quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Cantar até ao Céu

Uma crónica divertida e cheia de fé do saudoso dr. Camilo de Araújo Correia:

Naquele ano os mordomos das Festas do Socorro começaram tarde a tratar de tudo. E tudo é muito na tradição da grandiosidade a que se habituaram naturais e forasteiros. A Comissão, inteiramente nova, não se lembrou de que o dia 15 de Agosto é dia de muitas Senhoras do Céu, festejadas por muitas terras.

Entre outras dificuldades, viram-se e desejaram-se os mordomos para arranjar fogo que chegasse para os três arraiais e para ir estoirando durante o dia. Tiveram mesmo de mandar vir algum da Espanha, mais caro e mais duvidoso.

- Seja o que Deus quiser… Da Espanha, nem bom vento nem bom casamento! Quanto mais foguetes !- exclamou o mordomo responsável pelo fogo, ao assinar a encomenda.

Por causa das bandas de música houve acesas discussões na sacristia. De uma vez, chegariam a vias de facto se o bom abade não tivesse interrompido uma confissão para os ir meter na ordem.

Das bandas contactadas, apenas três se comprometiam a preencher os arraiais. Por mais dinheiro e comodidades que oferecessem, não arranjavam músicos para a tarde da procissão.

Já desesperavam, quando o mordomo mais novo, um rapaz vesgo e cabeludo, se saiu a dizer:

- Eu sou capaz de resolver o assunto…

- Como?!?- perguntaram todos.

- Numa carrinha, arranjada à maneira, metíamos uma aparelhagem de “compact disc”…

-Isso não! Nossa Senhora do Socorro é uma Senhora de muito respeito! Não é para andar metida nessas fantochadas! opôs-se o mordomo mais velho.

Sem outro remédio, acabaram por aceitar a sugestão do cabeludo, melhorada com a promessa de recamar de flores a carrinha transbordante de meninas vestidas de azul…

O “compact disc” de músicas marciais que mandaram vir agradou a todos…

- Para ser música de banda só lhe faltam as fífias!- disse um que tinha a mania das piadas.

Mal quebrou o sol daquele dia 15 de Agosto, a procissão saiu do Largo da Igreja, a ganhar solenidade a cada passo percorrido na primeira rua. A carrinha, enfeitada de meninas e flores, cumpria o seu papel, inundando tudo em redor de música puríssima. As pessoas gostavam da vibração daqueles sons, poderosos e envolventes, mas achavam que lhe faltava qualquer coisa, como às flores de papel.

A certa altura a carrinha enguiçou. Nem para trás, nem para diante. A procissão seguiu em grande silêncio. Um silêncio que parecia dor a toda a gente. Ir, assim, Nossa Senhora, como num enterro…

Por um longo minuto, só se ouviu o bater de pau ferrado dos homens do andor. Depois, a multidão que seguia atrás do pálio começou a cantar. Primeiro baixinho, como um murmúrio. Mas logo a plenos pulmões e plena alma. O fervor gregário e religioso foi de tal modo contagiante que, à passagem, arrastava as vozes de quem assistia das janelas, das varandas e da beira dos passeios. Muita gente chorava de felicidade.

Nossa Senhora parecia viva. Linda como sempre e mais feliz do que nunca.
- Camilo de Araújo Correia, publicado  no Boletim das Festas de Nossa Senhora do Socorro de 1991.
  • Festas de Nossa Senhora do Socorro neste blogue.
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Clique nas imagens para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Agosto de 2013. Texto e imagens cedidos pelo Dr. José Alfredo Almeida. Este artigo pertence ao blogue Escritos do DouroSó é permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue com a citação da origem/autores/créditos.

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