. Com o seu pensamento, o poeta elogia a acção e a humanidade dos bombeiros. Admira-lhe o seu espírito de sacrifício e de coragem.

Percebemos agora e melhor, o que os bombeiros significam quando somos vítimas de incêndios, acidentes, tragédias e catástrofes. Para nos salvarem, não esperamos por mais ninguém, a não ser pelos bombeiros, os semi-deuses possíveis, em quem acreditamos, mesmo parecendo impossível, que façam verdadeiros milagres.
- Peso da Régua, Janeiro de 2010, J. A. Almeida. 

Obs. -  Joaquim Sequeira Teles, apesar dos seus quase 80 anos, é ainda dirigente da arbritragem na Federação Portuguesa de Futebol... Endereçamos, em nome de J. A. Almeida, autor do texto acima, no meu nome e de minha Família, um abraço aos irmãos Teles e demais estirpe. 
- J. L. Gabão.

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