sexta-feira, 18 de março de 2011

PÉROLAS DO DOURO

Nasci na Régua, em Outubro de 1888, na mesma casa da Rua de Medreiros em que nascera o Dr. Maximiano de Lemos. Saí da terra aos nove anos, para Lisboa, onde o meu pai, o agrónomo José Correia Pinto da Fonseca fora chamado a exercer a sua actividade profissional. Abandonada também a vida por meu avô materno, o escrivão e tabelião José Fernandes de Almeida, fiquei ali quase sem parentes directos.

Toda a minha gente vivera, e vivia, nas freguesias de Samodães e Penajóia. Foi por isso que Lamego, o território, a história e a arte lamecense influíram de preferência e definitivamente sobre a minha sensibilidade que despertara e enformava quando nas férias grandes vinha acolher-me à casa familiar da Quinta do Pombal.

Da Régua e do tempo ali passado ficaram-me na memória quadros alegres e tristes, em maioria, felizmente, os primeiros. Recordo o deslumbramento matinal de um nevão sobre os montes de além-rio, contemplado da varanda da casa da Rua dos Camilos onde então vivíamos; a escolas de Medreiros, a oficial, que frequentava também Leonardo Coimbra, em que pouco me demorei, e a particular, quase fronteira, das Senhoras Lobatos; o circo Americano, onde, assistindo diariamente aos ensaios dos ginastas aprendi como eles a desengonçar o corpo tenro – o que em tempos ainda poucos  desportivos me permitiu a vaidade de uma superioridade física perante companheiros colegiais e universitários -; e certas escapadelas pelas margens cascalhentas do Douro com a garotagem da minha púrria.

Fundamente me impressionou também o espectáculo do acompanhamento nocturno da “Ferreirinha”, qual serpente das luzes  trementes avançando pela base das encostas para a Régua; e para sempre se me gravou no espírito e na alma a lembrança da mãe que perdi aos seis anos, abençoando os filhos na hora última …De pouco mais conservo memória nítida.

Quando meu primo e amigo, o Dr. João de Araújo Correia, cujos escritos estão revelando, além do estilista, o homem de ciência, de pensamento e de coração -, me pediu para o Jornal da Régua qualquer coisa sobre a Régua, verifiquei desconsolado que as minhas recordações infantis não proporcionavam elementos para um artigo. Por outro lado, não me havendo nunca ocupado  da vida pretérita da vila – se o fizera exaustivamente o cronista oficial dela, e por título de mérito, o sr. Afonso Soares! – nada possuía nos meus apontamentos para oferecer aos leitores, que fosse matéria digna de uma minha colaboração.

Lembrei-me então de lhes falar de um assunto inédito, referente, se não à Régua, pelo menos ao Rio que a fez vila notável – das pérolas do Douro.

Pois há pérolas no Douro? Decerto que há; e vou contar como o soube.

Foi por 1920, no verão. O rio ia muito baixo, e no “ponto” cachoante da Curvaceira, a areia dourada do leito avistava-se sob a água límpida e célere. Magoado os pés nus nas valvas oblongas, negro-esverdeadas, de uma espécie de mexilhões agarrados às asperezas do fundo, às ténues noções de História Natural valeu a lembrança de um trecho da Descoberta da Terra de Júlio Verne, em que se contava que havia daqueles moluscos em todos os rios.

Arranquei um e abri-o. O animal era carnudo, amarelo-salmão deslavado quanto à cor, de gelatina coalhada na constituição, no cheiro, enjoativo, intragável de toda a evidência. Mas as valvas eram lindas interiormente, nacaradas, laivadas de cambiantes do arco-íris destacando sobre fundo levemente rosado, orladas de um tom suave de pérola.

Por aquele tempo andava eu muito interessado pela carga arqueológica do Cheruskia, apresado no estuário do Tejo com um recheio formidável de caixotes repletos de espécies arqueológicas assírias e babilónicas, imensos rolos de tapetes orientais e montanhas de conchas embarcadas no fundo do Golfo Pérsico com destinos às fábricas teutónicas de botões e outras gentilezas capeadas de madrepérola ersatz. O lindo nácar do fôrro dessas conchas!

Mas onde há nácar há pérolas! E abri, e fiz abrir um milheiro de moluscos, revistando cuidadosamente as entranhas dos pobres sedentários, cuja vivissecção nos deixou entre as mãos umas dezenas de pérolas esféricas e aljôfares barrocos,   dos mesmos suaves tons do nécar das valvas…

Guardamos eu e a família, que assistira às operações extractórias, sigilo sobre o achado, não fossem a curiosidade ou a suposição de um possível lucro, levar a breve trecho ao extermínio da espécie. Bem bastava à desdita dos pobres mexilhões a caça que lhe davam  os pescadores do rio, utilizando-lhe a carne para isco… E os anos foram passando.

Com ideia neste artigo resolvi-me a dar estado científico ao meu descobrimento. E entreguei ao meu amigo Dr. António Temudo, do Museu e Laboratório Zoológico da Universidade de Coimbra, algumas cascas para exame. Devolveu-mas embrulhadas numa cópia de trechos do capítulo sobre “Mollusques bivalves, da Histoire Naturelle de la France, de Alberto Sranger, os quais traduzo para comodidade dos leitores.

Unio pictorum (Lineu) Anodonte ou  Mulette des peintres. Mexilhão do rio: Esta espécie foi correntemente designada por mulette dos pintores, porque as suas valvas oblongas e delgadas eram empregadas nas oficinas, para conter certas cores. O comprimento dos moluscos varia de 0,06 a 0,15. A espécie é comum nos rios de uma grande parte da França.

Género Unio, Mulette: As mulettes são moluscos de água doce que vivem nos rios, pântanos e lagos.

As valvas destes moluscos são formadas de um nácar em geral muito brilhante, e o de algumas espécies é utilizado no comércio para o fabrico de botões  nacarados e alguns objectos de adorno. Outrora esses moluscos foram sobretudo procurados por causa das pérolas que acidentalmente contêm. Tais pérolas são o resultado de uma secção abundante da matéria nacarada devida a um verme que se introduz entre as lâminas que compõem as cascas, perfurando-as e roendo-as. Ainda que as pérolas de melhor água não provenham dos mexilhões de rio, mas de um outro género exótico, a pintadine, bivalva marítima que habita o Golfo Pérsico e as costas de Ceilão, acham-se contudo algumas vezes, nas conchas das mulette pérolas de grossura e formas diversas, esféricas, irregulares, com colorido variável: brancas,   leitosas, rosadas, afogueadas e amareladas.

Na Escócia a pesca das pérolas das mulettes foi outrora muito produtiva, vendendo-se as redondas, da grossura de uma ervilha e perfeitas sob  todos os aspectos, entre 75 e 100 francos. Em França, as pérolas dos Vosges, provenientes de mexilhões recolhidos no Vologne, gozaram de certa reputação, tendo-se porém renunciado à sua colheita por terem perdido em toda a parte, as pérolas das mulettes, o seu antigo valor.

Estes moluscos vivem nas águas represadas e correntes de todas as partes do mundo. Como oferecem semelhança com os mexilhões de água salgada, são chamados, correntemente, mexilhões de rio. Não são comestíveis, por coriáceos e de gosto extremamente enjoativo".

Um conselho aos curiosos. Deixem em paz os mexilhões do Rio, para que as “pérolas do Douro” não sejam dentro de algum tempo mera expressão histórica e… poética.
                       
*A crónica deste ilustre e sábio arqueólogo reguense foi publicada, in “JORNAL DA RÉGUA” - 2 de Maio de 1937 – Nº 301. Ver dados  biográficos na Wikipédia - Virgílio Correia (embora o seu nome correcto seja Vergílio Correia) e em Folclore de Portugal. Texto cedido por José Alfredo Almeida em Março de 2011 para Escritos do Douro. 

Um comentário:

António disse...

O prof. dr. Virgilio Correia foi considerado das personalidades mais brilantes portuguesas do séc. XIX. Por paradoxo, sobre o Peso da Régua é este o único trabalho que se conhece sobre a terra que o viu nascer e criar até aos sete anos. É pena que esta crónica não mereça dos meios culturais da Régua o devido registo.
Esta descrição é da Barca do Carvalho, nas Caldas do Moledo, Fontelas, que o historiador percorria para a sua Quinta na margem Esquerda do Rio Douro. Descia nas estação da CP das Caldas do Moledo, atravessava o Douro, junto aos moinhos aí existentes, ladeava a povoação a povoação da Curvaceira até a sua
pequena Quinta.
A apanha dos moluscos ocorria
precisamente junto aos moinhos, a montante.
António