quinta-feira, 6 de setembro de 2012

AS CHEIAS NO PESO DA RÉGUA: PREPARAR O FUTURO CONHECENDO A HISTÓRIA

Major-General  Arnaldo Cruz*
Presidente da ANPC

Quando me solicitaram que escrevesse sobre os Bombeiros Voluntários de Peso da Régua e a sua ação aquando das cheias, rapidamente me ocorreu as inúmeras vezes em que, em conferências ou palestras, ao ser abordado o tema das cheias, surgia como diapositivo da apresentação, uma imagem dessa localidade, com as marcas assinaladas em prédios referentes às cheias de 1909 e 1962. A minha memória retém, também, imagens de visita á região por alturas das cheias de 2001.

Naquelas apresentações seguiam-se os conceitos - a distinção de cheia e de inundação, caudal, bacia hidrográfica, período de retorno, tempo de concentração, pico de cheia -, ou a influência da forma dos vales e da dimensão das bacias nas cheias. E também, as práticas e técnicas culturais agrícolas e florestais adequadas ao aumento do tempo de concentração e as infraestruturas mais utilizadas na regularização do caudal do rio.

Numa pausa, transporto-me, pela memória, no tempo e no espaço, para a região do Douro, que tenho tido a oportunidade de conhecer. Sinto a força e intensidade do rio, das fragas e das gentes que tenazmente, com as suas mãos, moldaram uma paisagem de beleza ímpar e justamente classificada pela UNESCO como Património Mundial.

Trabalho duro, com progressos e retrocessos, em que se evidencia sabedoria. Periodicamente assolada pelas cheias, além da força para se construir e reconstruir, sobressai a humildade de se terem reconhecido os naturais erros, de os corrigir, tendo-se criado, progressivamente, uma estrutura mais resiliente e preparada para a adversidade.

Mas assim como a natureza nos dá essa notável capacidade de evoluir, errando (se o mecanismo da dor não existisse não seríamos hoje o que somos), também faz com que o tempo traga o esquecimento. Hoje, muitos jovens, nunca vivenciaram o tipo de cheias de que os seus pais, avós e a memória do povo aludem, não tendo, por isso, interiorizado pela experiência, as atitudes e comportamentos para fazer face à adversidade.

Regresso à conferência onde se vão abordar programas informáticos de monitorização do caudal, sistemas de aviso e alerta, a cooperação entre as entidades portuguesas e também espanholas, através de acordos bilaterais, para a gestão dos rios internacionais. Se tudo funcionasse bem, aparentemente, não se repetiriam os efeitos de uma qualquer grande cheia. De fato, há uns anos que não se verificam situações semelhantes àquelas que propiciaram as imagens a que inicialmente me referi.

Com a tranquilidade possível que as soluções tecnológicas nos transmitem, sei que, com períodos de retorno possivelmente maiores, é muito provável que ocorram novas grandes cheias no Douro.

Para essas circunstâncias, é necessário que os cidadãos de Peso da Régua e da região duriense ribeirinha estejam preparados, com comportamentos e atitudes adequadas, quer face à ocorrência, quer à sua prevenção.

Se bem que essa preparação possa ser efetuada por muitas instituições, desde a escola à universidade, passando pela comunicação social e outras, é indiscutível, a relevância que os bombeiros poderão ter na mesma, para além da sua inestimável capacidade e prontidão nessas emergências.

Por um lado, é uma competência legal. Na profunda reforma legislativa que tem vindo a decorrer no setor desde 2007, encontra-se previsto, entre as missões dos corpos de bombeiros, o exercício de atividade de formação e de sensibilização junto das populações e é hoje possível, nos municípios em que tal se justifica, dispor de uma equipa de intervenção permanente (caso da AHBV de Peso da Régua), que tem entre as missões possíveis efetuar o reconhecimento dos locais de risco e zonas críticas. Por outro, a crescente qualificação académica no setor dos bombeiros que favorece, para além de uma mais adequada intervenção operacional (resultante da elaboração de estudos, informações, diretivas, planos, ordens e propostas tendo em vista a preparação, a tomada de decisão e a supervisão da sua execução), o incremento de todo o trabalho de prevenção.

A experiencia das recorrentes cheias que havia e das histórias contadas “boca a boca” vai-se perdendo. Mas pode-se falar com cidadãos que passaram por essas adversas circunstâncias e registar as suas opiniões, ver os locais das ocorrências com quem as vivenciou e associar essas informações àquelas que a comunicação social publicou, aos registos no corpo de bombeiros e noutros locais de arquivo. Com camaradas mais velhos, que vivenciaram as situações operacionalmente, é importante falar sobre os poucos meios, técnicas e táticas utilizadas, mas sobretudo a propósito das zonas mais perigosas do rio Douro quando corre cheio.

Quando oportuno, no terreno, com as informações recolhidas, procurar os subtis sinais indeléveis que a natureza vai perpetuando, compreender as adaptações das obras construídas pelo homem ou o porquê de historicamente não se ter construído em determinados locais. Com programas disponíveis na internet, eventualmente gratuitos, é possível assinalar esses locais, marcar áreas, associar fotografias ou vídeos, sistematizar um manancial de informação quer para a sensibilização e informação dos cidadãos, quer para o planeamento, também fundamental.

As ações de sensibilização, ou de formação, para crianças, jovens ou adultos, em sala, ou visitando os locais que testemunham a história comum do rio e dos homens, são essenciais para a Proteção Civil, para a salvaguarda de vidas, de bens e do nosso ambiente.

A AHBV de Peso da Régua tem uma longa história, sobre a qual já muito se escreveu. Para não repetir relatos sobre atos heroicos, penso que a melhor forma de honrar a memória e essa história será avaliar o que hoje fazemos, recorrer às lições do passado, para continuar a preparar para o futuro. Acredito que essa grande mulher que foi D. Antónia Adelaide Ferreira, associada n.º 1 dessa Instituição, partilharia esta convicção. Presto-lhe um sincero reconhecimento, saudando quantos por aqui serviram esta causa e os atuais dirigentes, bombeiros, associados dessa Instituição, e sobretudo às gentes de Peso da Régua.

  • *ARNALDO CRUZArnaldo José Ribeiro da Cruz, natural de Sobreira-Formosa, concelho de Proença-a-Nova, nascido a 16 de Novembro de 1942. Major-General na situação de reforma desde Novembro de 2006, com 41 anos de serviço efectivo no Exército.
Clique na imagem acima para ampliar. Imagem e texto cedidos pelo Dr. José Alfredo Almeida. Também publicado no semanário regional "O ARRAIS" edição de 6 de Setembro de 2012. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Agosto de 2012. Permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos/imagens deste blogue sómente com a citação da origem/autores/créditos.

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