sexta-feira, 25 de maio de 2012

Bombeiros da Velha Guarda

João de Araújo Correia

No mês de Novembro, quando as procelas rugem, como disse o Poeta, é natural que nos refugiemos em casa e recordemos, com a devida melancolia, os tempos idos. Acende-se a lareira e invocam-se os mortos. Chamam-se, comparecem todos… Confundem-se, as suas vozes, com o crepitar da fogueira. Bela ressurreição! Haverá cenário mais belo do que o lume?
Fim de Novembro, fazem anos os Bombeiros da Régua. Contam oitenta e cinco, mas, parece que nasceram ontem. Nem uma ruga, nem um cabelo branco, nem um desalento… Garbosos até o capacete, fazem do garbo agilidade, frescura e força. Que milagre!
Confraternizam, em cada aniversário, os Bombeiros da Régua. Depois das cerimónias piedosas e do desfile nas ruas, sentam-se à mesa e comem. Comem bem e gracejam… Mas, talvez que nenhum se lembre, nem bombeiro nem contribuinte, de sócios e bombeiros antigos, que também se sentaram, em ágape semelhante, para comer e gracejar.
Quem vai contando anos, dos que fazem mossa, lembra-se da velha Bomba e de quem a movia e sustentava. Lembra-se de Afonso Soares, com a sua barba branca; do poeta Camilo Guedes, de gravata Lavallière; do José Avelino, que comia um boi por uma perna; do José Ruço, que pertencia ao corpo auxiliar; do Joaquim Maria Leite, o Riço, que pertencia ao corpo activo com alma de criança e alma de bombeiro. Mas, de quantos se não lembra ainda? Justino Lopes Nogueira, o Justino, daria um livro de inocentes recordações alegres.
O quartel dos Bombeiros, situado ali em baixo, na Chafarica, no Largo dos Aviadores, como hoje se diz, era o clube da terra. Havia outro, mas, aristocrático, presidido pelo monóculo do Dr. Costa Pinto. Clube, ponto de reunião sem preconceito, era o quartel dos Bombeiros. Ali se jogava e conversava à vontade. Ali se davam gargalhadas que faziam estremecer o quartel. Guarda-lhes o eco algum ouvido então adolescente…
Fazia rir as pedras do dominó o Dr. Bernardino Zagalo. Era menino que se não ensaiava para contar uma anedota pícara. Mas, também era menino para encantar gente rude, metendo-lhe no caco entusiasmos febris sobre literatura e outras sabedorias.
Tempos simples aqueles! Falta escrever-lhes a história. Mas, quem na escreverá? Alguma cronista ignorante de factos vividos. Pelo que nos toca, ou toca aos nossos Bombeiros, recordemos os da velha guarda, tão garbosos como os de agora, mas muito mais alegres, mais divertidos, mais despreocupados. A vida, que foi sempre séria, tinha quem a fizesse rir. Hoje, não tem… A vida, mais do que séria, tornou-se carrancuda e até feroz. Tanto, que até se inventou o artifício da descontracção para substituir a espontânea distracção.
Nota: Nesta crónica publicada, inicialmente, em Novembro de 1965, no boletim Vida Por Vida, extinto órgão da AHBV do Peso da Régua e, depois, no livro Pátria Pequena, edição da Impressa do Douro (1977), o autor recorda os primeiros bombeiros voluntários do Peso da Régua que chegou a conhecer. Lembra uma Régua antiga, no final da monarquia, e a importância social que tinha o quartel dos bombeiros que, ao tempo, funcionava como o clube da terra. Evoca também ilustres figuras da vida local,  amigas dos bombeiros, como o Dr. Bernardino Zagalo, advogado e escritor, e o Dr. Costa Pinto, líder do partido progressista, distinto advogado e  que  se distinguiu como presidente de câmara.


Clique nas imagens acima para ampliar. Sugestão de J. A. Almeida e edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Maio de 2012. Texto também publicado na edição do semanário regional "O Arrais" de 24 de Maio de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Todos os direitos reservados. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos.

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