sexta-feira, 7 de março de 2014

Diversificando - Olhares do meu final de semana...

Clique na imagem para ampliar. Imagem original daqui.
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Olho e não me canso de olhar...
algures a violência mata,
ali o mundo violenta,
acolá a doença deprime,
além os homens destroem,
os pobres sofrem,
as mães estendem a mão,
e os humildes choram,
e em qualquer canto os demagogos lideres afrontam...
e os vaidosos humilham.
Mas eu olho... não canso de olhar,
tento encontrar o belo,
o ensejo para a vida,
a razão para continuar a olhar...
.- J. L. Gabão, 23 Ago 08.
... e continua o olhar
vibra a noite
entre estrelas e luar;
chove a noite
entre saudade e o canto.
Olhar transgride
absorve duas noites:
estrelas, lua, saudade e canto;
vibram e chovem
espiam vida.
- Maisa, 24Jan08.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

TEMAS DO CARNAVAL DA VIDA ! Ingratidão... Falsidade... Hipocrisia!

Não gosto de ingratidão, não gosto de falsidade ou hipocrisia . 
Não gosto de gente orgulhosa demais... não gosto muito menos de gente burra. 
Não gosto de gente que se cala, de pessoas que têm medo de viver, nem daqueles que não prestam atenção nos outros, ou que se acham o centro do mundo.

Nem das que se acham vitimas de tudo e de todos ou expoentes de vaidade.
Gosto de gente que sente, e sente verdadeiro. Gosto de gente que sabe aproveitar a vida, e sabe ser atenciosa. 
Gosto de quem tem o coração maior que a cabeça, mas sabe pensar e sabe construir sem pisar no infortúnio alheio. 

Gosto quando sussurram no ouvido, gosto quando surge aquele olhar, gosto quando beijam, quando abraçam, admiro o sentimento de reciprocidade. 
Gosto de pessoas autênticas, pessoas batalhadoras... sem medos.
Gosto até das pessoas que magoam, mas que magoam por serem sinceras, verdadeiras.

Não gosto de pessoas sem frontalidade, que criticam covardemente pelas costas e se passam por tuas amigas.
Gosto que briguem comigo quando faço besteira... gosto mais ainda daqueles que amam, amam no sentido de amor, não dos que ficam em duvida sobre o que sentem. 
Porque quem ama não tem duvida... vive o amor autêntico. 
E não aparece com falsos sorrisos nem falsas desculpas para não contrariar os que teme ou a sociedade hipócrita em que vive e à qual se vende!
- (Compilação e adaptação do que vamos absorvendo da net livre. E do que vamos sentindo...)

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Tombou uma árvore - José Coutinho Pinto Júnior

Paulatinamente, no inverno da vida, vão tombando e desaparecendo das velhas ruas da Régua, árvores fortes, com raízes profundas, que foram abrigo frondoso em nossa infância e estruturadoras da personalidade de muitos de nós que exaltamos o Douro... Neste entardecer melancólico de todos os dias, abraçamos a saudade a cada árvore que desaparece... a cada folha que cai como lágrima, nas ruas frias de uma Régua diferente, a caminho do esquecimento... 
- Jaime Luis Gabão - Fevereiro de 2014.
Um amigo da Régua

Na vida é sempre assim: chegamos e partimos, vivemos e sonhamos, vencemos e perdemos, esquecemos e lembramos. Por isso, o nosso tempo de vida é sempre fugaz e efémero, mesmo quando acreditamos que somos capazes de alcançar a Eternidade. Assim, não faz sentido dizermos que a morte  de alguém é o fim. O mais certo, é pensarmos que apenas faz sentido chorar a morte de alguém que amamos, se antes nos regozijarmos com a sua vida, com o que construíram, com o exemplo de vida e de valores que nos deram, com a obra que nos legaram. Quando morre um amigo assim, sentimos que perdemos uma parte de nós, mas quando esse amigo é um homem bom e justo e que dedicou  a sua vida inteira à  terra que foi o berço, às pessoas simples e humildes e às organizações sociais, de solidariedade e culturais, quem mais perde é a humanidade.

Na Régua, no dia 11 de Fevereiro, a humanidade perdeu o nosso amigo José Coutinho, um reguense dos "quatro costados". Tinha 85 anos e, como alguém escreveu, o Senhor Coutinho, como era carinhosamente tratado, será lembrado na história pela sua acção grandiosa como Presidente da Junta de Freguesia do Peso da Régua, lugar que pela vontade do povo desempenhou durante três décadas. Mas, o seu nome será também lembrado pelo seu exemplo cívico, pela solidariedade afectiva com as pessoas mais desfavorecidas e pela sua cidadania activa em prol do bem comum e do progresso da sua terra que muito amou, servindo-a com paixão em diversas  instituições, tais como o Sport Clube da Régua, a Cruz Vermelha, o Clube Caça e Pesca, a Associação da Região do Douro para Apoio aos Deficientes e a sua Associação Humanitária de Bombeiros.

A vida do José Coutinho teve sentido. A Régua precisa de homens como ele. Só estes fazem grande a terra onde nasceram. Foi isso que fez o José Coutinho como político e, sobretudo, um exemplar cidadão. Morreu um amigo da Régua. Que da sua vida saibamos colher o que tanto semeou e, acima de tudo saibamos aprender, a  sua  grande lição de civismo e dignidade.

Hoje, que lembro o nosso amigo José Coutinho,  estou mais certo que morrer, como dizia o poeta Fernando Pessoa, é só não ser visto... E foram estas as palavras que gostei de ouvir ao padre Luís Marçal no dia em que o seu corpo foi a enterrar ou, melhor, ele já ia a caminho da Eternidade.
- Régua, 15 de Fevereiro de 2014, José Alfredo Almeida (In "Patria Pequena")

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Relendo Nogueira Borges: A VOLTA

Vai, homem, por essas estradas fora, envolvido pela noite que tombou rápida como um instinto, triste como um presságio, no meio de emigrantes de duas gerações, certo de que não é o barulho que faz companhia, mas a cumplicidade dos sentimentos. Vai como quem cumpre um destino, sabendo-se que a vida é como a terra: não tem condições para se transformar num céu. Vai e não feches os olhos, deixa que as lágrimas, num tributo à paixão que deixaste para trás, te inundem o rosto e desaguem, dispersas e quentes, na angústia do teu peito, mar onde se espalham todas as penas, pois só não chora quem gosta apenas de si. Vai, contando, na escuridão que o negrume do asfalto amplia, os faróis das faixas contrárias e a luxúria luminosa das cidades distantes, certezas de que o Mundo se mexe, é grande ou pequeno consoante a compreensão de cada um.

O autocarro veio de Nice, passou por Marselha, e apanhou-me em Montpellier. Na televisão, ao fundo, por cima da cabeça do condutor, passa um filme em que o Stalone se farta de matar e de dar murros que entoam como marteladas em tonel vazio sem portinhola. O despropósito é como a credulidade: aceita-se e entende-se, mas é doloroso quando não se o pode emendar.

Abrem-se os farnéis em Côté de France, um descanso de auto estrada onde estacionam as camionetas lusas. Na frente de um hotel sem luxarias, tipo fórmula 1, estacionam jipes com os tejadilhos repletos de artefactos para a neve. Um chapéu que vai para S. João da Madeira oferece-me – e retribuo – um pedaço de baguette com chouriço. Uma gata - tem olhos de gata -, vinda não sei de onde, mia-me, estremeço, é branca como a que tenho em casa e mascote de quem deixei longe; dou-lhe um migalho de pão que recusa, mas, já aceita um de carne - não gosto destas esquisitices em animais de quatro patas quanto mais de duas -, roça-se nas minhas calças e não me larga, obrigando-me a dividir com ela, até ao fim, as minhas sandes e as minhas saudades. Depois de um café - fraco e desprezível - por sete francos, é uma pressa para as camionetas já com os motores quentes. Um jovem africano, de comovente solicitude, que vem das obras de Marselha, cabelo pintado de loiro e agrafos nas orelhas, não larga os phones e ouve tão alto o rap do seu gosto que um vizinho de assento lhe pede para baixar o som.

Em Toulouse, com um rio-canal de barcaças vazias e outras com roupa a secar, em frente à Gare Matabiau, há despedidas de abraços, beijos e prantos entre novos que ficam e velhos que partem. Uma velhinha (é mesmo velhinha), toda de preto, lenço na cabeça e saco do Carrefour na mão, olha para os assentos, a escolher lugar, e senta-se à minha beira. Encolho-me para que se ajuste no meio de um restolho de saias. Estica-se por cima de mim para dizer um último adeus, fala como se a pudessem ouvir para lá dos vidros fechados: «Não gastes dinheiro em telefone! Quando chegar, ligo-te, ouviste, minha filhinha?!» “Oh! Meu Deus!, tantas vagas e sentou-se logo a meu lado para me avivar a ferida!“. Com o autocarro a desfazer a curva, ainda a velhinha esticava o braço, roçando-me o nariz. “Por que não me deixaste só a olhar para a escuridão a contar as terras e as luzes e as estrelas e os marcos e o tempo que esta carreira demora a ultrapassar um tir e de quantas em quantas horas se revezam os condutores e – caramba! – poder esticar as pernas à minha vontade e colocar a almofada que trouxe de casa à maneira do desassossego das minhas costas? Raio!, não chores, Santa da minha Pátria, não te ponhas aí a limpar os olhos ao lenço, que o meu já está alagado; por favor, não gemas, não engulas os gritos como se fossem poldras dos teus (dos nossos) rios de amargura, nem dês esses suspiros que me acordam os arquejos de uma velhinha como tu, mas do meu sangue, antes da morte a livrar das chagas da vida e do corpo. Por favor, cala-te que me estoiras o sangue!”.

Para lá das estremas citadinas, em recônditos de segredos, erguem-se, no meio de uma veemência luminosa, os tubos-cotos das fábricas das passarolas supersónicas e dos espadas do asfalto.

- Lá está ela, a fábrica onde trabalha o meu genro... – afoita-se a velhinha num lamento, deixando-me embaraçado sem saber se lhe devo replicar ou não.

- Há muitas... - digo-lhe, anódino.

- É uma delas... – utilizando a deixa. - Já lá passei duas ou três vezes, uma confusão, nunca se sabe onde estamos, mas é para aqueles lados... Ele já tem vinte e dois anos de França – tentando introduzir o histórico familiar... - , está sempre a dizer que vem embora, mas nunca mais se decide, e a minha filha cá está com ele, a servir patroas, madames como lhes chamam, que não sabem estrelar um ovo quanto mais estufar uma carne. Depois, os meus netos, sabe o senhor, também já estão habituados aqui, são franceses... É uma vida...

Viro-me para a janela: as últimas fieiras de luzes dos arredores desaparecem. Um desalentado vazio acompanha o movimento do autocarro. “Já sei, vou ter aqui uma velha tagarela que me vai desfraldar a sua vida toda... E se eu, numa próxima paragem, mudasse de lugar, assim como quem não quer a coisa? Pode ser que ela o faça...”. Ajeita-se, esforçando os braços nas pegas do assento, distendendo-se.

- Não estou a incomodar o senhor, pois não? – pergunta, enquanto dá mais uma assoadela.

- Por amor de Deus, minha senhora, esteja à vontade...

- O senhor consegue dormir em viagem?...

- Passo pelas brasas... É conforme...

- É novo... Eu, se não houvesse paragens, só acordava em Vilar Formoso... O senhor também trabalha em França?...

-Não, minha senhora... Olhe, acabou o filme, já se pode dormir... – cortei cerce, talvez friamente.

Encosta-se melhor com o ar de quem diz «este não quer conversa...», levanta o saco e defende-o, em cima do regaço, com as mãos.

- Ó homem! Nem aqui tiras o chapéu?! – ouve-se a mulher do meu permutante da baguette. - Ele descobre-se, alisando os pêlos que lhe restam, e pôe-o nos joelhos. Ela, despachada, arrebata-lho, levanta se, abre um cacifo junto ao tejadilho e arremessa-o para lá. - Quando voltarmos a parar, vais buscá-lo, se quiseres!

Ele fecha os olhos a fingir-se tomado pelo sono.

A camioneta avança com as luzes de presença acesas que se reflectem na noite num acompanhamento fotocopiado. Tarbes ficara perdida na discussão do chapéu. À minha direita, numa serenidade de folga peregrina, Lourdes é uma devoção por cumprir. Em Pau, com os seus vinhedos de Lescar indefinidos nas trevas e os segredos nucleares da França bem guardados, entraram mais dois rostos de olhos vermelhos. Contorna-se Pax, de Igrejas com vistosas iluminuras, e pára-se em St. Jean de Luz feito ponto de encontro dos viajantes da madrugada. É um estacionamento de muitas encruzilhadas, misturas dos termos da emigração: Paris, Bruxelas, Zurique, Estugarda. Entoam risos de reencontros, fecham-se rostos de sonos trocados, dormem inocências em colos derreados, bebem-se cafés amargos e despejam-se bexigas doridas de tanto encolher.

A velhinha trinca pão com fiambre; resolvo não me mudar, não tenho coragem, peço-lhe licença para me sentar junto à janela.

- Então como se chama a senhora? – desenho um sorriso de fraternidade, emendando a secura anterior.

- Gracinda, sou Gracinda há oitenta e sete anos...

- Bonito e bem conservado nome...

- Ah!, bonito ou feio é um nome... Agora bem conservado...E o senhor?

- Sim?...

- Qual é a sua graça?!...

- Ah!, sim, sim... João!

- Era o nome do meu falecido... Que Deus o tenha em bom lugar. Já lá vão seis anos – o seu peito sobe e desce num suspiro.

- É a vida...

- Vida triste, meu senhor, vida triste. Custa muito viver só, a filha, que Deus me deu, longe...

- Então, podia ficar em França com ela...

- Não gosto daquelas terras, as gentes são meias esquisitas, prefiro a minha casinha, a minha é um modo de dizer, da minha filha e do meu genro, que foram eles que a fizeram com a graça de Deus e do suor deles... E, depois, sabe, eles têm os modos deles, querem estar à sua vontade, sabe como é... A gente cria os filhos e, enquanto precisam, estão connosco, depois, quando precisamos nós, abalam eles...

- Já faltou mais para chegarmos D. Gracinda...

- Ai Dona...Trate-me por Gracinda, senhor. Dona é para gente fina...

- Então a senhora Gracinda é mesmo fina... Quanto mais velho se é mais fino se fica.

- Mais burros ficamos, quer o senhor dizer... Só servimos para entulho....

- Nunca diga isso, minha senhora... Nunca diga isso... Conforme está o Mundo, se não fossem os velhos, já ele tinha acabado...

- Ora... Ora... O futuro é dos novos, senhor...

- Não há futuro sem um grande passado...

A D. Gracinda olhou-me como se me estudasse numa idosa sapiência, tocou-me ligeiramente no braço, num à vontade de comunhão, e disse:

- Já não vamos viver para botar a mão a isto... – apertando o tabaqueiro. – Acho que me está a chegar o sono, sabe o senhor?... – e calou-se.

O autocarro, em Hendaye-Irun, já em território espanhol, encosta junto da delegação da Guardia Civil e abre as portas. Um agente entra e confere as documentações, passageiro a passageiro. Terminada a vistoria, aproxima-se do africano de cabelo loiro, manda-o sair e leva-o para o interior do Posto. Outro paramilitar vasculha as bagagens, escancaradas pelas portas levantadas até aos vidros, chama um cão que as fareja ansioso, dá-lhe um pedaço de qualquer coisa que parece um biscoito (deve ser marca Pavlov...), até se postar, de traseiro no chão, ao lado do amo. O jovem dos piercings vem buscar a sua maleta, diz que fica preso por falta de documentação legal e despede-se. «Espera aí, pá! Precisas de dinheiro?», pergunta-lhe o chofer; diz que não com um sorriso agradecido e triste. O autocarro apronta-se para a desinfecção repleto de desabafos: «E logo estes espanhóis que não perdoam nada!», «Porra! O gajo, se calhar, nem carta de sejour tinha!», «Também vendem bilhetes sem perguntarem por papel nenhum, só querem é despachar carne!», «Já vai andar de bolandas, outra vez recambiado! Ele vinha de Nice não era? Ah!, Marselha, coitado do moço...» À esquerda das colunatas em imitação romana, uma equipa de fatos espaciais sulfata os pneus que passam num tapete esponjoso anti-febre aftosa. Arranca de vez, limpo do risco da peste, mas sujo pelo pecado da severidade policial.

- Não era a hora dele – sentenciou a senhora Gracinda que, no passar do incidente, só dizia: coitadinho do rapaz...

Atravessa-se o chamado País Basco - geografia nacionalista a que algum Sul Francês não escapa, de toponímia arrevesada, descarnada do castelhano, mesmo quando este emparceira no nome – a altas horas, num desconsolo de curvas eriçadas em declives que a noite ilude.

A velhinha já não vai comigo. O sono descomprimiu-lhe o corpo e afastou-a para longe. O seu ressonar sacode as abas do lenço que lhe envolve a cabeça. Num repentino, mexe-se a procurar posição, descai ligeiramente para a minha esquerda, sinto-lhe os ossos decenários, o cheiro a aldeia, a campo, a serra, a giestas, a suor. “Deixa-te ir, Mulher, descansa o teu corpo no meu como eu gostaria que amanhã mo fizessem, comungo do teu sacrifício, do teu amor pelos que geraste, da pena por um vazio, por uma falta que nenhum dinheiro paga, que nenhuma conversa faz esquecer, nenhum sorriso disfarça. Deixa-te ir...” .

Desfilam as luzes deste Euskadi de ódio e de morte, Vitória, Navarra, S. Sebastian (Donastia), Bilbau, indicativos de conflito nos cruzamentos das estradas, dores de cabeça madrilenas. O dormir da senhora Gracinda contagia-me, abandono-me à indolência, ponho a almofada junto à janela, despego-me do corpo envelhecido, tiro os óculos, meto-os no bolso da camisa. Ela, sem noção da circunstância, endireita-se e espreme-me. Amoldo a cabeça ao travesseiro improvisado e deixo-me ir por uma planície sem fim.

Acordo com os contornos da terra ainda indefinidos numa tela naife. Apetece-me desenferrujar as pernas no corredor do autocarro que, ronceiro, como um barco de leme automático, avança num contraído desespero de chegar. A velhinha - mais velhinha do que os anos porque a estes somava dores que os aumentava - continuava a ventar o lenço. Lentamente, vão-se declarando as formas: já se distinguem os fios eléctricos, as casas humedecidas e emudecidas na manhã de domingo, as sinalizações quilométricas, as medas de trigo, os regos das semeaduras, as saliências dos morros, os rostos dos camionistas ultrapassados que parecem transportar carradas de paciência, as pequenas barragens com a água das chuvas defendida por plásticos. O sol, no risco do horizonte, força as nuvens que não o deixam romper a bolha de água. O dia, assim, apresenta-se embezerrado, sem chama, numa traição a quem o deseja largo e elucidativo.

Pára-se em Nava del Rei para um pequeno almoço quente. A minha companheira, à paragem da camioneta, deu um salto, contemplou-me surpresa, desenlaçou o lenço, voltou a compô-lo, sorri-lhe e aproveitei para esticar-me um pouco.

- Isso é que foi dormir...

- Não o incomodei pois não?

- Nada...nada... Também dormi até agora...Vamos tomar qualquer coisa...

- Quero é mexer as pernas... Parece que tenho cimento...

Os WC e os balcões enchem-se; um jovem barbudo, de boina basca, merca um porta-chaves com o ícone de Che Guevara; a senhora Gracinda tira, do saco do Carrefour, um migalho de pão, convido-a para um pan com mantequilla, mas é o aceitas; levam-se leques e caramelos para oferecer e gasta-se o resto do tempo - enquanto os motoristas não vêm da sala da comissão - a andar para cá e para lá, desentorpecendo as pernas. O chão parece coberto de sincelo, agasalhado por um manto de vapor; cheira a terra e a erva molhadas como se o dia se levantasse de um sono prolongado.

A reentrada no transporte faz-se em algazarra, bexigas aliviadas e barrigas satisfeitas, alguns deixam-se ir de pé com as mãos nas cruzes.

- Maria, antes do meio-dia estamos na Guarda! - atira, alegre, um homem.

- Esqueceste-te de dizer se Deus quizer!- objecta a consorte, enquanto ele engole em seco e faz-que-sim com a cabeça.

O sol não abre e nem o nome de Portugal, escrito junto dos campos de Salamanca onde o gado se espalha, realiza esse desejo.

Em Vilar Formoso, a velhinha, aflita por saber qual era o novo autocarro que a levaria até Celorico, estende-me os braços na despedida. Só então reparo que nas suas faces de rugas de muito passado cintilam uns olhos de muito futuro: têm o brilho da lua cheia numa noite de Esperança...

Tomo a ligação para o Porto e repito, agora ao contrário, a paisagem beirã do IP5. O novo condutor mete uma cassete a cheirar o bacalhau. Para distrair o meu encruamento espalho os olhos pelos montes que se me afiguram ainda mais penalizados que o natural.

O sol não vem.

Não faz mal, ele está do outro lado das montanhas, em terras de França, sinto-o nos meus ombros, nos meus olhos, e recolho-o só para mim, aqui dentro, onde se guarda a saudade de um amor incomparável.

- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória". O livro "O Lagar da Memória" foi apresentado  dia 12 de Março de 2011 na Casa-Museu Teixeira Lopes, em Vila Nova de Gaia . Informações para compra aqui. Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "ForEver PEMBA". A imagem ilustrativa acima é recolhida da internet livre. 

*Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor e poeta do Douro-Portugal. Nasceu no lugar de S. Gonçalo, freguesia de S. João de Lobrigos, concelho de Santa Marta de Penaguião, em 12.10.1943. Frequentou o curso de Direito de Coimbra, cumpriu o serviço militar obrigatório em Moçambique, como oficial mil.º e enveredou pela profissão de bancário. Tem colaboração dispersa por diversos jornais, nomeadamente: Notícias (de Lourenço Marques); Diário de Moçambique (Beira), Voz do Zambeze (Quelimane), Diário de Lisboa, República, Gazeta de Coimbra, Noticias do Douro, Miradouro, Arrais e outros. Em 1971 estreou-se com um livro de contos a que chamou "Não Matem A Esperança". (In 'Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses', coordenado por Barroso da Fonte. Manuel Coutinho Nogueira Borges está no GoogleManuel Coutinho Nogueira Borges, foi Alferes Milº. do Comando de Agrupamento 1985 - Moçambique (Quelimane e Porto Amélia)de 1967 a 1969 e faleceu no dia 27 de Junho de 2012 na cidade de Vila Nova de Gaia - Portugal.

Clique nas imagens para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Janeiro de 2014. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Colectânea literária e musical de ALTINO MOREIRA CARDOSO

Altino Moreira Cardoso nasceu em 8.12.1941, na freguesia de Loureiro, concelho de Peso da Régua. Licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Coimbra, em 1969.
A sua tese de licenciatura versou a obra de um poeta da PRESENÇA: Afonso Duarte.
Frequentou, ao mesmo tempo, como elemento da Tuna Académica e do Conjunto de Câmara Carlos Seixas, o Conservatório de Música de Coimbra, na especialidade de Violino. (...) Concluído o Curso de Ciências Pedagógicas (também na Fac. de Letras da U.C.), seguiu o Ensino Secundário, com Estágio e Exame de Estado no Liceu Normal de D. João III, em Coimbra (1972). Trabalhou em algumas escolas secundárias, entre as quais: Colégio de Porto de Mós, Liceu de Vila Real, Liceu da Amadora, Liceu de Queluz (efectivo 1973-2002).
Em complemento da actividade pedagógica tem elaborado e editado diversos trabalhos, de que se cita uma obra sobre estratégia de preparação de EXAMES (Amadora-Sintra,1996), adoptada no ensino universitário (Univ. Internacional). (...)

Outras obras:
A - Edição da Didáctica Editora:
FRANCE- CENTRES D'INTÉRÊT, 1973);
É autor de centenas de canções (algumas registadas na SPA), entre as quais músicas para: a Infância, os poetas portugueses, a História de Portugal, os Contos Populares, a MENSAGEM de Fernando Pessoa...
Alguns conjuntos (populares, corais e instrumentais), têm utilizado e gravado canções suas, nomeadamente o Regional Duriense, os Rabelos do Douro, a Tuna da Escola Sup. Agrária de Santarém, o Orfeão de Leiria. (...)
Como jornalista, colaborou na revista Música & Som (1976-1979) e, com funções directivas, na Tribuna de Queluz, no Jornal da Amadora e no Jornal de Queluz.
Fundou e dirigiu o Jornal AMADORA-SINTRA (1991-2003). Mantém as Edições AMADORA-SINTRA. (...)
- In DICIONÁRIO DOS MAIS ILUSTRES TRANSMONTANOS (adapt.) - J. Barroso da Fonte. In Folclore de Portugal. As Edições AMADORA-SINTRA têm publicado as suas obras mais recentes. Transcrito do portal da ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS ALUNOS DO SEMINÁRIO DE VILA REAL.
Para contacto e aquisição das obras de Altino M. Cardoso:

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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Apeadeiros da minha infância... LOIVOS

Quando, de Pereiro de Agrações (terra de minha saudosa Mãe, D. Nair Gabão) , transpúnhamos serras, em férias escolares, a pé ou de burrico até Loivos (ou vice-versa), em busca do comboio para a Régua...

Lamentando a tal cruel e moderna 'extinção' que não se condói com a MEMÓRIA, nem com o que é belo, útil e de obrigação preservar, transcrevo:

""Loivos foi extinta em 2013, no âmbito de uma reforma administrativa nacional, tendo sido agregada à freguesia de Póvoa de Agrações, para formar uma nova freguesia denominada União das Freguesias de Loivos e Póvoa de Agrações da qual é a sede Chaves.
A foto editada, pertence a um antigo apeadeiro, isto é, a uma estação de comboios secundária. Isto serve para elucidar algumas pessoas que têm total desconhecimento de tal Estação. Segundo versões de populares, esta estação ficou mais desviada da Aldeia de Loivos, devido às influências das gentes de Vidago, que não queriam que a estação ficasse muito longe de Vidago, e assim, como Loivos era uma aldeia de grandes dimensões e comercializava muitos produtos agrícolas, esta estação ficou entre Loivos e Oura, vê-se claramente que a linha teve que ter muitas alterações e muitas curvas, para que pudesse chegar a Vidago.""""
- Fontes de texto e imagens - Arquivos de Jaime L. Gabão, Wikipédia e blogue "Engenheiros do Riso.

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CASA DO DOURO - Plano de salvação a passos de tartaruga...

Recortes da net:
O presidente da Casa do Douro diz que mais depressa se chega a Júpiter ou Marte do que o Governo aprova de uma vez por todas um plano para a instituição. A data anunciada era fim de 2013 ou princípio de 2014, mas foi adiada para daqui a três meses.

O presidente da Casa do Douro, Manuel António Santos, lamenta a demora em adoptar um plano definitivo para a resolução dos graves problemas da instituição, que tem dívidas acumuladas de 160 milhões de euros e 30 funcionários com ordenados em atraso há três anos.

O Governo apresentou há cerca de seis meses uma proposta para dar solução aos problemas da Casa do Douro que passa pela venda de vinho armazenado, também de património e por uma alteração de estatutos.

Fonte do Ministério da Agricultura disse à TSF que a comissão inter-ministerial que tem o assunto em mãos está a recolher propostas que devem estar reunidas dentro de um mês. No fim do primeiro trimestre deve existir alguma decisão do gabinete de Assunção Cristas.

Manuel António Santos, o presidente da Casa do Douro, lembra a gravidade da situação e confessa que não entende o novo calendário.

O presidente da Casa do Douro revelou também que ontem o Ministério da Agricultura lhe comunicou que o vinho da instituição que está hipotecado vai ser alvo de nova avaliação, agora por técnicos da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Manuel António Santos diz que é mais uma decisão que não se entende.

A Casa do Douro representa 40 mil produtores. No ano passado mais de uma centena abandonou as vinhas. (tsf.pt)
- Recortado de "Portal de Angola" - 15 de Janeiro de 2014.
Não serão assim tão poucos os escritos a que dei forma e conteúdo tendo como assunto a Casa do Douro ao longo dos anos em que me dedico a esta coisa escrevinhar em canto de página de jornal. Confesso no entanto que desta vez hesitei. Impediu-me o primeiro impulso a noção de que se calhar iria versar palavras acerca de algo incapaz de fazer medrar interesse por parte de que me lê. Foi contudo precisamente esse reluzir na mente que me motivou a avançar com a redra na folha por preencher. 

Á Casa do Douro, senhora de oitenta anos, já lhe chamei “ Titanic da Rua dos Camilos” e já a comparei a uma velha criada despedida por sentimento de falta de proveito por parte de quem antes foi servido, no caso concreto o Estado Português, que de modo algum tem sido uma pessoa de bem em todo este processo degradante e susceptível de causar vergonha tanto a quem faz, como a quem deixa que façam. Obviamente que foi uma mera e singela forma de alerta, mas não deixou de ser também um grito de revolta por parte de quem orgulhosamente se tem como nado e criado nesta pobre região rica que a tanta gente enche a boca e o peito de ar. 

Caso um dia alguém pretenda em aula teórica dar um exemplo de como um Poder Central despreza uma região e como uma região se deixa desprezar, pode absolutamente pegar no exemplo do processo da Casa do Douro, pelo menos desde o tempo em que por deliberação se esvaziou esta de quase todos as suas funções oficialmente delegadas e das receitas daí advindas apesar das promessas do ressarcimento justo. Foram estas levadas pelo vento assim como parras em chão de vinha no tempo do Outono. 

A partir daí, desde os meados da década de noventa do século vinte, foi um calvário e um desfiar de rosário e em tudo o que à Casa do Douro concerne. Nem o facto de haver interesses e situações muito importantes, motivou até hoje qualquer governo ou parlamento de maneira a que de uma vez por todas se encontre solução para o imbróglio. Nem havendo uma dívida de milhões de euros que prejudica o próprio Estado, nem havendo vinhos ímpares e tão ou mais valiosos que o montante que se deve, assim como nem a trágica e vergonhosa situação em que se encontram a dezenas de trabalhadores com dois anos e meio de salários em atraso, se motivou quem de direito neste tortuoso caminho na busca de soluções equilibradas. 

Naquilo que de todo em todo, pode ser apelidado como um processo inconcebível e repleto de falta de vontade, a questão da Casa do Douro vem-se arrastando na exacta medida em que se deixou degradar a instituição representativa da lavoura duriense, para que conste, fonte de uma das maiores riquezas nacionais, tanto em simbolismo como em proveito económico propriamente dito. A maior associação profissional do país definha como se fosse uma qualquer agremiação de jogadores de sueca. 

Enquanto perde o sopro, neste momento já quase imperceptível, a região por ela representada em termos legais encolhe os ombros e despreza-a. Nem sequer consegue exigir que pelo menos lhe definam a natureza no único local estabelecido por lei, para que se saiba, o Parlamento da Nação, casa de deputados sempre ocupados, mas que não perdem uma oportunidade de louvar as excelências do Douro sabidas por experiência própria, ou porque ouvem referi-las.

Mas pior ainda em algo que nos não abona. Na própria região, terra de tanta gente com opinião em mesa de café, não se consegui até agora levar a efeito uma reflexão ponderada e séria acerca do modelo a seguir na representatividade de todos aqueles que do trato das vides, fazem uma estranha forma de vida. Podem e devem ser representados por uma só associação como vem acontecendo, ou será mais aconselhável que outras existam tão diversas como as que se entenderem num pulverizar de grupos de interesses mais imediatos? A prévia inscrição para o exercício da actividade na Casa do Douro, deve ou não ser obrigatória? E os fabulosos vinhos em armazém, devem ser o chão de onde surja nova vida no sector, ou devem ser entregues pela melhor oferta? O majestoso edifício na Régua, deve ser requalificado para destino que se lhe encontre, ou deve deixar-se afundar que nem barco encalhado?

Tenho para mim, que para estas questões existem opiniões formadas e fundamentadas por parte dos agentes da vitivinicultura duriense. Eventualmente não as haverá por parte de quem tem a obrigação de decidir de uma vez por todas. Mas a ser assim, consiga-se que venham ao Douro em algo mais do que passeio, levem-se até junto do vitral no átrio do edifício da Casa do Douro, e explique-se o significado daquelas imagens em que se espelha o equilíbrio sectorial e se conta uma lenda. Quase de certeza que por entre elas surgirá a luz que ascende a lâmpada e a força que alimenta a vontade de fazer. 

Em caso de tal não acontecer, pelo menos que rezem então a Santa Marta. Só ela lhes pode valer. Quer dizer, a eles e a nós que sabemos fazer um bom vinho, mas não sabemos como nos dar ao respeito. 
- mail:  Manuel Igreja - Recortado de "Diário de Trás-os-Montes" - 15 de Janeiro de 2014

sábado, 11 de janeiro de 2014

UM PASSEIO AO DOURO

(Clique na imagem para ampliar)

UM PASSEIO???? NESTE MOMENTO DE CRISE???????????
QUEM FOI???? A TURMINHA DA TERTÚLIA?

CLARO, OHMESSA
METEUSE-LHES NA CABEÇA
DE IR VISITAR O EÇA.

LOGO A MESTRA DISSE AMEN
E O PROGRAMA ELABOROU
VEIO A NOSSA JOANINHA
QUE AS MANGAS ARREGAÇOU.

DE COMBOIO RUMO AO PORTO
LÁ SEGUIRAM A GRANEL
AS MALAS IAM PESADAS
SÓ POR CAUSA DO FARNEL

DE COMBOIO E AUTOCARRO
SEMPRE LADEANDO O DOURO
ENTRE PAISAGENS DE SONHO
LÁ ENCONTRARAM O TESOURO.

MAS QUE BELEZA
QUE ENCANTO
QUE PAISAGENS DESLUMBRANTES
QUE IDILICO LUGAR VIVEU
O PARAISO NA TERRA
OLIMPO DESCIDO À SERRA
ATENA POR COMPANHIA
ATÉ DE PÉ ESCREVIA
NÃO ADMIRA, PORTANTO
TODA A OBRA QUE ESCREVEU

DA PALHOTA INICIAL
AFINAL
POUCO RECHEIO RESTOU
A MESA, ESSA ESTÁ LÁ
MAS QUANTO ÀS FAVAS, AMIGOS
NEM O CHEIRO NOS DEIXOU

ALGO DE NOVO SOUBEMOS
QUE A NOSSA MESTRA OMITIRA
E A PRÓPRIA NET OCULTAVA
É QUE AO SERÃO
POR NÃO TER TELEVISÃO
O NOSSO JOSÉ MARIA
ATÉ CANASTA JOGAVA

VOLTAMOS TÃO SATISFEITOS
QUE QUEREMOS REPETIR
MAS A NOSSA 'AMELITA'
CONNOSCO TERÁ QUE VIR

A TODOS MUITO OBRIGADA
PELA SÃ CAMRADAGEM
E TERMINO DESEJANDO
DESDE JÁ BOA VIAGEM
- 2009/05/ 22, uma Tertuliana.
  • Para quem se recorda do romance "A Cidade e as Serras" vai aqui um poema feito, como reportagem da visita de estudo à "Fundação Eça de Queiróz" por esta vossa Amiga, referenciando o mesmo romance... Acreditem que o Danúbio ou o Reno, apesar de mais famosos, não superam o nosso maravilhoso Douro! - M.
Clique na imagem para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Junho de 2009. Actualizado em Janeiro de 2014. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A CHEIA DO RIO DOURO DE 1962

Uma bela imagem da grande cheia do rio Douro de 1962 nas principais ruas da cidade de Peso da Régua.

Nela se nota a grandeza e a intensidade desta cheia ao verem-se dois barcos a “navegar” no conhecido “Passeio Alto”, ao fim da rua Custódio José Vieira (também conhecida por Rua das Vareiras) e as águas do rio a inundarem o princípio da Rua da Ferreirinha, com alguns bombeiros da Régua por perto, onde ao centro de destaca um dos nossos grandes quarteleiros, o conhecido e saudoso Zé Pinto, a ajudarem em trabalhos de retirada bens e pessoas das suas casas.

Na nossa cidade, são consideradas cheias grandes as que inundam a Avenida João Franco (que esta à cota a 58 m), implicando uma subida do nível do rio em 13 metros de altura (caudal a 6 000 m3/s).

Na Régua, essa cheia do rio de 1962, a segunda maior do séculoXX, (a maior cheia é de 1909 com um caudal de 16.700 m3/s) atingiu um caudal de 15.700 m3/s (cota 67,7 m), o equivalente a 23 metros de altura para além do nível médio do leito normal.

Da grande aflição, com “horas de angústia” e “horas de terror”, vividas pelos reguenses nessa cheia do rio, temos um emocionante e doloroso relato feito nas páginas do jornal “Vida Por Vida”.

“Ainda não seriam 19 horas do primeiro dia do ano de 1962, quando os nossos bombeiros começaram a ser solicitados para prestarem o seu auxílio a diversas famílias que na nossa zona ribeirinha estavam a ser molestadas pela subida do rio Douro.

Desde essa hora, nunca mais os nossos bombeiros tiveram um minuto de descanso e o auge da tragédia veio a verificar-se perto da noite, pois cada vez mais era superior o número de pedidos, que os nossos briosos Soldados da Paz eram impotentes para poderem atender. Duas vezes e com angústia se ouviu o toque da sirene para alertar toda a população e os trabalhos iam sempre decorrendo debaixo de um temporal e da um preocupação constante.

Os telefonemas sucediam-se para diversos locais a pedir informações sobre os aumentos verificados no caudal do nosso rio e todas as notícias eram o mais assustadoras que se podiam imaginar.

Cônscio da gravidade da situação, eis que o Comando da Corporação delibera pedir a colaboração das Corporações vizinhas (…) surgiram já no meio da manhã do dia 2 de Janeiro e o seu trabalho também não poderá ser esquecido. Vila Real, Lamego e Armamar, nos diversos locais onde trabalharam, deixaram a certeza de que estavam connosco e só havia um fim: salvar as vidas e haveres de tantos reguenses que se encontravam em perigo.

Tão cedo não se apagará da memória de todos nós tão grave tragédia que, felizmente, não teve a registar qualquer perda de vidas. (…) há a realçar a valentia dos infatigáveis bombeiros que, já na noite desse segundo dia, com risco das suas próprias vidas, salvaram diversos homens numa casa na Rua da Alegria, um casal de velhinhos no Salgueiral, e de morte certa, duas famílias no Juncal de Baixo, pois que estas, após terem sido retiradas, viam as suas pobres casas serem arrasadas pela fúria crescente do rio douro”.
Estes são os maus momentos das páginas do nosso rio Douro, que ciclicamente se repetem, mas que de volta às suas margens, que crescem por belos e imponentes socalcos de vinhas, se torna num dos elementos mais belos do espaço cénico da cidade de Peso da Régua.
- Peso da Régua, Março de 2009, José Alfredo Almeida.*
*O Dr. José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras actividades (onde se inclui fotografia), escrevendo crónicas que registam neste blogue, no seu blogue "Pátria Pequena" e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária, textos de escritores e poetas do Douro, além de fatos do passado e presente da bela cidade de Peso da Régua.

Outros textos sobre os "Bombeiros Voluntários do Peso da Régua" e sua História:
  • O Baptismo do Marçal - Aqui!
  • Um discurso do Dr. Camilo de Araújo Correia - Aqui!
  • Um momento alto da vida do comandante Carlos dos Santos (1959-1990) - Aqui!
  • Os Bombeiros do Peso da Régua e... o seu menino - Aqui!
  • Os Bombeiros da Régua em Coimbra, 1940-50 - Aqui!
  • Os Bombeiros da Velha Guarda do Peso da Régua - Aqui!
Clique nas imagens para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Janeiro de 2014. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Actualização em Janeiro de 2-14. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A RÉGUA do José Alfredo Almeida, hoje !

Clique  nas imagens para ampliar. Fotos originais do Dr. José Alfredo Almeida (JASA), editadas para o blogue "Escritos do Douro" em 3 de Janeiro de 2014. Reprodução permitida só com a citação da origem/autores.