quinta-feira, 19 de abril de 2012

A tragédia de Ariz

Quem ainda se lembra, sabe que o inverno de 2000-2001 foi extremamente pluvioso na Régua. A chuva que caiu durante os meses de Novembro, Dezembro, Janeiro e Março deixou os vinhedos durienses sem poder guardar tanta água no solo e, não tardou que as precipitações elevadas engrossassem o caudal do rio que começou por inundar na margem ribeirinha, a zona do cais fluvial e o caminho pedonal que circunda a margem. Enquanto o rio inundava a parte baixa cidade, a intempérie fazia estragos nas vinhas. Um pouco por todo lado, os muros de xistos caíram, não resistindo à saturação das águas no solo.

No lugar de Ariz, em Godim, no dia 26 de Janeiro de 2001, aconteceu uma tragédia humana. Ao anoitecer, as terras da montanha deslizaram pela encosta abaixo, arrastando lamas e pedras com uma força destruidora que derrubou a algumas habitações desse pequeno povoado. Sem tempo para fugir da avalanche, uma mulher idosa morria soterrada na sua casa. Mais a baixo, a estrada municipal ficava abatida, uma enorme fenda não deixava que o trânsito continuasse a circular para as povoações vizinhas.

Quando a sirene tocou no Quartel para dar o alarme de mais uma operação de salvamento resgaste, um piquete de bombeiros encontrava-se de prevenção a mais uma ameaça de cheia do rio, fazendo vigilância e dando conselhos aos moradores e comerciantes ribeirinhos. Do lugar de Ariz, alguém telefonava a informar que ali rebentou uma “tromba de água” e que tinha destruído casas e que  pessoas corriam perigo de vida soterradas nas lamas. O jipe Nissan Patrol saiu de imediato, transportando o comandante e os primeiros bombeiros, enquanto se preparava um piquete para sair nos veículos de socorro e nas ambulâncias. Ao chegarem, os bombeiros encontravam um cenário de destruição. O pânico dos moradores sentia-se no choro e gritos desesperados. Chovia torrencialmente e noite escura dificultava a operação de resgaste que começou pelo salvamento das pessoas em perigo. Quase ao mesmo tempo, os bombeiros faziam a remoção das lamas e das pedras que tinham atingido as casas e os acessos. Esperava-se  o pior e isso aconteceu no interior de uma das casa destruídas, donde retiravam o corpo de uma mulher idosa já morta.

Passaram já onze anos sobre a data em que acontece a tragédia de Ariz que deixou marcas na vida das pessoas que viviam nesse lugar, fez malefícios na paisagem da montanha envolvente, ficando visíveis rasgos no solo. Para a história dos bombeiros ficou apenas mais uma página heróica da vida de anónimos bombeiros para mais tarde se escrever.

Lembro-me que, na aquela data, o Plano Municipal de Emergência não tinha valorizado aquele tipo de riscos naturais, nem sequer os previu como o fez para o caso das inundações e cheias do rio Douro. Se o povo os conhece e teme as enxurradas e os deslizamentos de terras, as autoridades que garantem a protecção e o socorro tem de lhe prestar mais atenção e alertar para a sua perigosidade.

Mas eles são conhecidos como perigosos para a vida homem duriense. Os riscos dos movimentos de vertentes - com são tratados cientificamente - são causadores de estragos materiais e de perda de vidas humanas ao longo dos tempos.

No passado, em 1904, a Régua conheceu a catástrofe da quinta das Caldas do Moledo, mas apesar da terrível consequência, que causou muitos mortos que desapareceram águas do rio, esqueceu-se dos seus perigos. Acontece que estando o clima a mudar e as temperaturas a subir, os invernos ficaram menos pluviosos, quando não são de seca, como está a acontecer no ano em curso. Esta acalmia nos rigores da natureza faz com que os deslizamentos de terras sejam menos frequentes. O homem que pensa dominar a natureza passou minimizar-lhe os perigos. E, muitas vezes, não tem o cuidado ao construir desordenadamente e a plantar e saibrar vinhas sem regras ambientais e  pouco  respeito pelas seculares  linhas de água.

São os jornalistas e os escritores que mais têm relatado este fenómenos. Quem o fez, foi João de Araújo Correia, no conto “Milagre”, do livro “Contos Bárbaros”, donde se transcreve este elucidativo trecho:

Nesse Inverno, de tanto chover, as estradas ficaram esbeiçadas. O rio levou pelo pé as vinhas dos nateiros. Das serras, tombaram sobre os vales enormes fragas, redondas como jogas de brincar do tempo dos gigantes. Inverno pegado. Pelo Abril dentro, já as árvores se desfaziam em pétalas brancas e em farrapos de cor, e as abelhas não saíam dos cortiços, nem uma borboleta preava nos cálices alagados.

Magoava a alma ver afogada em água sombria o sussurro claro do tempo das flores. Tristeza igual só a da cara dos lavradores meanhos quando iam às courelas esburgadas avaloar os estragos do temporal desfeito. Tragédia assim só se podia ler na máscara do cavador crucificado na umbreira dos cardenhos. A Páscoa estava connosco e o céu não se reconciliava com os pobres, nem rogado pelo canto aflitivo das aves. Era só chover, como se Nosso Senhor não tivesse arquitectado o firmamento com mais alegres desígnios. Parecia um sinal.

Como Deus não bota os males todos a um canto, podia-se descontar um bem nesta desgraça. Debaixo dos escombros, que davam à paisagem o aspecto de bulida, aqui e além, por escava-terra vinda das profundas, nem um corpo humano ficara sepultado. Tanto a sábios como a pobres de espírito dava isto que cismar. Inverno amaldiçoado, e ninguém perecera fora de sua casa. Podiam-se dar louvores a quem manda.

Muito de admirar era também que certas casas arruinadas, solares antigos, paredes salitrosas de conventos, rebotalhos de barbacãs da guerra dos afonsinhos, permanecessem de pé, inabaláveis como velhinhos recurvos e cobertos de musgo, cuja resistência a todas as doenças causa o espanto dos médicos e a mal rebuçada arrelia dos herdeiros.

(…)

Naquele Inverno rigoroso, não se sabia o sumiço que levara o maluquinho. Estaria por lá entre os potes da cozinha de casa rica ou teria morrido. Se tivesse morrido, bem regalado devia estar, à banda de cima das nuvens, com sol do melhor e bons manjares celestes, enquanto os terreanos, de molhados, começavam a criar barbatanas de robalo.

Ia esquecido o Anjo da Guarda. O mais certo era ter-se lembrado Nosso Senhor de o recolher, porquanto o desgraçadinho andava cá em baixo só para penar.

No sábado de Ramos desse Inverno assinalado, à chuva juntou-se o trovão e o vento. Parecia o fim do mundo, o dia de juízo. Bem carregados podiam ser os carros no Verão seguinte, já que tão molhados se levavam a benzer os ramos. Que, lá diz o rifão: Ramos molhados, carros carregados.

Às três horas da tarde negra – não há memória de negrume igual – esbugalharam-se os olhos dos aldeões, as queixadas dos aldeões descaíram de súbito. Ouvira-se um fragor medonho. As mulheres foram as primeiras que se puseram de alevante. Com os cabelos colados às costas, aderentes as saias às pernas musculosas, convergiram ao sítio donde partira o formidável estrondo.

A Casa das Mónicas estava por terra.”
 
Aqui está contado um caso para servir de análise à protecção civil. Por isso, e talvez para ser levado a sério, o dedicou a um antigo comandante dos bombeiros.

Lendo-o com atenção percebemos que a beleza dos vinhedos durienses, hoje Património da Humanidade tem suas fragilidades e seus perigos. Como não chegasse o trabalho árduo do cultivo das vinhas, o homem do Douro tem de saber protegê-las, respeitando os saberes de gerações de antepassados que o cuidaram como chão sagrado.


Os riscos dos movimentos vertentes são fenómenos cíclicos. São difíceis de prever, mas os bombeiros da Régua preparam-se, cada vez mais, para salvar nestes delicados teatros de operações, evitando que aconteçam tragédias maiores. 

- *José Alfredo Almeida, Peso da Régua, Abril de 2012


*O Dr. José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também cronicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária e fatos do passado e presente da bela cidade de Peso da Régua.


Clique nas imagens para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Abril de 2012. Texto também publicado na edição do semanário regional "O Arrais" de 3 de Maio de 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Todos os direitos reservados. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos.

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