quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Biblioteca de Maximiano Lemos


Não há ninguém que não saiba que a AHBV do Peso da Régua possui uma magnífica biblioteca, e que apesar de não se encontrar aberta ao público, está ao dispor de qualquer de um, no 2º andar do edifício do quartel. Aliás, em tempos ainda recentes, ela foi a única biblioteca que sucessivas gerações de jovens da Régua puderam frequentar para aí lerem ou levarem para casa os seus primeiros livros.

Mas, poucos devem saber que essa biblioteca tem um grande passado. Embora não pareça pode dizer-se que é muito antiga. Ela começou por existir no primeiro edifico do quartel que ficava no Largo dos Aviadores e funcionou depois no quartel instalado até 1954, numa velha casa da Rua dos Camilos, onde alguém dizia que “havia uma estante de livros sonolentos, perturbados, muito de longe em longe por esporádico leitor.”

A existência da biblioteca foi uma intenção dos fundadores e dos primeiros sócios. Embora o primeiro objectivo fosse a criação de uma companhia de bombeiros, aqueles homens entenderam que se justificava um fim complementar que proporcionasse nos tempos de lazer e de ócio algumas actividades recreativas e culturais aos bombeiros e aos associados. Como havia a intenção de concretizar rapidamente essa ideia, consagraram a sua criação na redacção dos estatutos primitivos, com indicação expressa de que a “associação pode também ser recreativa, havendo casa de leitura (…) quando circunstâncias especiais do cofre o permitirem.”

O historiador José Afonso Oliveira Soares, autor da História da Vila e Concelho do Peso da Régua, fala da biblioteca dos bombeiros, a qual chegou a conhecer pelas suas funções de comandante do corpo de bombeiro. No seu livro, ele afirma que a biblioteca foi inaugurada em Janeiro de 1885, dando-nos conhecimento que ela surgiu “devido a um desejo de um contribuinte e à muita iniciativa e valiosíssimos esforços do Dr. Joaquim Correia Cardoso Monteiro, a quem no dia em que foi aberta aos seus associados, se referiram com grande aplauso em brilhantes discursos Paulo de Barros, Afonso Mesquita Chaves e José Joaquim Pereira Soares Santos.”

A biblioteca dos bombeiros, ideia original dos primeiros associados, foi uma prenda oferecida por um benemérito que, por modéstia, não permitiu que seu nome fosse conhecido ou revelado. A ele se deve a concretização da ideia e, apesar do anonimato, merece o nosso maior elogio de consideração e gratidão. Pelo menos, este reconhecimento histórico ninguém o acha injusto. Não sendo possível evidenciar o seu nome, a sua ajuda ficou perpetuada no tempo, com a sua continuidade da biblioteca até aos nossos dias. O grande escritor reguense, uma crónica intitulada “Primórdios”, publicada em Dezembro de 1963, no antigo jornal da associação “Vida por Vida”, comenta esta situação com as considerações seguintes:

“ Pena é que o saudoso historiador da nossa vila e concelho mão tenha nomeado o sócio contribuinte, que tanto desejo ver o nosso quartel espiritualizado com uma livraria. Dizemos tanto desejou, porque o seu desejo moveu a vontade do Dr. Joaquim Correia Cardoso Monteiro.

Devemos a um anónimo a fundação, em 1885, da nossa Biblioteca. Se soubéssemos o nome dele, seria obrigação perpetuar-lhe a memória com algum voto condigno. Como não se sabe, imagine-se que foi o humilde benemérito. Algum obscuro artista, amigo da Instrução…

Obscuro não deve ter sido o Dr. Joaquim Correia Cardoso Monteiro, propulsor da luminosa ideia do sócio contribuinte. Inscreva-se-lhe o nome numa lápide se não pudermos eternizar-lhe o retrato entre os nossos livros. Devemos gratidão a esse antepassado.

As coisas são como os rios. Têm origem que, embora tímida, nunca é desprezível. A nossa Biblioteca nasceu em 1985.Ninguém esqueça essa data.

Nascida em 1885, só em 1960, em pleno século actual, veio a ser baptizada. Na província, a marcha de qualquer intuição é sempre lenta.”

As palavras do grande escritor duriense mantêm-se plenas de actualidade. Desde logo, elas mostram o carinho que dedicou a esta biblioteca que, ao que sabemos, ajudou a melhorar e a crescer. Pelo que se conta, o nome do seu patrono - o insigne Dr. Maximiano Lemos - deve ter sido uma sua proposta, que foi aproveitada pela direcção do Dr. Júlio Vilela. Pena é que ninguém dos sucessivos directores, tenha dado ouvidos ao seu prudente conselho. Ainda está lembrar, para que o tempo e o esquecimento dos homens não apaguem, o gesto do anónimo benemérito responsável pela criação da biblioteca.

A história da biblioteca dos bombeiros não se resume a este importante episódio. Na década de 60, com o novo quartel em funcionamento, a direcção dos bombeiros decide instalá-la numa sala condigna e baptiza-la com o nome do ilustre médico reguense – e importante professor da história da medicina portuguesa - o Dr. Maximiano Lemos.

Durante as cerimónias do centenário do nascimento deste reguense, em 3 de Dezembro de 1960, o Governador Civil de Vila Real, o Coronel Pinto de Sequeira, que se fez acompanhar do Dr. Fernando Bandeira, Presidente da Câmara Municipal da Régua, do Dr. Júlio Vilela, presidente da direcção da associação e pelo saudoso Chefe Claudino Clemente, preside à inauguração da biblioteca Maximiano Lemos.

Essa nova fase da biblioteca dos bombeiros foi evocada pelo escritor João de Araújo Correia, na crónica “Biblioteca de Maximiano Lemos”, que em Novembro de 1963 escreve para o jornal “Vida por Vida”, da qual transcrevemos uma elucidativa e interessante parte:

“A Biblioteca de Maximiano Lemos, inaugurada em 1960, ao comemorar-se o primeiro centenário do seu ilustre patrono, vai ser enriquecida, no próximo Novembro com uma valiosa colecção de livros oferecidos pela Fundação Calouste Gulbenkian. Diremos, para ser precisos, que vai funcionar, dentro da Biblioteca de Maximiano Lemos, uma das bibliotecas fixas da Fundação Gulbenkian.

Queremos crer que as suas bibliotecas não brigam uma com a outra, antes se auxiliam e completam. A de Maximiano Lemos é uma livraria pobre e livraria velha herdeira da primitiva estante dos Bombeiros e acrescida de alguma oferta particular. Mas, sempre conterá, como velha, embora pobre, alguma espécie rara, útil a estudiosos ou bibliófilos. A da Fundação, constituída por livros em barda e todos em folha, será útil ao comum dos leitores. Será própria para os desbravar e lhe estimular os gostos da leitura.

Uns e outros deverão acautelar-se de inúteis desvios. Não falta quem se aproprie de livro alheio só para o ter ou deixar perder, nanja para o ler e se instruir com ele. É como cultivasse a arte de tirar por tirar.

Ninguém deve esquecer, aqui na Régua, o que aconteceu à antiga biblioteca municipal, fundada pelo Dr. Claudino de Morais, no século passado. Quando, em 1937, houve incêndio nos Paços do Concelho, já os livros tinham desaparecido. Oxalá não suceda o mesmo aos livros da biblioteca de Maximiano Lemos, agora enriquecida com a inestimável oferta da Fundação Gulbenkian.”

Com salienta o escritor reguense na última crónica, a Biblioteca de Maximiano Lemos recebeu, em Novembro de 1963, no seu espaço a Biblioteca Fixa nº 54 da Fundação Gulbenkian que aí funcionou até aos inícios da década dos anos 80. Durante muitos anos, na Régua não havia qualquer biblioteca pública. Não admira que a biblioteca dos bombeiros tenha feito as delícias de muitos adolescentes. Nas férias do verão, aquela biblioteca era o lugar preferido para se lerem os livros de aventuras de Emílio Salgueri e de Jack London, acompanhados pelo sabor de uma cremosa “Bola de Berlim”da Confeitaria Pinheiro e, já mais tarde, escolher os das poesias de Fernando Pessoa. Nem a D. Lurdes, a simpática secretária, com os seus permanentes avisos para não fazerem barulho, os conseguia manter quietos e calados enquanto o desejado livro não viesse parar nas mãos. Bons tempos aqueles… em que se vislumbrava da imponente varanda da sala, nos longos dias de sol, uma paisagem fantástica sobre o rio Douro.

A Fundação Gulbenkian fechou a sua biblioteca fixa há alguns anos. Foi uma pena…para a Régua. Mas, não levou nenhum dos livros desse tempo. Deixou-os nas estantes de madeira da Biblioteca de Maximiano Lemos. Como assim a quisesse ainda deixar viva, apesar de ser velhinha, mantendo os livros antigos e de edições raras. Só não tem os seus leitores como devia e merecia para melhor honrar a memória do seu patrono. Acertadamente, o escritor reguense avisa-nos: “Os livros privativos da Biblioteca de Maximiano Lemos são, quase, todos, livros veneráveis. Contam, de idade, 78 anos. Necessitam de restauro, que só poderá ser feito por especialistas. Embora…É para nós ponto de fé que nos ajudem nesse empreendimento. Merece-o a ideia do sócio contribuinte de 1885.”

Merecem ainda todos aqueles para quem a biblioteca dos bombeiros é um lugar sagrado que guarda os maravilhosos livros que nos fizeram pensar e crescer. Um lugar mágico, onde aprendemos a gostar mais dos bombeiros da Régua.
- Peso da Régua, Novembro de 2009, J. A. Almeida.
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