domingo, 12 de setembro de 2010

As anedotas do bombeiro Justino

Chama-se Justino Lopes Nogueira e alistou-se no Corpo de Bombeiros da Régua, em 2 Maio de 1897, onde por promoção chegou ao posto de 1ª patrão, equivalente ao actual chefe. Pertenceu às primeiras formações de bombeiros da Associação, mas pouco se sabe da sua vida, a não ser que foi louvado, pelo menos uma vez. Deste seu mérito e distinção, importante na carreira de um voluntário, não se regista mais nenhuma informação. De resto, no curriculum deste homem, nascido em Santa Marta de Penaguião, consta que teve uma carreira política, no final da primeira república, ocupando o cargo de regedor e, mais tarde, o de administrador do seu concelho.

Dele só se conhece uma única fotografia que foi divulgada por um jornal da Régua, em 1930, juntamente com a de outros grandes e prestigiados bombeiros do seu tempo, dos quais foram destacados, pelo seu brio e coragem, os grandes “patrões” António Guedes Castelo Branco, Augusto Rocha, Álvaro Rodrigues da Silva, António Pinto Coutinho e Armando Vicente Ferreira da Cunha.
Dos primórdios da associação, do tempo da monarquia e da primeira república, o “patrão” Justino foi um dos bombeiros que se tornou mais conhecido e famoso. É certo que não se distinguiu pelos seus actos de valentia e de coragem. Mas como bombeiro trabalhador, competente e generoso, consegui atingir os lugares de chefia na corporação, o que revela cuidado na sua formação profissional. Deveria ser lembrado pelos seus méritos e valores de humanidade. Injustamente não são esses mencionados quando se fala e escreve do Justino, se bem que o recordem sempre com uma pontinha de ironia e de ternura.

As suas asneiras no uso incorrecto da gramática provocaram muitas situações de humor inesquecíveis, quando o Justino se queria fazer mais letrado. Algumas das suas tiradas, que não diminuem a sua figura e a dignidade, ficaram conhecidas como as anedotas do Justino.
O Chefe António Guedes que o conheceu e como ele foi bombeiro, numa das suas memórias dizia que ele era “um autêntico sósia, uma cópia tirada do célebre Calino, que nos fazia rir a bandeiras despregadas pelos maus-tratos que dava à gramática”. Não admira, que afirmasse que “com as suas parvoíces que proferia compilava-se, à vontade, um completo e volumoso dicionário de calão…”

Mas, os seus ingénuos erros de gramática nunca passaram de pequenos defeitos na boca de um homem que não deve ter nascido num berço de ouro nem teve, no fim da monarquia, a possibilidade de frequentar uma escola pública que lhe desse uma educação à altura – o ensino surge com a primeira república - para os cargos públicos que ele exerceu.
Quem também o recordou em várias crónicas foi o escritor João de Araújo Correia. Naquela que intitulou “As anedotas do Justino”, publicada no jornal “O Arrais”, traçou-lhe um breve retrato e conta alguns dos seus extraordinários disparates:

“Bem faz o António Guedes, recordando a Régua do seu tempo. Oxalá o pulso lhe não arrefeça tão cedo para continuar a recordá-la com invejável fluência e graça. Oxalá…

Aqui há tempos, lembrou António Guedes a extraordinária figura do bombeiro Justino. Digo extraordinária, porque não houve quem lhe chegasse aos nós em cretinismo.

Boa figura física tinha o nosso homem. Sólido, com as suas carnes sobre o enxuto, garganta bem timbrada… Mas, não abria a boca sem dizer asneira.

- Comi hoje perdiz com molho de pilão. Soube-me pela vida…

Se disse pilão, quis dizer vilão. Toda a gente sabe que o molho de vilão casa bem com a perdiz.

-Fui à feira. Não estava lá grande coisa. Se não fossem os suíços…

Quis dizer suínos. Mas, coitado disse, suíços.

-Deu-lhe de presente uma apendicite.

Não lhe chegou a língua para dizer pendentif – adorno feminino pendente ao pescoço – por aí pingente.

-Sempre simpatizei com o seu panorama…

Cumprimentou assim um político da época. Mas, em vez de dizer programa, disse panorama.

Pouco tempo depois, emendou a mão, chamando programa ao panorama. Que lindo programa!

O Cinema, naquele tempo, oscilava, tremia… Tremia como criança. Oscilava… Mas, o pobre Justino, que tinha no ouvido, como pulga, o verbo oscilar, deitou cá para fora aperfeiçoado em urcilar.

À gipsófila, que então se pronunciava gipsòflia, planta de flores miudinhas, chamava ele, de modo grandioso… pisgatòfilha!

Não sairíamos daqui hoje se quiséssemos completar o rol de tanta asneira. Completem-no os velhos, que porventura se lembrem do Justino.

Falta apenas dizer, neste lugar que teve carreira politica, no cargo de regedor, por sua honra, que o atestado supra é pobre.

Homem assim não podia ser só regedor. No declínio da primeira república, subiu de posto. Foi administrador do concelho de Santa Marta de Penaguião. Falta saber se também foi ministro.”
Quando o escritor na sua deliciosa prosa, evoca as suas melhores anedotas, quer que imaginemos o bombeiro Justino não como um simples ser humano, mas como um bom herói…!
As suas anedotas ainda nos deixam esboçar sorrisos de enternecimento. Não temos dúvidas que bom e generoso Justino, lá pelas bandas da Eternidade, se não andar atarefado de regedor e administrador nem ocupado nas missões altruísticas, deve estar a fazer sorrir com as suas anedotas os seus velhos camaradas, os bombeiros mais sisudos.
- Colaboração de José Alfredo Almeida*, Peso da Régua, Setembro de 2010. Clique nas imagens acima para ampliar.

As Anedotas do bombeiro Justino no "Arrais":
Poderá ampliar para "tela inteira" (full screen) utilizando as "ferramentas" disponíveis no "box" acima.
(Link - http://embedit.in/xBit4CLd6a - Arquivo em formato "pdf".)
  • *José Alfredo Almeida é advogado, ex-vereador (1998-2005), dirigente dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua entre outras atividades, escrevendo também crónicas que registram neste blogue e na imprensa regional duriense a história da atrás citada corporação humanitária, fatos do passado da bela cidade de Peso da Régua de onde é natural e de figuras marcantes do Douro.

    Um comentário:

    joana disse...

    Esta é uma das crónicas que mais gosto, foste direitinho ao cerne da questão: onde outros facilmente fariam um texto brejeiro e anedótico, dando relevo ás graçolas de mau português daquele homem, tu foste capaz de lhe dar o justo valor, reconhecer-lhe o mérito e dar-lhe a verdadeira imagem: um homem bondoso e prestável, com espírito de missão e sacrifício e com uma sólida formação moral, um homem com H.
    A sua ignorância da língua portuguesa, em nada diminuiu a capacidade de se revelar um ser humano verdadeiramente bom…quantas e quantas vezes nos cruzamos com pessoas letradas, em cujo coração só encontramos ervas daninhas e pedras estéreis?...quantas?...
    E quantas vezes, é mais fácil reparar nas asneiras e ingenuidades do que olhar bem dentro do coração de cada um e perceber que espantoso ser humano temos à nossa frente?

    Por este texto, em particular, porque ultrapassaste em muito a banalidade que este tema sugeria, parabéns!