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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

“José Saramago – Da Cegueira à Lucidez!” de António José Borges

Da Cegueira à Lucidez, é um livro de António José Borges, natural do Peso da Régua, a viver em Lisboa, que pretende dar uma nova visão da obra de Saramago, nomeadamente através do seu percurso ideológico e literário.

O lançamento de "José Saramago – Da Cegueira à Lucidez" teve lugar em Novembro, na Livraria Leya CE Bucholz, na R. Duque de Palmela, nº 4, em Lisboa. Além do autor, António José Borges, estiveram  presentes Renato Epifânio, director da colecção Nova Águia (na qual a obra é editada), e Miguel Real, a quem coube a apresentação da obra. Dele é o prefácio, onde sobre o autor e a obra refere o seguinte: «(…) António José Borges aduz um conjunto de argumentos (…), acrescentando, assim, uma nova luz ao esclarecimento das múltiplas perspectivas estéticas por que se tem enquadrado a obra de José Saramago.(…) O romance ganha em José Saramago um estatuto ensaístico de permanente inquirição e abertura de horizontes culturais, segundo interrogações radicais de carácter filosófico (a questão de Deus, a questão civilizacional do capitalismo, a questão da identidade do eu…), que desafiam, senão subvertem, o paradigma conceptual por que habitualmente interpretamos o mundo, forçando o romance a tornar-se, mais do que a narrativa de uma história, um inquiridor das regras e dos modelos do acto instaurador da palavra.»

No posfácio deste livro,  Elsa Rodrigues dos Santos ainda salientou: «Além de aprofundar as motivações do texto, numa análise muito rica, levando o leitor a novos caminhos de interpretação, [o autor] desvenda a essência humanista de Saramago coadjuvado por textos seus paralelos (diários, entrevistas e artigos), como dos seus dados biográficos, em que Lanzarote foi pedra basilar. Na defesa da tese da existência de um percurso ideológico e literário dentro dos parâmetros já referidos, António José Borges selecciona três aspectos como os mais relevantes: O tratamento da religião e mais concretamente o papel de Deus, o discurso aforístico (nomeadamente os ditados populares), o papel do cão nos seus romances deste período.»

Sobre António José Borges: Nasceu no Peso da Régua. Vive em Lisboa. É licenciado em Ensino de Português e Alemão, estudou por um breve período na Ruhr Universität Bochum, na Alemanha, e é mestre em Ensino da Língua e Literatura Portuguesas. Foi Professor na Universidade Nacional Timor Lorosa’e e na Escola Alemã de Lisboa. Fez traduções de Inglês e Alemão para várias editoras e organizações e é ocasionalmente revisor e consultor editorial da Porto Editora. É associado da Associação Portuguesa de Escritores e da Sociedade da Língua Portuguesa, membro da direcção do Movimento Internacional Lusófono, presidente da Assembleia-Geral da Associação de Apoio à Diocese de Baucau (Timor-Leste) e faz parte da Tertúlia de João de Araújo Correia. Integra o Conselho de Direcção da revista Nova Águia, onde colabora com publicações, e é cronista permanente nas revistas "Tribuna Douro" e "Contrabando" (edição multilingue). Participou nas revistas "Navegações"; "Espacio / Espaço Escrito" – Revista de literatura en dos lenguas"; "O Escritor"; "Mealibra"; "Humanitas"; "Revista de Letras"; "Douro – Estudos e Documentos"; "Geia" (Tertúlia de João de Araújo Correia); "Terra Feita Voz" (Círculo Cultural Miguel Torga) e "DiVersos". Como contista, publicou no jornal timorense "Semanário" e na antologia "Olhares Convergentes". Colaborou na antologia de textos durienses "Palavras que o Douro tece" e no "In Memoriam de João de Araújo Correia" (Grémio Literário Vila-Realense). É autor dos livros "Timor – As Rugas da Beleza" (crónicas, 2006) e "de olhos lavados / ho matan moos" (poesia – edição bilingue e ilustrada, 2009). Para mais informações: Zéfiro.
- Matéria enviada por J A Almeida - Régua, em Dezembro de 2010.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Rio velho, rio novo

por Camilo de Araújo Correia

Teria os meus quinze anos, quando fui da Régua ao Porto de barco rabelo, metido num grupo de familiares e amigos, em passeio sonhado por meu pai, sabe Deus há quantos anos...

Era verão e manhãzinha, quando partimos do cais da Régua por entre rabelos ancorados que me pareceram elefantes a chapinhar. O nosso barco era pequeno e logo nos deu a sensação de grande fragilidade, ao ser apanhado no meio do rio pela forçada corrente. O arrais chamava-se Passarada. Era um homem pequeno e magro, cor de castanho gretado, de idade indefinida como a da camisa aberta até ao atilho das calças, arregaçadas um palmo acima dos pés descalços. Recordo a importância que lhe dei, ao vê-lo passarinhar à popa, de mãos firmes na espadela e olhar atento no rio, até ganhar a linha de água que mais convinha à sua navegação.

Não tirámos os olhos da Régua, enquanto a pudemos ver. E quem os poderia tirar daquela terra linda, aconchegada a um chão de vinhedos sem fim, diante de um rio ainda sem bridão? Ninguém adivinhava nas entranhas da sua beleza a convulsão que viria a manifestar-se nos esgares de cimento que igualam todas as fealdades urbanas.
Foi uma viagem de encantos e de medos. Encantos e medos que da estrada ou do comboio ninguém podia suspeitar.

Até Entre-os-Rios, onde pernoitámos, a viagem decorreu ao ritmo do coração invisível de um gigante adormecido. O rio ora se estreitava entre despenhadeiros que quase se tocavam, ora se alargava em águas tão mansas que pareciam resolvidas a não continuar a correria. A sístole e a diástole em pleno peito de urna região forte, bela e poderosa.

Nos rápidos, que na linguagem ribeirinha chamam pontos, o barco gemia de humildade na fúria do cachão. As margens passavam como vertigens paralelas. E, quando a água lambia a borda do rabelo, os gritinhos das senhoras pareciam salpicar o silêncio pesado dos homens. Em certos pontos, por ventura com história de naufrágio, apareciam na face de um rochedo recolhido pinturas ingénuas de figuração religiosa. Os barqueiros tiravam as boinas surradas para uns segundos de prece. Lá no alto, frágil como um pardalito, Passarada manobrava a espadela com precisão e coragem. Ainda me soam na memória, como um eco repetitivo, as suas ordens aos remadores:

- Amó-lá-pá!  amó-lá-pá!.. amó-lá-pá! ...

De um e outro lado, depois das faixas mordidas pelo rio, as margens erguiam-se mais suaves ou mais escarpadas. Vinhedos desde o rio às matas da cumeada, pomares nos rechãos mais convidativos, povoados ribeirinhos e distantes, palácios arruinados e melancólicos, armazéns tristes e silenciosos na orla dos mortórios. Tudo se via do barco nessa paisagem rústica e humana marcada por crises e abundâncias ditadas pelo fatalismo.

Depois de Entre-os-rios o Douro não voltou a ser um rio de mau génio.

Entre margens aprazíveis, as águas corriam largas e quintas como sangue de animal arrependido foi preciso remar sempre para não perder o fio da corrente e forte para chegar ao fim da viagem antes de anoitecer.

Mais de quarenta anos passaram sobre a minha primeira viagem da Régua ao Porto pelo rio. Entretanto, a competição rodoviária e ferroviária foi, de ano para ano, reduzindo a zero o tráfego fluvial de pequenas e grandes distâncias. Pode dizer-se que ficaram apenas os barcos necessários à serventia das terras ribeirinhas que se miram de uma e outra margem.

Passarada, o arrais do rio velho, deve ter acabado ao canto da lareira a queimar, pedaço a pedaço, o barco que lhe deu o pão, as rugas e as brancas. Devem ter morrido assim os últimos arrais e os últimos rabelos.

Não sei se por raciocínio espontâneo, se por chuçadela de Neptuno, os homens andam ultimamente, muito voltados para as águas, como fonte de soluções até agora insuspeitadas. Se houve interferência de Neptuno, bem merece do homem embriagado de progresso galopante um tridente de ouro no dia das suas eternidades.
Alguém reparou e fez reparar, com olhos de futuro, no complexo potencial que o rio Douro e a sua região representam. Vieram primeiro uma a uma, as barragens satisfazer boa parte das necessidades energéticas do país. Depois, ganharia entusiasmo persistente a ideia da navegabilidade, aberta aos barcos de calado próprio do tráfego dos grandes rios. Pensou-se, e pensa-se, que só a navegabilidade do Douro poderá rasgar os mais vastos horizontes da agricultura, da indústria, do comércio e do turismo na região mais rica e mais bela do nosso país.

Com a navegabilidade conseguida até à Régua, um novo turismo pode começar entre nós. E já começou.

Municípios e Turismos, do Peso da Régua e de Lamego, atentos aos recursos de um rio que lhes é comum, deram as mãos, de uma e outra margem, e patrocinaram a primeira viagem de turismo fluvial, entre a Régua e o Porto.

Sábado 25 de Outubro de 1986 - uma data escrita na água, até entrar na História que aí vem do nosso rio e da nossa região.

O Ribadouro esperava no cais da Régua, embandeirado e feliz com a gente que chegava ao seu convés e com a gente que ficava para dizer adeus. O tamanho, a cor e o riso largo das suas janelas fez-me recordar o Santo António, o simpático barquinho que me levou de Sorrento à ilha de Capri.

Entre palmas e apitadelas o barco ganhou o meio do rio para logo começar a descer como diamante que risca um espelho imaculado. Outros tempos, outros barcos, outras águas.

Até à Ermida, tudo era bem conhecido de todos. As pessoas corriam de uma janela para a outra apontando, sorrindo e dizendo adeus a quem das margens nos acenava.

A diferença que logo se nota nas margens do rio novo é a falta daquela borda, lodosa ou ressequida, marcada pelo constante movimento do rio velho. As águas subiram, pararam e ficaram a beijar os vinhedos, as hortas, os pomares e até as casas mais ribeirinhas. Por tudo se passa à mesma velocidade. Já não há o medo e a hipnose das vertigens paralelas. Rápido e caudaloso era o Rogério Reis a ciceronar pelo microfone. Pena foi que o ronronar do motor nos tivesse roubado tanto da sua valiosa cultura regionalista.

Há mais casario e mais cultivo pelas encostas, mas, desgraçadamente, o mau gosto parece comum às vivendas e casa de lavoura. E faz pena ver tanta casa senhorial abandonada. Mas, não sei que me diz que todas elas voltarão um dia a recuperar a dignidade. Vem aí muita gente ver o que somos e o que temos.

Num trecho silencioso do rio ancorámos para almoçar no Convento de Alpendurada. Do ancoradoiro ao Convento é um salto, mas ninguém dispensou a serventia dos autocarros. Não é à hora física do almoço que se deve ver o Convento de Alpendurada. Sentir o que foi e adivinhar o que pode vir a ser. No enorme e belo edifício, até há bem poucos anos abandonado, já foi gasto muito dinheiro e muita coragem. Espera-se e deseja-se que nem uma coisa nem outra venham a faltar, agora que está bem perto de ser, ao que julgo, a maior pousada do país. Não tive tempo, nem teria olhos, para apontar inexactidões que porventura, se andem a cometer nas obras de restauro. No entanto, uma figura me pareceu despropositada no jardim fronteiro ao edifício. Uma elegantíssima mulher de bronze, em tamanho natural, oferece, em gesto donairoso, os mimos da sua nudez diante do olhar pisco das celas. Parece-me uma provocação aos fantasmas de quem tanto combateu os pecados da carne. Além disso, ninguém sabe do que é capaz um fantasma restaurado... A bela estátua ficaria bem melhor num rochedo, como que saída do rio para ensinar o caminho do paraíso, lá no alto, no Convento.

A Pala, vista do lago em que ali o rio se transforma, é de uma beleza e de uma ternura indiscutíveis. Parece um daqueles presépios gigantescos onde o construtor resolveu meter tudo e onde tudo se mexe por força de mola oculta em qualquer parte: Pontes, estradas, via férrea, vinhedos, pomares, casario, barcos, carros e comboio a passar...

Não vale a pena negar que havia uma certa preocupação com a passagem das eclusas... Não há razão para ter medo. Razão há, isso sim, para viver ali, bem no centro, a luta titânica da ciência e da natureza. Carrapatelo assombra sem amedrontar. Em Crestuma chega a comover o abrir, de par em par, daquelas portas colossais, E tão solene que até se estranha que, do outro lado apenas o rio continue. Só faltou um pouco de música de Wagner...
É impossível trazer para o papel todas as luzes, todas as sombras, todas as cores, todos os sons e todos os silêncios desta viagem pelo rio Douro. Até o atraso que sofremos, acabou por nos dar novo encantamento. As luzes reais e reflectidas são tantas, de uma e outra margem, que nos pareceu chegar, não à Ribeira, mas ao firmamento, em noite de festa.

Quando as barragens vieram partir o Douro pela espinha, imobilizando-lhe as águas, João de Araújo Correia exprimiu o seu luto chamando-lhe Rio Morto. Eu próprio lhe chamei Rio Perdido. Não. O Douro está vivo e achado.
- Colaboração de J. A. Almeida para "Escritos do Douro" em Dezembro de 2010. Clique nas imagens acima para ampliar.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

CRISTO E A MENINA

Era o tempo dos sonhos sem limites. Os risos das pessoas pareciam sinceros. Não havia ambição, nem inveja, nem ódio; a vida não se projectava no calculismo. O medo, esse, estampava-se nos dois retratos pendurados na parede da Escola, por cima do quadro preto; estavam em Lisboa e viam tudo, feitos mando e obediência, deuses e donos intocáveis da Pátria. No fim da tabuada e da redacção, estrada fora, de sacola às costas, a algazarra reconquistava a liberdade. Só as Avé-Marias, na torre da Igreja, pediam recato, olhando os adultos que se descobriam. Nas vinhas cavava-se a terra à procura de tesouros; no céu, com chuva ou com sol, Deus vigiava o Mundo. Havia quem arrastasse as grilhetas do destino de pés descalços e roupas esfiapadas, mas Ele assim o queria...

Com a chegada do Verão guardavam-se as samarras e brincava-se até à noite. Os montes pintavam-se de alegria e o Alto de São Pedro tinha silvas para desbravar, ninhos para descobrir, fisgas para apontar a ilusões e guardadores para vigiar.

O menino crescia para ser um grande homem. Todos os meninos crescem para serem grandes homens. Quando começava a vindima, o bulício das gentes, a música das concertinas e o fartum inebriavam-lhe os sentidos e permitiam-lhe os espaços pela atenção dispersada.

Um dia, ainda a corta não acabara, disseram-lhe que tinha de ir estudar para um Colégio. O menino parou de brincar e, sem entender bem o que lhe ordenavam, disse que sim, porque nada lhe adiantaria dizer que não. Dentro ou fora das famílias obedecia-se à imagem e semelhança do Chefe que, em Lisboa, de fato e botas pretas, mandava em tudo, até no que desconhecia.

Quando o deixaram à porta, num final de domingo de princípios de Outubro, não quis entrar, agarrou-se ao carro, do lado em que estava a Mãe, e gritou tanto que mais parecia um inocente a ser metido num cárcere. Nessa noite, os grandes – como se chamavam os alunos mais antigos -, arvorados em velhacos, abriram-lhe as pernas e, como uma forquilha, humilharam-no contra o tronco de uma árvore. Chorou, gritou e cuspiu-lhes, mas em vão que a risota deles encobriu tudo.

Era um casarão de três pisos por onde se espalhavam as salas de aula, os salões de estudo, o refeitório, a Capela e os dormitórios. À volta, as vinhas, já amarelecidas, davam alguma brandura àquela secura arquitectónica. O recreio, com duas balizas nas extremidades, enchia-se de vozes nos intervalos das aulas e desgastava-se o calçado a dar pontapés numa bola. Ele ia para a balaustrada contemplar os caminhos que levavam à sua terra e o casario da cidade, lá ao fundo, esmagado entre Igrejas antigas. Uma cidade medieval, tristonha, enregelada no Inverno, as pessoas embrulhadas em roupas como cobertores, sonolenta no Verão, o calor a flagelar os telhados em que dormiam os gatos como efebos quadrúpedes. Dir-se-ia um bispado recolhido em claustros secretos, memória hagiográfica perpetuada em gerações acomodadas por lendas de reconquistas visigóticas. As mulheres rezavam nas Igrejas e os homens falavam nos Cafés de vidas sem sentido, enquanto - sombrias visões - as sotainas passavam. Cidade fingidamente austera, espreitando, libidinosamente, os joelhos das raparigas que se sentavam, aos domingos, nos bancos de azulejos com cenas de santos, longe dos becos de casas com janelas de guilhotina sombreadas por uma torre de menagem que escutara, em tempos idos, os gemidos de fadas e mouras encantadas, perdidas de amor, nas noites de luar, por cavaleiros que as possuíam nas alcáçovas do desejo.

O tempo arrastava-se na rotina das almas domesticadas. Vivia num silêncio injusto e desnecessário. Um silêncio de vestes negras deslocando-se nas penumbras dos dias ou na escuridão das noites, por entre cicios, missangas contadas por lábios gélidos, olhos sempre despertos para as curvas da mínima infracção dos meninos que não baixavam os olhos. Cá dentro, onde nasce o desconforto, corriam as lágrimas que ninguém via, uma dor a entupir a garganta, a esmagar, absurdamente, a individualidade. Distantes, como choros de saudades, os sinos davam as horas e os clarins do Quartel tocavam a recolher.

As luzes, vaga-lumes fosforescentes, desenhavam as ruas de toponímia mediévica. Num recolhimento cavo, o vento, como sopro em gargalo vazio, assustava a noite; a folhagem dava muitas voltas até o sono tomar conta dos sonhos e da respiração que os alimentava com um intenso cheiro a barrela grudado nos lençóis.

Aos domingos, os meninos não acordavam às sete mas às oito. Alegravam-se por os vincos das calças ficarem nítidos depois de uma noite debaixo do travesseiro, lavavam a cara, untavam o cabelo com brylcreem, vestiam camisa, engravatavam-se, e iam para o refeitório. Após um intervalo curto, o salão durava até à hora da Missa, solenizada com o canto gregoriano, de estômagos ansiosos pelo bife com batatas fritas. Depois, em fila, como presidiários, desciam a rampa que levava à cidade. Distribuíam-se pela avenida das Tílias com o Salão de Chá a chamar os de hábitos citadinos ou pelos cafés-quasetascas onde os rurícolas mastigavam sandes de presunto acompanhadas por canadadrys e gasosas de pirolitos. Com o relato do futebol em fundo, os viciados do bilhar exibiam os seus dotes; alguns, nas mesas ao lado, desafiavam-se para as damas e, outros, de escondido do Padre-Prefeito, iam à entrada do Cinema ver as meninas do costume para à noite, pensando nelas, se masturbarem.

Mas o passeio de que mais gostava era o de subir a escadaria do Santuário e, mais ou menos a meio, já na protecção das torres do velho Templo, ficar por ali, num terreiro amplo, a beber uma larangina C no quiosque verde, dar umas remadas nos barcos do lago ou sentar-se num banco à espera da sua menina do Colégio Feminino.

Naquele domingo de Março, as férias da Páscoa à porta, viu-a no costumado vestido-farda-azul com uma gola branca e os cabelos compridos a sensualizarem a figura. Quando os olhares se cruzaram, o coração passou-lhe para a boca e, disfarçando o nervoso, esboçou um sorriso que ela retribuiu numa reciprocidade clandestina. Como era bom aquele diálogo sem palavras, as faces ruborizadas e o sangue incendiado! Não sabia o seu nome, chegava-lhe a imagem. Era isso que importava, o satisfazia e lhe espevitava a dimensão humana. Queria gritar-lhe que a amava, que sonhava passear com ela de mãos dadas pelas ruas da cidade como os namorados adultos, beijá-la sob uma varanda ou correr atrás dela até aos confins. Mas ficava preso, tolhido na sua timidez, apavorado pela opacidade do Prefeito. Era um inibido, um cobarde que não correspondia àquele sorriso, àquela dádiva sem nada em troca.

Ainda o dia seria dia, quando uma freira sorumbática, de olhos céreos, bateu as palmas para o reagrupar do rebanho. Foram bofetadas que o acordaram daquela ponderação, um chicote a vergastá-lo, um insulto à sua paixão. O sorriso da menina desapareceu, tal se o sol morresse diante de uma traição, e o seus olhos entristeceram por um brinquedo roubado. O último olhar deixou-o com um grito entalado num remorso sofrido. Perdera mais uma oportunidade de lhe falar, dizer qualquer coisa que lhe retribuísse aquele sorriso, um gesto heróico que o elevasse diante dela, que matasse o medo das figuras sinistras que os vigiavam, esmagasse de vez o acanhamento que o asfixiava numa luta suada entre o tiritar dos lábios e o cavalgar do coração. Não demorou que outras palmas, mais ásperas e rápidas, calassem a alegria dos meninos.

Estava tudo combinado, tudo igual, as horas marcadas, a vida também. Começaram a descer, em filas desconsoladas, com os vestidos das meninas a aparecerem e a desaparecerem por entre o arvoredo.

Naquela noite, no salão de estudo, tirou da carteira os Lusíadas e colocou-os em cima da tampa. Dissimulou, à frente deles, o caderno diário para rabiscar versos em que amor rimava com dor e paixão com coração. O esguio e escuro espectro em cima do alçado de madeira, no meio da vasta sala, espiava, para um lado e para o outro, como os gatos fazem quando vêem uma ave indefesa. Na parede, em frente, um enorme Cristo pendia mudo no seu suplício. O menino, pela janela aberta, olhava a noite a anunciar os cheiros da terra, das flores e do Verão que Junho daria; a ramagem a murmurar lembranças frescas. Ao longe, num declive montanhoso, ecoou o toque de clarim numa persecução aviltante a dilacerar a quietude. Mais abaixo, no meio de palacetes brasonados de fidalguias insolventes, o Colégio da menina tinha as luzes acesas e, nas vidraças, manchas difusas moviam-se como visões. Absorto, indefeso na sua inocência, saltou da carteira com o cachaço. Olhou o rosto congestionado da vertical negritude, enquanto umas mãos macilentas, numa fúria escusada, lhe rasgavam os versos. Depois, a boca estremecida, debaixo de uns olhos congestionados, vomitou-lhe: «O menino vai para o fundo do salão e fica lá, de joelhos, até acabar o estudo!» Não entremostrou um gesto de defesa, um esgar de revolta, uma palavra, uma simples interjeição. Lívido, percebendo, em seu redor, olhares amedrontados ou escarnecidos, absurdamente calmo, levantou-se, com o livro nas mãos, e foi, sob um silêncio de gruta, para a parede fundeira. Ajoelhou, sentiu umas alfinetadas de vidro esfarolado, fez que interpretava as estrofes, ergueu os olhos para a Cruz e viu que Cristo, de cabeça pendente e resignado, lhe sorria... Quando baixou os olhos, as letras embaciaram-se sob uma bátega de lágrimas grossas. Então, virando-se para trás, apanhou o tétrico semblante de costas, cabeça curvada para o breviário, e riu-se para os colegas que não fizeram caso, encolhidos de terror. Só Cristo lhe sorria... Mal soou a campainha, levantou-se sem pressas, limpou os joelhos das calças e as olheiras de sal, fitou aquele rosto coroado de espinhos, mas, quem lá estava, era já a menina com o seu sorriso imaculado... Reencontrou esse sorriso, alguns anos depois, numa cidade de colinas separadas por um rio alcunhado de bazófias; uma Coimbra trovadoresca, de cantigas de amigo e de alba, memórias de cancioneiros, ecos de segréis, amores para uma vida ou para um instante.

Já não eram meninos, mas continuavam naturais. Percorriam o dédalo das ruelas da Alta, feitos passarinhos esquivos em busca de poisos aconchegados, capas traçadas como se albergassem segredos. Das janelas da rua da Matemática, a voz de Adriano Correia de Oliveira cantava a Trova do Vento que Passa e do Palácio da Loucura ecoava a de José Afonso com as Cantigas de Maio; era a fraternidade dos sublevados contra os chacais e os pederastas das decadências ideológicas; as pedras das ruas libertavam saudades de Menano e de Bettencourt; na Porta Férrea formavam-se trupes. Eles ouviam e viam, ansiavam derrubar a intolerância e esmagar o arbítrio, para, no seu lugar, (re)construir o amor, um amor que não se misturava na aguadilha da languidez, antes no sangue perturbado que acalenta as ideias justas. Já se morria nas bolanhas da Guiné, nos mangais Angolanos ou no planalto dos Macondes Moçambicanos. Essa realidade os magoava e essa perspectiva os consumia.

Era uma cidade de mito e de romance, de orgulho e de raiva, de tristeza mesmo triste e alegria mesmo alegre, proibido fingir, expressamente proibido concordar com a ignomínia. Davam cigarros ao Teixeira, liam o Kalinas na Brasileira, iam às sessões do Avenida, passavam pela Torre D’Anto à procura do fantasma desesperado de António Nobre e beijavam-se nos bancos do Penedo da Saudade com os poemas escritos entre as heras. Nas manhãs de aulas, nos Gerais, depois da chamada do Bedel, trocavam de lugares para ficarem juntos e juntos anotavam as dicas dos Mestres que as sebentas eram caras. Nas tardes de sol, na praça da República, discutiam a Vértice, no Mandarim ou na Clepsidra trocavam esboços de comunicados, nas Escadarias cruzavam pressas ou códigos e, na Associação, comiam por cinco crôas.

Naquela noite cearam no Aeminium, beberam um café no Internacional, arrastaram os passos pelo Parque Manuel Braga, a automotora da Lousã a sugerir despedidas de cais e o Mondego a levar para a Figueira desejos de praia. Iniciaram, pelo Arco de Almedina, a subida para os seus refúgios. No Largo da Sé Velha, sentados nos degraus onde começam todas as Queimas, conversaram sobre o futuro. Ele guardava uma guia de marcha e ela a determinação antiga, mas, o menino, já feito carne para canhão, agora, recusava-a. Combinaram que ela acabaria o curso e ele retomá-lo-ia no regresso. Então, sem mácula, só por estímulo, ela chamou-lhe cobarde. Por que não fugiam para as terras do salto? Como fizeram alguns: o Jaime e a Joana, por exemplo. Seguira-lhe as ideias e juntos haviam percorrido o caminho do desafio, mesmo ignorando o que alcançariam.

Achava-o mudado, orgulhoso do que antes criticava raivosamente. Mandara-lhe, de Mafra, fotografias com cara de mau e a arma apontada a fingir-se de combatente; até a convidara para ir ao juramento de bandeira, sabendo que ela detestava braços e mãos estendidas. Tinham-lhe lavado o cérebro, aquele cérebro que ela conhecera rebelde na doçura de uma alma terna. Podia lá ser! « Eu vou contigo para o fim do mundo, mas não vás para a guerra! Fugimos os dois! », gritou-lhe lavada em lágrimas. Ele, calado, deu-lhe um beijo como quem se desculpa. «Promete que esperas por mim...», pediu-lhe, envolto em submissão. Acariciou-lhe o cabelo cortado, ele que o usara sempre comprido, e murmurou-lhe que sim.

Esperou.

Esperou-o numa tarde de Novembro, fria e enevoada, junto da capela da casa onde ele nascera. Acompanhou a aldeia no funeral do seu menino. Enquanto uma fila de militares disparava para o céu, a urna descia para a terra. Foi, então, que ela deitou a pasta negra, com fitas vermelhas como rasgos de sangue, para cima do caixão, deu um grito que gelou, ainda mais, o cemitério, e desapareceu. Dizem, os que a viram mais de perto, que os seus olhos faiscavam de loucura.
- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "ForEver PEMBA". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A MÃE DE TODOS

Alice deixou um dia a aldeia entre as montanhas durienses para servir na casa de um Senhor Doutor do Porto, levando consigo a ilusão de um sonho. Ainda foi à terra, duas ou três vezes, mostrar a roupa da cidade e os brincos que a patroa lhe oferecera. Hoje, porém, talvez já nem saiba como se toma o comboio. Enterrada a Mãe, que o Pai nem conhecera, vendida a leirita de uns almudes, fez um risco no calendário da sua recordação. Gastava as tardes domingueiras no jardim diante da casa onde fazia a comida e as camas, aspirava a alcatifa e sacudia as carpetes, limpava as pratas e entretinha adolescentes rabugentos, até achar o companheiro da sua sina. Afeiçoou-se por um mecânico e foi viver para uma casita mal alevantada dos subúrbios.

Começou cedo a criação; enquanto as marés sobem e descem, viu-se com uma ranchada de filhos. Dava umas horas como mulher-a-dias com a sogra na guarda da canalha. Passava muito tempo no hospital, nas consultas de pediatria, e dava-se, por isso, com enfermeiras e médicos com o à vontade consentido de tantas idas e vindas numa preocupação aflitiva por quem levava ao colo e pelos que deixava sob o olhar da segunda Mãe. Já nem precisava de papel ou de espera, todos lhe toleravam a prioridade, que a uma Mãe procriadora não é só o respeito a mandar, mas, também, uma admiração condoída. Vinha do fim da cidade onde a auto-estrada se estende numa fita preta que se perde, ao longe, com os carros disparados a afundarem-se nas lombas.

O rosto de Alice mostrava canseira, envelhecido antes da razão; as pregas nos olhos e nos cantos da boca traduziam embaraços e noites mal dormidas. Quase que não tinha peitos, chupados pelas bocas da inocência sem culpa de terem nascido a eito. Contudo, por cima desse espelho de privações, um sorriso bonito, muito bonito, tornava-a simpática e afável; era um daqueles sorrisos de quem logo se gosta por não enfatizar as desgraças. Acarinhava os filhos sem pieguices ou obsessões. Sempre «lavadinhos e arranjadinhos», não se escusava de, em pleno átrio, desnudar um seio mirrado para o meter na boca de um mais apressado pela hora do sustento.

Joaquim sujava-se na oficina e em biscates de fim-de-semana para sustentar a prole. Não era gastador nem seroava nos Cafés. Viciado, só no tabaco e no futebol, mas, até nestes, se moderava: fumava Definitivos e o seu clube militava numa distrital sem nome nos jornais de segunda feira. Ia sempre como um fuso para casa, sem o fastio dos casamentos arrastados. Quando a mulher se demorava, esperava sempre que a porta se abrisse. Os vizinhos da ilha não lhe ouviam um ralho ou uma descompostura e, como «casal que não se insulta não se ama», julgavam que apenas se toleravam.

Um dia, porém, as horas passavam e a Alice não chegava. Sabia-a numa consulta com «o mais novinho, de seis mesinhos». Combinou com a Mãe a continuação da vigília e meteu-se a caminho. Encontrou a Mulher na paragem do autocarro, diante do hospital, com dois bebés, um em cada braço.

- Então o autocarro não vem, é?... Estás à espera do 99 como o Samora?!... – troçou.

- Quantos já passaram!... – retorquiu a Alice.

- Espera – espantou-se -, de quem é esse bebé?!

- Foi uma senhora que me encontrou à saída e pediu-me para lhe ficar com ele.

Disse que era só tempo de ir ali, não sei onde, fazer umas compras, já lá vão mais de duas horas e não aparece. Estou preocupada...

- Oh! Mulher... Ela não volta mais! Não vês que o abandonou?!... Deixa lá!... Quem cria nove também cria dez! Vamos embora!

E lá foram, cada um com o seu filho, no autocarro apinhado, a caminho da casita mal erguida nos confins da cidade para continuarem a servir o futuro do mundo.
- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "ForEver PEMBA". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O meu barquinho

(Clique na imagem para ampliar. Imagem composta em PhotoScape com fotografia original do Dr. Camilo de Araújo Correia e desenho de um barco rabelo de autoria de Fernando Guichard.)

Por Camilo de Araújo Correia
De tanto lhe namorar o barco, da cada vez que o via, o meu amigo acabou por me dizer: - Se gostas tanto desse barco, podes levá-lo! Ele, afinal, é mais teu do que meu, desde que lhe puseste a vista, em cima...

Um barco rabelo maravilhoso, com a silhueta que tantas vezes ainda pude ver recortada nas águas e nas margens do Douro, quando fugia da escola para me extasiar com o tráfego do rio, no cais do Régua. As mãos que o construíram não quiseram faltar-lhe com a mínima verdade dos rabelos grandes. Todas as tábuas do casco harmoniosamente imbricadas, segredo da resistência do barco que é preciso, respeitar. Espadela e mastro nem mais nem menos compridos que a distância que vai da ponta da proa à ponta da popa. Os ventos e os rápidos, ou pontos, foram ensinando que teria de ser assim. A apegada também exige dimensões e colocação exactas. Lá no alto o arrais tem de movimentar-se no espaço cinético do rabelo, se quiser vencer as fúrias do vento e do rio.

O meu barquinho vinha carregado de pipas e não lhe faltava qualquer apetrecho de navegação e subsistência. Cordame de andar à sirga, remos, varas, caixa do pão e do sal e, à proa, um pote com as tigelas alinhadas para a distribuição do caldo.

Talvez se possa dizer que não há rabelo sem senão. O meu também o tinha - a vela. Não passava de um trapo, sem forma e sem vida, pendente da cruz do mastro. Tão morta que me parecia o sudário de quantos arrais morreram a subir e a descer o rio. Se Joane, o doido da Barca do Inferno, a tivesse visto, não deixaria de dizer na sua linguagem vicentina:

- Caga na vela!

Aquela vela foi, durante muitos anos, o desgosto do meu cantinho etnográfico. Da croça à podoa, da trouxa ao cesto vindimo, do copo de prova ao canado, do argau à tomboladeira do pote às tigelas da aguilhada ao carro de bois, do almude à angoreta, da enxada ao chapéu de palha, do… ao bordão de um mendigo que viveu da caridade das quintas, tudo autêntico, tudo perfeito menos o diabo da vela!

O desgosto acabou, há dias. O meu velho amigo Artur Joaquim (Calceteiro), que andou no rio até lhe escapar por uma unha negra, alegra a sua reforma construindo barcos rabelos à porta de casa. Miniaturas encantadoras do barco que o ia matando lhe saem, agora, da memória e do coração.

Levei-lhe o meu rabelo como quem leva um aleijadinho a urna romaria de fé. Veio curado curado. O meu barquinho tem agora uma vela moldada pelo vento, cheia de sol e de rio.

Peso da Régua, Julho de 1986

Com a arte de mestre Artur Joaquim julguei tratado o último rabelo aleijadinho. Muito me enganei. Se voltasse a este mundo, não lhe faltaria clientela.

Com o desenvolvimento do turismo fluvial, molham agora a barriga nas águas do rio Douro uns rabelos (?) verdadeiramente monstruosos. No espaço que dantes era das pipas, há agora um grande salão, com janelas e cortinas. A apegada parece a torre de comando de um transatlântico. E, ridículo dos ridículos, a espadela parece o rabo cortado de um cão de luxo.

Moliceiro é moliceiro, fragata é fragata, carocho é carocho, saveiro é saveiro… rabelo é rabelo.

O rabelo morreu como um velho a contar os séculos no seu rosário de medos e glórias. É hoje um honroso e comovente símbolo da primeira Eternidade do nosso rio. Não merece que façamos dele uma deprimente fantochada.
- Colaboração de J. A. Almeida para "Escritos do Douro" em Novembro de 2010.
(Clique na imagem para ampliar - imagem recolhida na internet livre.)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

PRECE

Volta Jesus Cristo!

Volta a este mundo de sacripantas,
De escárnio e mal dizer.
Volta a esta terra de vaidade,
De desamor e egoísmo,
Fria e vazia como um poço abandonado,
Repleta de Sanhedrins da corrupção
E de Zerahs gananciosos.

Volta Jesus Cristo!

Volta à medula das nossas misérias
Para curares as chagas da inveja,
Perdoar com a serenidade de quem ama,
Limpar todas as Jerusaléns do nosso tempo.
Volta depressa às nossas consciências,
Aquecer a indiferença que nos rói,
Gritar uma esperança para amanhã
- Para sempre -
Não morrermos sozinhos e tristes.

Volta Jesus Cristo!

Vem dar força aos Nicodemus sinceros,
Encorajar os Josés de Arimateia verdadeiros,
Julgar todos os Tibérios modernos
Desprezar todos os Pilatos covardes,
Apontar os Barrabás perdidos.

Volta Meu Senhor e Meu Profeta!

Vamos falar aos que morrem de ambição,
Pregar a doutrina que nos salvará,
Escorraçar os que comem na opulência,
Agasalhar as crianças que tremem de frio,
Sem carinho, abandonadas como destroços.

Volta Jesus Cristo!

Para devolveres às pessoas o riso da vida,
Amar os que nada têm,
Ensinar de novo o que todos esqueceram.
Volta para me enxugares os rios da tristeza,
Nas angústias dos fins de tarde
E me abraçares nas horas de desassossego.

Volta Mestre!

Vamos berrar contra a alegria falsa,
Contra o sorriso falso,
Contra a amizade falsa,
Contra os irmãos falsos,
Contra os políticos falsos,
Contra toda a falsidade.
Quero ir contigo entoar a nossa Fé,
Derrubar os déspotas com a nossa Cruz,
Correr do Poder os que mandam sem saber.

Volta Jesus Cristo!

Eu quero abraçar-Te!

- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "ForEver PEMBA". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O QUARTO ALUGADO - III

Continuação daqui.
A Senhora do Monte ficava no fim do povo, na garganta de uns socalcos e no meio de um adro definido por um muro circular de pedras sobradas de antigos saibramentos. Ali descansavam as mulheres, pousando as bacias por momentos, depois de barrelarem a roupa nas margens do rio, ou os trabalhadores das vinhas que,
nas idas e vindas das quintas, por lá encurtavam caminho. Era a devoção de D. Carlota, o motivo para exercitar as pernas, mudar a água das flores, reacender pavios, repetir preces. Zeladora por Fé e por gosto, o asseio da pequenina ermida distraía-a da rotina, das amofinações do granjeio das poucas cepas herdadas e das preocupações de um filho único de um casamento relâmpago que nem dera oportunidade para uma zanga. Pelo caminho, saudavam, num cerimonial de velhos costumes, quem encontravam. As mulheres, assim que, pelos postigos, confirmavam os passantes, vinham, com os filhos às pernas, cumprimentar numa afabilidade que só a província tem. Contabilizavam doenças e melhoras, perguntavam pelos estudos do menino e quem era a visita, ofereciam préstimos e desabafavam saudades emigrantes.

- É incrível como nos sítios mais esquisitos se vêem reclames destes – anotou Artur, parando.

- Que reclame? – perguntou João, olhando para todos os lados.

- Ali – respondeu Artur, apontando para a parede de uma casa. - Não vês? - Adubai com Nitrato do Chile, único natural.

- E é bem bom... Como fertilizante não há melhor...– ajuntou D. Carlota.

- Mas isso há em qualquer curva ou canto! É como o Licor Beirão ou a Sandeman... – reinou João.

- E a guerra que isso deu!... – atirou ela.

- Guerra?... – espantaram-se, quase a par.

- Entre o Chile e os países vizinhos... É que antes de ser adubo serviu para fabricar explosivos...Chamavam-lhe o ouro branco...

- As coisas que a minha Mãe sabe...- ironizou João, lançando-lhe um sorriso divertido.

A capelinha tinha o encanto de relíquia e uma simplicidade amparada: dois bancos corridos, um de cada lado; um genuflexório com uma almofada já descarnada; quatro jarras de flores, duas aos lados da Senhora do Monte, que desfrutava o altar, e outras tantas para uma Senhora de Fátima, num suporte à parte, junto ao pequeno janelo lateral, coadouro tímido da luz do dia. Enquanto a Mãe rezava e o amigo se entretinha a estudar um carreiro de formigas, subiu a uma figueira e regalou-se na lonjura dos cerros pintados de sulfato, mudo num êxtase, tamanho o embevecimento. João, nestas alturas, sufragava as suas memórias, algumas suspensas nas paredes da sua casa, emolduradas num bafo de morte antes da hora justa. Sentia-se partido ao meio como se um dique lhe tivesse impedido o curso natural da vida. Não era como o Artur que cortara as raízes, mas, antes, uma dúvida perspectivada, em que teria de escolher entre o chão do vagido inicial e a aventura de um poiso distante. A aldeia natal assemelhava-a a um espelho da sua imagem ferida, num estatuto espartilhado pelas analogias da normalidade dos outros com a sua evolução, em que detestava as fautorias, quais piedades a adoçarem uma imperfeição que lhe tivesse anatemizado o berço. “Esta terra densa, esta leveza de ar, esta abóbada sideral são as minhas referências. Dizem-me que sou daqui, mas não sei se aqui vou morrer...”. Enquanto assim pensava, vinham dos montes ecos de fainas, cantos de aves e brisas de verdura. Gostava da cidade, aquela vantagem de ter tudo à mão, o viver sem vigias de comportamentos, despercebido, mais um no meio daquela gente toda, lugares onde aprendia que os horizontes se estendem mundo fora, mesmo que não saiamos da nossa coxia. “Mas nisto me justifico, como se entre mim, as coisas e as pessoas houvesse uma comunhão sanguínea, nascida desta seiva e deste húmus. Será a voz do meu Pai a chamar-me ao seu conhecimento, como se longe do túmulo o pudesse esquecer? Ou a presença da minha Mãe que, suspensa de um receio, pede à Senhora do Monte para que o destino não lhe leve o filho, ao menos o filho? “.

- Nunca esmagaste uma formiga?... – perguntou, debaixo, Artur, tirando-o do sério. - Não sei quem disse que matar uma formiga era destruir um bom exemplo. Já viste a disciplina e a paciência delas?...

- Igual à tua...

Ouviu-se um rodar de chave. Ao saltar, João tropeçou e caiu de joelhos.

- Estás habituado aos passeios das ruas do Porto...

- Como tu – enquanto, com as mãos, limpava as calças.

- Deixa lá, isso sai com a escova...- resolveu D. Carlota.

- Já rezou tudo, Mãe?... – abraçando-a com carinho.

- Rezei por vós... Para Nossa Senhora vos ajudar nos exames... No próximo ano tendes que estar na Universidade... O Artur também escolheu Direito?...

- Para não desfazer...

- Lá ides para Coimbra... Depois é que é preciso ter juízo... Lembras-te – virando-se para João - do filho do Pessegueiro? No Liceu foi sempre um aluno excelente, depois de ir para Coimbra não passou do primeiro ano...Queria ser médico, está num Banco em Lamego.

- E acha mau?...

- Foi um desgosto para aqueles Pais...

- Nem toda a gente pode ser doutor...Quem trabalhava as vinhas e pisava as uvas?...

- Querias ser tu a fazer isso?...

- Se não fosse filho da D. Carlota, que remédio... – subtilizou, perante a risada geral.

- O pior - interrompeu Artur com uma indisfarçável inquietação - é a guerra do Ultramar... Se não nos pomos a pau, vamos para lá como cordeiros...

- Não podeis perder nenhum ano e quando chegar a vossa vez já o Salazar resolveu a guerra. Tenho essa esperança - acrescentou ela com uma certeza tão genuína que nem dava hipótese de a rebater.

- O Salazar – balbuciou Artur – não resolve nada D. Carlota. Só complica... Os ditadores – prosseguiu, quase a medo, não sabendo que reacção encontraria – não têm esperança, nem lutam por ela.

Ela deitou-lhe um olhar de incómodo e João encolheu uma concordância. Ouviu-se, na correnteza da tarde, um estrépito de cavalgadura, e só quando já estava junto deles é que repararam - encostando-se ao muros do caminho - no Zé do Alto em cima do macho. Puxando a rédea, arriscou, em desequilíbrio, tirar a boina para os cumprimentar, mas, o animal não lhe deu azo e desapareceu, saltitante, qual Sancho Pança em busca do rasto de D. Quixote.

Andavam numa fona a acompanhar D. Carlota ao Grémio ou à Feira a mercar os comestíveis, metê-los a custo no velho corcunda alemão que ela conduzia, fincada no volante, qual náufrago agarrado à bóia salvadora, apitando – sob a troça alegre do filho e o riso desajeitado do Artur - em todas as curvas, mesmo nas descobertas; enrijavam os rabos nas carreiras de Lamego, vagueando pelo Parque dos Remédios, descendo a escadaria na mira dos joelhos das meninas; subiam os mortórios de tojo e de silvas à procura de ninhos de perdiz ou os morouços armados em furões. Quando chegava a noite, e no velho Schaub-Lorenz acabava o Café Concerto ou os hossanas de Dutra Faria, a casa assentava num pasmo. Punham-se, ainda, a conversar no quarto do João, que tinha as paredes forradas com fotos do Papa João XXI, dos Beatles, dos Shadows e da Sofia Loren, até se deitarem com projectos de novos passeios. Artur demorava a adormecer. Ouvia bater as horas no relógio da sala - metrónomo de tântalo -, seguidas de uma paz conventual que, em vez de lhe apressar a indolência, o espevitava. Faltava-lhe o ronronar dos eléctricos, as vozes dos noctívagos, a repetição dos carros. Inquietava-se com o miar de um gato, o ladrar de um cão, o estalido da madeira de algum móvel ou do soalho, até o deslizar de uma folha no abandono do quintal. “Como é que este tipo aguenta quinze dias nesta pasmaceira, sem um Cinema ou Café perto, sem carta para dar uma volta? Uma terra sem luz, a beberem água do poço, a Mãe e a velha da Aninhas a deitarem-se com as galinhas e a levantarem-se com o galo...”. Mas o seu caso é que era sempre chamado ao insono. Mortificava-o como se devesse alguma coisa a alguém e não arranjasse maneira de lha pagar. Onde estaria, agora, a Mãe? Dormiriam juntos? Lembrar-se-ia dele? Desde o telefonema da chegada nunca mais lhe ligara. Devia andar a ver os Museus com aquele emplastro atrás dele, um reformado camarário mal amanhado, a olhar para as telas como um bói para um palácio.

Pensava no Pai. Com o quinto ano feito arranjara um emprego no Cadastro da Casa do Douro e, quando herdou, deixou tudo para fazer da lavoura a sua profissão. Andava com os homens e com as mulheres, sempre à frente, nada lhe escapava, era proprietário e feitor, fazia a poda toda com a ajuda do Belchior, companheiro de Escola; na cava e na redra arredondava com a sachola as covas das cepas, colava um pulverizador às costas e só não acartava cestos na vindima porque aqueles anos debruçados na secretária tinham-lhe entortado a coluna. Nem aos domingos parava. Depois da Missa, lá ia ele dar uma volta pelas vinhas - como se respigasse qualquer falha - na espreita de um bardo com a espampa mal feita ou do susto de algum sinal de míldio. À mesa prognosticava a novidade e desancava no Comissário que lhe fizera a carregação do ano anterior e não cumpria com os pagamentos. Nunca, porém, lhe escutaram um arrependimento de escolha; dizia à Mulher que antes queria aquela vida do que a de estar todo o dia a ensinar a tabuada à canalha.

O Pai morreu quando ele brincava no quintal e um reboliço de aflição trovejou pela casa. A Mãe desatou numa gritaria, foram ao lagar buscar um tabuleiro e trouxeram-no lá estendido. Ainda o levaram, no carro do Faísca, ao hospital da Régua, um velho palacete no cimo do Peso, onde só tiveram tempo para a certidão de
óbito. Recordava-se muito bem que ficara quieto, sem saber onde estava e o que fazer, fora do tempo, como se aquilo não fosse com ele, uma vertigem de incompreensão a interrogá-lo. Mas quando a Mãe, desfeita em lágrimas, o esmagou contra o peito como se se agarrasse a uma salvação, sentiu-se tolhido. Só chorou a seguir ao funeral, ao andar pela casa, a sentir o vazio do Pai, a falta do seu cheiro, dos seus passos e da sua fala. Ao princípio, quando o viram cair, julgaram que tivesse escorregado no calço, mas, depois, como não se levantava, aninhado qual inocente atingido por um tiro à falsa fé, a não responder aos chamados, benzeram-se, e o Belchior voou por cima das silvas e das pedras até abrir o portão e gritar a infelicidade. Nunca esquecera essa data. A sua existência ficara marcada por siglas: AP e DP, Antes do Pai e Depois do Pai. A primeira era fagueira e indomável como as histórias do Cavaleiro Andante; a segunda, escura como o País em que vivia. Detestava a negritude das mulheres aldeãs e os seus olhos de servidão; os modos fatalistas e as côdeas de suor dos homens que, aos domingos, se emborrachavam nas tabernas, recuperavam rixas antigas ou inventam novas, anavalhando-se sanguinariamente. Viviam de dia como se fosse noite e dormiam à noite como se morressem. Não fazia do local de nascimento uma canga domiciliária, longe dos mundos que se sonham. Nasce-se onde as Mães estão, e fora bendita a hora de a sua ter decidido vender a herança. Não morreria como um coelho no meio de um bardo, nem seria escravo de leiras, cujo sumo era chantagiado, todos os anos, por seculares jugos estrangeiros. Não trabalharia para implorar preços, ser pago pela arbitrariedade e aturar as perseguições de mandatários de pretensos exemplares da seriedade. Não pactuaria com os donos das unhas envernizadas ou entronizados com trajes de seda que, em cadeiras de couro, brincavam com quem todos os dias bufava nas terras na procura de um sustento qual ruminante espicaçado. Não viveria para o faz-de-conta, era novo, mas, já sabedor que a honestidade não enriquece e que os que trabalham sustentam a fauna dos parasitas e dos invejosos. Partira sem um remorso da terra que lhe roubara o Pai, partiria sem uma saudade do País que lhe tolhia a esperança, ao menos a esperança. Conversaria francamente com a Mãe, dir-lhe-ia que precisava de realizar a sua revolta; ao fim e ao cabo, ela, também, resolvera sair; libertava-a, assim, para, na sua ausência, deliberar o seu futuro. Aproveitaria os amigos da Aliance Française, saberia, antes que fosse tarde, se o destino está escrito nas palmas das mãos ou na vontade de cada um. Chegara a vez de procurar o Monteiro que tanto lhe sereiava os ouvidos desde que o Pai se acabara na sinistra casa da rua do Heroísmo - com cemitério ao lado e tudo –, maldito lugar para onde iam os perseguidos perante a indiferença de uma cidade acobardada. Iriam mundo fora, pelas estradas do atrevimento, com a fome na barriga e a fartura no coração, numa viagem sem mapa, de bolsos rateados, olhos abertos ao vento da tolerância. Não o mandariam para África matar ou morrer, mesmo que apodrecesse no não regresso. Nunca obedeceria à comandita de fatos e chapéus pretos, feios e cínicos, caras de cangalheiros e discursos póstumos, governando, pelo chicote, um povo analfabeto. Nada perderia porque não tinha por onde escolher.

Acordou sobressaltado pelos estoirar de foguetes e o retinir de uma sineta. Parecia-lhe cedo, quase de madrugada, ter dormido só uns instantes, a casa varrida por um motim de passos e vozes de pressas. João, a esfregar os olhos, veio chamá-lo para que se arranjasse.

- Despacha-te! Vem aí o Senhor! – esbaforiu.

Olhou o relógio: passava pouco das oito. Que raio de horas! No tempo da sua aldeia o compasso vinha de tarde, barrigas cheias e sonos ajustados. Pelos vistos, a casa da D. Carlota era das primeiras a ser visitada. Foi, para não armar desfeita, mal penteado, como quando acordava, de salto, para as aulas. Nunca ligara muito àquelas coisas. Dava-lhe sempre a impressão do cumprimento de um ritual para a sociedade ver, mais cerimónia que devoção. A Mãe sim, e o Pai, então, era rigoroso no costume, deitava uma nota de cem escudos no saco, oferecia bolachas e vinho fino ao Padre e aos acompanhantes, alguns já meio compostos nos rostos vermelhos do esforço e do álcool. Beijava sempre a cruz fora do corpo de Cristo, imaginando as
bocas lá passadas, e ficava-lhe uma espécie de remorso por não sentir o calor da Fé. Não tinha, nisso, qualquer presunção, antes um descontentamento por não ser como os outros, como os Pais, que praticavam uma religiosidade que até lhe parecia uma ofensa não os imitar. Gostaria de aceitar a doutrina, interiorizá-la num alimento invisível, um apoio sem o qual não fosse feliz. «Quando tiveres a minha idade, vais pensar de outra forma!», dizia-lhe o Pai, ao notar-lhe as reservas. Não se importava nada de o ter ali para continuar ou alterar as suas hesitações.

Durante o almoço, Artur, esforçando-se por ser natural, disse que seguiria para o Porto no comboio da tarde.

- Mas por que não vão os dois juntos para a semana? - interrogou, surpreendida, D. Carlota. – Como vieram, assim devem ir, não achas filho?

Olhou de lado para o amigo, enquanto chupava um bocado da cabeça cozida do cabrito, e não disse nada.

- Tenho que fazer umas coisas no Porto, a minha Mãe também deve estranhar eu ficar aqui este tempo todo, e acho que não devo abusar...

João, aqui, com a boca cheia de esparregado, mimo que a Aninhas, sabendo da sua perdição, lhe fazia sempre, disse por palavras meio entarameladas:

- Se não estivesse diante da minha Mãe e à mesa, respondia - te à letra...

- A sério......

- Bom...Bom...O Artur é que sabe... – compôs ela.

- Então vê se comes, que no comboio não há disto... – respondeu-lhe João, sem lhe esconder um sorriso céptico que Artur afastou, desviando o olhar.

Acabado o almoço, foram até ao quintal fumar um cigarro às escondidas de D.Carlota. Ao longe, ouvia-se a sineta da Páscoa e via-se à entrada das portas das casas, no caminho que levava à Senhora do Monte, restos de giestas e maias pisadas. Pelo vale ecoavam morteiros e os fumos suspendiam-se no céu como asas de anjos.

- Artur, que se passa contigo?... – perguntou, estranho, João.

- Não se passa nada... O problema é que não se passa nada... Estou cheio desta pasmaceira, pá. Isto é mesmo o cabo do mundo... Falta-me o bulício do Porto, sair à rua e saltar para um eléctrico em andamento, as boazonas de Santa Catarina, ir a um cinema. Porra!, tu gostas disto?...

- O que mais gosto aqui é deste ar. Ouvimos os passarinhos sem andar a procurá-los no Jardim do Passeio Alegre ou nos baldios das traseiras dos prédios...

- Também tens passarinhos da Ribeira...

- Pronto, está bem... A minha Mãe leva-nos ao Pinhão e lá nos encontraremos no Porto. É verdade, lembrei-me agora, acabaste por não ir ao cemitério da tua parvalheira ver o teu Pai.

- Fica para a próxima. Ele sabe que o vejo todos os dias. Não acontece o mesmo contigo?...

- É que tu tinhas falado; só por isso...

- Lá irei um dia...

- Tu é que sabes.

Chegaram à Estação em cima da hora: uma confusão de fardas, garrafões, malas e embrulhos disputados pelos bagageiros, pregões das rebuçadeiras e garrafas de cerveja vazias espalhadas pelo balcão do Bar, algumas até no chão.

- Minha senhora, nunca esquecerei as sua atenções. Desculpe qualquer coisinha...- disse Artur, no meio do alarido, depois de comprar o bilhete, estreitando, demoradamente, o amigo num abraço, fixando-o como se lhe quisesse dizer alguma coisa.

- Desculpar o quê? Tem cada uma... Quando lhe apetecer venha com o meu filho, que será muito bem recebido – alegrou-o, beijando-lhe as faces.

Quando o comboio partiu, assomou à janela um sorriso triste e os seus acenos desapareceram com a última carruagem. “ Esquisito... Este gajo nunca me deu um abraço assim...”, monologava João, abrindo a porta do carro e sentando-se.

- Tenho umas flores na mala e queria pô-las no teu Pai. Vais comigo, não vais? – perguntou-lhe a Mãe antes de ligar a ignição.

- Por amor de Deus, minha Mãe...Eu também tenho que ir lá - respondeu-lhe, pensando, ainda, naquela despedida que lhe pareceu de uma pieguice quase ridícula, ainda para mais num tipo como o Artur que nem era nada dado a sentimentalismos.

Enquanto a Mãe guiava de olhos esbugalhados como se quisesse ver para lá das curvas, ele reflectia o pensamento na toalha esverdeada do Douro. Não gostava dos domingos. Eram dias bocejados, de uma inutilidade a envolver as pessoas e as coisas. Davam-se passeios tristes para justificar o dia, passear os fatos e as gravatas, mostrar a ponte e o rio às crianças lambuzadas com cremes e bolos, calar as patroas que se perfumavam para apagar os cheiros das galinhas e dos assados.

- Estás triste... – disse-lhe a Mãe, sem descravar os olhos da estrada.

- As férias passam tão depressa... – contrapôs desalentado.

- O teu amigo não me pareceu muito satisfeito...

- É um bocado estranho... Se calhar é por isso que me dou com ele...

- Mas olha que temos de procurar quem nos dê alegria...

- São tão chatos os domingos, não acha, Mãe?

- Li, já não sei onde, que os domingos são o funeral semanal do mundo...

- Nem tanto, Mãe... Essa é da Senhora...

- Olha que li isso em qualquer livro. São das tais frases que nos ficam ou porque se encaixam em nós ou porque já as pensámos em qualquer altura...

- Cuidado!... Vá com cuidado, Mãe...

- Eu vou na minha mão, valha-me Deus...

- Mas há quem não vá... A propósito, lembrei-me agora, eu podia tirar a carta... Dava-lhe jeito a si e a mim...

- Mas ainda não fizeste vinte anos...

- Mas, aos dezoito, dava-me a emancipação e já podia...

- Quando entrares para a Faculdade, vamos pensar nisso...

- É o prémio?...

D. Carlota calou-se, fingindo uma redobrada atenção e apitando a despropósito.

- Mãe... Não me respondeu...

- Está bem, meu filho, é o prémio...

Sorriu e pareceu-lhe que já era segunda-feira... Atravessaram a aldeia, acenando aos cumprimentos dos que, encostados ao muro da estrada, faziam um intervalo para os quartilhos da taberna, até pararem no pequeno largo diante do portão do cemitério.
Continua...

- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "ForEver PEMBA". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O QUARTO ALUGADO - II

Estranhos, ali, eram os estudantes, encolhidos diante daquela libação popular, quase envergonhados por não terem calos nas mãos ou surro nas unhas, filhos de ventres diferentes que não os obrigavam à fedentina da vida.

João sempre gostara do mês de Abril; lembrava-lhe os rebentos pascais com as corolas a despertarem os sentidos. Na janela da carruagem passava o filme do alvoroço primaveril, a terra a despertar, rejuvenescida e liberta. Até as crianças, que acenavam, tinham uma alegria nova, lavada das tristezas de Inverno, como se flores lhes enfeitassem os sorrisos. O olhar rolava pelos campos - quadros de pintores naifes - numa volúpia epidémica. Pensativo, Artur, não dizia nada; parecia que congeminava enredos. Não se sentia à vontade, desconfortável no assento de madeira, mexendo-se na inglória procura de melhor cómodo para o rabo.

- Já estás arrependido de ter vindo?... – sibilou João.

- Podíamos era ter comprado um bilhete de primeira. Por mais qualquer coisa... – Artur, com um esgar de contrafeito, voltou a remexer o traseiro.

- Deixa lá, fica para a vinda.

- Há muito tempo que não andava nesta geringonça. Enquanto o meu Pai não comprou carro, vinha nisto ao Porto. Lembro-me que, numas férias de Verão, andava eu ainda na Primária, trouxe-me com ele. Levantámo-nos de noite e a minha Mãe arranjou-nos uma saca com pão, presunto e azeitonas. Quando chegámos a S. Bento, depois do susto do túnel, fiquei tão palerma que o meu Pai teve que me puxar. Amedrontei-me com o barulho, aquele chiar aumentado das locomotivas debaixo da cobertura, os carregadores a lutarem pelas malas, uma confusão depois lá fora, os eléctricos a tilintarem, as mulheres a venderem chocolates, toda a gente a empurrar-se. Tive tanto medo de me perder, que até nas lojas onde o meu Pai entrava não lhe largava a mão.

- Eu já não posso dizer o mesmo. A primeira vez que vim ao Porto de comboio não tinha mão nenhuma a que me agarrar...

Entre eles fez-se um silêncio que acentuou o ruído sobre os carris e o contorno de algumas conversas. A carruagem perdera, com a descida das matronas das cestas, a inflexão da feminilidade serôdia; à frente deles, um homem aparava as unhas com uma navalha e, nas suas costas, outros debatiam técnicas de trolha. A paragem em cada Estação era um clamor de vozes e correrias. O comboio chegava, como animal encanzinado, num afluxo tumultuário; a locomotiva, resfolgando, parava um bocado adiante para as carruagens ficarem na extensão do cais; os que esperavam e os que vinham saudavam-se; algumas malas passavam pelas janelas; uma azáfama estralejava no éter a lembrar desordens em romarias. Um silvo agudo, idêntico a um assobio de réptil, punha de novo em marcha aquele amontoado férreo e o ramerrão regressava. Nos apeadeiros, as mulheres, de bandeirola verde na mão, enquadravam figuras de sépia.

- Não achas que o viajar de comboio acicata a memória? Assim como um regresso ao passado? – surpreendeu Artur.

- Uma saudosa desfilada do tempo... - acrescentou João.

- Brincadeiras de meninos, os passeios aos montes de onde víamos esta coisa a deitar fumo, o eco do seu apito ao longe, uma recordação perdida para além do olhar...

- Porra, Artur, estás numa forma espectacular...

Desenhou um sorriso de tédio. Tirou, do bolso do casaco, um maço de CT e puseram-se a fumar. A carruagem estava quase vazia. Os trolhas e o homem que, em silêncio e ar desconfiado, cortara as unhas com a navalha tinham saído na Régua. Apearam-se no Pinhão e meteram-se num carro de praça. Até casa de João o trajecto era curto: vinte minutos bem contados por curvas e contracurvas entre desfiladeiros que abortavam no Douro e montes de vinhedos que tocavam o céu. Quando chegaram ao terreiro da aldeia, plantada num alto que abarcava o rio, João, lembrando-se que não tinha dinheiro que chegasse, pediu ao chauffeur para aguardar um instante e correu para os braços e para a bolsa da Mãe. Esta recebeu-o com a generosidade do sangue e ao amigo com a marca da ancestral educação rural; a Aninhas - velha criada da casa desde os tempos dos Avós - nunca mais o largava com aquele carinho da criação. Depois de pagos os vinte escudos do frete, atiraram-se, esfomeados, às fatias de bola de carne, aos jesuítas e ao café com leite, antes mesmo de desfazerem as malas. A Mãe – Carlota por assento teologal e Menina Carlotinha por baptismo popular – sentou-se diante deles, feliz de rever o filho e curiosa por desvendar aquele amigo que ele trazia e de quem lhe falara como um irmão. Afeita aos princípios estabelecidos entre as montanhas, como estas inamovíveis, gostava sempre de saber com quem se dava o filho, não fossem as más companhias estragar-lhe a justificação da existência. A viuvez não lhe secara a finura, dir-se-ia que a sazonara na roleta da vida. Debruçado sobre a chávena, Artur sentia-lhe o olhar inquisidor a investigá-lo num tacteio de caminho desconhecido.

- O Artur é destes lados, não é?... – a voz tinha o tom de quem inicia um interrogatório.

- Sou sim, D. Carlota. Sou do Alto do Cume.

- Terra bonita... Gente fidalga...

- A minha Mãe, depois da morte do meu Pai, vendeu tudo e foi para o Porto.

- Desgostos...

- Mãe, por favor, as férias não são para coisas tristes. Lembre-se que estamos na Páscoa, o tempo da ressurreição...

- Pois é, meu filho, tens razão.

Ela aprendera que os olhos espelham a alma e os lábios o carácter. Os dias seguintes, na naturalidade das horas e dos comportamentos, dariam para o observar, mas, sem perceber muito bem porquê, aquele rosto deu-lhe uma ténue impressão de ferida por cicatrizar.

João e Artur dividiram aposentos: ele, no seu habitual quarto do fundo com janela para a estrada; o amigo, no chamado quarto de hóspedes, em frente do corredor, virado para o pátio da habitação. Esta, vulgar casa de lavoura sem cosméticas arquitectónicas que merecessem distinção, tinha a forma de um L: numa parte, a Casa Um - nome que vinha já do Avô -, ficavam a cozinha, as salas, o quarto de banho e os quartos de dormir; na outra – que, por sequência, era a Casa Dois -, meia dúzia de divisões sem uso diário e que serviam de poiso para tabuleiros onde se espalhavam uvas escolhidas, figos, abóboras e outros frutos de época. No armazém, sob o soalho da primeira, alinhavam-se dois toneis e, numa divisão contígua, uma espécie de celeiro com cachos de cebolas dependurados de uma trave, batatas, feijão, favas secas e uma pequena tulha para o escasso azeite de colheita. Debaixo da segunda, dois lagares, com as respectivas prensas, e, entre eles, pousado nas beiras, o andor do mártir São Sebastião todos os anos ornamentado por D. Carlota, na festa do orago, em obediência à disposição testamentária do marido, que, àquele, toda a vida, devotou veneração. No quintal, espaçoso, com canteiros de cravos definidos por barbantes delicados, cultivava-se, em volta do poço, uma horta de repolhos, tomates e alfaces. A um canto, meio escondidos, ficavam um galinheiro de fecundas poedeiras e o alpendre-garagem do Volkswagen azul, achatado como uma joaninha. Era a sua casa. Ali nascera e se fizera sem artifícios, educado pelos dogmas de uma Mãe vestida de negro e de uns Avós que duplicavam as carícias ao neto de paternidade extinta. O Avô, além de umas leiras espalhadas, negociava em vinhos, calculando comissões, e a Avó subia e descia escadas com canecos de água à cabeça ou bacias de roupa que punha a corar conforme o tempo mandava. A filha costumava dizer-lhe: «Ó minha Mãe, a Senhora julga que estar quieta é pecado?!... Não tem quem lhe faça isso?!...» Ela respondia-lhe: «Trata dessa criança que já tens muito que fazer!...»

Carlota estudara, conforme regra daqueles tempos, num colégio de freiras, em Lamego, de religiosidade e disciplina austeras, até lhe saltar aos olhos Joaquim Silvestre, primogénito dos Casais, abastados lavradores dos baixos de Sande. Era um jovem e bem apessoado professor primário numa Escola citadina que, todas as tardes domingueiras, se postava, junto do salão de chá, a vê-la passar rumo aos terreiros dos Remédios. Carlotinha nunca notou a marcação. A clausura colegial retirara-lhe a arteirice de adolescente. Silvestre, por conhecimentos colegiais, soube o seu nome e escreveu-lhe uma inflamada declaração amorosa. O que ele fez! A carta foi direitinha ao Pai que, atónito, tratou de descobrir «o mariola que anda a desencantar a minha
filha!». Quando soube que era o filho do Casais, a quem algumas vezes tratara das carregações, amainou o reproche e não conseguiu esconder um sorriso travesso. Depois de muita cavaqueira com a consorte - que o aconselhava a moderar-se - e noites mal dormidas a magicar no futuro da sua donzela, cruzou-se, por uma daquelas eventualidades que até se afiguram como encontros combinados, em plena rua dos Camilos, na Régua, com o dono do candidato à sua filha. Entraram no Nacional, sentaram-se e pediram dois cafés. Depois de muitas finezas e interesses escondidos a que a natureza humana não resiste, separaram-se com um abraço tão festivo como se tivessem selado um chorudo negócio de vinho a contento de ambas as partes. - Só eu – contava-lhe a Mãe, algumas vezes, nas horas mortas da saudade – não sabia de nada. O teu Avô a fabricar o casamento com o teu Pai e eu, ali enfiada a rezar e a estudar, longe de tudo. Vê lá tu que nem me deram a ler a carta dele, como se fosse a mensagem de um demónio! Não era, de facto, o recado de um demónio, mas uma involuntária predição.

Carlota e Silvestre (re)conheceram-se num almoço de domingo, fingidamente casual, nas férias de Verão. Os Pais haviam-lhe anunciado, de véspera, a chegada de visitas para o almoço. Estava a ajudar a Mãe a pôr a mesa quando elas entraram. Nas apresentações, o rosto de Silvestre trouxe-lhe uma identificação já vista, uma remanescência de qualquer lugar, mas não sabia de onde. Durante a refeição, no meio de conversas sobre míldio, sulfato, perspectivas de vindimas e elogios ao arroz de cabidela, Silvestre lembrou os passeios dominicais e o lugar em que a via ir, no meio daqueles vestidos todos iguais, azul de céu, colarinhos debruados a branco, pela avenida das tílias, «rumo ao retiro – carregando no substantivo - dos Remédios». Decantava a conversa com uns olhos castanhos de sombrio romântico que se lhe fixavam a estudar a reacção. Decididamente o tipo estava a galanteá-la. Empalidecida, fitou o Pai que, à cabeceira da mesa, lhe sorriu numa cumplicidade estranha, ele que tantas vezes a advertia para a manha dos homens. Não estava a perceber nada. Calou-se, envolta em pudor, e foi com alívio que se levantaram da mesa. Ia a retirar-se para o seu quarto, quando a Mãe, desajeitadamente, lhe sugeriu «uma voltinha pelo quintal com um sol tão bonito...». De repente, percebeu-se emboscada. Não desdenhava o Silvestre, o seu ar já maduro, com cara de gente. O subentendimento paternal entreabria-lhe a oportunidade de se libertar de uma submissão quase monástica que os seus dezoito anos, a custo, suportavam. Enquanto passeavam por entre os craveiros, dentro da casa, na sala das visitas, fumando e bebericando café e uns cálices de aguardente velha, os donos dos dois, satisfeitos com «a milagrosa coincidência que Deus quis», desfrutavam já o futuro estatuto familiar; e o Senhor Casais dava carta livre ao Senhor Oliveira – assim se chamava o Avô de João – para lhe colocar o vinho da próxima vindima na Casa Inglesa com quem intermediava.

Para encurtar razões, que este tipo de enredos casamenteiros rematavam-se sempre da mesma maneira, pois aquela época não consentia emancipações ou recusas ao familiarmente ajustado, Carlota e Silvestre legitimaram a sua união, no ano seguinte, em cerimónia a condizer com a vetustez da velha Sé, num trigueiro sábado de Maio – as Mães dos noivos assim diligenciaram por ser o mês de Maria - do ano em que os ares andavam turvos e a Polónia, com os panzers hitlerianos à porta, sem ter a quem pedir socorro. O velho Casais meteu uma cunha ao Director Escolar – aproveitando, sem rebuço, o copo de água em que era um dos convidados – para o filho ser transferido para a Escola da terra de Carlotinha. Esta fez-se, assim, exemplar doméstica, ou antes, Dona de Casa, deixando a canseira dos livros e a prisão colegial. As núpcias foram em Lisboa, gastando as poucas horas disponíveis fora do hotel, sito nas imediações do Chiado, a visitar a Torre de Belém, o Mosteiro do Jerónimos, o Palácio Cor de Rosa em que mal tilintava a espada do Fragoso, o da Assembleia Nacional, cujo anexo de S. Bento guardava o grande filho de Santa Comba Dão, o Jardim Zoológico e a Boca do Inferno; não falharam, também, uma revista no Parque Mayer, o corropio do Bairro Alto, Alfama e Mouraria à procura da sombra da Severa, assim como as prendas para os Pais nos Armazéns Grandela. Regressaram revigorados e felizes, recebidos com mimos e risinhos coniventes. Poucos meses depois, Silvestre caiu na cama, destroçado por um inexplicável cansaço que lhe embargava as forças e suores incompreensíveis a minguarem-lhe as carnes. Alvoraçados, consultaram o Dr. Feliciano, médico de ambas as famílias. As análises pedidas mostraram um aumento anormal dos glóbulos brancos – leucócitos lhes chamaram – , os vermelhos muito abaixo do mínimo. Como a resposta à medicação era nenhuma e o emagrecimento acentuado, recorreram aos melhores Especialistas do Porto. Por alvitre de um primo afastado do Casais, até a Lisboa foram, penosamente, na peugada da fama de um, em derradeira esperança de cura. Todos os consultados animavam os acompanhantes, e lá iam dizendo, simplificando, para susterem mais perguntas, que era uma infecção no sangue. Só depois da sua morte, que pouco demorou, e com a Carlota grávida, é que os familiares souberam que tinha sido uma leucemia a causa de tamanha tragédia. Ela, esgotada de tanto padecimento e desiludida pelo luto, agarrava-se à barriga como se temesse um fadário igual para o fruto da sua breve união. Quando o pariu e lhe escutou o primeiro choro, foi como se um grito de injustiça lhe brotasse das entranhas.

- João!

- Mãe!

- É o telefone para o teu amigo.

João e Artur, no fundo do quintal, contemplavam o vale, esmagado entre penhascos que se levantavam lancinantes às cumeeiras dos astros, o rio correndo cheio de graça na rudeza da paisagem. Espreitava-se a parte ribeirinha do Pinhão e a sua ponte, abarcavam-se montes e montes de vinhedos com solares de vigia, elos de estradas e calços de simétricas escamas em dorso gigante, tudo envolvido por um silêncio imponderável de fim de tarde que dava a impressão do lento esmorecer de um gemido longínquo. Ele era, de facto, dali. Conhecia aquele recomeço do viço, os cheiros da erva e da terra ressuada, aquela doçura de promessas de frutos e a alegria das maias a repelirem o diabo. Era dali, mas, às vezes, julgava-se estranho àqueles rumores dos trabalhos e das vozes das gentes; àquela orografia ondulada de proporções colossais, sideral e terráquea, tão compacta e eloquente que agitava a alma.

- Era a minha Mãe – informou o Artur quando se lhe voltou a juntar.

- Podias-lhe ter telefonado, mal chegaste. Estás à vontade.

- Eu sei. Passou-me.

- Está tudo bem?

- Telefonou para saber se tínhamos chegado direitos. O resto não sei... Isto é mesmo bonito... Aquilo lá no alto o que é?

- Não estou a ver.

- Aquelas bolas suspensas nos fios.

- Ah! dizem que é por causa dos aviões.

- Olho para isto como se não tivesse nascido aqui, nem memória tenho.

- Amanhã vamos à tua terra.

- Nem penses. Irei lá, se for, quando já ninguém se lembrar de mim.

- Não queres ir pôr flores no teu Pai?!

- Claro, mas isso é diferente. O cemitério fica desviado da aldeia e não há olhos a cheirar. Aborrecem-me as perguntas de saco, estou mesmo a imaginar, como vai a Mãezinha, foi uma pena o Paizinho, e o Menino anda bom?, nunca mais cá vieram... Como se estivessem a tirar a pele a um gajo, a despir as misérias familiares... E se encontrar por lá a beata, a quem a minha Mãe manda, todos os meses, dinheiro para o arranjo da campa, ainda durmo lá. É uma chata que nem imaginas.

- Eu acho graça a isso... É como se todos fossem da família.

- Família?... Não alinho muito nessa coisa do mito da franqueza aldeã. São implacáveis, não perdoam nada, e cilindram qualquer um sem dó nem piedade. Não se pode dar um peido que toda a gente sabe e, se gostarem de ti, em vez de um dás cem...

- Gente ruim há em todo o lado. Não encontras, na cidade, a ajuda das pessoas daqui. Estás a encruar, falas como um citadino. Claro que lá passamos despercebidos, somos um número, aqui temos um nome, um passado...

- E futuro... Um futuro do caralho...

- O futuro somos nós que o fazemos...

- Deixa-te de merdas... Não me venhas com frases feitas. Quem gosta da agricultura é masoquista. Desde que perdi o meu Pai, perdi a terra. Com ele morreu tudo. Quando a minha Mãe resolveu vender a casa e as terras ao meu Tio até fiquei satisfeito, assim como se me libertasse de um fardo, como um namoro antigo desfeito por uma traição intolerável, entendes?...

- Podíamos dar uma volta enquanto falamos. Que dizes?

- Ver o quê?...

- Pedras, lagartixas, vinhas, oliveiras, um sabugueiro perdido, gente suada, canalha com ranho, mulheres emprenhadas, borrachões, raparigas sem cremes...

- João, vê se te acalmas...

A Mãe, com um xaile verde azeitona sobre os ombros para se resguardar da fresca do entardecer, desceu as escadas da cozinha, enxotando o Leão que, aos pulos, a envolvia em afagos.

- Vou à Senhora do Monte – insinuando a informação num convite.

- Estava precisamente a dizer ao Artur para irmos dar uma volta... Deixe, eu levo-lhe a chave – disse João.
Continua...

- De M. Nogueira Borges* extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória".
  • Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "ForEver PEMBA". *Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua. A imagem ilustrativa acima, recolhida da net livre e composta/editada em PhotoScape, poderá ser ampliada clicando com o mouse/rato.