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terça-feira, 7 de maio de 2013

O Aprendiz de Feiticeiro

Foi há cerca de quinze dias que aqui falei na casa do Bernardo Perdigão, a que ficava lá em cima, no monte do Maio, bem pertinho da minha casa paterna. Também falei na violência doméstica que ali se ia vivendo, no dia-a-dia, com a mulher do Bernardo, a Engrácia, a mandar de lá, pela tardinha, uma grande gritaria com muitos pedidos de socorro. Mas, no dia seguinte a Engrácia vinha por aí abaixo a encher um bom caneco de água da mina e não mostrava sinais de tal violência, fosse uma quebradura de ossos ou as marcas de quaisquer pisaduras. E, de caneco à cabeça, a Engrácia ia subindo, upa, upa, toda a meia encosta do monte Maio, a falar sozinha como que a castigar o cansaço, sei lá se a quebrar um enguiço que andasse lá por casa, numa desarmonia de mau viver.

Enquanto isso, o Bernardo entretinha-se lá por casa sempre atento ao granjeio de duas ou três pipas de vinho e a tratar do “vivo”. O “vivo” eram alguns coelhos metidos num caixotão e de madeira mal-cheiroso, com uma tampa de rede por cima e por via da doninha ou da comadre raposa.

O Bernardo, mais do que mostrar o embardamento da vinha, gostava de mostrar as coelhas paridas com os filhotes ainda mamotos de volta das tetinas. Era como se ele próprio fosse um pai-coelho e não o pai-perdigão que nunca foi.

No exterior da casa, rés vés a porta de entrada, era a cozinha, um simples acrescento de cobertoira alpendrada e onde o Bernardo todo se envaidecia a mostrar a engenhoca de um bom fogo. O engenho, se calhar copiado, era um caneco de lata sem fundo, cheio de serrim, com um pau de vassoura aprumado no centro. Retirado o pau do serrim bem compactado, ficava em seu lugar uma estreita chaminé como se fosse o respiráculo de uma boa tiragem e boa oxigenação. O lume era atiçado no fundo da chaminé e a combustão ia-se fazendo muito lentamente sem grande consumo do serrim. No alto, na boqueira da chaminé, a chama era tão silenciosa, tão azul e tão pura, digamos que tão cheia de frescura, que até apetecia embrulhá-la e trazê-la, a bom recato, como amostra de um bom fogo lareiro, fogo sem carvão, sem lenha de pinho nem carqueja, apenas ateado com uma poalha de serrim.

A propósito de fogo, bem me lembro que por uma tarde afogueada de Estio, o Bernardo teve a feliz ideia de me oferecer, a mim e a outros companheiros de aventuras, a fresquidão de uma boa limonada. O refresco foi servido num daqueles jarros de esmalte que se punham, cheios de água, ao lado do lavatório de ferro, tanto para lavar o surro das mãos como a remelosa sujeira do, com licença, focinho. Se o refresco viesse numa caneca de vidro transparente a mostrar a turvação do açúcar e dos limões espremidos, mesmo numa dessas infusas de barro preto ainda com saibo de água-pé, vá que não vá. Mas, servido assim no jarrão do lavatório, de mais a mais mexido e remexido com um pedaço de cana, isso foi o que foi. Foi o melhor do nosso contentamento e do nosso saudável companheirismo. O Bernardo, muito satisfeito, com todas as  bem querenças da sua franca ruralidade, mostrou-se desapegado das doçuras da limonada e foi-se chegando ao seu quartilho de vinho e ao palavreado das suas crónicas já requentadas.

Agora, como quem se confessa ou como quem se diverte com as benzeduras e as cartomancias da Engrácia, direi que a minha música é muito minha, desde os meus verdes anos. É toda ela uma partitura clássica, envolvida de acordes eruditos. Direi ainda que em algumas peças musicais, as que considero mais figurativas, tenho por costume ilustrá-las com imagens cinemáticas que me são próprias e são da minha lavra. Assim foi, por exemplo, com o “Poeta e Aldeão”, a “Dança Macabra”, o “Capricho Italiano” ou o célebre “Bolero”, o de Maurice Ravel.

Pois foi já há umas décadas que idealizei um filme para ilustrar o “Aprendiz de Feiticeiro”, um interessante scherzo sinfónico do compositor Paul Dukas e baseado num texto de Goethe. Eu, por mim, achei que a dinâmica dos cenários ficava muito bem na ilustre casa do Bernardo Perdigão. Ali só havias trastes da cozinha, os alguidares, os potes, as panelas e as infusas e, a um canto, os utensílios da lavoura, o pulverizador, a  podoa, a sachola, o serrote de ponta e algo mais. Havia um gato preto retinto, afeito às assombrações, e havia, no caibramento do tecto, uma grande teia de aranha, a enredar o melhor dos cenários.

Não havia era o instrumental de qualquer orquestra, fosse o naipe das madeiras, das cordas e dos metais, com alguma percussão a tempo e horas. Sem pandeiretas, assobios, pífaros ou berimbaus, só com sentoiras e cutelos, com tachos e tigelas, eu podia fazer de conta e podia divertir-me com o “Aprendiz de Feiticeiro”.

O aprendiz entrou na casa do Bernardo pela calada da noite. Entrou com os primeiros compassos do fagote, coisa de nada, mansíssima, como quem se precata de olhos estranhos. De uma atrapalhação que, a princípio, parece desordenada, o aprendiz acabou por exprimir em música, com muita clarividência, toda a inspiração e particularidades estilísticas do compositor Paul Dukas.

A obra é um prodígio de orquestração, com uma bela harmonia de acordes e sonoridades. Eu, enamorado da boa música, feito retratista de fingimento, trouxe ao meu íntimo o testemunho de tempos idos, de mais a mais com os acordes do “Aprendiz de Feiticeiro”, os quais ainda ressoam na casa do Bernardo e da Engrácia. Esses acordes ainda se embebem de muita doçura poética e, mau grado a violência doméstica, tudo em volta me parece pacificado.

A modos de fingimento, chegou ao fim a partitura sinfónica do Aprendiz. O Bernardo e a mulher dormem já o sono da eternidade e até a casa onde viviam é agora o pequeno chão de algum vinhedo, a desabrolhar primaveras.
- Por Manuel Braz Magalhães
"O Aprendiz de Feiticeiro (1897), poema sinfônico de Paul Dukas (1865-1935), inspirado no poema homônimo de Goethe e composto em forma de Scherzo. Executado dia 06 de maio de 2012 pela Orquestra Filarmônica de Minas Gerais na Praça do Papa - Belo Horizonte, MG - BRASIL, como parte da série de concertos Clássicos no Parque."

Clique  nas imagens para ampliar. Texto enviado por Dr. José Alfredo Almeida (JASA). Imagens recolhidas da net e editadas para este blogue. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Maio de 2013. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos. 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Ainda no monte do Maio

No último artiguinho aqui publicado falei no monte do Maio e falei de tudo quanto a vista pode alcançar dali, daquele lugar altaneiro, um belo miradouro debruçado sobre o casario do Peso, sobre o vale de Jugueiros e toda a montanha de Loureiro com a ossatura bronzeada do Marão a servir de pano de fundo, na distância dos cenários.

Eu, amigo, de todos os horizontes e todas as lonjuras, tinha por costume subir até lá cima, ao monte do Maio. Isto nos tempos da minha juventude, como se quisesse deixar por ali as marcas do meu território e refazer o mundo das minhas aventurosas descobertas.

Adiante… Já me perguntaram se é fácil subir ao monte do Maio. Mas, vamos voltar lá, em busca dos longes revelados e a matar alguns velhos saudosismos.

Digamos, desde já, que o monte do Maio não tem acesso por estrada pública e só uns caminhos de consortes e umas escadinhas da meia-encosta lhe vão dando a necessária serventia. Digamos ainda que o monte do Maio não é altaneiro em demasia. Visto em altitude, é um arremedo de monte. Mas é um prodígio de vistas panorâmicas.

Tanto eu como meus irmãos, além doutras ocasionais fraternidades, tínhamos ali, mesmo no ciminho, o símbolo de todas as aventuras e que era um marco geodésico sempre caiadinho de branco e a que chamávamos o Pinoco.

Por esse tempo dizíamos que o Pinoco mirava outros Pinocos lá por longe, de monte em monte e que serviam para uma conveniente medição da terra. Também ouvíamos dizer que era por via da tropa e de uma qualquer estratégia militar.

Dito isto, vamos ali, a deslado do Pinoco, ver a casa do Bernardo Perdigão. Ele e a mulher a Engrácia, não têm filhos e vivem naquele meio desterro, afeiçoados a uma casa que não tem água nem tem luz. Mas é uma casa ainda altaneira, debruçada sobre o vale do Fontão e Remostias, ainda os baixios das Fontainhas com a sua antiga Capela das Sete Esquinas.

Em volta da casa do Bernardo tem o governo de duas ou três pipas de vinho, algumas árvores fruteiras e uma pequena horta de couve galega e outros renovos. Em tempo de chuva aproveitava as escorrências do telhado, para encher um pequeno tanque e os barris de sulfato.

O Bernardo é um homem de pequena estatura, muito pitoresco e todas bonomias. Gosta de nos receber e gosta de nos mostrar esta ou aquela curiosidade. A casa, soalheira por fora e um tanto enoitecida por dentro, é sobre o comprido, sem janelas e só uma telha de vidro em meio de telha vã dá alguma lumieira à espacidão da saleta comum. A cama de ferro, lá no fundo, está mergulhada numa quase penumbra e nem sei se é cama de bons-dias ou boas-noites. Avulta, na parede, um Cristo crucificado já enegrecido pela fumaceira do tempo mas donde parece irradiar um misto de luz e santidade num rosto descaído. Há ainda uma gaiola sem pássaro e há, no caibramento do tecto, um extenso dossel de teias de aranhas que, no dizer do Bernardo, é um bom sumidoiro de varejas, moscas, moscardos e mosquitos, a bem do aranhão.

Na mesa de comer está um lampião de faces vidradas, um candeeiro de petróleo, um jarrinha com flores de papel e um exemplar do Seringador que é uma distracção das escassas letras do Bernardo, ele que vai sabendo novas do calendário, a época das sementeiras, a sazão dos frutos e, por acréscimo, alguns anexins, de par com umas saborosas anedotas.

Nas meias tintas da casa do Bernardo ainda se divisa um gato preto retinto, de olhos bem avivados de amarelo, a andar por ali por cantos e recantos, numa postura felina e sorrateira como que a querer escorraçar o diabo.

Do mais, o que se vê são os trastes domésticos, panelas e alguidares, canecas e pratos ladeiros, malgas e pequenas travessas, com o caneco da água de cozinhar e beber pousado numa banqueta.

A mulher do Bernardo, a Engrácia, é uma mulher lideira, alta, bem encorpada, sempre vestida de preto e dizem que dada a feitiçarias e bruxedos. Tirante uma ferradura pregada no tabuame da porta, nunca vi por ali amuletos nem registo de lengalengas ou ladainhas distorcidas. Mas o Bernardo, meão de estatura, esse é dado à violência doméstica e quantas vezes vem lá de cima, pela tardinha, uma desenfreada gritaria da Engrácia.

Mas, no dia seguinte, a Engrácia vem à fonte encher um caneco de água e não se dá conta de que tenha quaisquer pisaduras, nem a cabeça escaqueirada nem sequer duas costelas metidas dentro. Como se a violência doméstica do Bernardo fosse uma violência bem domesticada. E a Engrácia lá vai, a subir os caminhos do monte, de caneco à cabeça e a falar sozinha, como que a castigar o cansaço.

Eu cá me fico, em descanso e a dialogar com a memória de outros tempos.
- Por Manuel Braz Magalhães, Abril de 2013. (conclusão em breve)

Clique na imagem para ampliar. Texto e imagem cedidos por Dr. José Alfredo Almeida (JASA). Edição de imagens e texto de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Abril de 2013. Também publicado no jornal semanário regional "O ARRAIS" edição de 17 de Abril de 2013. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Reencontro com o monte do Maio

A despeito de uma aposentação tão descuidada como preenchida, volta e meia deixo esta minha pousada de Lamego e vou por aí abaixo até à casa de Remostias. É como se quisesse deitar contas a esta vida transitória, saber ainda das raízes e das seivas elaboradas, de par com outras ideias e outras intenções.

De caminho, é meu costume passar ao lado da Régua-cidade e subir pela variante do Corgo. Meto depois pelas acanhadas ruas do Peso e são elas quem me dá os bons-dias ou as boas-tardes, em jeitos de saudação. Isto se não enfio pelas estreitas e esquinudas ruelas de S. Pedro ou S. João.

Mas, por desfastio ou por obrigação, entrei há dias pelo centro da cidade e quem me saudou foi a Avenida Antão de Carvalho que vi toda entaipada ao longo do passeio e à medida da velha Alameda Municipal.

Disseram-me que ai, na Alameda, se vai construir um centro cultural, ou coisa que o valha. O entaipamento, só por si, acabou por me tolher uma lonjura de cenários mas, vá lá, que será por pouco tempo.

Não sei se a propósito ou a despropósito, quando cheguei à minha casa de Remostias acabei por recuar no tempo, uns poucos de anos e mergulhei numa espécie de nostálgica moleza. Foram essas as minhas ideias e as minhas intenções.

Ao recuar no tempo, feito menino e moço, subi ao monte do Maio, mesmo ao ciminho do monte, ali onde está e permanece um respeitável marco geodésico. O que queria era sondar os horizontes, se assim se pode dizer, e queria sondá-los com olhos límpidos e vivaços, tal como era nos verdes anos da minha mocidade.

Tenho agora diante de mim, um desdobre de belos horizontes. Vistos assim, de frente e a céu aberto, o que vejo eu? Vejo toda a montanha de Loureiro, toda a incisura dos relevos que vai das soalheiras terras de Fontelas ao termo de Medrões e Sanhoane. O miradoiro de S.to António, no cocuruto, manda-me de lá um aceno convivente, talvez retorno de igual encantamento. No fundo, de lado a lado do sopé, é todo o enfiamento da estrada do Rodo, estrada de macadame a levantar grande poeirada à passagem de automóveis e camionetas, e ainda com uma constante chiadeira de um ou outro carro de bois.

Mas é a montanha que me desperta a vivacidade dos olhos deslumbrados. Do casario mais ou menos disperso, mais ou menos aconchegado, pode subir um fuminho das cozinhas, alguns quintalinhos serão de bom fruto e bom amanho, da vinha socalcada partem caminhos de serventia ou de consortes. Avulta, lá no alto, algum bosquedo de castanheiros e pinhal.

Se o vento vem do sul, vento de feição, ouço o palavreado rumorejante que vem lá dos rechãos de Godim e até oiço o silvo do comboio pouca-terra, a despedir-se do apeadeiro do Moledo.

Mas diz-me o sino da Igreja Matriz que são horas de despegar desta espécie de memorial, como que um regresso aos verdes anos da mocidade.
- Por Manuel Braz Magalhães, Abril de 2013.

Clique na imagem para ampliar. Texto e imagem cedidos por Dr. José Alfredo Almeida (JASA). Edição de imagens e texto de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Abril de 2013. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Diante do Fogo Lareiro

Vão muito quentes e muito secos estes primeiros dias de Setembro e lavraram incêndios florestais de norte a sul do país, com centenas e centenas de bombeiros a fazer-lhes frente, sem descanso e quase exaustos. Quem mo diz é a Televisão, que é incendiária de seu natural. Diz-mo a toda a hora, insistentemente, como a alimentar e a estimular a psicopatia dos pirómanos, assim refeitos e deliciados diante de muito espectáculo de fogo e labaredas.

Por momentos, estou sentado numa sala da minha casa paterna e tenho diante de mim uma rica lareira de aquecimento, uma lareira que por esta altura do ano se mantém varrida e extinta, como que em natural hibernação. Mas, nos dias mais frios e mais invernosos, a quentura da lareira não deixa de ser germe de convívio, de aconchego e até de boas memórias. Já o disse o saudoso médico e escritor João de Araújo Correia no prefácio do livro de contos Cinza do Lar. Disse esta bela frase: “Do monte de cinzas, quando se esborralha, surgem centelhas vivas que a imaginação exalça e multiplica.”

Por isso é que eu, nestes dias quentes de Estio, quero fazer de conta. Fazer de conta que esta lareira que tenho aqui em hibernação, diante de mim, é uma lareira de boa quentura e aconchego com um borralho de cinzas a estimular-me a imaginação e os afectos. Já comecei a remexer as cinzas do borralho e já desprendi centelhas e mais centelhas, algumas de uma vivacidade cintilante e outras já o seu tanto amortiçadas.

Uma das mais vivas até me pareceu figurar o meu bisavô materno José Braz Fernandes que está ali em fotografia antiga pendurada na parede mesmo ao lado da lareira. Tem umas barbas venerandas, quase patriarcais, e um olhar meio perdido nos longes do século passado.

E uma centelha mais brincalhona leva-me a pensar que eu, um bisneto ainda miúdo, estou sentado nos seus joelhos, a puxar-lhes as barbas, como que a divertir a tenrura dos meus anos.

Não conheci o meu bisavô mas dizem-me que ele foi o primeiro presidente dos nossos bombeiros e eu digo-lhe, à puridade, que quase vi nascer o actual edifício do quartel. Viu-o ainda no nascedoiro mas já uma sólida estrutura de betão, vigamentos, colunas, degraus e patamares sem reboco nem caiação, ainda sem grande serventia mas já a simular o que viria a ser depois, um belo e invejável edifício no tecido urbano da cidade. A frontaria é, por si só, uma expressiva legenda de vida por vida, digamos um brasão a distinguir qualquer soldado da paz. Uma frontaria de granito ricamente aparelhado, de mais a mais com a arte do bom cinzel. São todos os pormenores, todos os símbolos e alegorias, toda uma fachada a poder olhar, com olhos envaidecidos, o alto e incaracterístico prédio que lhe puseram defronte, como um intruso, a tolher a largueza dos horizontes.

Valha-nos que uma centelha vivaça vem agora a terreiro a rememorar a fanfarra dos bombeiros. É a refinada cadência das caixas, cadência batida e rebatida, é o som mais alto, mais gordo e estrondeado dos bombos, é o sopro aberto, metálico e vibrante dos clarins, toda uma explosão de sonoridades, de entusiasmo e de festa, sempre desdobrada em ecos repetidos.

Uma centelha também vivaça vem dizer-me que, na minha condição de médico, fui responsável pelo serviço de urgência do nosso hospital, semana após semana. Nessa conformidade, fui tendo sempre um convívio estreito, franco e amistoso com os nossos bombeiros. Com aviso da sirene ambulante ou mesmo sem aviso, os bombeiros traziam-me à urgência os casos mais variados, fosse um corpo estropiado, um coração desfalecido, uns copos mal bebidos, uma mulher de mau parir… às vezes umas sacholadas de instintiva ruindade como se a justiça popular, nem sempre aquietada, fosse o melhor modo de dirimir os conflitos, no terreiro das más consciências.

Os bombeiros traziam-me os “casos” e havia sempre um cumprimento ou um gesto de mútuo respeito e compreensão como se cada um de nós tivesse uma missão a cumprir, nos caminhos da solidariedade.

Do fogo quase extinto ainda surgiu uma centelha de breve cintilação a relembrar-me o incêndio que vi daqui de Remostias e da minha casa paterna nos altinhos do Peso. Foi mesmo no enfiamento dos meus horizontes e soube depois que tudo tinha começado no fogo brando duma lareira de pobres, uma daquelas lareiras onde se aquecem os potes do caldo e das batatas e dão até para aconchegar o gato à mornidão das cinzas.

Já não há nenhum borralho na minha lareira imaginada e só um ténue clarão, talvez um fogo-fátuo parece desprender-se do eterno descanso do meu bisavô.

Manuel Braz Magalhães
PS - Texto escrito em 4 de Setembro no português da minha escola e do qual não abdico.

Clique nas imagens para ampliar. Texto cedido pelo Dr. José Alfredo Almeida (JASA). Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Outubro de 2012. Também publicado no semanário regional "O ARRAIS" edição de 10 de Outubro de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. É proibido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue sem a citação da origem/autores/créditos.