segunda-feira, 1 de novembro de 2010

As contas antigas

Nos bombeiros da Régua há o bom costume de arquivar os antigos relatórios e contas da gerência. Alguns deles são muito antigos, pertencem à gestão económica da Associação nos seus primeiros anos de existência, quando a Direcção tinha de cumprir perante os associados as obrigações que estavam estabelecidas nos estatutos de 1880.

Os relatórios e contas de gerência são documentos de valor e de grande interesse para quem tenha de fazer a história de uma instituição tão antiga como a dos bombeiros de Peso da Régua. Hoje, esses antigos documentos são relíquias guardadas no museu, são pedaços de memórias de um tempo de garbosos e heróicos bombeiros, para a observação dos mais curiosos e para deleite de quem gosta de conhecer a evolução dos proventos e o constante aumento das despesas. Ainda em bom estado de conservação, os documentos podem ser consultadas por quem deseje e se mostre interessado nas matérias de contabilidade, dos exercícios de gestão dos anos de 1882, 1887, 1891,1892 e 1904.

Não será um caso para se dizer que os primeiros relatórios e contas de gerência dos bombeiros da Régua sejam considerados documentos complexos e até de uma difícil interpretação. Pelo contrário, aqueles documentos espelham rigor e simplicidade. Apesar dos tempos difíceis no fim da monarquia, as contas dos bombeiros da Régua terminavam, quase sempre, com um pequeno saldo de exercício positivo. Os primeiros directores demonstravam uma gestão financeira boa e equilibrada, mesmo quando os subsídios não abundavam, nem a finalidade era o lucro e os serviços prestados eram gratuitos.

Nos termos dos estatutos de qualquer associação humanitária, o relatório e contas da gerência é o documento que a Direcção submete ao parecer do Conselho Fiscal, primeiro, e à aprovação da Assembleia-geral, depois, no final de cada exercício. Se o documento for bem elaborado traduz o balanço da actividade exercida. Quem prestar atenção aos números pode verificar em que medida os objectivos foram atingidos ou não, bem como o nível da vitalidade da associação.
Os primeiros relatórios e contas de gerência, mais do que informam os números, revelam pormenores interessantes para contar na história dos bombeiros. Eles permitem-nos saber como foram prosseguidos os objectivos dos primeiros directores, em tempos de dificuldade e austeridade, como foram os finais da monarquia e inícios da primeira república, de modo a conseguirem manter em actividade o corpo de bombeiros. Quando os consultamos com mais atenção, verificamos que para as insuficientes receitas que recebiam, tiveram de ser audazes, engenhosos e muito competentes. Como com tão pouco dinheiro, foram capazes de manter um verdadeiro serviço público de socorro e de protecção civil.

A título de curiosidade, o relatório e contas de gerência de 1882 da Real Associação dos Bombeiros da Régua – como então era designada – reportava-se ao segundo ano de existência. O que está documentado pela direcção presidida por José Joaquim Pereira Soares dos Santos era uma demonstração fiel das receitas e das despesas efectuadas (em réis), que se passa a transcrever:

RECEITA
Saldo do ano anterior - 98.265
Mensalidades cobradas no ano de 1882 - 174.800
Produto líquido do Bazar - 524.350
Subsidio da Câmara municipal para reparar as bombas - 49.980
Total - 844.080

DESPESA
Mobília, utensílios, tabuleta e pavilhões e despesas diversas - 113.777
Material e utensílios das bombas e reparações - 103.60
Despesas de expediente - 14.710
Capacete para o Clarim da Companhia - 7.600
Retrato de S.M.El-Rei e emolumentos da carta régia - 33.520
Despesas com a festa do 2º Aniversário - 56.640
Total - 329.600

Saldo para 1883 - 514.480
Aqueles números dizem tudo, ou quase tudo, a quem está habituado a ler estes documentos. Mas, também para quem não está tão habituado, expõe uma justificação sucinta para cada despesa. Só não se alargava em considerações para as que considerou de “despesas de expediente” ou as “absolutamente necessárias”, ou seja, as de normal funcionamento e as suportadas com as reparações das bombas e aquisição de outro material para serviço operacional dos bombeiros.

As outras despesas foram justificadas. Uma delas com as comemorações do 2º aniversário da associação, uma tradição que aí começava, refere gastos com o almoço de confraternização para o corpo activo, directores e beneméritos. E a outra na compra de um retrato de S. M El-Rei D. Luís I e liquidação de encargos régios. Surpreendentemente, esta despesa encerra um momento histórico relevante que foi a homenagem de gratidão para aquele monarca, que deu o título de “Real Associação”. Por isso, os directores reconheciam que era “ paga de uma divida de gratidão contraída com o nosso soberano e Presidente Honorário desta Associação, que a brindou com uma distinção assaz honrosa”.

O relatório e contas da gerência de 1882 apresentava as conclusões finais, que traduziam uma boa gestão directiva e resultados financeiros positivos. De uma forma simples, a associação encontrava-se a prosperar. Aqueles directores sentiam ter cumprido o “honroso dever de gerir por mais um ano os negócios da sociedade” e garantiam que “sobre a prosperidade da Associação cumpre-nos dizer que é muitíssimo lisonjeira, pois que a receita do ano de 1882 subiu à do ano anterior mais 57.380 réis, sem contar-se com o resultante do Bazar, receita considerada extraordinária para esta comparação”.

Como director em funções, estou convencido de que os directores que assinaram o relatório e contas de gerência de 1882 foram criteriosos na gestão da Associação.

Avaliando à distância, eles alcançaram os seus objectivos sem grandes receitas disponíveis. Ao tempo, os associados não devem ter ficado com dúvidas nem motivos para os censurar. Quando muito, ter-se-ão limitado a aplaudir a gestão, sem reparos nem criticas, mas com um incentivo para os directores fazerem mais no futuro… como acontece decorridos quase 130 anos.
Se bem que os actuais documentos sejam muito diferentes, produzidos com recurso a bons programas informáticos, os números das receitas e das despesas não deixam de ter o mesmo rigor e a clareza das contas antigas.
- Peso da Régua, Outubro de 2010. Colaboração de J A Almeida* para Escritos do Douro 2010. Clique nas imagens acima para ampliar.

  • *José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também crónicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária, fatos do passado da bela cidade de Peso da Régua de onde é natural e de figuras marcantes do Douro.
Jornal "O Arrais", Sexta-Feira, 29 de Outubro de 2010
Arquivo dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua
As contas antigas
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As contas Antigas

Um comentário:

joana disse...

Gostei desta crónica.
Numa altura em que tanto se falta de rigor nas contas e se pede uma gestão cuidada dos bens públicos e privados, é animador ver que apesar de tudo, é realmente possível fazer uma gestão sem mácula, sem ginásticas orçamentais para disfarçar a pura incompetência e falta de honestidade…por este belíssimo exemplo, parabéns!