quarta-feira, 6 de novembro de 2013

NOVO CICLO

Ao folhear O Arrais de 16 de Outubro de 2013, um leitor minimamente atento terá notado uma diferença considerável. A página 5, ou 6, não trazia notícias sobre os Bombeiros da Régua, como vinha sendo habitual, de há uns três anos a esta parte.

Percorrendo os periódicos locais, a presença noticiosa dos nossos Bombeiros não abunda. Anos há em que as suas notícias se reduzem à convocatória da Assembleia-Geral e, repetitivamente, à reportagem da celebração do seu aniversário. Em boa hora, o Dr. José Alfredo Almeida deu início e corpo continuado a uma página de memórias dos nossos Bombeiros. Podemos fazer alguma ideia de quanto trabalho, dedicação e pesquisa essa larga centena de páginas encerra. Para o efeito, criou um formato, um figurino, que se repetiu em cada publicação. É fácil que uma tão longa repetição tenha causado cansaço e tenha desmotivado alguns leitores para a respectiva leitura. Principalmente em tempo de tão acentuada mobilidade, não há nada a lastimar. Estaremos diante dum simples contratempo que levará a repensar, a inovar e a partir para outro tipo de comunicação mais próximo dos leitores.

É bom recordar, é bom ter presente o exemplo dos maiores, mas não deixa de ser bom valorizar o presente, acautelá-lo e preservá-lo. Os homens e mulheres do presente também têm inscritos no seu registo biográfico atos de bravura, desentendimentos que foram capazes de superar, vitórias que os conduziram ao progresso. Pela sua proximidade tornam-se mais palpáveis, mais reais, diremos. Afinal os heróis são de carne e osso iguais aos dos mais novos, sujeitos ao perigo e à morte, que souberam enfrentar, contornar e vencer pela força dum ideal: o voluntariado a favor de pessoas necessitadas. À medida que o tempo vai lançando a sua patine sobre os feitos gloriosos, estes vão dando entrada no mundo da mitologia. Passam a ser mitos, que já carecem da força mobilizadora dos que estão próximos. Precisam de ser reencarnados por gente do nosso tempo, por gente que se pode tocar e abraçar e que também é capaz de realizar atos de nobreza.

Com dedicação igual à que o Dr. José Alfredo Almeida pôs na organização das memórias dos Bombeiros para conhecimento público se poderá encontrar material atual, da actividade do dia-a-dia do Corpo Activo e da Fanfarra, capaz de manter e avivar os fortes laços afectivos que enlaçam os Bombeiros e a população do concelho e lhes granjeiam enorme prestígio em toda a Região e no País.

As celebrações festivas dos Bombeiros fazem pairar no ar um halo de felicidade, de entendimento, de perfeição. Porém, o calcorrear diário do caminho revela os atritos, os desencontros, talvez as desilusões, coisas que sempre houve e sempre haverá em qualquer associação.

Em 1975, pouco mais de um ano após a Revolução dos Cravos, por isso tempo política e socialmente quente, Carlos Cardoso era o comandante dos Bombeiros, José Melo era quarteleiro. Para o tempo, ambos de elevada importância na orgânica da Associação. O comandante era quem tudo decidia, talvez com maiores poderes práticos que o próprio presidente. Pelo quarteleiro passava toda a vida quotidiana do Quartel.

Certo dia, ao que consta, José Melo disse na cara de Carlos Cardoso que ele “era um fascista”, grande ofensa e grande desonra, na altura. Carlos Cardoso levou muito a mal. As posições extremaram-se ao ponto do “ou ele ou eu”, fazendo valer a importância que cada um sabia ter na instituição.

Ora, a ata da reunião da Assembleia-Geral de 10/7/1975 informa-nos que falou muita gente, mas não havia meio de se chegar a uma solução, até que surgiu um grupo de dezassete homens do Corpo Activo que propôs e se comprometeu a integrar uma comissão de entendimento, porque “não se queriam ver privados de nenhum daqueles homens. Eram demasiado importantes para ficarem sem qualquer um deles. Se isso viesse a acontecer, todos eles pediriam a demissão”. Esta comissão assumia o compromisso de conseguir o entendimento entre os dois desavindos, no prazo de trinta dias. As atas deixam ficar o assunto por aqui, mas o conflito veio a resolver-se, pois tanto o comandante como o quarteleiro eram pessoas demasiado nobres para não responderem positivamente ao ato de bravura dos homens do Corpo Activo.

Manuel Gouveia, que foi comandante dos Bombeiros, entrou para a Associação muito novo, subindo, degrau a degrau, até ao topo. Teve como mestre o comandante Carlos Cardoso. A estatura de Carlos Cardoso como comandante era incomparável e inquestionável, o que o levou a exercer o cargo, por vezes, acima dos órgãos eleitos para a Direcção. Manuel Gouveia entranhou esta importância do quadro de comandante. Recebeu muitos louvores, de variados organismos. Acumulou o cargo de quarteleiro. O seu valor como técnico era reconhecido por todos. Incontestável. Quando chegou ao fim do seu mandato, pretendeu ir além da legislação em vigor e da decisão da Direcção. Tinha chegado ao limite de idade. Tanto a legislação como a Direcção eram contrárias à sua continuação como comandante. Aqui, Manuel Gouveia tropeçou. Não conseguiu colaborar com os poderes instituídos na passagem do testemunho para gente mais jovem. Nisto não foi capaz de copiar o mestre.

Apenas dois casos quentes na vida dos nossos Bombeiros, airosa para todos, no primeiro caso, airosa para a instituição, no segundo caso, mas desagradável para o protagonista em causa.

Como estes, muitos mais casos se poderiam trazer à ponderação. O certo é que os Bombeiros têm sabido e têm sido capazes de superar estas situações de desentendimento, têm seguido em frente e têm conseguido progredir. Apesar de todas as dificuldades, apesar de todas as carências e apesar de todas as crises, os Bombeiros da Régua não se têm deixado vencer, sempre têm vencido, têm progredido, crescido e aí está uma corporação de grande valor material e humano. Esperamos que assim vão continuar a ser, no futuro.     
- Damas da Silva, Novembro de 2013.

Clique na imagem para ampliar. Imagem e texto cedidos para este blogue pelo Dr. José Alfredo Almeida (JASA). Edição de texto e imagens de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Novembro de 2013. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos.

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