quinta-feira, 19 de abril de 2012

Jornais da Régua

Chegou a ser efervescente, no século XIX, a publicação de folhas periódicas reguenses. Já me passou pela vista um exemplar da Régua em Camisa, vários números da  e, se bem me  lembro, algum número do antigo Douro, fundado em 1863. O novo só muito mais tarde, em 1900, reapareceu.
Valerá a pena a qualquer estudioso, dotado de paciência, estudar meticulosamente o que foi, na Régua, a imprensa periódica no século XIX. Terá, para esse efeito, de recorrer às bibliotecas públicas, a algum particular e ao Instituto do Vinho do Porto. Esta casa, tão importante, deve ter adquirido, in illo tempore, uma boa porção de jornais velhos publicados na Régua.
Diga-se, antes que esqueça, que todos esses jornais, publicados nesta vila e veementes defensores do Douro, provam que a capital do país vinhateiro foi sempre a nossa terra. Valem como pergaminhos comprovativos. Régua, capital do Douro… Assim se disse e há-de dizer sempre.
Mas, vamos lá ao tema desta crónica. Tema particular, será a recordação de jornais que eu conheci, aqui na Régua, no tempo em que me criei.
Foram três bi-semanários, que se chamaram, a contar do mais velho, O Independente Reguense, O Douro e O Dissidente.
O Independente vinha do século passado, o Douro reaparecera em 1900 e o Dissidente, o mais novinho, era então, pode-se dizer, recém-nascido.
Independente e Dissidente entravam em minha casa duas vezes por semana. E eu, rapazinho da escola primária, recebia-os e lia-os com avidez. Neles saboreava as poesias de Camilo Guedes, algum artigo de Pinto Pereira e as eruditas notas de Gabriel Gouveia sobre Camilo, que denominava imortal humorista.
Folhas saídas de prelos arcaicos, movidos a pulso, entravam-me em casa húmidas como se tivessem acabado de tomar banho. E eu, deixem-me assim dizer, respeitava-lhes o pudor. Mal as encarava para as deletrear.
Cada um dos jornais era entregue, em minha casa, pelo rapaz da redacção – rapazinho descalço que eu respeitava e admirava por ver nele alguém que conhecia o segredo de fazer jornais.
Sabedores desse segredo eram homens feitos como o Chico Cego, do Dissidente, e o Luís Ribeiro, do Independente.
Vi algumas vezes, à janela do jornal O Douro o tipógrafo Queirós, homem de rosto magro e cabeleira rica, levantada como trunfa.
Dizia-se que bebia vinho pela medida grande. Dizia-se até que o contacto com os tipos era mais puxavante que azeitonas e bacalhau cru. Mas, nem todos os tipógrafos se deixariam tentar. Luís Ribeiro, do Independente, era morigerado. Já o Chico cego, enquanto compunha, ia molhando a palavra para melhor insultar o aprendiz.
Tudo se perde, em terras de província, quando deixa de se usar. De certo se perderam as colecções dos três bi-semanários. Se não houver quem as procure à luz da candeia, rezem-lhes por alma os antigos leitores das três folhinhas.
Mas, aqueles prelos gementes? Não será possível que o Museu do Douro, agora em formação, venha a possuir, em bom estado, um exemplar desses objectos?
Merece memória quem lidou com eles a favor da Régua e do douro. Mas, os prelos, obedientes ao pulso duriense, também a merecem. Primitivos como eram, não imprimiam mal. Davam de si folhas húmidas muito asseadas.
Como não há museu municipal, cumpre ao Museu do Douro, agora em formação, adquirir velhos jornais da Régua e um exemplar do prelo que os deu à luz. Valeu?

Nota: Esta crónica foi publicada no Boletim “O Alto Douro Cultural”, nº1, de Junho/1883, Ano I,  que  era o  órgão da Associação Cultural do Alto Douro.


Clique na imagem acima para ampliar. Sugestão de J. A. Almeida e edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Abril de 2012. Desconhecemos o autor do texto. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Todos os direitos reservados. É permitido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue desde que mencionados a origem/autores/créditos.  

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