quinta-feira, 4 de abril de 2013

Reencontro com o monte do Maio

A despeito de uma aposentação tão descuidada como preenchida, volta e meia deixo esta minha pousada de Lamego e vou por aí abaixo até à casa de Remostias. É como se quisesse deitar contas a esta vida transitória, saber ainda das raízes e das seivas elaboradas, de par com outras ideias e outras intenções.

De caminho, é meu costume passar ao lado da Régua-cidade e subir pela variante do Corgo. Meto depois pelas acanhadas ruas do Peso e são elas quem me dá os bons-dias ou as boas-tardes, em jeitos de saudação. Isto se não enfio pelas estreitas e esquinudas ruelas de S. Pedro ou S. João.

Mas, por desfastio ou por obrigação, entrei há dias pelo centro da cidade e quem me saudou foi a Avenida Antão de Carvalho que vi toda entaipada ao longo do passeio e à medida da velha Alameda Municipal.

Disseram-me que ai, na Alameda, se vai construir um centro cultural, ou coisa que o valha. O entaipamento, só por si, acabou por me tolher uma lonjura de cenários mas, vá lá, que será por pouco tempo.

Não sei se a propósito ou a despropósito, quando cheguei à minha casa de Remostias acabei por recuar no tempo, uns poucos de anos e mergulhei numa espécie de nostálgica moleza. Foram essas as minhas ideias e as minhas intenções.

Ao recuar no tempo, feito menino e moço, subi ao monte do Maio, mesmo ao ciminho do monte, ali onde está e permanece um respeitável marco geodésico. O que queria era sondar os horizontes, se assim se pode dizer, e queria sondá-los com olhos límpidos e vivaços, tal como era nos verdes anos da minha mocidade.

Tenho agora diante de mim, um desdobre de belos horizontes. Vistos assim, de frente e a céu aberto, o que vejo eu? Vejo toda a montanha de Loureiro, toda a incisura dos relevos que vai das soalheiras terras de Fontelas ao termo de Medrões e Sanhoane. O miradoiro de S.to António, no cocuruto, manda-me de lá um aceno convivente, talvez retorno de igual encantamento. No fundo, de lado a lado do sopé, é todo o enfiamento da estrada do Rodo, estrada de macadame a levantar grande poeirada à passagem de automóveis e camionetas, e ainda com uma constante chiadeira de um ou outro carro de bois.

Mas é a montanha que me desperta a vivacidade dos olhos deslumbrados. Do casario mais ou menos disperso, mais ou menos aconchegado, pode subir um fuminho das cozinhas, alguns quintalinhos serão de bom fruto e bom amanho, da vinha socalcada partem caminhos de serventia ou de consortes. Avulta, lá no alto, algum bosquedo de castanheiros e pinhal.

Se o vento vem do sul, vento de feição, ouço o palavreado rumorejante que vem lá dos rechãos de Godim e até oiço o silvo do comboio pouca-terra, a despedir-se do apeadeiro do Moledo.

Mas diz-me o sino da Igreja Matriz que são horas de despegar desta espécie de memorial, como que um regresso aos verdes anos da mocidade.
- Por Manuel Braz Magalhães, Abril de 2013.

Clique na imagem para ampliar. Texto e imagem cedidos por Dr. José Alfredo Almeida (JASA). Edição de imagens e texto de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Abril de 2013. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos.

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