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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Um dia, nome de rua

Clique na imagam para ampliar- "A fotografia regista no Salão Nobre do Quartel Delfim Ferreira o acontecimento: no dia 28 de Novembro de 1999, durante as cerimônias do 119º aniversário da Associação, a Liga dos Bombeiros Portugueses reconhecia o exemplo de vida do Comandante Cardoso com a última condecoração que lhe faltava receber, o Crachá de Ouro."

Camilo de Araújo Correia

A notícia da atribuição do Crachá de Ouro ao comandante Carlos Cardoso dos Santos, por parte do Conselho Executivo da Liga dos Bombeiros Portugueses, não me surpreendeu. Teve sim, o condão de me comover, ao ponto de cerrar os olhos por uns instantes. Instantes que chegaram para recordar 45 anos de amistosa relação com o senhor Carlos Cardoso Santos.

Há 45 anos era eu um jovem médico e ele um jovem funcionário do Hospital da Régua, ainda instalado no velho Solar dos Lemos e ao cuidado da Santa Casa da Misericórdia. Não precisei de muito tempo para dar conta de que o Senhor Cardoso, assim conhecido por toda a gente, era a encruzilhada de tudo o que acontecia no Hospital. Mesários, médicos, irmãs de caridade, doentes e pessoal de serventia, acabavam por ter de falar com o senhor Cardoso, por isto ou por aquilo… Isto ou aquilo, podia ser arranjar um remédio com urgência, redigir ofícios, prestar contas, dar uma explicação sobre os mais variados assuntos, resolver um diferendo, ler uma carta a um analfabeto, mudar uma lâmpada, ou tratar dos fusíveis…

Mas não e julgue que o inegável préstimo do senhor Cardoso lhe serviu para se engrandecer aos olhos de alguém. Tudo fazia natural e discretamente, como se receasse poder vir a receber qualquer das mais diversas expressões de gratidão. Ainda sem farda, tinha já alma de voluntário e no peito espaço para as medalhas que aí vinham. E vieram.

Tempos aqueles de vidas tão modestas que ainda hoje me aquece o bolso o primeiro ordenado. Foram trezentos escudos que o senhor Cardoso, como funcionário da secretaria, passou das mãos pobres da Misericórdia para as minhas, ainda a conhecer muito mal a cor do dinheiro.

Quando o Hospital de D. Luiz I se mudou para modernas e amplas instalações, julguei que o senhor Cardoso se iria reduzir às suas funções mais específicas. Muito me enganei. De uma vez, desabafou, assim, comigo o grande Provedor que foi Joaquim Augusto da Trindade Rodrigues:

- Não sei o que seria desta casa sem Cardoso…só é pena não ter mais um bocadinho de assento…

- Mas, senhor Trindade, que assenta pode ter uma pessoa sempre metida num enxame de exigências?

- Pois é… pois é… - concordou o senhor Trindade.

Não admira que o senhor Carlos Cardoso dos Santos, com tanta e tão aturada experiência de Misericórdia, viesse a ser um grande Provedor. Rodeado de um grupo de mesários, tão diligentes como devotados, deixou obra feita, nela avultando os modernos e carinhosos lares das nossas crianças e dos nossos velhos mais desprotegidos.

Não conheci tão de perto o mérito do senhor Carlos Cardoso dos Santos, como devotado Comandante dos Voluntários da Régua. Mas como reguense, atento e orgulhoso dos seus Bombeiros, posso testemunhar que nunca a nossa Corporação conheceu tão áureo período de eficiência, disciplina, diplomacia e expressão humanitária.


A Liga dos Bombeiros Portugueses deixa na honrosa farda do senhor Carlos Cardoso dos Santos um crachá de ouro. Cada reguense, ao abraçá-lo, lhe deixa no peito um crachá de fraternidade e gratidão.


Nota: Publicada no Jornal de Matosinhos, na edição de 17 de Março de 2000, esta magnífica crónica, além de ser um tributo à uma velha relação de amizade, é fiel  testemunho de quem melhor  conheceu as qualidades humanas  e os talentos do homem que, durante 31 anos da sua vida, serviu “com eficiência, disciplina e expressão humanitária”, a Corporação de Bombeiros e a comunidade reguense. A fotografia regista no Salão Nobre do Quartel Delfim Ferreira o acontecimento: no dia 28 de Novembro de 1999, durante as cerimônias do 119º aniversário da Associação, a Liga dos Bombeiros Portugueses reconhecia o exemplo de vida do Comandante Cardoso com a última condecoração que lhe faltava receber, o Crachá de Ouro.

Clique nas imagens para ampliar. Sugestão de JASA (Dr. José Alfredo Almeida) para este blogue. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em  Fevereiro 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Todos os direitos reservados. É proibido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue sem a citação da origem/autores/créditos. 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Memórias de Coisas Antigas

Abeilard Henriques Vilela

Convidado que fui a escrever sobre os nossos bombeiros, quero desde já alertar que não sou sequer um bom escrevinhador das letras portuguesas e muito menos ainda sou um razoável comentador.

A minha idade avançada - a roçar os 90 anos de idade - não me tem impedido, contudo, de escrever coisas com alguma ousadia, sobre lembranças que perduram na minha memória, as quais sempre pretendi expor com a verdade que defendo e tal como as sinto, aliás, tendo emigrado da Régua quando ainda era um rapazote, apenas guardo lembranças dos velhos tempos, embora consiga guardar, ainda, todo o meu interesse pela terra em que nasci e de que me honro e por toda a região do Douro, a que fiquei ligado por acontecimentos que me e motivaram e por outros menos significativos, mas que me ajudaram a abrir os olhos para à vida.

Lembro-me, por exemplo, das enormes cheias do nosso rio, que, naqueles meus tempos de menino, chegava a levar as suas caudalosas águas até muito escassos metros da rua dos Camilos, trazendo aos nossos bombeiros trabalhos da máxima urbanidade, que os glorificariam para sempre. Eram cheias espectaculares, que amedrontavam mais as gentes ribeirinhas, porque lhes levava os animais que as sustentavam, porque lhes derrubava árvores que faziam parte da sua vida, e levavam com a corrente toda a espécie das suas pequenas riquezas, abatendo-lhes as míseras casas que lhes serviam de habitação. E roubava, por vezes, vidas de gente estimável, como aconteceu ao Dário e ao seu irmão, dois jovens que viram o bote em que se deslocavam ser engolido pelo redemoinho que as águas faziam, ao encontrarem a ponte de pedra, que liga, hoje, os concelhos da Régua e Lamego. Iam os dois irmãos à caça dos patos, que os havia em tal oportunidade... Eram, de facto, impressionantes tais cheias, quando, então, o nosso rio metia medo e respeito.

Estou a lembrar-me também, de uma estranha pergunta que fiz ao meu tio (António Monteiro) sobre os quilómetros de fios que nos passavam sobre as cabeças, estranhando eu na minha insensatez a sua resposta, informando-me que levavam energia eléctrica para a região do Porto. Perguntei-me a mim próprio porque o Porto nos levava a energia, quando nós, na Régua, ainda só tínhamos a luz de carboneto e em muito pouca quantidade... Já, ontem, levavam a nossa electricidade em condições tão precárias, como, hoje, nos levam o vinho do Porto, deixando toda a nossa região coberta com os mantos dos pobres! Injustiças e abandalhamentos, abusos e desprezo para as nossas gentes, que tão dura e dificilmente vivem a vida!...
Mas, referindo-me, agora, aos bombeiros da Régua, guardo uma especial recordação, qual é a de, numa certa manhã - teria eu uns 12 anos, talvez em 1934 - ter visto o meu avô materno (Gaspar Monteiro), face a um princípio de incêndio que se declarara num telhado da casa que habitávamos, subir arrojadamente ao mesmo telhado, através de uma janela e, apesar dos mais de 80 anos que já teria, ter apagado, sozinho, as chamas com um extintor, que ele, antecipadamente, fôra buscar ao aquartelamento dos nossos bombeiros, então situado num exíguo pátio que estava ligado à rua dos Camilos, por um pequeno e estreitíssimo quelho. Admirado com a sua destreza, foi nessa altura que tive conhecimento que ele, o meu avô, fôra pouco tempo antes o comandante da humanitária corporação, o que bem me explicava o seu desusado comportamento, apesar do pedido de todos os seus familiares presentes, que temiam uma queda, um acidente complicado. Aproveito para comparar a estranha colocação do quartel naquele quelho, porquanto qualquer movimentação das viaturas se tornava tremendamente difícil e demorada. Que comentários se fariam hoje?

Mas não pretendo falar da acção do meu irmão, do Dr. Júlio Vilela, como presidente dos nossos bombeiros, porque me parece que muito pouco poderia acrescentar para mais lhe acrescentar na boa memória de que continua a gozar, apesar dos muitos anos passados sobre o seu inesperado falecimento. Sei que deu toda a sua fôrça e inteligência, que pôs ao serviço dos seus conterrâneos e, naturalmente, da corporação a que teve a honra de presidir. Advinho quanto o meu irmão apreciaria o reconhecimento das pessoas pelos serviços que, também voluntariamente, lhes prestou.
Para finalizar, pretendo, ainda, aproveitar esta oportunidade para lembrar a figura benquista de Carlos Cardoso dos Santos, de quem fui amigo do coração. Conhecemo-nos como alunos do Colégio de Lamego, para onde eu fui transferido inesperadamente, por morte de meu pai. A partir daqui, fomos, na juventude, companheiros de todos os dias e, quando na Régua, gostávamos de percorrer quilómetros e quilómetros de estrada, conversando horas seguidas, ou fazendo desvios pela margem esquerda do nosso rio, tomando banhocas à revelia das nossas famílias, que temiam as muitas ratoeiras que, traiçoeiramente, uma vez por outra, vitimavam outros rapazes. As conversas que todos mantínhamos, uns com outros, forjavam sólidas amizades, que se manteriam pela vida em fora. Eram uma prática que foi caindo em desuso, tornando mais frágeis os laços sociais, para o que terá contribuído em muito o aparecimento da televisão, dos bares e outras actividades afins, talvez menos canseirosas e exigentes. O Carlos Cardoso foi dos poucos jovens do meu tempo que se fixaram na Régua, onde, então, veio a exercer destacadas missões de carácter humanitário, como foram as prestadas na Misericórdia e, principalmente, nos bombeiros, de que, por anos e anos, foi seu inestimável comandante.


Lembro-o com saudade, como lembro outros bons companheiros da minha juventude, guardando uma especial referência para o Rogério, abatido dos vivos pela assassina tuberculose, que, então, todos receávamos, porque ainda não tinha chegado o tempo dos anti-bióticos, descobertos posteriormente, e que constituíram uma verdadeira revolução para a medicina. A morte do Rogério, com 32 anos de idade, foi um golpe para todos nós, que o víamos como um extraordinário jogador de futebol, além de que era também uma excelente pessoa e um estimável companheiro. Eu e o Carlos Cardoso, um pouco mais novos do que ele, olhávamo-lo como nosso especial conselheiro, que o era de facto. Enfim, tempos que não voltam mais, mas que, uma vez por outra, relembro com muita saudade, e que fôram os da minha primeira formação, aquela que me manteve sempre ligado à minha região, ao Douro, ao nosso rio, aos nossos costumes tradicionais, aos montes e vinhas, que, tudo considerado, me transformaram no homem que sou, nas suas qualidades e defeitos.

Eram outros tempos, mas, como foi bom vivê-los!

Nota - O nosso muito obrigada, mais uma vez, ao senhor Abeilard Henriques Viela pela sua generosa partilha no Arquivo dos Bombeiros da Régua de tão preciosas e fiéis memórias que, numa saudável nostalgia, evocam com muita ternura e admiração grandes e inesquecíveis figuras da história da Associação. A saber e a gravar o seu nome em letras de ouro: Gaspar Henriques Monteiro, um bombeiro da velha guarda; Dr. Júlio Vilela, um dos melhores Presidentes de Direcção de sempre e o saudoso Comandante Carlos Cardoso.

- Colaboração de texto e imagens do Dr. José Alfredo Almeida e edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro". Clique nas imagens acima para ampliar.
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Memórias de Coisas Antigas
Jornal "O Arrais", Quinta feira, 23 de Junho de 2011
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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

LOURENCINHO

Nas velhas de caixas de madeira, onde se guardam os documentos da AHBV do Peso da Régua encontramos, por mero acaso, uma carta com a alusão de particular, datada de 18 de Agosto de 1959, endereçada ao Lourencinho, como era conhecido pelos amigos, o Comandante Lourenço Pinto de Almeida Medeiros que, desde 1949, estava a comandar os Bombeiros da Régua.

Se a carta fosse correspondência particular, como sugere o seu cabeçalho, ou revelasse segredos privados e de foro íntimo da privacidade dos destinatários, não teria interesse em dar conta da sua existência nem sequer em divulgar o seu assunto.

Nada disso está em causa nesta invulgar carta que o tempo não esqueceu. O que se escreve nela é um tema ainda actual. A direcção, como órgão social da administração da Associação, tem a obrigação de escolher o comandante entre as pessoas mais qualificadas, assim como o pode substituir e exonerar, dentro de critérios aceitáveis e justos.

Ora, o assunto abordado, com a máxima cordialidade, diz respeito as relações entre a direcção e o quadro de comando dos bombeiros. Como matéria da gestão da Associação não deixa de ter um interesse público e, sobretudo, um valor histórico. Documento de rigor e maior precisão dos factos, esta carta pode ajudar a entender as vicissitudes de uma determinada época, a mentalidade e capacidade dos dirigentes e dos seus bombeiros, as soluções encontradas para resolverem um dos problema mais complicados, como é o processo de nomeação de pessoas no cargo de comandante. O assunto desta carta estava relacionado com uma difícil e atribulada sucessão de um comandante, que apesar dos seus 80 anos de idade, não queria abdicar das suas funções.

Quem escreveu esta missiva, num registo penoso e sofrido, pensada nas palavras e nas ideias, não assinou a cópia que zelosamente um funcionário administrativo arquivou. Lendo-a com atenção, a correcção e urbanidade do seu estilo, a cordialidade, pensada para não melindrar vontades, denuncia ser o Dr. Júlio Vilela, distinto advogado, o seu autor, que era o presidente da direcção. As suas palavras são o retrato de um dirigente inteligente que, com diplomacia procurava uma saída que não magoasse o comandante Lourencinho, que não queria não ver que o seu tempo tinha acabado. Ela testemunha um caso, onde prevaleceu o bom senso, pelo que vale a pena fazer a sua completa transcrição:

“PARTICULAR - 18 Agosto 59

Meu Caro Lourencinho:

Há já mais de três anos que o Inspector de Incêndios da Zona Norte insiste com a Direcção da Associação no sentido de o meu Ex.mo Amigo passar ao quadro honorário.
Como sabe, nunca diligenciei junto de si dar execução a esse desejo, pois sempre procurei poupar-lhe qualquer incómodo.
Como o Inspector tivesse dado conta de que não me propunha tomar uma iniciativa dessa natureza, acabou por nos negar, no ano presente, a concessão de qualquer subsídio, invocando para tanto a circunstância de nos termos recusado a realizar a sua substituição.
É claro que, ante uma medida tão altamente prejudicial para os interesses da Associação, procurei avistar-me pessoalmente com ele e, após demorada entrevista propôs-se ele convidar o meu Ex.mo Amigo a ingressar no quadro honorário, no que, segundo, afirmou, cumpria as directrizes dimanadas do Conselho Nacional do Serviço de Incêndios.
E assim, no dia 8 do mês corrente recebi um ofício do Inspector que acompanhava a cópia de um outro dirigido ao Lourencinho e tendente à sua passagem voluntária ao quadro honorário.
Durante alguns dias aguardei o recebimento da petição respeitante a essa passagem, mas, até ao presente, nenhuma comunicação me foi sequer dirigida.
A pressa com que aguardava esse recebimento filia-se na esperança de que o Inspector, efectuado o seu ingresso no quadro honorário, desse satisfação ao subsidio por nós solicitado.
Como o tempo passou e me cabe a responsabilidade de velar pelos interesses da Associação, decidi convocar reunião extraordinária da Direcção, afim de o caso ser, apreciado e ter uma solução adequada.
No decorrer desta reunião, alvitrei que ela se suspensa, pois pretendia dirigir-me ao meu amigo e contudo o que aqui deixo relatado, no propósito de me auxiliar a resolver um assunto tão delicado.
Duas atitudes poderia tomar a Direcção substitui-lo ou demitir-se.
Mais facilmente ela optaria pela segunda, não certo é que a nenhum de nós anima o propósito de praticar qualquer acto que por si possa ser como traduzindo menor estima e respeito.
Quais as consequências, porém, a que conduziriam a nossa decisão sabendo que teríamos de expor as razões que a ditavam?
Por outro lado, onde iríamos desencantar as pessoas, cientes de antemão que lhes seria negado qualquer subsídio enquanto o Comando permanecesse o mesmo, estariam prontas a gerir os destinos da Associação?
O Lourencinho - o que dos dois é bem sabido – vota à Associação um carinho e uma dedicação que os seus 63 anos de serviço ilustram escancaradamente.
Não deseja, certamente, que ele venha a ser prejudicado pela forma que os factos claramente patenteiam.
Por isso mesmo, e com os olhos sempre postos na defesa dos seus interesses e no seu engrandecimento, peço-lhe embora recalcando a amargura que o deve tomar, que satisfaça o convite que pelo Inspector lhe foi dirigido, isto é, me enviar seu pedido de passagem ao quadro honorário, poupando-me assim a um desgosto sem par na minha vida.
Agradeço-lhe que me faça tal envio até ao próximo sábado, dia 22.
Entretanto, aceite os protestos de muita estima e consideração do….”

Não sabemos se esta carta chegou às mãos do Lourencinho. O mais seguro foi que a tenha recebido amarguradamente, e mais por estima e consideração, aceitava o conselho amigo para apresentar o seu pedido de passagem ao quadro honorário. Informava o jornal “Noticias do Douro”, de 30 de Agosto 1959, que a Direcção o tinha louvado e “que assim lhe quis prestar as suas sinceras homenagens, manifestando o seu desgosto por tal afastamento, só devidos a motivos de saúde”. A comandar os bombeiros ficava interinamente o Chefe Claudino Clemente, depois do 2º Comandante António Guedes ter recusado o convite de substituir o seu amigo Lourencinho.

A verdade, como agora se sabe, não era a que saía em forma de noticia para o público. O que era verdade, é que terminava ciclo e outro ia começar no comando dos bombeiros da Régua. O velho comandante não tinha preparado um sucessor para o seu lugar. A direcção procurava nomear um comandante que fosse “Comandante”, e não uma figura histórica. Em 3 de Outubro de 1959, com o visto do Inspector de Incêndios, o jovem Comandante Carlos Cardoso, com 35 anos de idade, tomava posse como comandante e, a partir daí, tudo ou quase tudo mudava, com novos métodos na formação e mais equipamentos de combate a fogos e de transporte de doentes.

O Lourencinho não teve tempo para ver as mudanças do seu sucessor. Morria triste e magoado, em 12 de Dezembro de 1959. Mas morria com a sua paixão pelos bombeiros. Se o tivessem deixado, o fim da sua vida seria numa camarata do quartel, ao lado dos bombeiros, que foram a sua grande família, a quem devotamente se dedicou ao longo de 63 anos.

O Lourencinho tinha alma de bombeiro, alistado em 1896, ainda no tempo da monarquia, tinha sido voluntário com alguns dos fundadores da corporação. A sua dedicação e carinho aos bombeiros fizeram acreditar que podia a ser um comandante para a vida inteira.

O velho comandante foi vítima de um sistema perverso. Se a intenção do Inspector de Incêndios de quer um novo comandante na corporação da Régua não se podia censurar, já o mesmo não se pode dizer do seu método para atingir esse fim, esse sem dúvida muito reprovável. A Associação merecia ser tratada como mais respeito. Dificilmente se entendia – mesmo ainda hoje – que Inspector de Incêndios tenha decidido, inexplicavelmente, não atribuir os devidos subsídios enquanto o comandante se recusasse a ser substituído. Como também, não devia ter ignorado os 63 anos de voluntariado do Lourencinho, a sua folha notável de serviços, onde sobressaía uma das mais altas condecoração do Estado, Cavaleiro da Ordem da Benemerência.
Foi isso que disse, por outras palavras, o escritor João de Araújo Correia ao evocá-lo num dos seus escritos do livro “Pátria Pequena”: “O Lourencinho, reguense nato, inteligência circunscrita a ideias intramuros, coração transbordante de paixões locais, Bombeiros e Festas do Socorro, foi excepção na Régua devido à sua ingénita delicadeza”.
- Colaboração de J. A. Almeida* para "Escritos do Douro" em Dezembro de 2010. Clique nas imagens acima para ampliar.
  • *José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também crónicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária, fatos do passado da bela cidade de Peso da Régua.
Jornal "O Arrais", Sexta-Feira, 17 de Dezembro de 2010
LOURENCINHO
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LOURENCINHO

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O verão quente… do Comandante Cardoso

É difícil imaginar do que falariam o Comandante Cardoso e o Adjunto de Comando Claudino Clemente, que nesse dia não vestiram as suas impecáveis fardas, enquanto no círculo mais imediato, o Chefe Armindo Almeida, o bombeiro auxiliar motorista António Pereira Araújo – conhecido por Rufino - e o senhor António Pereira, um distinto director da Associação, parecem seguir atentamente o fio dessa conversa.

Sabemos, no entanto, que estava preparado um jantar de confraternização, ao que parece marcado para a esplêndida Estalagem das Caldas do Moledo, uma velha e apreciada casa de turismo de arquitectura sóbria, situada naquele lugar termal, que desapareceu nas chamas de um violento incêndio, na noite de 31 de Maio de 1979. Depois desse grande fogo…. o Moledo começou também desaparecer. Sabemos também que a refeição foi acompanhada com vinho tinto e para a sobremesa, um doce de pudim.

A conversa parece interessante e o Comandante Cardoso mostra a atenção, como se estivesse a escutar um conselho do seu abnegado adjunto, um dos melhores e mais brilhantes bombeiros, alistado a 3 de Maio de 1930 na corporação. Quando o Adjunto Claudino Clemente faleceu, a 11 de Novembro de 1982, deixava também um rol de histórias dos bombeiros do seu tempo…por contar. Agraciado com as medalhas de mérito e de sacrifício, de uma e duas estrelas da Liga dos Bombeiros Portugueses, e a medalha de ouro, de mérito municipal da Câmara da Régua, pela dedicação e competência que sempre demonstrou ao longo de 50 anos de serviço, foi sem dúvida e no dizer dos seus antigos colegas “um homem que nasceu para ser bombeiro”.

Admite-se que Claudino Clemente estivesse a convencer o Comandante Cardoso dos malefícios de uma sua decisão que pensava tomar, à qual pela sua susceptibilidade não seria comentada com os demais bombeiros, para que tudo se resolvesse de forma discreta, com a salvaguarda do bom nome da instituição.

A decisão do Comandante Cardoso seria expressa numa carta dactilografada – recentemente encontrada nos arquivos - que dirigiu ao Presidente da Direcção da Associação, Dr. Aires Querubim de Meneses, a pedir a sua passagem ao quadro honorário que, dito por outras palavras, significava pedir a sua demissão de comandante dos bombeiros.

A carta tem a data de 24 de Julho de 1975. Redigida:

“ Exmo Senhor :

Presidente da Direcção da AHBV do Peso da Régua

As minhas ocupações profissionais, não me permitem, presentemente, dedicar-me inteiramente à Corporação que comando há mais de 15 anos.

Por tal motivo e nos termos do paragrafo 3º do artigo 5º do Capítulo I – Decreto nº 30 439, venho solicitar a V. Exª e da Exma. Direcção, a minha passagem ao Quadro Honorário, a partir de 3 de Agosto próximo, data em que me considero desligado do serviço e completo 15 anos e 10 meses de doação aos Bombeiros e a todos que precisaram da sua ajuda.

Com os protestos da minha maior consideração e reconhecimento por todas as atenções que sempre me dispensaram, apresento os meus melhores cumprimentos.

O Comandante Carlos Cardoso dos Santos”

Quando se sabe que o pedido de passagem ao quadro honorário nunca se concretizou, a carta não deixa de causar alguma estranheza… e muita perplexidade. Na verdade, por maior que seja o esforço, custa acreditar, ainda hoje, que o motivo invocado pelo Comandante Cardoso, corresponda à verdade. Antes se admite que seja uma justificação diplomática para não revelar a contrariedade sucedida. Ninguém acreditava, que em 1975, o Comandante Cardoso quisesse abandonar os bombeiros, para se dedicar apenas às suas “ocupações profissionais”, na secretaria do Hospital D. Luís I. Sem que fosse conhecida uma explicação verdadeira, continuava envolvida em mistério a sua decisão. A dúvida adensava quando se descobriu que a sua carta tinha ficado esquecida, no meio de papéis inúteis, sem interesse para a história e sem merecer da Direcção uma resposta, o que significava que o assunto tinha morrido ali...!

Mas, para se compreender este momento difícil da sua vida, tornava-se necessário conhecer quais os reais motivos que levaram o Comandante Cardoso a escrever essa carta e, depois, saber o que fez mudar de ideias, de não abdicar o seu lugar de Comandante dos Bombeiros da Régua.
Começamos por enquadrar a carta com os acontecimentos de 1975. De 11 de Março a 25 de Novembro, o país viveu a um ritmo alucinante, num clima entre o apaixonante e o assustador. Ideologias antagónicas e modelos de sociedade divergentes confrontavam-se na rua, contavam-se as espingardas nos quartéis, as greves paralisavam as empresas, os retornados das ex-colónias desembarcavam com poucos haveres, sucediam-se os golpes militares, faziam-se manifestações e comícios a toda a hora e as sedes dos partidos de esquerda eram assaltadas e saqueadas. Foi o verão quente de 1975, um período conturbado, em que o país esteve à beira de uma guerra civil.

Na Régua, o Comandante Cardoso viveu também, de uma outra forma, o verão quente… de 1975. Habituado no seu comando a resolver os problemas e conflitos disciplinares com autoridade, mas sem autoritarismo, não conseguiu evitar um lamentável incidente com um velho bombeiro. Os pormenores da discussão nem interessavam se não lhe tivesse chamado de “fascista”. O uso insulto era corriqueiro, usado por tudo e por nada com e sem conotações politicas. A intenção de o rotular de adepto do Estado Novo não fazia sentido, mas denegria-lhe a sua impoluta conduta cívica. O ambiente social da época, tenso e repleto de ódios políticos, provocava instabilidade no relacionamento pessoal. Ofendido pelo insulto, o Comandante Cardoso sentiu-se indignado, sem vontade de continuar no comando. Depois de se ter aconselhado, tomou a tal inesperada decisão de abandonar, de imediato, o comando dos bombeiros da Régua.

A resposta para outra dúvida é mais simples. O que o fez mudar de ideias, é aquilo que conhecemos da sua vida: a paixão pelos bombeiros. Foi essa paixão que o fez desistir do pedido da sua carta e continuar a comandar os bombeiros até ao limite da idade permitida nos regulamentos, em Março de 1990. Sem ele a comandar, a história da Associação não teria registado um dos importantes e gloriosos momentos, a memorável realização do 24º Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses.

Esta carta é um documento raro que se conhece do Comandante Cardoso para aqueles que o admiram como cidadão empenhado e comandante dos bombeiros da Régua, ao longo de 31 anos de serviço. Como bem escreveu, Damas da Silva, no seu livro biografia “O Comandante Carlos Cardoso”, confirma que os testemunhos escritos pelo comandante não abundam.

Se uma simples carta do Comandante Cardoso não ajuda a revelar as lacunas nem os espaços em branco da vida pode, ao menos, permitir avaliar uma das suas decisões mais imprevistas e inesperadas e, sobretudo, compreender melhor a grandeza humana e moral de um “cidadão de medida grande”, como alguém o definiu, para fazer sair da penumbra o que ficou menos iluminado no seu foro íntimo: a sua grande Alma.
- Colaboração de José Alfredo Almeida*, Peso da Régua, Setembro de 2010. Clique nas imagens acima para ampliar.
  • *José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também crónicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária, fatos do passado da bela cidade de Peso da Régua de onde é natural e de figuras marcantes do Douro.
Jornal "O Arrais", Sexta-Feira, 08 de Outubro de 2010
Arquivo dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua
O verão quente… do Comandante Cardoso
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O verão quente… do Comandante Cardoso

    sexta-feira, 27 de novembro de 2009

    COMANDANTE CARLOS CARDOSO - O livro

    UM CIDADÃO DE MEDIDA GRANDE (Prefácio)

    Esta edição é dedicada à personalidade de um homem de carácter e de um cidadão que aceitou a missão de liderar o corpo de bombeiros da sua terra, embora nada conhecesse sobre a realidade específica dos “soldados da paz”.

    Ciente da responsabilidade que assumira, elegeu a sua formação e a formação dos seus homens como prioridade, bem como passou a ser o primeiro a responder ao alarme da sirene do quartel. Justificava esta sua atitude dizendo que “O respeito dos subordinados conquista-se, não se impõe”. O mesmo é dizer, praticava a hierarquia do exemplo.

    Ao longo dos 31 anos em que exerceu o comando do corpo de bombeiros da Associação dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua, estabeleceu sempre com os seus homens uma relação de grande humanismo e proximidade.

    “Ao abeirar-se de qualquer pessoa em vista de alguma tarefa, fazia-o de tal maneira que ninguém juntava coragem para se negar. A sua presença no quartel enquadrava-se em espírito de camaradagem e de amizade. Exercia autoridade sem autoritarismo”, escreve o autor desta edição a propósito da liderança do comandante Carlos Cardoso.

    Julgo que este livro pode constituir matéria de grande utilidade para a reflexão que urge fazer, relativamente ao exercício da função de comando nos corpos de bombeiros de natureza associativa e voluntária.

    Existe uma indisfarçável crise de comando em alguns dos nossos corpos de bombeiros. Esta afirmação, que não agradará aos que se sentirem por ela visados, pode ser demonstrada pelo conhecimento que possuo hoje da realidade dos bombeiros portugueses. Há alguns comandantes para quem o seu corpo de bombeiros é secundário, em comparação com as missões que outras instâncias entendem confiar-lhes. Por isso, há bombeiros que, ao longo de dias sucessivos, não privam com os seus comandantes, que não os vêem nas acções de socorro a que são chamados a intervir, que não encontram espaço próprio para partilhar preocupações, problemas e anseios.

    Segundo o autor, “o comandante Carlos Cardoso tinha três paixões, a Régua, os bombeiros e a família”. Uma trilogia que caracteriza bem a matriz genética da história das associações humanitárias de bombeiros, dos seus corpos de bombeiros voluntários e dos homens e mulheres, com e sem farda, que os servem.

    Dois anos depois do comandante Carlos Cardoso ter falecido, a edição desta publicação constitui uma justa manifestação de reconhecimento pela obra pública de um cidadão, de um líder e de um bombeiro.

    A admiração que o autor revela ter pela personalidade do comandante Carlos Cardoso enriquece este documento, envolve-o numa auréola de paixão, esse extraordinário sentimento que constitui o betão que solidifica esta forma particular de ser bombeiro em Portugal.
    - Duarte Caldeira
    Presidente do Conselho Executivo da
    Liga dos Bombeiros Portugueses

    Nota - O livro "Comandante Cardoso" da autoria de Damas da Silva, da Garça Editores, vai ser apresentado dia 28 de Novembro pelas 15H00, no Salão Nobre do Quartel Delfim Ferreira.durante as comemorações do 129º aniversário da AHBV do Peso da Régua.

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    quarta-feira, 11 de março de 2009

    Um grande momento na vida do Comandante Carlos dos Santos (1959-1990).

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    Esta imagem é um verdadeiro ícone para os bombeiros da Régua e, especialmente, para a vida do Comandante Carlos Cardoso dos Santos (1959-1990). Um grande momento na sua intensa e dedicada vida de bombeiro, inesquecível para ele o viveu intensamente como um feito que marcaria a história da Associação Humanitária, no ano em que festejava o seu primeiro centenário de vida.

    Ele foi um dos protagonistas que mais desejou a realização deste grande evento nacional, que aconteceu no Peso da Régua, nos dias 10 a 14 de Setembro de 1980: o 24º Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses.

    Aqui vê-se, na Rua dos Camilos, emoldurada de uma enorme assistência de pessoas a assistirem, o Comandante Carlos Cardoso dos Santos, dentro do magnífico jipe Willy`s - que ele fora buscar aos bombeiros de Sanfins do Douro por troca com outro carro - a abrir o desfile motorizado dos corpos de bombeiros portugueses, em representação das 436 associações do país, que constituiu um dos pontos altos deste histórico Congresso.

    Para conhecermos um pouco mais da vida e da obra deste grande comandante no Corpo de Bombeiros da Régua (e na Santa Casa Misericórdia) podemos ler uma pequena biografia intitulada de homenagem, escrito pelo actual presidente da direcção da Associação, Dr. José Alfredo Almeida, – que co-apresentou a seu pedido esse seu livro - publicado na internet, no sítio http://bvpesodaregua.com.sapo.pt/), de onde destacamos este pequeno excerto:

    “Não permitiu o destino que eu tivesse a honra de ser director nos anos em que Carlos Cardoso dos Santos foi o Comandante dos bombeiros da Régua. Se eu tivesse tido essa sorte, sei que aprenderia com ele mais, do pouco que sei, sobre este mundo perfeito dos bombeiros. Porém, o destino gosta de nos pregar as suas partidas.

    E, no meu caso pessoal, essa partida foi ter convivido, alguns anos, com um seu grande amigo, um homem que também dedicou muito da sua vida aos bombeiros do distrito de Vila Real, o senhor Rodrigo Félix, um grande director da Federação dos Bombeiros do distrito de Vila Real e dos Bombeiros Voluntários da Cruz Verde que, certamente aonde estiver, lá no outro mundo, estará a sorrir de satisfação por ter contribuído para o reconhecimento público da vida de Carlos Cardoso dos Santos.

    Foi o Sr. Rodrigo Félix que, em princípios de Janeiro de 1999, me convenceu sem muitas explicações, para que a Direcção da Associação, por mim presidida, fizesse uma proposta à Liga dos Bombeiros Portugueses, de atribuição do “Crachá de Ouro” ao Comandante Carlos Cardoso dos Santos, então já no Quadro de Honra, como reconhecimento pelos seus dedicados 31 anos de comando do Corpo Bombeiros da Régua. A proposta, que mereceu o seu indiscutível apoio como Presidente da direcção Federação, seguiu o seu caminho e, como todos sabem, foi aprovada por unanimidade.

    Assim, em jeito de tributo, gostava de evocar o que esse amigo escreveu sobre o Comandante Carlos Cardoso dos Santos:

    “A Direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua enviou a esta Federação uma proposta aprovada em sua reunião de 17 de Maio do ano em curso, de condecoração, com o «Crachá de Ouro» da Liga dos Bombeiros Portugueses do Comandante no Quadro Honorário do seu Corpo de Bombeiros, Senhor Carlos Cardoso dos Santos. Pode, assim verificar-se que o Senhor Carlos Cardoso dos Santos prestou serviço activo durante cerca de 31 anos e já se encontra no Quadro Honorário há 9 – 40 anos de serviço.

    Pode, ainda, verificar-se a acção desenvolvida na sua Associação e no Comando do seu Corpo de Bombeiros, de tal forma brilhante, que mereceu o reconhecimento da Câmara Municipal do Peso da Régua que lhe atribuiu a Medalha de Prata do Município.

    Com efeito, de uma educação esmerada, dialogante, de excelente trato, cumprindo as missões com uma entrega total, o Senhor Comandante Carlos Cardoso dos Santos foi sempre um exemplo como homem e como Bombeiro.

    Durante três décadas tudo deu de si em prol do Bem Comum com verdadeiro espírito de voluntariado, muito contribuindo com o seu exemplo, para o bom-nome e prestígio da sua Associação e Corpo de Bombeiros.

    A nível do Distrito, foi sempre respeitado e tido como um dos melhores Comandantes de Bombeiros, entre os vinte e sete Corpos existentes.

    Penso, sinceramente, que nestas palavras que acabei de citar o meu amigo Rodrigo, disse tudo que o autor do seu livro, o Manuel Igreja, não disse nas 31 páginas, nesta parte do Comandante.

    Ainda bem, que deixou algumas coisas da sua vida por contar, pormenores que, mesmo em traços largos, encheriam muitas mais páginas. Para mim, foi uma oportunidade, de poder revelar pela, primeira vez, palavras verdadeiras e sinceras em seu reconhecimento, que serão ouvidas aqui, e neste momento da sua vida, pelo Comandante Carlos Cardoso dos Santos com muita emoção. Mas, que são-lhe devidas”.

    Devemos ainda recordar que Carlos Cardoso dos Santos tomou posse como comandante do Corpo de Bombeiros da Régua, em 3 de Outubro de 1959. Era um jovem, tinha apenas 37 anos. A direcção da Associação que o escolheu para comandante era constituída por Dr. Júlio Vilela, o seu presidente, José Pinto da Silva, Noel de Magalhães, Alfredo Baptista, Augusto Mendes de Carvalho e Teófilo Clemente.

    O Comandante Carlos Cardoso dos Santos ia ocupar o lugar deixado, por limite de idade, pelo um outro grande homem e comandante, Lourenço Pinto de Almeida Medeiros (1949-1959), um “senhor delicado” que tinha dedicado a sua vida ao serviço dos bombeiros da Régua.

    Carlos Cardoso dos Santos permaneceu no comando do Corpo de Bombeiros da Régua até 1990, cumprindo 31 anos de serviço dedicados à causa do voluntariado nos bombeiros, prestigiando o nome da sua Associação. E, durante vários anos, exerceu cargos sociais na direcção da Federação dos Bombeiros do distrito de Vila Real e representou, como conselheiro nacional, os seus bombeiros nos órgãos da Liga dos Bombeiros Portugueses. O seu nome era conhecido, respeitado e muito admirado pelos seus pares, como um dinâmico, inteligente e experimentado comandante.

    No ano de 1999, no decorrer das comemorações do 119º aniversário da Associação, o Comandante Carlos Cardoso dos Santos, integrado no Quadro de Honra, foi reconhecido e homenageado pela direcção da Associação, com a atribuição do Crachá de Ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses, entregue no Salão Nobre do Quartel Delfim Ferreira, pelo Governador Civil de Vila Real, Dr. Artur Vaz.

    Esta sua fotografia…

    é a de um homem bom que viveu uma vida cheia e feliz (1922-2007), apenas em serviço exclusivo do nosso Bem.

    Esta fotografia…

    é a de um grande comandante dos bombeiros da Régua, que fez e marcou a história do seu tempo. Deixou-nos para recordar muito momentos dias de glória e de honra ao serviço dos bombeiros, ainda presentes na memória de todos que com ele caminharam durante três décadas, como é o caso da organização exemplar do 24º Congresso – o conhecido e histórico Congresso da Régua -, para um dia se recordar aos mais novos.

    Carlos Cardoso dos Santos foi um homem de enorme generosidade. É impossível esquecê-lo pelo que fez nos bombeiros da Régua. Diria melhor: pelo que fez a todos os reguenses.

    O seu último adeus aconteceu em 28 de Outubro de 2007. Voltou ao seu Quartel - onde o seu corpo esteve em câmara ardente - e aos seus bombeiros, que o levaram num caixão aos seus ombros, de lágrimas nos olhos, até à sua última morada, no cemitério do Peso.

    Temos a certeza que Deus o escolheu para o ter na sua infinita paz. Pelos seus valores como homem e como um valente bombeiro…da Régua! - Peso da Régua, Março de 2009, José Alfredo Almeida. (Texto revisado e ampliado em 25 de Setembro de 2009)