quarta-feira, 7 de março de 2012

D. Branca Martinho - Sócia Honorária dos Bombeiros da Régua

"Não basta interpretar o mundo, nem sequer transformá-lo; antes de  começarmos pelo mundo, devemos começar por nós” - Rob Riemen

José Alfredo Almeida*
Sobre a notoriedade de D. Branca Martinho escreveu Bandeira de Toro, na monografia O Concelho do Peso da Régua, editada em 1946, as palavras seguintes:

“O vosso nome (…) perpetuado em obras de assistência, nas instituições religiosas e de caridade, impôs-se à consideração e veneração da sociedade reguense. E justo foi o descerramento do vosso retrato na galeria honorífica da Corporação dos Bombeiros Voluntários e que, quanto mais não seja, ficará ali presente in aeternum, como símbolo dos vossos benefícios.”

Aquele seu retrato continua a brilhar desde 1923, primeiro no Quartel que ficava numa velha casa da Rua dos Camilos e, actualmente, está exposto na galeria dos benfeitores do Museu dos Bombeiros da Régua, baptizado com o nome de Museu João de Araújo Correia, ao lado de outras ilustres figuras da sociedade reguense  como Dr. Antão de Carvalho  e sua irmã Zélia de Carvalho, Dr. Júlio Vilela, Jaime Guedes, Cândida Braz Fernandes e  Teófilo Clemente.

Branca Martinho manteve uma relação de verdadeira veneração com a Corporação dos Bombeiros da Régua que conheceu desde tenra idade pela experiência do seu pai, Bernardo Lopes Vasques Osório que, ao lado do Comandante Manuel Maria de Magalhães e outros generosos cidadãos, fez parte da Comissão Instaladora e foi um dos que, em 28 Novembro de 1880, fundaram a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua, com fim principal de deter um corpo de bombeiros voluntários.

Bernardo Lopes Vasques Osório, nascido em Ourense, na Galiza, foi um dos muito galegos que, com os vareiros de Ovar, nos finais do século XVIII, se estabeleceram na Régua, uns para trabalhar na vinha e outros fazer negócios. Os vareiros trouxeram o sal e o peixe para vender. Os galegos saibraram os montes abandonados depois da filoxera, plantaram vinhas novas e fixaram-se, com as suas novas famílias, no ramo do comércio, abrindo lojas e tabernas.

Aos vareiros e galegos, como a família de Vasques Osório, a Régua comercial, de hoje, muito lhes deve. Os novos empreendedores não vieram para apenas trabalhar e fazer fortunas, ao criarem laços com a comunidade souberam ser solidários e humanistas. O pai de Branca Martinho testemunha o exemplo de cidadania dos nossos povoadores antepassados que estiveram nas origens da associação humanitária dos bombeiros da Régua. O fim principal foi o de servir a população reguense, zelar pela sua segurança de vidas e bens e proporcionar-lhe a satisfação de necessidades de índole recreativa e cultural. Com a sua ajuda do sangue galego e vareiro, os bombeiros da Régua foram a primeira força de protecção civil e socorro a ser constituída no distrito de Vila Real.

Nos finais dos anos 20, a Branca Martinho reforçou ainda mais os laços aos bombeiros da Régua quando o seu marido Artur Gonçalves Martinho passou a presidir à Direcção da Associação. A sua ajuda passar a permanente e mais intensa, procurando por todos os meios auxílios na sociedade para que os bombeiros não tivessem que encerrar as portas do seu Quartel. A generosidade da viúva Vilela, vareira de sangue, e do portuense Jaime de Sousa, mais tarde designado Comandante Honorário, revelaram-se essenciais Foram estes dois empresários que valeram aos bombeiros quando precisaram de ajuda: a empreendedora do ramo dos transportes de aquilaria proporcionou gratuitamente uma casa para instalarem o Quartel e o empresário do Porto presenteou-os com um pronto-socorro, novo em folha, de marca Buick. Hoje aquele carro não está no serviço activo, é uma admirável relíquia que ainda sai à rua nos dias festivos para mostrar a sua elegância conservada no cromados e no seu vermelho reluzente.

D. Branca Martinho foi uma grande benemérita dos bombeiros da Régua. À sua maneira, seguiu o exemplo o exemplo da D. Antónia Adelaide Ferreira, a primeira sócia contribuinte, e de muitas outras senhoras que prestaram auxilio e devoção à missão humanitária bombeiros. Era comum afirmar que “queria fazer algo por esta Briosa Corporação, e só um pequeno átomo que lhe consagro, faço-o por dever e devoção”. Por devoção, fez muito pelos bombeiros e pela causa do puro voluntariado. Não podemos esquecer que, a partir de certa altura, os bombeiros precisaram de dinheiro para garantir prontidão e qualidade nas suas missões de socorro. Quando faltavam subsídios, a benemérita incumbiu-se de encenar e levar ao palco peças de teatro amador com o grupo As Andorinhas. Os seus espectáculos como tinha qualidade eram pelo público e garantiram as receitas que os bombeiros necessitavam para resolver dificuldades. Não realizou só esse trabalho, quando os bombeiros precisaram de uma nova ambulância para o transporte dos doentes, como aconteceu nos inícios dos anos 60, ela escrevia nos jornais veementes pedidos a entusiasmar a contribuição solidária da população.

O carinho que Branca Martinho sempre dedicou aos bombeiros estão explícitos num seu pensamento, quando disse que associação era a “…mais simpática que existe, e só quem já precisou dos seus sacrifícios levados ao heroísmo poderá avaliar a nobreza da sua missão e o Bem que ela faz sobre a humanidade…”.

Os bombeiros da Régua reconheceram a sua dedicação, a direcção presidida o Dr. Júlio Vilela, advogado de prestígio e um humanista de sublime sensibilidade cívica, nas cerimónias do 75º aniversário da Associação, em 28 de Novembro de 1955, distinguiu-a como benemérita, entregando-lhe o título de Sócia Honorária.
Mais tarde, D. Branca Martinho agradeceu a distinção, aquele genuíno de acto de gratidão, por escrito numa carta eivada de sentimentos de ternura e orgulho pela causa dos bombeiros da sua terra, que encontramos esquecida no arquivo e aqui se revela na íntegra:

“Exmo Senhor Dr. Júlio Vilela,
Digmo Presidente da Associação dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua

Faltaria a meu dever dos mais sagrados se não viesse agradecer ao meu caro amigo, e em si, a toda a Exma Direcção e Corpo Activo, o diploma e a medalha de sócia honorária dessa briosa Corporação, aliás, sem merecimento algum da minha parte.
Fiquei confundida com a lembrança e ao abraça-lo quis ainda dizer que em si abraçava todos os membros dessa Associação, mas não o pode fazer tal a comoção que de mim se apoderou.
A festa da comemoração foi fluida e grandiosa na sua simplicidade e a compreensão do nosso povo ajudou a torna-la maior e mais bonita! Vi, passar num encanto mágico, os capacetes doirados pelas ruas da nossa vila; vi mão de crianças e de uma mulher cobri-lhe de flores. Lembravam estrelas a fulgir em noites quentes de estio.
Não passará jamais das nossas almas o esplendor deste grandioso dia de festa.
Desde nova tenho acompanhado esta corporação com carinho, a quem me ligam laços de viva simpatia e admiração.
Por isso quero apresentar-lhe com os mais comovidos agradecimentos as minhas calorosas felicitações pela forma simples e elegante como tudo decorreu.
Engastaram V. Excias não sem sacrifício e esforço mais um belíssimo diamante na coroa de louros que souberam conquistar pelo denodo e valentia com que servem a humanidade. Pedirei a Deus para que esta Associação singre pela vida fora, servida sempre por homens de acção e de mérito como V. Excia.

São os votos sinceros da Branca V. Martinho
Régua 6-12-1955”.
Nascida na Régua, no dia 2 de Janeiro de 1893, onde veio a falecer a 31 de Janeiro de 1964, com a provecta idade de 71 anos, foi uma mulher de carácter e de crença religiosa firme que dedicou toda a sua vida a fazer a caridade cristã. Caridade em nome dos pobres, ao serviço do seu semelhante mais desfavorecido e abandonado à sua sorte, sem lugar no trabalho e excluído de uma sociedade impotente para garantir os apoios sociais que não eram garantidos pelo Estado. Na sociedade do seu tempo, o seu exemplo de partilha, generosidade, solidariedade e de compaixão a sua atitude cívica marcou a diferença numa causa humanitária que visou o respeito pela vida e dignidade humana dos pobres.

Os reguenses chamaram-lhe a Protectora dos Pobres. O Governo concedeu-lhe a Ordem da Benemerência. A Igreja, pelas mãos do Papa Pio XII, atribuiu-lhe a medalha Pro Ecclesia et Pontifice. Na homenagem póstuma, realizada nos anos 70, foram enaltecidas a sua personalidade e a sua obra sublimada pelo dom eloquente da palavra dos oradores Padre Manuel Sequeira Teles e João de Araújo Correia. O escritor, no seu livro Palavras Fora da Boca (Imprensa de Douro, de 1972), imprimiu o discurso que ali proferiu. Com arte literária e um sentido crítico apurado, enalteceu a D. Branca, como a tratou, a incutir a ideia que fora sua amiga e contemporânea, admirou os dotes físicos, a beleza do seu corpo enquanto mulher jovem, enobreceu-lhe o carácter, salientou os talentos e considerou-a o último símbolo do catolicismo português.

Vale a pena citar um pouco mais do interessante discurso que descreve a homenageada com acertadas considerações:

“D. Branca Marinho foi protectora dos pobres desta vila. Protegeu-os de maneira que a sua mão esquerda ignorasse o que fazia a sua mão direita? Não foi esse o sistema da sua caridade. Foi caritativa, mobilizando auxiliares contra a indigência, batendo ao ferrolho dos cofres ricos e importunando, se assim se pode dizer, os ouvidos da governação. Horrorizada com os tugúrios onde agonizavam os pobrezinhos da nossa terra, nunca perdeu o azo de pedir, a qualquer espécie de mando, a construção de bairros asseados para gente humilde. Nunca foi ouvida.
(…) Dotada de múltiplos talentos, embora não os granjeasse como se vivesse para os servir, obrigou-os a servir a sua causa, que foi a do bem-fazer organizado para o tornar profíquo.”

Há quem pense que D. Branca Martinho que era assumidamente católica fez uma caridade à moda antiga. Querem dizer que a sua atitude cívica foi meramente de cariz assistencialista e que a acção de nada teve de extraordinário, nunca chegou a resolver os problemas reais das pessoas. Não será esta, seguramente, opinião dominante daqueles que a conheceram ou apenas dela ouviram falar como uma mulher dotada de rara sensibilidade para tratar com nobreza as questões da pobreza.

O voluntariado de D. Branca Martinho seria, neste nosso tempo, reconhecido como de “acção social”, realizando tarefas básicas de dar comida a quem tinha fome, vestir quem precisava de roupas, cuidar de doentes, crianças e aliviar a  solidão dos idosos. Pode-nos parecer muito pouco para quem, nos finais dos anos 30, enfrentou problemas sociais delicados, como elevado o desemprego dos trabalhadores rurais que a própria autarquia reconhecia ser impotente para resolver e, em desespero, chegou a pedir ao Governo para que elaborasse um plano de emergência, mas nunca teve qualquer resposta. Eram tempos difíceis, muitas as famílias conheceram o desemprego e a fome que, sem meios para o seu sustento, acorriam às cantinas onde era oferecida uma refeição, a de Sopa dos Pobres. A   realidade social  era negra, nas ruas  gente muito pobre estendia à mão à esmola e à caridade.

D. Branca Martinho que pertenceu à alta origem social e possuía fortuna pessoal de valor, podia ter-se alheado da situação social de pobreza que se passava em sua volta, mas empenhou-se na acção cívica e procurar encontrar no seio da sociedade civil uma resposta que aliviasses os principais males de seres humanos que não encontraram nenhum Estado social que melhorasse a sua condição de vida. Olhou de frente a pobreza e a miséria e, apoiada na doutrina social da Igreja, através da Conferência de S. Vicente de Paula, percebeu as fragilidades da sustentabilidade económica da região da duriense. Afinal, o comércio do vinho do Porto, continuava a ser um caso de insucesso, não melhorava a vida dos que trabalhavam na agricultura e, muito pior, não conseguia redistribuir na sociedade reguense a riqueza gerada.

Esta mulher foi uma figura que marcou fortemente uma época. Quando morreu com mais de 90 anos de idade, em sua casa na Rua da Ferreirinha, os jornais locais unanimemente manifestaram o sentir de uma perda de uma vida humana que reclamou atenção para os problemas de pobreza e desigualdades sociais. Em sua memória fizeram os maiores elogios, utilizando a imagem de uma delicada metáfora: “Caíu uma flor… ficou o perfume”, realçando o seu valor como pessoa altruísta desta forma: “reguenses perdiam a Rainha da Caridade”, para concluir que o seu exemplo permanecia vivo: “…a Caridade viva, Divina Azul como o Céu, bela como a flor que cai… Esta a Caridade que a Sr. D. Branca viveu toda a sua vida”. De imediato s autarquia  reconhece o seu valor da benemérita e atribuiu o seu nome a uma rua.
O seu legado de humanidade mantêm-se vivo. Lembra D. Cristina Borrajo, voluntária e vicentina que lhe continuou as incitativas de auxílio aos pobres do nosso tempo. Confessou que, como a D. Branca o fazia, tem em prática uma intensa acção de caridade: “Neste momento sabemos que há muitas necessidades, principalmente, envergonhadas; mas há outros apoios que não havia no seu tempo e que ela tentava suprir.”

O exemplo de D. Branca Martinho é um apelo à participação dos cidadãos e da solidariedade voluntária, cada vez mais necessária para responder aos novos problemas de pobreza que voltamos a viver. Ao contrário do que se possa pensar, a caridade nunca acaba.



Clique nas imagens para ampliar. Este texto está também publicado em 2 partes nas edições do semanário regional "O Arrais" de 23 de Fevereiro e 1 de Março de 2012. Texto e sugestão de J. A. Almeida e edição de J. L. Gabão para o blogue "Escritos do Douro" em Fevereiro 2012. Este artigo pertence ao blogue Escritos do Douro. Todos os direitos reservados. É proibido copiar, reproduzir e/ou distribuir os artigos/imagens deste blogue sem a citação da origem/autores/créditos. (Revisto e atualizado em 6JUL2012)

 *O Dr. José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também cronicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária e fatos do passado e presente da bela cidade de Peso da Régua. 

2 comentários:

Anônimo disse...

Se ela nasceu em 1891 e faleceu em 1964, então não morreu com 91 anos mas sim com 73.

JAIME disse...

Obrigado "Anónimo" por acompanhar e pela atenção/correção. Via Dr. José Alfredo Almeida(autor do texto), recebi imagem que inseri no post e onde se constata afinal que D. Branca nasceu em "1893", o que lhe dá uma idade de 71 anos à época de seu falecimento.
Peço que em próximos comentários se identifique, para termos o prazer de saber quem nos acompanha e connosco colabora.
Saudações