Clique na imagem para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Setembro de 2013. Atualizado em 15 de Agosto de 2014. Imagem e texto reproduzidos de um recorte de jornal, salvo erro do Notícias do Douro edição de 8 de Agosto de 1977 encontrado nos arquivos particulares de Jaime Ferraz Rodrigues Gabão. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Só é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos.
sábado, 16 de agosto de 2014
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
IDALINO GONÇALVES - Mais uma folha que cai, tocada pelo vento do inverno da vida...
ATÉ QUANDO DEUS QUISER, LÁ NO ALTO, IDALINO !
Por Eduardo Ribeiro in facebook - SC DA RÉGUA CLUBE DO MEU CORAÇÃO - 01 de Agosto de 2014 - "Hoje é um dia triste para o clube do coração de todos os reguenses, SC DA RÉGUA. Faleceu sr. IDALINO GONÇALVES sócio numero 1, homem da terra, humilde e sempre pronto para colaborar com o nosso clube, não se negava a nada, homem muito comunicativo que vai deixar saudades. Permanecera no coração de todos os reguenses. Obrigado por tudo que fez como director nos tempos difíceis e pela sua amizade perante as pessoas que mais conviviam no seio reguense. EU, em nome de toda a família reguense, venho por meio desta mensagem expor todo o nosso sentimento, pela recente perda. QUE DEUS ILUMINE E CONSOLE A VIDA DE VOÇES, SENTIMENTOS PROFUNDOS PARA TODA A FAMILIA... DESCANSE EM PAZ SR. IDALINO."
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domingo, 20 de julho de 2014
Ao adormecer a saudade...
Como é facil ser difícil. Basta ficar longe do outros e, desta maneira, não vamos sofrer nunca.
Não vamos correr riscos do amor, das decepções, dos sonhos frustrados.
Como é facil, ser difícil. Não precisamos nos preocupar com telefonemas que precisam ser dados, com pessoas que pedem nossa ajuda, com a caridade que é necessário fazer.
Como é fácil ser difícil. Basta fingir que estamos numa torre de marfim, que jamais derramamos uma lagrima.
Basta passar o fim de nossa existencia representando um papel.
Como é facil ser dificil. Basta abrir mão do que existe de melhor na vida.
- Paulo Coelho
"""...e neste altar Torga é o grande anfitrião!"""
(Alberto Meireles Graça)
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segunda-feira, 30 de junho de 2014
ALQUIMIA ... Em busca do belo no silêncio do tempo.
...entretanto, como é fácil 'consertar' o mundo à mesa de um qualquer 'café', entre tragos de fumaça cáustica!
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sábado, 21 de junho de 2014
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Recordações de GODIM
Conheço Godim desde que me conheço. Mas, no tempo em que me criei, não se dizia Godim. Dizia-se Jugueiros.
Ramalho Ortigão, referindo-se com a maior veemência à Ribeira do Rodo, chama-lhe Vale de Jugueiros - risonho e pingue.
Acontece que as terras mudem de nome ou prefiram, de dois ou três, o que melhor lhes cante no ouvido. Lembram meninas do velho Romantismo, que inventavam, para seu uso, a graça que mais lhe agradasse. Houve graciosas Pulquérias que se crismaram, ficando Elviras durante meses e Genovevas nos meses seguintes.
Seja de Godim o nome da freguesia, e Jugueiros, ao pé da igreja, um dos lugares da mesma freguesia.
Faz-se em Jugueiros, vá lá o nome antigo, uma grande festa no dia da Ascensão, festa móvel que sempre coincide com uma quinta-feira. Quinta-feira da Ascensão…
À parte o biscoito da Teixeira, muito queijo se vende nessa festa. Vende-se o queijo fino e o chamado queijo de batata.
Lembro-me de ver, em urna das festas da Ascensão, a uma e outra banda do caminho, da parte da manhã, entre a Quinta de Santa Maria e o recinto da igreja, duas filas de mendigos horrorosos. Vinham até ali da Idade Média, com repulsivos andrajos, aleijões de toda a qualidade e muita cegueira de olhos estoirados.
Eu tinha-lhes medo. Mas, chegando à igreja, logo esse medo se me desvanecia. Era raro, naquele tempo, que a festa da Ascensão se fizesse sem tumulto ou, como se dizia, barulho. Era o recontro de valentões, que ali convergiam, desafiados, com suas facas, rachas e, se bem me lembro, armas de fogo.
No auge da romaria, rebentava o conflito. Nesse momento, romeiros e romeiras da sangue acomodado começavam a gritar e a fugir.
No ano em que ali me levaram as Senhoras Monteiras, minhas saudosas mestras de primeiras letras, a fuga foi tão rápida, que chegámos num ai ao começo do Salgueiral. Já ali haveria uma farmácia.
Não tenho saudades de romarias tão perigosas. Mas, muitas vezes me lembro do tempo em que visitava, com minha mãe, o alto Senhor da Misericórdia.
Minha mãe tinha grande devoção com este crucifixo. De tempos a tempos, lembrava-se de o visitar, levando-me como pajem - teria eu nove anos.
Era para mim tocante a devoção de minha mãe. Penso que lhe devia o refrigério de padecimentos morais.
Não herdei a fé que amparou minha mãe. No entanto, posso dizer que herdei da sua santidade o sentimento religioso. Nos primeiros tempos da minha profissão, ia a pé, de vez em quando, até o adro da igreja de Godim e ali me sentava, à sombra de um plátano, recordando as visitas de minha mãe ao alto Senhor da Misericórdia. De vez em quando, dizia eu à minha gente, mulher e filhos, que devia ali uma promessa.
Herdei de meu pai a dedicação ao escritor Vieira da Costa, que penava no Salgueiral a infelicidade do isolamento, da pobreza, da surdez absoluta e da cegueira quase completa.
Muitas vezes o visitei, conversando com ele por meio de sinais - palavras que eu rabiscava, com o dedo, no seu lenço de doente.
Não quero aqui repetir o que tenho escrito sobre Vieira da Costa, hábil romancista cedo prejudicado por invalidez. Devo dizer no entanto, uma vez mais, que nem a Régua nem Godim deram ainda, à sua memória, uma luzinha de consideração.
Bem a merecia o escritor malogrado. Deveria ostentar o seu nome a Escola Secundária do Peso da Régua ou a Escola Agrícola do Rodo. Leia-se, para coonestar este preito, quanto escrevi sobre Vieira da Costa.
Foi na Ribeira do Rodo que um dia ouvi, ao amanhecer, uma inesquecível música de passarinhos. Estes defuntos hei-de lembrá-los enquanto me não morrer, no ouvido, a sua recordação. No mundo actual, não os posso ouvir, porque morreram. Matou-os a estupidez humana.
Ribeira do Rodo! Antes de desonrada por construções abusivas, fora de lugar próprio, foi uma das maiores belezas do país. Gozei-a, em rapaz, de uma das varandas da rua de Medreiros. Foi sonho que me não pode esquecer.
A chamada recta do Salgueiral, no tempo em que foi avenida, plantada de viçosos olmos, foi também um dos encantos da terra portuguesa. Ouvi-o dizer a um senhor de Lisboa.
Não quero pôr ponto neste escrito, das minhas recordações de Godim, sem amaldiçoar, uma vez mais, os inimigos das árvores.
- Texto de João de Araújo Correia, publicado num opúsculo dedicado às Festas da Ascenção de Godim. Colaboração de J A Almeida para "Escritos do Douro 2011".
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Desabafo!
Queria ter poderes infinitos para levar comigo as cores, o corpo, a simplicidade e o toque apetecido de minhas raízes...
Clique nas imagens para ampliar. Texto e fotos de Jaime Luis Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Maio de 2014. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
OLH'ÓS REBUÇADOS DA RÉGUA!!..
Doces e teimosas MULHERES da Régua!
Levo-te a ponto de rebuçado,virgem cidade que é meu cado,
e bebo o néctar chamado porto,
fruto do vale que assim exorto!
Tanto de rio, tanto de ouro,
olhar calado, onde me ancoro...
dum rio Douro a amar-te em cio,
beijo molhado, a quente e frio.
Levo-te em doce barco rabelo,
minha epopeia em fado de sê-lo,
rumo ao Porto, porto partido,
em tonéis de ventre apetecido...
Da Régua sai-me o néctar que doo,
alma de um povo, alma do Douro,
sol prisioneiro a bem desterrado
p'lo mundo inteiro, engarrafado.
Leva no rótulo a marca dos beijos
que na vindima são de desejos,
e, só por isso, sol redimido,
por em si levar o amor sentido...
...é redenção, a fama que ganha,
e quase todo o orgulho que tenha,
passa na Régua, à sombra das vinhas,
em afãs de glórias também minhas...
OLH'ÓS REBUÇADOS DA RÉGUA!!.. Pregão das rebuçadeiras da Régua. Os rebuçados da Régua são uma guloseima típica da cidade, feita de açúcar caramelizado, produzidos e embalados artesanalmente.
Fontes: REBUÇADOS DA RÉGUA - Uma doce tradição que não pode morrer (http:// escritosdodouro.blogspot.pt /2011/03/ rebucados-da-regua-uma-doce -tradicao.html e http:// www.luso-poemas.net/ modules/news/ article.php?storyid=135887# ixzz31uTPZYyh)
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Viagem Inesquecível a Chaves
Esta viagem de comboio, na linha do Corgo, foi há mais de 85 anos…!
Poderia ter sido mais uma, igual a muitas outras, que se fizeram nessa magnifica linha de caminho-de-ferro, mas esta deve ter sido bem diferente. Se bem que não se conheçam os motivos que terão levado os bombeiros da Régua, acompanhados de uma grande comitiva, de irem a Chaves, essa viagem não ficou esquecida no tempo.
Alguém se lembrou de registar os pormenores mais significativos dessa “Excursão à vila de Chaves, promovida pelos bombeiros voluntários da Régua, no dia 19 de Julho de 1925”. Com a intenção de informar a posteridade, ainda escreveu aquela única mensagem numa folha, onde arquivou as melhores cinco fotografias, inesquecíveis tanto para eles como para nós, agora.
Não sabemos com que finalidade os bombeiros da Régua promoveram esta excursão a Chaves. Agradecemos que alguém nos ajude, se para tanto dispuser de elementos capazes. Terá sido uma vigem de lazer? Uma viagem de cortesia à associação flaviense congénere? Quem eram as pessoas que os receberam na estação? Que foram festejar? Um aniversário dos bombeiros de Chaves? Uma inauguração de novo quartel ou de outro melhoramento? Parece haver um segundo estandarte para além do dos Bombeiros da Régua, mas será dos Bombeiros de Chaves? A locomotiva (uma Ensechel E 224) parece estar decorada com elementos alusivos aos bombeiros. Se assim é, poderemos imaginar que tenha sido uma viagem especial, com programa fora do normal.
Uma certeza, talvez mesmo a única: os bombeiros da Régua foram recebidos com toda a pompa e entusiasmo pela população de Chaves. Com o respeito que se impunha, de estandarte bem erguido, os nossos bombeiros desfilaram garbosamente pelas ruas principais, exibindo à frente homens bem conhecidos, como Lourenço Medeiros, mais tarde comandante, e o destemido patrão Álvaro Rodrigues da Silva.
Há viagens de comboio que valem a pena.
Uma delas, se ainda fosse possível, seria a da Linha do Corgo. Quem a fez no tempo dos comboios a vapor, dos velhos “Texas”, como eram carinhosamente conhecidos, teve a última oportunidade de apreciar o percurso de uma das mais bonitas linhas de caminho-de-ferro do nosso país. O traçado entre Vila Real e Chaves encerrou em 1990, o troço entre Régua e Vila Real encontra-se encerrado, por tempo indefinido, desde 2009, para obras de melhoramento.
Os que adquiriram bilhete na estação da Régua para a viagem de 19 de Julho de 1925 fizeram, com certeza, uma viagem inesquecível.
Primeiro, um percurso panorâmico, ao longo de 25 km, da Régua a Vila Real, que serpenteia por entre vinhedos e nos permite a contemplação das águas do Corgo, a correr lá ao fundo do escarpado vale, depois a atracção dos cumes do Marão a encimar as penedias agrestes na linha do horizonte. Depois de Vila Real, onde normalmente a locomotiva se reabastecia de água e carvão, a paisagem completamente diferente da veiga e planalto de Vila Pouca de Aguiar, avistando-se, ao longe, as límpidas águas do Tâmega.
Sem atraso no horário, este comboio especial fez as paragens habituais nos apeadeiros e estações mais importantes. Conhecedor experiente da arquitectura sinuosa da linha, o maquinista aportou “à tabela” à estação de Vidago. Em obediência às instruções do chefe da estação, parou o comboio em linha de estacionamento, como procurasse um tempo perdido, marcado pelo fascínio de uma nova época.
Antes, o comboio tinha feito uma breve pausa no apeadeiro de Zimão. Alguém mais crente no divino recordou a bondade do padre Manuel do Couto, admirado pelo povo da sua humilde terra natal de Telões.
Este missionário distinguia-se pelo atendimento em confissão de quantos a ele recorriam, pelo amor à escrita, pela paixão pelo bem e, muitas vezes, passavam pela sua pessoa maravilhosos e inexplicáveis milagres. Ouviam-se contar relatos dos seus milagres, no meio dos ruídos da composição em andamento, só possíveis num homem, como ele, a caminho da santidade: "O Padre Manuel ia muito prós lados de Chaves pregar. Ia quase sempre numa mula. Mas um dia, não sei porque razão (talvez a mula estivesse doente), resolveu apanhar o comboio na estação de Zimão. Como não tinha dinheiro para o bilhete ( andava sempre sem dinheiro, apesar da família ser rica), o revisor obrigou-o a sair, já ele estava sentado, dentro do comboio. O Padre Manuel, como era obediente, saiu logo para fora. Mas, mal pôs os pés no chão, a máquina deixou de trabalhar. As pessoas que estavam na estação e dentro das carruagens ficaram pasmadas e meio assustadas. Foi então que o Padre Manuel disse ao revisor: Ou me deixais entrar, ou o comboio não sairá da Estação. O revisor olhou para o chefe da estação e para o maquinista. Estavam sem pinta de sangue. O chefe da estação não esperou nem mais um segundo e deu ordem para o Padre Manuel entrar no comboio. O que se segue é que, mal ele pôs os pés na escada do vagão, o comboio começou logo a andar" (texto retirado do http://paradadocorgo.blogs.sapo.pt/).
Na estação de Vidago, a locomotiva parava para um descanso e o maquinista procedia a afinações. Como havia tempo de sobra, os bombeiros, na companhia de ilustres elementos da comitiva, que seguiam nas carruagens de 2ª classe, aproveitaram a frescura do dia para folgarem. Nas redondezas encontraram uma casa de pasto que lhes serviu um delicioso bacalhau frito e um vinho branco à maneira. Saíram acompanhados do fotógrafo de serviço, que não se esqueceu de fotografar a locomotiva, festivamente adornada com ramos de árvores e duas bandeiras, a ganhar fôlego para o resto da viagem. Como estava sol, desceram a alameda ladeada de plátanos até à entrada do majestoso Palace Hotel, único na beleza da sua fachada principal, deslumbravam-se com o parque de vegetação abundante. Ao lado, ficava a estância termal, apreciada pelos poderes curativos das suas águas, bem frequentada de aquistas metódicos nos tratamentos diários e movimentada de turistas do entardecer, perdidos na sombra e na frescura dos arvoredos.
O ambiente romântico do lugar inspirou a veia poética dos mais sensíveis, donde nasceram quadras de amor dedicados às namoradas. Desconheço se esses versos chegaram às mãos e ao coração das amadas, mas muitos anos mais tarde, alguém se encarregou de lhes desvendar a intimidade para todos nós, dando-se ao cuidado de os publicar nos jornais, hoje esquecidos.
O saudoso jornal dos bombeiros, “Vida por Vida”, foi o periódico escolhido por Horácio Moura Lopes, reguense por adopção, poeta sem livros editados, autor de escritos dispersos pelos jornais da época, para nos dar a conhecer o seu poema “A Luz Que Me Roubaste”:
“Não cesso de dizer a toda a gente
Que o fogo dos teus olhos me cegou:
Onde não me julgares, eu lá estou,
Ceguinho, com o meu bordão à frente.
Há preces em minha alma que pecou
Ao ver-te graciosa, docemente…
Em ti, o “não” fugiu e o “sim” não mente,
Entre nós a amizade já findou.
Não me escrevas, te peço, mais missivas
Para um cego as propostas são altivas.
Hoje, já não te devo interessar.
Mas, se por mim passares, tem cuidado…
A tua voz em timbre modulado
Pode bem minha luz recuperar!”
Como passageiro acidental desta viagem de comboio, fico maravilhado a reler os dois últimos versos, que revelam a pureza dos afectos do poeta à mulher. Emocionam-me como se eu pudesse sentir a sua dor antiga. O amor, sempre o amor, com as suas desilusões e as suas mágoas, tornam as pessoas mais frágeis.
Descubro, por mero acaso, que os versos do poeta Horácio Moura Lopes eram destinados a uma mulher de quem se apaixonou por toda a vida, até ao último dia. Deveria dizer melhor, a paixão mantêm-se na eternidade. Essa mulher acabou por ser muito importante na infância do autor destas linhas. Foi sua primeira professora. A Dona Esmeralda, como eu a conheci sempre, era uma educadora exigente, culta e rigorosa, que ensinou, numa velha escola primária, as primeiras letras e os caminhos da vida, começando por um lugar muito pequenino, como são as Caldas do Moledo.
Não podiam ficar mais tempo parados na estação de Vidago. Como a vida nunca pára, a viagem deste comboio tinha de continuar até ao destino, até à vila de Chaves, onde ia terminar em festa e em alegria. A distância a percorrer era ainda longa. Na marcha lenta do comboio, seriam precisas mais de duas horas de viagem e de conversas para o desembarque dos bombeiros e dos passageiros que os acompanhavam. Na gare da estação, mesmo antes de o fotógrafo fazer as imagens que iam ficar para a História, uma grande multidão de pessoas felizes havia de aguardar os forasteiros reguenses. Iriam viver um momento único, uma recepção de primeira, uma festa de esfuziante alegria, organizada para homenagear os heróicos bombeiros da Régua.
“Senhores passageiros, o comboio vai partir……” anuncia, em voz rouca e dolente, o chefe da estação de Vidago, aprumado num coçado fato cinzento, de apito e a bandeira de serviço na mão. Sente-se já o calor de um verão que se anuncia quente, a descer pelas montanhas verdejantes. A velha locomotiva dá o último silvo, deixando à sua volta uma negra nuvem de fumo e para trás a magia poética de um lugar eterno, onde havemos de regressar.
Com o comboio em movimento, aproveitemos esta vigem na linha do Corgo até ao fim, pela memória daqueles que tiveram o prazer de a fazer. Não tardará nada que este comboio chegue à estação Chaves. A partir desse momento, não deixem de continuar a sonhar porque a vida não será mais a mesma.
Afinal, nos nossos dias, não se pode repetir uma viagem de comboio na linha Corgo, como a que os bombeiros da Régua fizeram em 1925. Limitamo-nos a viajar nessas filigranas de carvão, pela linhas imaginárias da nostalgia, com a paragem nas estações e apeadeiros de memórias fugazes, percorrendo os lugares e as paisagens que, desde as nossas origens, fazem parte dos mapas da nossa geografia sentimental.
- Peso da Régua, Março de 2010, J A Almeida.
(Clique nas imagens acima para ampliar)
:: ::
Também pode ler aqui "Viagem Inesquecível a Chaves"
(Dê duplo click com o "rato/mouse" para ampliar e ler)
- Post anterior deste blogue sobre os Históricos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua!
- Portal dos briosos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua!
quarta-feira, 30 de abril de 2014
domingo, 27 de abril de 2014
Jorge Manuel Monteiro de Almeida, 20-9-1954 / 26-4-2014
- BIOGRAFIA de Jorge Manuel Monteiro de Almeida:
Nasceu em 20/9/1954 e faleceu em 26/04/2014
Profissão - Médico
Cargos que desempenhou:
- Deputado na X Legislatura
- Conselheiro no Conselho Regional da Casa do Douro
- Chefe de Serviço de Medicina Geral e Familiar na Sub-Região de Saúde de Vila Real
- Conselheiro no Conselho Interprofissional do IVDP
- Presidente da Assembleia Municipal de Peso da Régua
- Vereador da Câmara Municipal de Peso da Régua
HÁ FOGO
*Jorge Almeida
Há fogo, há fogo, gritava a garotada da minha rua. A
sirene era inconfundível, a frequência de sons agudos e graves não enganava. Em
correria deixávamos o jogo da bola ou da carica para acorrer ao quartel.
Já lá estavam os mais afoitos e os mais próximos. É no
Corgo, é no Corgo, dizia uma voz esganiçada. E os bombeiros não faltavam à
chamada. Conforme estavam, em casa, no trabalho ou no lazer, assim vinham
aqueles nossos heróis. De automóvel, de bicicleta, de motorizada, a pé. O
Manuel, o Silva, o Figueiredo, o João e tantos, tantos outros. E o Chefe
Claudino, e mais tarde o Comandante Cardoso… que organização, que autoridade.
Era um gosto ver sair o carro de nevoeiro a toda a
velocidade a caminho do salvamento de pessoas e bens. Havia algo de forte, de
solidário, de altruísta, de comunitário que a pequenada absorvia.
Os Bombeiros Voluntários do Peso da Régua
representaram sempre, ao mais alto nível, os mais nobres valores da ajuda ao
próximo, interpretando individual e colectivamente o lema de “dar de si antes
de pensar em si“.
Mas tem sido também uma associação virada para a
formação humana em todas as suas vertentes, e para a cultura.
Quando muito jovem, fui um dos utilizadores assíduos
da biblioteca. As obras de aventuras Enyd Blyton ou de Emílio Salgari, mas
também os clássicos da literatura portuguesa como os de Eça de Queirós e Camilo
de Castelo Branco, abriram muitos caminhos para o conhecimento aos jovens da
minha geração, numa altura em que a informação disponível rareava, as
bibliotecas públicas no interior eram uma miragem, e em que o poder político
tinha outras preocupações, bem longe da cultura do povo.
Recordo com muita saudade o testemunho que me foi
transmitido por meu tio José Arnaldo Monteiro, o seu referencial à literatura e
à cultura em geral, e o carinho que sempre manifestou pela associação. José
Arnaldo Monteiro foi um grande resistente à ditadura. Foi dos primeiros
reguenses a envolver-se no movimento democrático e a perfilar-se na defesa de
causas sociais. Em sua memória, e concretizando um desejo de família, será em
breve entregue aos nossos bombeiros o fundamental da sua biblioteca particular.
Saúdo por isso a orientação da direcção presidida pelo
dr. José Alfredo que tem feito da vertente cultural uma das suas grandes
preocupações.
A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do
Peso da Régua, para além de ser a menina dos olhos da comunidade reguense,
atingiu grande prestígio a nível regional e nacional. Honra a memória de todos
que a serviram, desenvolve uma profícua atividade no presente, e prepara-se
para um grandioso futuro. Instalações, equipamentos e pessoas, sobretudo
pessoas, a têm feito crescer, modernizar e consolidar. Mas será sempre com a
memória e a cultura que este ideário reguense se perpetuará.
Vivam os Bombeiros.
*Jorge Almeida - Médico. Foi Vereador, Presidente da Assembleia Municipal da Câmara
Municipal do Peso da Régua e Deputado na Assembleia da República. Actualmente
exerce as funções de Vogal do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Trás-os- Montes e
Alto Douro.
Clique nas imagens para ampliar. Actualização em homenagem ao Dr. Jorfe de Almeida em 27 de Abril de 2014. Texto para o blogue "Escritos do Douro" em Abril de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro.
sábado, 12 de abril de 2014
terça-feira, 8 de abril de 2014
UM LIVRO ESPECIAL
Ao Dr. Bernardino Zagalo
Das homenagens e louvores aos bombeiros da Régua
dedicadas pelo seu espírito de abnegação, brio e heroísmo há uma, muito especial
que, pela sua raridade, autoria e forma invulgar como foi divulgada, não pode
ficar esquecida nas páginas da história da associação nem na memória
colectiva.
Não é um diploma nem sequer uma medalha de ouro concedida por alguma entidade pública a reconhecer o mérito, a dedicação pública, a generosidade, o comportamento exemplar, a coragem e abnegação e os serviços distintos pelo que, nas suas arriscadas missões de socorro, fizeram os bombeiros.
Ao longo da sua existência, os bombeiros da Régua foram enaltecidos com importantes distinções e títulos honoríficos. Sem querer valorizar nenhum há um especial muito um que brilha mais alto e destaca-se nas glórias dos bombeiros da velha guarda, a Ordem Militar de Cristo, colocada no estandarte da Associação pelas mãos do Presidente da República, General Óscar Carmona.
Mas, os bombeiros da Régua têm uma homenagem que, se não valeu mais que a distinção das ditas comendas, ajudou a levar à imortalidade dos bombeiros que combateram o grande incêndio, em 26 de Junho de 1911, na cidade de Lamego.
Poucos sabem que o autor do notável louvor, foi o Dr. Bernardino Zagalo, advogado e escritor de novelas de índole regionalista e de uma peça de teatro intitulado O Heitorzinho, popularizado em apresentações no palco de teatro de amadores ao consagrar o exemplo de um homem justo e bom, natural da freguesia de Loureiro, que o povo tem devoção e reconhece, ainda hoje, como um santo milagreiro.
O Dr. Bernardino Zagalo, lamecense pelo nascimento, foi um verdadeiro reguense pelo coração. Apaixonado pela terra adoptiva, onde teve a sua residência, dedicou-se às actividades do foro judicial. Cidadão inteligente e activo, trabalhou para o bem comum como dinamizador das Festas do Socorro e como criador e impulsionar da Parada Agrícola, uma espécie de primeira e moderna feira agrícola para promoção dos vinhos do Douro e outros dos produtos agrícolas da região duriense.
Nesse tempo, a Associação dos Bombeiros da Régua já era uma instituição muito prestigiada, que não se ocupava só em combates dos fogos, mas tinha nobres objectivos, pois auxiliava e promovia iniciativas sociais e culturais da sociedade civil. A normalidade era a vida associativa próxima dos associados e das pessoas que apoiavam os bombeiros. O Dr. Bernardino Zagalo, como vizinho do primeiro quartel dos bombeiros, situado então no Largo dos Aviadores, conhecia-lhes os exemplos de altruísmo, abnegação e heroísmo. Não é de estranhar que mantivesse com aqueles homens de paz e fraternidade, velhos combatentes de fogos, uma respeitável relação de amizade e apoiada uma elevada admiração.
Não é um diploma nem sequer uma medalha de ouro concedida por alguma entidade pública a reconhecer o mérito, a dedicação pública, a generosidade, o comportamento exemplar, a coragem e abnegação e os serviços distintos pelo que, nas suas arriscadas missões de socorro, fizeram os bombeiros.
Ao longo da sua existência, os bombeiros da Régua foram enaltecidos com importantes distinções e títulos honoríficos. Sem querer valorizar nenhum há um especial muito um que brilha mais alto e destaca-se nas glórias dos bombeiros da velha guarda, a Ordem Militar de Cristo, colocada no estandarte da Associação pelas mãos do Presidente da República, General Óscar Carmona.
Mas, os bombeiros da Régua têm uma homenagem que, se não valeu mais que a distinção das ditas comendas, ajudou a levar à imortalidade dos bombeiros que combateram o grande incêndio, em 26 de Junho de 1911, na cidade de Lamego.
Poucos sabem que o autor do notável louvor, foi o Dr. Bernardino Zagalo, advogado e escritor de novelas de índole regionalista e de uma peça de teatro intitulado O Heitorzinho, popularizado em apresentações no palco de teatro de amadores ao consagrar o exemplo de um homem justo e bom, natural da freguesia de Loureiro, que o povo tem devoção e reconhece, ainda hoje, como um santo milagreiro.
O Dr. Bernardino Zagalo, lamecense pelo nascimento, foi um verdadeiro reguense pelo coração. Apaixonado pela terra adoptiva, onde teve a sua residência, dedicou-se às actividades do foro judicial. Cidadão inteligente e activo, trabalhou para o bem comum como dinamizador das Festas do Socorro e como criador e impulsionar da Parada Agrícola, uma espécie de primeira e moderna feira agrícola para promoção dos vinhos do Douro e outros dos produtos agrícolas da região duriense.
Nesse tempo, a Associação dos Bombeiros da Régua já era uma instituição muito prestigiada, que não se ocupava só em combates dos fogos, mas tinha nobres objectivos, pois auxiliava e promovia iniciativas sociais e culturais da sociedade civil. A normalidade era a vida associativa próxima dos associados e das pessoas que apoiavam os bombeiros. O Dr. Bernardino Zagalo, como vizinho do primeiro quartel dos bombeiros, situado então no Largo dos Aviadores, conhecia-lhes os exemplos de altruísmo, abnegação e heroísmo. Não é de estranhar que mantivesse com aqueles homens de paz e fraternidade, velhos combatentes de fogos, uma respeitável relação de amizade e apoiada uma elevada admiração.
(Clique na imagem para ampliar)
Já que se recordou um dos grandes incêndios de Lamego,
temos presente uma pequena nota histórica da “assombrosa catástrofe” que, no dia
26 de Junho de 1911, pelas 21.00 horas, reduziu a um esqueleto de ruínas e
cinzas uma grande parte das casas da movimentada Rua de Almacave. Rezam as
notícias que nem a Igreja da Misericórdia foi poupada à violência das chamas,
que a destruiu completamente, o que tornou impossível a sua
reconstrução.
Para ajudar a apagar este incêndio foram chamados os bombeiros da Régua, comandados por José Afonso de Oliveira Soares. Combateram-no ao lado dos bombeiros de Lamego, mas a sua acção foi determinante pela sua coragem e heroísmo, o que evitou que o fogo alastrasse às ruas envolventes e causasse mais pânico e prejuízos.
Natural de Lamego, o Dr. Bernardino Zagalo terá registado algumas das brutais imagens que correram desse incêndio e tenha ouvido falar da destemida e corajosa acção dos bombeiros da Régua nesse fogo. Apesar de ser lamecense, não se sentiu diminuído em testemunhar aquela sua missão e o “tamanho do seu heroísmo se glorificou para todo o sempre”.
Para ajudar a apagar este incêndio foram chamados os bombeiros da Régua, comandados por José Afonso de Oliveira Soares. Combateram-no ao lado dos bombeiros de Lamego, mas a sua acção foi determinante pela sua coragem e heroísmo, o que evitou que o fogo alastrasse às ruas envolventes e causasse mais pânico e prejuízos.
Natural de Lamego, o Dr. Bernardino Zagalo terá registado algumas das brutais imagens que correram desse incêndio e tenha ouvido falar da destemida e corajosa acção dos bombeiros da Régua nesse fogo. Apesar de ser lamecense, não se sentiu diminuído em testemunhar aquela sua missão e o “tamanho do seu heroísmo se glorificou para todo o sempre”.
Os Desherdados, que fez questão em dedicar a um
amigo, o Conde de Saborosa e também aos Bombeiros Voluntários da Régua e cujas
vendas destinou que revertessem para os cofres da associação, confirmou a
gratidão a esses bombeiros com este elogio:
“Este livro não se expõe á
venda. É uma homenagem, embora obscurissima, a um amigo
extremoso e aos Bombeiros Voluntários da Regoa.
Os Desherdados destinam-se a sêrem distribuidos ás pessoas de coração que desejem contribuir com o seu obulo caridoso para o cofre da benemérita Associação dos Bombeiros Voluntarios da Regoa, ficando as despesas de publicação a meu cargo.
Como lamecense amantíssimo da minha terra, venho assim testemunhar a minha gratidão á briosa e esforçada colectividade que teem prestado primorosamente serviços humanitários de alto relevo e superiores a encarecimentos banaes, e que com tamanho heroísmo se glorificou para todo o sempre no pavoroso incêndio que abrazou e reduziu a cinzas, em 26 de Junho de 1911, vinte e um prédios urbanos, salvando das labaredas temerosas o bairro mais importante da cidade de Lamego e o histórico povoado do Castello (….)”.
Dizia o Dr. Zagalo que era uma homenagem obscuríssima. Ora, de obscura é que não tem mesmo nada. Ao imprimi-la nas primeiras páginas de uma sua obra literária, imortalizou os bombeiros da Régua como admiráveis valores do altruísmo. A literatura raramente os glorifica como personagens principais, mas sabe todos sabemos que na vida real, eles são verdadeiros heróis.
Os Desherdados destinam-se a sêrem distribuidos ás pessoas de coração que desejem contribuir com o seu obulo caridoso para o cofre da benemérita Associação dos Bombeiros Voluntarios da Regoa, ficando as despesas de publicação a meu cargo.
Como lamecense amantíssimo da minha terra, venho assim testemunhar a minha gratidão á briosa e esforçada colectividade que teem prestado primorosamente serviços humanitários de alto relevo e superiores a encarecimentos banaes, e que com tamanho heroísmo se glorificou para todo o sempre no pavoroso incêndio que abrazou e reduziu a cinzas, em 26 de Junho de 1911, vinte e um prédios urbanos, salvando das labaredas temerosas o bairro mais importante da cidade de Lamego e o histórico povoado do Castello (….)”.
Dizia o Dr. Zagalo que era uma homenagem obscuríssima. Ora, de obscura é que não tem mesmo nada. Ao imprimi-la nas primeiras páginas de uma sua obra literária, imortalizou os bombeiros da Régua como admiráveis valores do altruísmo. A literatura raramente os glorifica como personagens principais, mas sabe todos sabemos que na vida real, eles são verdadeiros heróis.
Esta homenagem de um escritor, ainda que desconhecido para a maioria das pessoas, à missão dos bombeiros foi uma excepção que envaidece a quem foi dedicada, neste caso, os bombeiros da Régua.
Quando um escritor dedica um livro ao exemplo de coragem
dos bombeiros, esta atitude vale muito mais que medalhas e títulos honoríficos.
O livro, depois de chegar aos leitores, será sempre uma obra imortal. É isto que
está a acontecer com Os Desherdados, uma obra que foi
escrita há mais de 100 anos, mas de que existem antigas edições à espera uma
consulta, mais atenta e demorada, em estantes particulares e
públicas.
A mensagem do livro tem um significado importante que, em certa medida, permite entender os riscos de missão dos bombeiros. Se ela revela os genuínos ideais de um ilustre cidadão que adoptou a Régua, não deixa de espelhar o reconhecimento de uma sociedade que sabia respeitar a atitude cívica dos cidadãos mais solidários e generosos. Aqueles homens que deixaram provas de heroísmo ao serviço de uma missão de socorro em Lamego.
A história dos Bombeiros da Régua escreve-se com a abnegação, solidariedade e coragem daqueles homens que juraram cumprir o lema “Vida por Vida”. O dever de cada bombeiro é ajudar os seus semelhantes quando as vidas e bens estão em perigo. Eles não socorrem para serem reconhecidos como heróis. Aquilo que o Dr. Bernardino Zagalo escreveu no seu livro sobre os Bombeiros da Régua é mais uma homenagem ao seu esforçado e valente trabalho perante a destruição devoradora dos fogos. É um louvor, também de alguém que lhes está grato!
Certos livros voltam quando pensávamos que estavam esquecidos, como este do Dr. Bernardino Zagalo. E ainda bem, assim as novas gerações podem saber que os bombeiros da Régua alcançaram um digno reconhecimento pelos seus talentos de humanidade e de heroísmo e, por ser mais nobre que a atribuição de qualquer medalha de ouro, atingiram o estatuto da Imortalidade.
A partir de agora, os bombeiros da Régua sabem que, na sua longa história, há um livro especial, intitulado Os Deserdados que, publicado há cem anos, os evoca pela sua brilhante competência e também pela coragem e abnegação no combate a um dos maiores incêndio ocorridos em Lamego, prestigiando assim o bom nome da benemérita associação reguense.
A mensagem do livro tem um significado importante que, em certa medida, permite entender os riscos de missão dos bombeiros. Se ela revela os genuínos ideais de um ilustre cidadão que adoptou a Régua, não deixa de espelhar o reconhecimento de uma sociedade que sabia respeitar a atitude cívica dos cidadãos mais solidários e generosos. Aqueles homens que deixaram provas de heroísmo ao serviço de uma missão de socorro em Lamego.
A história dos Bombeiros da Régua escreve-se com a abnegação, solidariedade e coragem daqueles homens que juraram cumprir o lema “Vida por Vida”. O dever de cada bombeiro é ajudar os seus semelhantes quando as vidas e bens estão em perigo. Eles não socorrem para serem reconhecidos como heróis. Aquilo que o Dr. Bernardino Zagalo escreveu no seu livro sobre os Bombeiros da Régua é mais uma homenagem ao seu esforçado e valente trabalho perante a destruição devoradora dos fogos. É um louvor, também de alguém que lhes está grato!
Certos livros voltam quando pensávamos que estavam esquecidos, como este do Dr. Bernardino Zagalo. E ainda bem, assim as novas gerações podem saber que os bombeiros da Régua alcançaram um digno reconhecimento pelos seus talentos de humanidade e de heroísmo e, por ser mais nobre que a atribuição de qualquer medalha de ouro, atingiram o estatuto da Imortalidade.
A partir de agora, os bombeiros da Régua sabem que, na sua longa história, há um livro especial, intitulado Os Deserdados que, publicado há cem anos, os evoca pela sua brilhante competência e também pela coragem e abnegação no combate a um dos maiores incêndio ocorridos em Lamego, prestigiando assim o bom nome da benemérita associação reguense.
- José Alfredo Almeida*, Régua, Julho de 2011. Actualizado em 8 de Abril de 2014. Clique nas imagens acima para ampliar.
- *O Dr. José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também crónicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária, fatos do passado da bela cidade de Peso da Régua.
- Um outro post - O Nosso Dr Zagalo
Um Livro Especial
Jornal "O Arrais", Quinta feira, 21 de Julho de 2011
(Click com o "rato/mouse" para ampliar e ler)
Edição de Jaime Luis Gabão para Escritos do Douro 2011 em 19 de Julho de 2011. Actualização em 8 de Abril de 2014.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
REBUÇADOS DA RÉGUA - Uma doce tradição que não pode morrer
Clique na imagem para ampliar
Quando estamos longe, emociona-nos ler... e reler:
Rebuçadeiras da Régua foram homenageadas.
As 12 mulheres que confeccionam e vendem os rebuçados da Régua foram homenageadas pela autarquia local, por preservarem esta doce tradição que leva o nome da cidade duriense a todo o país. Isto numa altura em que se prepara o registo da marca.
A Câmara Municipal de Peso da Régua está a desenvolver o processo de registo da marca «Rebuçados da Régua». Neste âmbito, e também a propósito das comemorações do Dia Internacional da Mulher (8 de Março), o município homenageou as 12 mulheres que ainda confeccionam e vendem os rebuçados.
«Olha o rebuçado da Régua. Levem rebuçados da Régua», apregoa Maria José Leitão, 63 anos e que há mais de 20 vende os doces tradicionais junto à estação de caminho de ferro. Primeiro no comboio, por onde muitos chegavam e partiam, agora também junto aos barcos, que a partir da primavera trazem milhares de turistas ao Douro. É por aqui que estas mulheres se espalham, carregando no braço os cestos de vime onde trazem os sacos de nove rebuçados que vendem a um euro. Estes doces começaram por ser vendidos nas festas e romarias. Não se sabe ao certo qual foi a sua origem ou há quanto tempo surgiram os rebuçados. «Isto já é muito antigo», garantiu Maria José Leitão.
Sabe-se que se evidenciaram a partir da década de 30 do século XX e sabe-se também que muitas mulheres criaram os seus filhos a vender estes doces.
«Mas se fosse agora não os criava. O negócio está muito fraco e depois tem esta coisa de dizer que é a crise, depois também não querem engordar, depois são os diabetes, depois é isto e é aquilo, mas não é, é apenas uma desculpa», salientou a vendedora.
Maria diz que, às vezes, passa dia a carregar um cabaz de rebuçados que «não se vendem».
As 12 mulheres que confeccionam e vendem os rebuçados da Régua foram homenageadas pela autarquia local, por preservarem esta doce tradição que leva o nome da cidade duriense a todo o país. Isto numa altura em que se prepara o registo da marca.
A Câmara Municipal de Peso da Régua está a desenvolver o processo de registo da marca «Rebuçados da Régua». Neste âmbito, e também a propósito das comemorações do Dia Internacional da Mulher (8 de Março), o município homenageou as 12 mulheres que ainda confeccionam e vendem os rebuçados.
«Olha o rebuçado da Régua. Levem rebuçados da Régua», apregoa Maria José Leitão, 63 anos e que há mais de 20 vende os doces tradicionais junto à estação de caminho de ferro. Primeiro no comboio, por onde muitos chegavam e partiam, agora também junto aos barcos, que a partir da primavera trazem milhares de turistas ao Douro. É por aqui que estas mulheres se espalham, carregando no braço os cestos de vime onde trazem os sacos de nove rebuçados que vendem a um euro. Estes doces começaram por ser vendidos nas festas e romarias. Não se sabe ao certo qual foi a sua origem ou há quanto tempo surgiram os rebuçados. «Isto já é muito antigo», garantiu Maria José Leitão.
Sabe-se que se evidenciaram a partir da década de 30 do século XX e sabe-se também que muitas mulheres criaram os seus filhos a vender estes doces.
«Mas se fosse agora não os criava. O negócio está muito fraco e depois tem esta coisa de dizer que é a crise, depois também não querem engordar, depois são os diabetes, depois é isto e é aquilo, mas não é, é apenas uma desculpa», salientou a vendedora.
Maria diz que, às vezes, passa dia a carregar um cabaz de rebuçados que «não se vendem».
Sónia Tavares, 32 anos, aprendeu a fazer os rebuçados com a mãe e começou a vender há 16 anos. Foi a necessidade que a obrigou a ir «para a estação» mas hoje não se arrepende.
«Conseguir trabalhar e sustentar o meu filho é o que me interessa», sublinhou.
Esta vendedora também se queixa que o negócio «já não dá como dava antigamente», mas que «lá vai dando para os gastos». Os clientes são na sua maioria portugueses, muitos turistas que chegam ao Douro Património da Humanidade. «Uns compram para provar, outros para levar de oferta», referiu.
E é assim que o nome da Régua segue viagem um pouco para todo o país.
Durante o dia estas mulheres calcorreiam a Régua. À noite confeccionam os doces. A receita é simples: basta açúcar, mel, limão e manteiga. Mas o segredo que lhes dá o «verdadeiro sabor» é algo que recusam partilhar.
O presidente da Câmara da Régua, Nuno Gonçalves, disse que os rebuçados são «um produto que faz parte da cidade, das suas tradições e que a identifica».
«Este ano quisemos homenagear as rebuçadeiras e, através delas, os rebuçados da Régua, que são um produto que queremos valorizar, proteger e divulgar», salientou.
Para que os doces «não sejam roubados» à Régua, a autarquia está a registar a marcar e pretende, depois, até certificar este produto.
Nuno Gonçalves admite que as actuais exigências poderão obrigar a alguma alteração do ponto de vista da produção dos rebuçados, mas espera que o seu sabor original «não seja abalroado pela legislação».
Café Portugal | sexta-feira, 4 de Março de 2011
Rebuçados da Régua - Como fazer!
“Leve o açúcar a ponto de rebuçado com duas cascas de limão e o sabor de uma ou duas ervas aromáticas (é o segredo das rebuçadeiras). Vaze-o numa pedra de mármore ou de lousa, previamente untada com manteiga ou margarina (antigamente, com banha ou azeite), e, enquanto estiver quente, vá cortando os rebuçados um a um, para depois os embrulhar em forma de laçarotes.
Nota: os aromas podem variar muito; vão do mel ao tomilho, da canela à infusão de flor de laranjeira... As temperaturas de aquecimento do açúcar também têm influência na coloração dos rebuçados, mais ou menos escuros, assim como a utilização do tipo de açúcar (branco ou amarelo)...” O papel de embrulho é o vegetal, lembrando os famosos doces embrulhados saídos de conventos.
Nota: os aromas podem variar muito; vão do mel ao tomilho, da canela à infusão de flor de laranjeira... As temperaturas de aquecimento do açúcar também têm influência na coloração dos rebuçados, mais ou menos escuros, assim como a utilização do tipo de açúcar (branco ou amarelo)...” O papel de embrulho é o vegetal, lembrando os famosos doces embrulhados saídos de conventos.
Na Pesqueira com sabor a rebuçados da Régua
“vai uns rebuçadinhos caseiros? Um euro o pacotinho”.
Arménia Jeitosa, rebuçadeira de longa data, desfila receitas, mas também guarda segredos.
No coração de São João da Pesqueira provam-se os rebuçados da Régua. A praça soalheira convida a um deambular matinal que não esconde uma pontinha de preguiça. Uma indolência que tenta ser compensada pelo uso da objectiva. Na máquina fotográfica repousam quatro ou cinco instantâneos. Tudo ângulos infelizes, sem justiça pela harmonia e inspiração das arcadas e fachadas do coração arquitectónico de São João da Pesqueira.
A Praça da República é, toda ela, espaço urbano cuidado, de dimensão comedida, à proporção da sede de conselho. É uma escala de uma singeleza que nos faz, por impulso, querer enquadrar no plano o elemento humano. Apetece, por isso, ouvir histórias, dar uso às palavras, emoldurar narrativas no contexto do lugar. Falta, contudo, o mote. A praça vazia frustra as intenções. Resta esperar na esplanada, madrugadora, armada num dos recantos da praça. As nove horas repicam num sino indeterminado. Próximo, duas portadas abrem-se à manhã. De dentro “salta” um par de cadeiras, com ares de longo uso. Breve, sobre as cadeiras, vão assentar dois cestos. Entre vime, um ninho de pano aconchega umas quantas mãos-cheias de pacotinhos rematados com laços. Arménia Jeitosa, como se apresenta, inicia uma vez mais a sua rotina diária, que sintetiza num “adoçar a vida e a boca de quem por aqui passa”.
Há, aqui, história com pretexto e contexto para a primeira fotografia com conteúdo do dia. Espicaça-se a conversa. Natural da Régua, Arménia Jeitosa assenta negócio desde há 35 anos em São João da Pesqueira. Frente à loja, verdadeiro empório de utilidades domésticas, apregoa os seus rebuçados caseiros da Régua.
A rebuçadeira aborda com discrição e sem grandes insistências:
“vai uns rebuçadinhos caseiros? Um euro o pacotinho”.
Nâo é caro, considerando o labor na confecção e o cuidado extremoso colocado em cada embrulhinho.
“É a senhora que faz?” – salta a pergunta.
A resposta, espontânea, enfatiza o óbvio da afirmação:
“com certeza. Há mais de 50 anos.”
Nova pergunta:
“E tem segredo?”
“Não há segredo nenhum. Junta-se à água as cascas de limão, mais a canela, uma colher de chá com mel e vai tudo a ponto. Depois vai à pedra com a manteiga, corta-se, rebola-se e embrulha-se como aqui vê”.
Numa assentada Arménia Jeitosa derruba mitos com ares de segredo e dá a receita. Não basta, contudo, ter a fórmula, é preciso ter mão, vontade para fazer e arte para vender.
Diz-nos Arménia Jeitosa:
“já há poucas rebuçadeiras. Com o tempo esta arte vai desaparecer”. E há clientela. “Não faltam clientes portugueses e os ingleses adoram estes doces”, conta Arménia Jeitosa que junta à venda na praça a distribuição dos rebuçados em pastelarias.
Arménia desafia a provar um dos rebuçados. O pacotinho branco desfolha-se com facilidade, revelando o coração doce, cor de mel. Prova-se, determinando sabores; procurando na pérola de doçura o mel, o limão, a canela. Baila uma dúvida. Há algo de indeterminado no rebuçado. Tem que haver segredo. Arménia Jeitosa sorri. Rebuçadeira que se preze tem sempre um trunfo guardado.“Vamos à fotografia?”.
Jorge Andrade | segunda-feira, 2 de Março de 2009 - Fonte "Café PORTUGAL"
Pode também ler - Cartas de Longe: Um pouco mais da Régua - Rebuçados...
sábado, 15 de março de 2014
A PROMESSA CUMPRIDA
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A velha urbe flaviense recolhia-se às abas da Serra Amarela, vinda das bandas do Gerês, elevada nas redondezas do Quartel, protegendo a veiga produtiva, até se perder em domínios castelhanos. Fazia um frio de rachar e a neve branqueava as agulhas daquela.
Era uma cidade-quase-vila, de velhas pedras lambidas pela história e pelas águas do Tâmega, com uma ponte onde não se apagavam as marcas dos tropéis romanos, um castelo esquecido de rivalidades fronteiriças, invernos tristes e desconfortáveis, ruas desertas e janelas sem rostos. Tinha, contudo, o delicioso aconchego de província, as gentes festejavam os olhares e fraternizavam-se na proximidade. Os mais afoitos, quando os serões televisivos nacionais ou espanhóis não convidavam a ficar em casa, juntavam-se nos Cafés e no único Cinema. Cidade simples, sem afectações cosmopolitas, todos se conheciam a ponto de o carteiro distribuir a correspondência sem olhar para os números de polícia. Estranhos eram os militares que, ciclicamente, desciam dos comboios a abarrotar, acartando malas e garrafões, para tirocinarem na especialidade de caçadores, partindo, depois dela, anónimos e espaçados, para os barcos da lisboeta Alcântara, o destino marcado nos matos africanos. Mas, enquanto permaneciam, depois de um breve acomodar, misturavam-se satisfeitos na convivência civil, recebidos com carinho pela idiossincrasia local e a compreensão dos ditames que os obrigavam. O movimento comercial gerado era mais uma consequência do que uma exclusivista razão de interesse. Às vezes, ficavam raparigas à espera de carta, mas não se incomodavam muito quando elas não vinham porque havia sempre comboios a chegar à estação. Vendiam-se, da vizinha Galiza, caramelos e bebidas, roupas e perfumes que não precisavam de trilhar os desvios do contrabando; as gentes, de ambos os lados, cruzavam-se como se do mesmo mapa fizessem parte que a raia abria-se aos rostos e familiaridades acostumadas.
Luís, enfiado na cama, olhava, pelo janelo gradeado, a chuva repetitiva. Mexeu-se no beliche e aconchegou os cobertores. Precisava de dormir pois ainda teria um turno para fazer, mas, o sono não pegava. Na Casa da Guarda, o silêncio só era quebrado pela tosse do Sargento Féteira. Quantas noites destas, sem pregar olho, teria de passar nos anos que lhe faltavam para regressar à vida civil? África esperava-o. África, para ele era aquilo que o Aspirante lhe explicava na instrução, o que ouvia falar aos que já por látinham passado o mato, as picadas, as emboscadas, os cercos, os tiros, os corpos estropiados, o ter que matar para viver.
O Sargento voltou a tossir, parecia que lhe saltavam os bofes.
O que lhe convinha era a sorte do Ribeiro que, ainda no último domingo, entre uns copos, lhe voltara a repetir a mesma conversa: apanhara com duas granadas nas pernas e nenhuma rebentara. Caramba!, o tipo não andaria com aquela ladainha toda só para impressionar e se armar em valente? Ele nem era nada de especial, conhecia-o bem, uma vez até lhe veio pedir ajuda para uma questão antiga com o Zé da Formiga, que andava sempre a ameaça-lo que um dia lhe cortava o pescoço. Se calhar nem um tiro dera e para se enfatuar arrazoava aquilo.
O Sargento tossiu novamente, agora mais demorado, pareciam arrancos dos pulmões.
Coitado, o homem estava todo roto. Ele também dizia que as madrugadas africanas é que o puseram assim, o nevoeiro de lá era tramado, metia-se nos ossos e dava umas febres que até podiam matar. Havia de perguntar ao Ribeiro como era isso do cachimbo ou cacimbo, toda a gente o nomeava. O que ele mais queria não podia afiançá-lo: voltar vivo. Se morresse, que fosse num instante, sem dar tempo para se aperceber; assim: “um tiro, tau, e já foste”. O Aspirante Correia, que era da sua terra e lhe dava boleia aos fins de semana, bem lhe dizia para não ser pessimista e pensar em gajas boas para se distrair, sem se amarrar a nenhuma, e que haveriam de regressar os dois com os amigos e a família a botarem foguetes. De uma coisa ele não desistiria: viesse lá quem viesse, naquele corpo só poria a pata quem se antecipasse na sorte ou no fogo. Custava-lhe deixar a Mãe que passava a vida a dizer: «Mal tu partas, ponho luto e só o tiro quando regressares.» Pareceu-lhe que a chuva entrara na caserna e lhe inundava os olhos. Puxou o lençol sebado e limpou o rosto. O Pai não lhe custaria tanto, sempre bêbedo, dando mau viver, a entrar em casa aos berros, gritando que estava farto de trabalhar sem que o dinheiro chegasse, que o que gastava em vinho era um migalho de nada.
O Sargento teve outro ataque de tosse, aquilo dava-lhe como se um relógio despertador lhe marcasse os tempos de descanso e de tosseira.
Quando viesse também teria aquela tosse como a esgana de um cão? O Féteira não era mau tipo, um chico sempre com os regulamentos na boca, a ameaçar porradas a torto e a direito, aos berros de «vocês não me fodam! Eu quero é chegar ao meu tempo sem problemas e, depois, mandar-vos todos p’ró caralho! Ouviram ou querem que vá ao micro?!».
Mas o que lhe importava, agora, era a sua próxima licença de Natal, comer o bacalhau e as rabanadas da Mãe, mesmo que o Pai só pedisse vinho. Quem sabe se seria o último? Em África, diziam, não havia Natais nem nada, aquilo era sempre igual e tinha que se estar sempre com os olhos abertos para não se ser apanhado com as calças na mão.
O Cabo da Guarda nem precisou de o chamar. Mal o viu entrar no cubículo, levantou-se, vestiu o capote, enfiou o capacete, pegou na G-3, esperou que os outros se arranjassem e lá foi para o seu terço de sentinela. O bofetão da madrugada devolveu-lhe a realidade. Bateu várias vezes com as botas no chão, esfregou as mãos, bufou-lhes, e, trocada a senha, plantou-se na guarita. A manhã estava vai-que-não-vai para nascer, o rascunho do sol ganhava definição, já havia barulhos e vozes domésticas nas casas rentes ao muro. Sua Mãe, a esta hora, devia estar a preparar-se para ir ao Corgo lavar a roupa; o Pai, esse, só pelas sete costumava terminar a cura da borracheira para a reiniciar com um naco de broa, uma fatia de presunto e um copo de aguardente que a Tia Francisca do Alto – secular e durázia governanta da quinta em que ele, por intercessão dela, trabalhava aos dias – lhe dava, às escondidas dos patrões, com o carinho condoído por alguém que substitui o filho que não se teve.
Luís, no seu posto de inútil vigilância, pedia que o sol se apressasse e sonhava com o dia da sua licença de Natal. Ele ignorava que aquele seria - felizmente que ninguém sabe quando é – o seu último Natal.
Luís morreu, num dia de Novembro de mil novecentos e sessenta e oito, na serra Mapé, ali onde a Frelimo não suportava a tropa do puto. O destacamento de que fazia parte, incumbido de subir a serra para dar protecção aos fuzileiros que terminavam a nomadização, descia para Macomia com a miragem de uma semana de descanso na praia de Wimbe. Uma bazucada não lhe deu tempo para chamar pela Mãe. Morreu
como quisera: “tau, já foste!”. A granada embateu no ponto em que a porta se ajusta ao tejadilho, ricocheteou para o interior da cabina da Berliet e, num estoiro de fim do mundo, desfarelou-os, a ele e ao condutor, enquanto o resto da coluna, saltando das viaturas, despejava carregadores e filhos da puta à toa numa resposta de desespero e raiva à emboscada. Foi enterrado, a aguardar vez para um calado regresso em urna de chumbo, no cemitério de Porto Amélia, debruçado para o Índico. Não soube se a serra Mapé era Amarela e se o Natal africano tinha frio e neve.
O Aspirante Correia, já Alferes, enquanto o acompanhava, sentado no Unimog a cair aos bocados, ao lado da urna, olhava a medalha que ele lhe entregara, numa premonição inocente, para «no caso de eu marar, veja se a entrega à minha Mãe».
Cumpriu o que lhe prometera. Numa tardinha de Abril, quando os cavadores se recolhiam para o caldo e o apresigo, viu, da janela, como um dó, o luto da Silvina com um caneco de água à cabeça. Hesitou outra vez - há dias que se consumia na irresolução -, mas, queria livrar-se daquele carrego. - «Tem de ser hoje!». - Saiu de casa e interrompeu-lhe o caminho.
- D. Silvina – pigarreou -, tenho-me esquecido de lhe entregar uma coisa que o Luís me pediu.
- Nem a quero ver, senhor – disse-lhe numa voz enregelada, deixando-o paralisado pela rapidez da compreensão do seu intuito. - Agradeço-lhe a sua boa vontade, mas já nada adianta para a minha vida. – Os olhos não tinham lágrimas, só um frio caliginoso. - Enterre-a ou deite-a fora, dei-lha em vida não a quero na morte.
- Compreendo-a - gaguejou com receio de se abater - , mas tenho que cumprir a promessa. – E empolou a palavra num apelo a escrúpulos religiosos.
Silvina olhou-o num instante que lhe pareceu implorativo (não decifrou se a água que lhe cobria os olhos escorria do caneco ou lhe nascia no peito), abriu a mão direita e disse: - «Deixe-a ver.» Meteu- a no bolso do avental e retomou o andar.
A medalha - nunca o esqueceria - tinha uma imagem da Senhora da Graça e no verso uma frase: «Oferece a tua Mãe.»
- Por M. Nogueira Borges in Lagar da Memória
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