quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Notas soltas e pessoais sobre a Associação dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua

Exerço a profissão de advogado de corpo inteiro, ou, melhor dito, de fio a pavio. Por isso nunca me dediquei à escrita, salvo nos articulados, tal como meu Pai. Já meu avô João de Araújo Correia teve vocação para a escrita, tardia, mas séria.

Exponho esta minha limitação, por mera cautela, e também pelo respeito devido ao leitor.

Pediu-me o Dr. Alfredo Almeida umas breves notas escritas sobre a Associação dos Bombeiros da Régua. Ora, os “Bombeiros da Régua” trazem-me sempre à memória  três episódios.

Em primeiro lugar, o gozo com que o meu Pai  tratava o irmão Camilo, por ter sido Presidente dos Bombeiros. Médico ilustre, o meu tio Camilo nunca por nunca foi pessoa de apagar fogos. Nem devia saber bem o que era uma mata. De modo que aquele cargo foi sempre fonte de piadas entre meu Pai e meu Tio, que terminavam em profunda gargalhada, ora de um, ora de outro.

Em segundo lugar, recordo a guarda de honra, que presenciei, à porta do edifício dos Bombeiros, prestada ao então Ministro da Cultura, Lucas Pires. Eu contava apenas catorze anos, a democracia tardava em consolidar, de modo que uma visita pessoal do Senhor Ministro a casa de meu avô foi um momento alto da vida da Régua, à qual os Bombeiros se associaram de forma majestosa.

Em terceiro lugar, o episódio mais divertido, embora com uma pitada de humor negro.

No ano de 1952 o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra viajou até ao Brasil. Foi, no entanto, uma verdadeira embaixada, pois seguiram alunos, professores, suas esposas e ainda o Reitor. Só para se ter uma ideia, a viagem durou quatro meses, algo que hoje seria impensável.

O meu Pai  também embarcou, na altura com vinte e três anos. O avô João, inicialmente, não o deixou ir. O Prof. Paulo Quintela teve de interceder pessoalmente junto dele, garantindo-lhe que o Joãozinho, durante a viagem, nunca andaria de avião. O avião era encarado pelo meu avô como um bicho malévolo e perigoso. Mas, com esta garantia, meu Pai fez a mala e lá foi, felicíssimo.

O TEUC permaneceu no Brasil três meses, sempre em viagem de um lado para o outro, e realizou grandes espetáculos de teatro. Algumas dessas viagens foram de avião,  daqueles com hélices rudimentares. Tinha de ser assim, pois a vastidão do Brasil a isso obrigava. O meu avô nunca sonhou tal coisa, como é evidente.

Sucede que uma dessas viagens correu muito mal. O avião caía repetidamente em poços de ar, com solavancos terríveis, ao ponto dos ouvidos sangrarem, e de alguns  serem acometidos por desmaios. No meio de semelhante aflição, o Tóssan, actor e humorista, para desanuviar o ambiente,  saiu-se com esta:

“É pá, não faz mal, se morrermos todos será a nossa grande oportunidade de termos funerais nacionais. Notícias em todos os jornais. Um País a chorar os seus estudantes e professores. As urnas todas arrumadas na Sala dos Capêlos. Fantástico! Não se pode perder isto por nada deste mundo! E depois, claro, vêm os bombeiros de cada terra buscar os seus filhos. Já estou mesmo a ver os Bombeiros da Régua, com as fardas reluzentes e alinhadas,  a virem buscar o Joãozinho.”

A Associação dos Bombeiros da Régua foi lembrada, lá nas alturas,  há tantos anos e por este motivo!

Deve, por isso, e por tudo, ser preservada para sempre, pois as memórias do passado tornam-se mais bonitas  no trilho de futuro radioso.
- Gabriel Araújo Correia.

Clique  na imagem para ampliar. Imagem e texto cedidos pelo Dr. José Alfredo Almeida (JASA) e editados para este blogue. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Outubro de 2013. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos.

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