quinta-feira, 19 de junho de 2008

O Natal do Brasileiro.

(Imagem original daqui.)
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Por Camilo de Araújo Correia
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Em quarenta anos de Brasil, João Patrício nunca tivera possibilidades de vir a Portugal. A príncipio, por falta de dinheiro, depois, por falta de ocasião. Na verdade, os primeiros quinze anos tinham sido duros como caixeiro apagado ao fundo de um grande estabelecimento de secos e molhados.
Por morte dos donos, em desastre de viação, viu-se repentinamente guindado a gerente daquela grande nau comercial. Os filhos dos patrões, uns médicos, outros engenheiros, avessos ao comércio, cedo lhe venderam a firma, nas melhores condições, por muito acreditarem na sua competência e experiência.
Bem se saíu João Patrício do pesado encargo. Ao fim de quarenta anos, tudo era seu, desde o barril do vinagre à tabuleta do neon. Não ficou por aí. Os tempos de prosperidade pareciam querer vingá-lo dos tempos de mesquinhez. Em cada ano abria um novo estabelecimento. Acabou por ter uma cadeia de supermercados, respeitável nos bancos onde o seu dinheiro se multiplicava e que eram quase todos os do seu Estado.
Apesar de rico e feliz com sua numerosa família, nunca outra coisa sonhou João Patício que não fosse vir a Portugal, à sua aldeia nas faldas da Serra do Milhafre. Os ruídos, as luzes, os hábitos da grande cidade jamais lhe perturbaram a visão exacta da sua terra. Como que repousava o pensamento naquelas casinhas humildes de pedra nua em redor da única vaidade - a igreja branca e majestosa de Nossa Senhora das Aves. Quantas vezes adormeceu, cansado do balcão, a imaginar-se de opa vermelha rutilante, ao sol de um domingo de Páscoa, na companhia do senhor abade? Nem ele sabia...
Naquele ano, João Patrício pôde vir a Portugal. Aí por alturas de Março começou a pensar nisso sem nunca esmorecer por mais contrariadades que a vida lhe trouxesse.
Como a chegada calhasse em pleno Dezembro, concebeu um sonho maravilhoso e tratou de lhe dar realidade. Comprou lembranças que chegassem para toda a gente, um manto novo para Nossa Senhora das Aves e mil e um enfeites para engalanar a aldeia no dia de Natal. Duas bandas de música seriam rogadas na devida altura.
Porém, uma grande tristeza o invadiu quando, ainda de longe, avistou a sua terra. Pareceu-lhe uma grande tela de pintor louco perdida na montanha. As casas iam do rôxo ao verde salsa sem passar pelo branco. A própria igreja perdera majestade apesar de continuar branca e digna no meio daqueles estilhaços de arco-íris.
Entrou na aldeia cabisbaixo. De longe em longe levantava os olhos à procura dos alpendres onde deixara velhinhas a fiar. Nem um. Tinham sido substituídos por varandas de cimento armado, compridas e ventrudas. Por toda a parte onde houvesse um palmo quadrado de superfície lisa cartazes pôdres e ameaças de morte, escritas a pincel nervoso.
Sem família a quem se dirigir, procurou o abade. Encontrou um velho desiludido numa casa desiludida. Rápidamente lhe descreveu a sua vida e lhe contou a sua intenção de oferecer à sua terra um Natal farto e alegre.
- Sabe, reitor, a gente lá morre de saudades. Só pensa mesmo na sua terra...
- Muito me custa desiludi-lo, senhor João Patrício... mas, esta gente não compreenderia a sua boa fé e as suas saudades. O senhor já não é, sequer, um brasileiro a querer botar figura na sua terra. Passaria por um ricaço a julgar toda a gente pobrezinha. Duvido mesmo que arranjasse quem lhe deitasse os foguetes...
- Não diga mais, reitor. Compreendi e muito lhe agradeço ter-me salvo da última desilusão. Hoje mesmo regresso a Lisboa.
- Isso é que não vai! Desde já o convido para passar o Natal comigo. Anda por aí uma velhota, meia tonta, mas com grande dedo para a cozinha. Quem vai dar as ordens é o senhor. Tenho um vinho de estalo e a conversa nunca falta. O senhor o que precisa é de conversa e de um vinho desta terra que cá o chamou.
- Nunca aceitei um convite com lágrimas nos olhos, reitor. Não repare nelas, mas acredite nelas, reitor.
Naquela noite de consoada os dois velhos, depois de muito conversarem, ficaram a dormir no preguiceiro. A fogueira com os seus cinzéis de luz foi esculpindo na pedra da noite um baixo relevo para o museu da Eternidade.
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Título: Histórias do Fim do Ano
Autoria; Camilo de Araújo Correia
Ediçao: Brasília Editora - Porto
Primeira edição: Dezembro 2001
Execução gráfica: martins & irmão - Porto

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